terça-feira, 19 de abril de 2011

A MALA ASSOMBRADA: DAVID MACHADO & JOÃO LEMOS




Com ilustrações do meu amigo João Lemos [um dos raros - e admiráveis - desenhadores portugueses a trabalhar na Marvel].



O lançamento é hoje mesmo, dia 19 de Abril, na Livraria Bertrand do Picoas Plaza, na Rua Tomás Ribeiro, Lisboa.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A CHANTAGEM EMOCIONAL EM UNS QUANTOS LIVROS

a.
Flor, a Florzinha Afável, uma das leitoras de primeira hora deste blogue, acusa-me de estar fazendo chantagem emocional ao escrever que aguardo a visita, na página do facebook dedicada a Nada Mais e o Ciúme, «de quem se dá ao trabalho de me seguir até aqui [ao blogue] e de me ler». Talvez tenha razão. Ou não: quem é capaz de sondar verdadeiramente as intenções do gajo que escreveu aquele post? Ninguém. Nem eu, que em boa verdade não me lembro bem de quem era, do que estava fazendo, e para quê.
b.
Mas, para evitar equívocos, elimino-o de imediato. [Ao post, evidentemente]. Entretanto, o que me fica a matraquear é a expressão «chantagem emocional». Pensando nos livros de que gosto, reparo que, em alguns, o tema da «chantagem emocional» está muitíssimo bem tratado, e é tanto um bom revelador de emoções e de caracteres, como um bom motor das tensões que desenham uma história. Lembrem-se de Servidão Humana, por exemplo. Eu não sei bem como se chama essa arma com que aquela mulher inculta e perversa consegue, de um homem complexado, sem nenhuma estima por si próprio, que a receba sempre de novo, com a mesma ânsia e vocação para o sofrimento que da primeira vez. Não é chantagem? Uma odiosa manipulação das emoções de uma personalidade fraca?
c.
Ou em Bombaim, o romance que venho de concluir. Um homem perdeu três dedos da mão, e não foi justamente indemnizado porque a mulher, que não sabia ler, assinou de cruz documentos aceitando uma proposta miserável, indigna, da empresa a que ele dedicara parte da sua vida (e onde, aliás, o acidente ocorrera por causa das más condições de trabalho). Está amargurado; culpa-a; não pode compreender nem perdoar aquilo a que chama «a estupidez dela»; mas não é também da ordem da chantagem o modo como, decidindo não voltar a trabalhar, ou embriagando-se, ou aceitando dinheiro do próprio filho - adolescente - para tornar à taberna, todavia lembra à mulher, em todas as discussões, que tudo o que faz, o faz unicamente por culpa dela? Terrível mas extraordinário episódio de um romance que não procura explicar ninguém, que se limita a pôr-nos perante a tragédia de relações sem culpa nem redenção.
d.
E em Correcções, de Franzen, não é também a chantagem emocional (exercida sobre o marido e, sobretudo sobre os filhos) o que dirige todos os actos e todas as palavras de Enid, que afinal tão pouco pretende: juntar uma última vez a família à mesa, na noite de Natal? Ou no inesgotável Em Busca do Tempo Perdido, não são inesquecíveis os truques com que o pequeno Marcel, sempre adoentado, chantageia toda a família com as suas «crises neurasténicas», tentando que a mãe lhe faça companhia, à noite, no quarto? Já para não falar das chantagens de Charlus, ou Swann, ou do próprio Marcel, já crescido, com as suas namoradas?
e.
Não sei se Flor me acusou justamente, se não. Encaixo a reprimenda. E encaixo-a grato, porque me oferece, como bónus, um tema que me permite voltar a escrever um post. Este.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

PUDOR

Chama-se pudor, penso eu, este sentido que faz com que me incomode escrever sobre o meu próprio livro - aqui, no blogue onde comento os livros e os autores que gosto de ler, e que nunca teve outra razão de ser que não essa. Uma vez, duas vezes, parece aceitável. Que vos diga que no dia 7 de maio, sábado, às oito horas da noite, estarei na feira do livro, autografando, parece-me aceitável. Mas depois, chega. Não caibo neste blogue senão como leitor travestido de escritor sobre leituras. E, por essa razão, crio uma página no facebook destinada exclusivamente ao livro Nada Mais e o Ciúme. Se quiserem visitar, frequentar, seguir, vão até aqui: http://www.facebook.com/pages/nada-e-o-ci%C3%BAme/218887831460054 Se clicarem em «gosto» (na dita página) saberei que x pessoas gostam.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

ISTO É TRAMADO!

