sábado, 26 de março de 2011

DANIEL FARIA: POESIA



Descubro Daniel Faria, no seu Poesia, que reúne seis livros (Uma Cidade com Muralha, Oxálida, A Casa dos Ceifeiros, Explicação das Árvores e de Outros Animais, Homens que são como Lugares mal Situados e Dos Líquidos), e ainda diversos inéditos que o poeta havia oferecido a amigos seus, e aqui se recuperam; descobrindo-o, percebo, subitamente, e por antítese, o que eu próprio teria querido dizer, num post anterior, acerca da maioria dos novíssimos da poesia portuguesa. Achava que, por alguma razão, e como se respirassem um certo ar do tempo, asfixiantemente comum, todos os poemas «de hoje» se parecem de um modo irremediável... Em Daniel Faria, que morreu tão jovem, aos 28 anos, cada poema contém um segredo absolutamente indispensável, que não se confunde com esse «ar do tempo». Cada poema seu é um segredo indispensável. Quando leio, por oposição a Daniel Faria, num livro de um outro autor - aliás vagamente na moda -, numa livraria, este poema feito de um único verso dedicado a Barcelona, «A cidade incendiada pelo olhar desprevenido», sinto que nem as palavras, nem a experiência de absoluta surpresa e encantamento que elas visariam transmitir, têm seja o que for que nos faça parar e ansiar por reler. Há, aqui, qualquer coisa de trivial, uma espécie de mediocridade que, mais do que provocar uma revelação ao espírito, se limita a evocar a imagem de um turista, em calções e de máquina fotográfica, exclamando: «Ena!»
Leio, agora, estes versos de Daniel Faria: «O pássaro amanhece/ e o seu bico não fere o seu canto»: são palavras que não esperamos e se acertam num sentido frágil, que tem de ser protegido, ao mesmo tempo de uma beleza e de um leveza extremas, como um brilho inseguro, tremente, que poderia estar ou não estar onde nos pareceu vislumbrá-lo. E se fosse uma ilusão? Um mero reflexo? E se, ao olhar de novo, percebêssemos que não estava lá?
Neste «pássaro que amanhece» (inversamente à tal metáfora do incêndio, que já lemos tantas vezes quantas vezes vimos, no cinema, um polícia tendo de decidir se deve cortar o fio amarelo ou o fio vermelho, para desmontar uma bomba), neste «pássaro que amanhece» há algo que tem de ser dito - embora pudesse nunca vir a ser dito, se o poeta não atingisse a expressão e a imagem exactas de uma verdade tão simples. Eis um outro poema muito bonito e simples (embora, de facto, complexo, se atentarmos na construção) de Daniel Faria: Houvesse um sinal a conduzir-nos/ E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores/ A incomparável paciência de procurar o alto/ A verde bondade de permanecer/ E orientar os pássaros. Porque, como dizia O'Neill, em poesia não há senão esta fronteira: os poemas que têm absolutamente de se escrever, e os poemas que poderiam ser escritos ou não...

sexta-feira, 25 de março de 2011

TEMA: EM LUTA COMIGO MESMO (E UM LIVRO DE RAYMOND CARVER AO FUNDO)


O título do post de Catarina era: Depois de Carver e de Salinger. Repito o conteúdo: «Bem-vinda, Flannery, ao meu coração».

Salinger, conheço bem, e de há muito, graças ao meu primo que sempre teve, junto a mim, a generosa missão de me apontar o que vale a pena. Devo-lhe, em literatura, precisamente Salinger, Giuseppi de Lampedusa, Waugh, Bulgakov, Naipaul, Donna Tartt; (já para não falar das conversas sobre outros tantos eleitos comuns). E Flannery, conhecia, também. Quem me pôs na sua peugada? Alguém terá sido: li um artigo? uma recensão? Diacho, não me lembro. Mas sei que foi amor ao primeiro conto...

E Carver, esse Raymond Carver do título da Catarina?

Estou na pista. Farejo, farejo. Já hoje tive nas mãos Catedral. Manuseei-o, sopesei-o, folheei-o. Estive quase, mesmo quase para o trazer. O preço reteve-me, neste triste tempo de crise. Ainda fui a uma «grande superfície» ver se o achava mais em conta (ao que chega um viciado em livros...); e tornei à livraria, com as mãos tremendo. Mas senti uma pontada de culpa sobre o mamilo direito, e acabei por sair, cabisbaixo, sem o livro.

Foi uma vitória sobre mim mesmo? Sobre o meu instinto bibliófago? Não creio. É uma questão de tempo.

Carver é o próximo. Anda no ar. Sinto-lhe o cheiro. Farejo, farejo...




segunda-feira, 21 de março de 2011

FLANNERY O'CONNOR: UM BOM HOMEM É DIFÍCIL DE ENCONTRAR


No blogue da Trama, Catarina escreve um post que cito rápida e integralmente: «Bem-vinda, Flannery, ao meu coração!» Era, talvez, o mote que me faltava.