Aconteceu isto: http://atrama.blogspot.com/2011/04/rima-com-incontinencia-mas-nao-tem-nada.html Pessoalmente, assumo a minha quota parte de responsabilidade nesta morte anunciada: responsabilidade até por não haver descoberto a Trama senão tardiamente. Nas esferas em que me movia, tive o motivo, a oportunidade e os meios para a conhecer e frequentar mais cedo. Trata-se de um paradoxo: ter tido motivo-meio-oportunidade e nada ter feito é que me torna irremediavelmente culpado!

domingo, 10 de abril de 2011

THIRTY UMRIGAR: BOMBAIM. A UM MUNDO DE DISTÂNCIA


Variadíssimos ingredientes se reúnem para me levar a escolher, entre os livros da biblioteca (de Oeiras), precisamente este, que se chama Bombaim: A Um Mundo de Distância.

É o romance de uma autora indiana, que emigrou para os Estados Unidos, tem um doutoramento em Literatura Inglesa e escreve sobre um conjunto de personagens nada lineares, com esse mundo irredutivelmente distante, Bombaim, por cenário.

E se é verdade que, ao princípio, o texto me fatiga, como se eu precisasse de encontrar uma porta que não vejo em nenhum lado, um pouco perdido na espessura pantanosa de frases longas e excesso de adjectivos, há um ponto, há um determinado ponto do romance em que as personagens se tornam pessoas, e uma subtil compreensão dos seus sofrimentos, dos seus actos e dos seus erros os aproxima definitivamente.

Sei o que é. Uma oscilação contínua, uma ambiguidade dolorosa, uma ausência de nitidez moral, uma total impossibilidade de maniqueísmo. Nada está escrito a preto e branco. Nesta difusão, percebemos a raiva da avó contra a neta, grávida de um pai desconhecido, ou seja, vemos até que ponto são as suas próprias expectativas e esperanças que estão ameaçadas; e mesmo a atitude cruel de Sera contra a sua sogra acamada, incapaz de se defender, se torna - não me atreveria a escrever «aceitável», mas «humana», desde o momento em que tomamos consciência do que foi a perseguição com que a velha mulher, recebendo em sua casa a esposa de seu filho, filha de pais cultos e modernos, a humilhou e esmagou metodicamente, em nome de uma tradição, ou da inveja, ou do ciúme. Ou da incompreensão. Ou da maldade - mas a maldade nunca, precisamente, é tão-só maldade. Do mesmo modo, nunca a bondade é tão-só bondade: nunca a compreensão nos é apresentada sem momentos de incompreensão ou dúvida, nunca a generosidade nos aparece sem falhas, sem obscuridades, sem regressões, nunca a ternura é completamente desinteressada. Nunca os actos bons, pelos quais os beneficiários estão gratos, se realizam sem que, todavia, o seu agente saiba que poderia fazê-los ainda melhor, mais completos. Se não fossem a cobardia, a impotência, o medo...

A contrapartida é, como escrevia, que mesmo nos comportamentos terríveis de personagens com as quais não podemos simpatizar, agressivas e agressoras, percebemos lutas internas contra si mesmas, possibilidades inaproveitadas de redenção.
Sobretudo, não há linearidade. O amor é feito de diversos cambiantes, a indignação também, nenhum sentimento é líquido e eternamente igual a si mesmo: tudo muda e se divide, e se desfaz ou refaz. É nesta inquietação, neste captar do que flui e não se esgota num nome, que me parece que o romance de Thirty Umrigar devém de uma subtileza extrema - e de uma extrema invulgaridade.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

CARVER


Acabei, ontem à noite, de ler Catedral, de Carver.

E se já me tinha referido, aqui mesmo, ao agradável espanto que foi a descoberta - já tardia - dos contos deste autor; se escrevi um post sobre as suas personagens e situações, e (como diz o próprio) sobre a sua arte de trabalhar eficazmente os «lugares comuns», não pensei que, chegando ao último conto, precisamente «Catedral», presenciasse tamanha superação das histórias que ficavam para trás. [Que no entanto, repito para que não subsistam quaisquer dúvidas, já me tinham impressionado muito].

«Catedral» é soberbo. É verdadeiramente fantástico! Socorro-me de adjectivos, que, em geral, prefiro evitar. É um conto perfeito: no sentido de humor politicamente incorrecto, quase cruel, mas que, no fundo, não exprime senão o misto de ciúme, curiosidade e ignorância com que o narrador nos conta como hospedou, em sua casa, um homem cego, amigo antigo de sua mulher; na fronteira, pouco nítida, entre, uma vez mais o «lugar comum», e uma sensaçõe de estranheza que ronda, vai penetrando, penetrando, e corroendo os alicerces da normalidade; e pela ideia, propriamente dita, em volta da qual o conto se fabrica. A ideia que, na sua imprevisível simplicidade, representa, ao mesmo tempo, um tratado acerca da visão e a invisão; (um ensaio sobre a cegueira?); e acerca dessa espécie de mundo que se abre, ensinando e tranformando, secretamente, aqueles que procuram ensinar e transformar alguém; e acerca de como, no terreno do desconhecido e do incompreensível, nos aguardam as portas de novas compreensões - porventura inexplicáveis, elas próprias...


Saio hoje do trabalho, desço a uma livraria. «Qua mais tem de Carver?», pergunto. De momento, nada. Só encomendando. «E que posso encomendar dele?», insisto.


Falam-me de um título que não me é estranho: De que Falamos Quando Falamos de Amor.

Espero, pois, por Carver.

terça-feira, 5 de abril de 2011

PROUST CONTRA O MAL-ESTAR

1.
Ando deprimido. Isso não faz, obviamente, que me não apeteça ler. Mas faz que me apeteça pouco falar - e ainda menos, provavelmente, escrever... - acerca de leituras. Realizo um pequeno exercício mental: no estado em que estou, cansado e triste, de ombros descaídos e padecendo de uma melancolia persistente, seria capaz de falar, no entanto, de algum livro em particular...? Haveria algum cuja mera referência tivesse o poder de me animar, me reerguer os ombros, me pôr a aspirar a primavera?



2.
Curiosamente, a resposta é sempre a mesma. Proust. Em Busca do Tempo Perdido.



3.
Não sou um especialista em Proust. Só um apaixonado. Não me espanta que seja um autor tão pouco apreciado. A razão é que certos textos, como certas músicas, precisam de nos dissolver no seu corpo para que as amemos; precisam, diria - e não sei se isto vai soar bem, ou por outra, irá certamente soar mal -, que atinjam uma zona do corpo do leitor e do espírito do leitor onde o seu próprio olho crítico não tenha já poder algum. Eu não sou capaz de olhar criticamente a obra de Marcel Proust. Falta-me distância. Casei-me com ela, fundi-me nela, perdi qualquer vestígio de autonomia. As suas palavras influenciam-me irreversivelmente. Sinto-as com uma espécie de arrepio, num encantamento absoluto. É por causa da história, ou da descrição dos pormenores, tornando visíveis, audíveis, tacteáveis ou cheiráveis as sensações que a sua memória reencontra - e é por causa da linguagem, do paradoxo, do sentido do subtil.



4.
Encontro este veio em alguns autores franceses. Montaigne, algum Pascal. Uma certa Colette. Yourcenar, sem dúvida nenhuma. Há outros tipos de prazer de leitura, e em todas as línguas os recupero; em português, santo deus: Pessoa, Soares, Campos, o drama em gente todo, Fialho ou Hélia Correia. Os brasileiros, os ingleses, os russos, os norte-americanos, Flannery, Salinger ou Carver (para reaver a trindade referida por Catarina). Mas ninguém tem o poder dos franceses. Nenhum me arranca assim, às primeiras linhas, a uma depressão. E, mesmo entre os franceses, nenhum - ninguém como Proust.

5.
A que deus dos livros devo agradecer a existência de uma tal obra?