Flannery O'Connor é uma autora que atinge a perfeição na escrita dos contos. É o seu género de eleição e, sem dúvida, aquele em que usa mais brilhantemente o que tem de certeiro, para empregar a palavra de alguém a propósito de Flannery, como escritora. [Gostei muito menos, por exemplo, do único romance que conheço da sua autoria, Sangue Sábio]. Toca-nos, em primeiro lugar, pela profundidade de personagens aparentemente simples e sem filosofia. Campónios do Sul da América do Norte, pregadores cristãos, famílias simples, avós que participaram na guerra da sessessão, criados negros filhos de escravos, proprietários de plantações de algodão, mães envelhecidas de jovens estudantes empertigados. Não há clichés, mas referências, facilmente reconhecíveis, desse sul feito de famílias numerosas, amas gordas, de lenço à cabeça, garotos descalços, cachimbadas ao alpendre e bebedeiras: de Tom Sawyer e Huckleberry Finn a E Tudo o Vento Levou ou Por Favor, Não Matem a Cotovia, é um mundo que se nos tornou familar na literatura e no cinema.


Em segundo lugar, pela complexidade das relações já antigas, que descobrimos a partir somente de um certo presente, ignorantes dos segredos que só ao longo da leitura se nos revelarão; pela amargura que ecoa em todos os seus contos, raramente felizes; ou pela sensibilidade e pelo amor que se desprende destas suas pessoas rústicas e ignorantes. Um amor que reflecte o amor dela própria pelas personagens, mesmo pelas mais duras e implacáveis, as menos amáveis.


Lembro-me de ter sido feito imediatamente prisioneiro pelo primeiro livro de contos que li de Flannery, Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, e da alegria com que descobri, meses - ou anos - mais tarde, que fora traduzido um outro, Tudo o que Ascende Deve Convergir (não sei se é este o título em português de: Everything That Rises Must Converge). A frase simples de Catarina fez-me desejar o regresso às histórias breves desta autora. E reencontro o livro com o mesmo prazer do primeiro encontro.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O LANÇAMENTO

Amanhã é o lançamento de Nada Mais e o Ciúme. O livro que escrevi. Será na Livraria Barata, como sabem. Estou nervoso e confiante. Nervoso pelo que me diz respeito, confiante no que toca aos meus amigos, que estarão presentes. Nervoso pelo que me diz respeito, confiante na apresentação que, de novo, a Elisa Costa Pinto realizará: o grande trunfo. Nervoso pelo que me diz respeito, confiante na capa do livro, que o transformou num objecto que apetece tomar nas mãos, folhear, olhar atentamente.

quarta-feira, 16 de março de 2011

JOÃO TORDO: AS TRÊS VIDAS


Em 2008, João Tordo publicou um livro chamado As Três Vidas. Suponho que foi essa a sua obra vencedora do Prémio José Saramago. [«Suponho» é uma maneira de falar: na verdade, sei que foi.] Só agora o leio e, de todos os João Tordo que conheço, anteriores ou posteriores, considero As Três Vidas o melhor. (Mas também gostei muito de Hotel Memória, o primeiro que li...)

A escrita é despojada e eficaz. Noutros romances, como por exemplo O Bom Inverno, esse despojamento parece, por alguma razão, um défice: como se o autor tentasse um trabalho sobre a linguagem, que se nota num ou noutro momentos, mas não alcança definitiva e continuamente. Em As Três Vidas não se sente, todavia, falta de poesia ou de uma linguagem mais luminosa: percebe-se que se trata simplesmente de contar uma história. O romance vale pela articulação dessa história, muito realista e credível embora com um eco sinistro, uma sombra de possibilidades terríficas, que nos fazem sentir a proximidade de Orwell e de Kafka - aliás, e não por acaso, dois autores que constam dos livros recomendados por uma das personagens à outra, seu empregado e vagamente discípulo.

Tétricas vias, portanto. Um dos problemas deste romance, de resto, é talvez precisamente certo receio de enfrentar e desenvolver até às últimas consequências algumas das mais tenebrosas (mas também promissoras) possibilidades sugeridas: o incesto - por exemplo - rapidamente se resolve como um equívoco que ocultava, afinal, a mais angélica das situações. Aquela espécie de corcunda de Notre Dame nada tem de terrível, a não ser, quando muito, o mau cheiro: é um pobre de Cristo.

João Tordo, nesta sua estreia literária (e é uma estreia na entrada pela porta grande, ainda que possa não ser o seu primeiro livro), joga brilhantemente com as tensões e o suspense: a leitura não tem, pois, pausas nem tempos mortos; a ideia cativa desde a primeira linha; os diálogos são de uma credibilidade quase perfeita. Aborrece que haja sempre alguém a acender um cigarro, ou a perguntar, a propósito do que o seu interlocutor afirmara, simplesmente: «E?» (implicitamente: «E então?» ou «Que se segue daí?»)? Pois aborrece, mas são pormenores. Talvez até deliberados e com um determinado carácter simbólico.

domingo, 13 de março de 2011

ADÍLIA LOPES: OBRA


É uma coisa de que me orgulho muito, devo confessar:

Na Biblioteca da escola em que lecciono, numa sessão de uma série a que chamei Ouvisões, convidei os alunos a ligar e a expor a poesia de Adília Lopes (que poucos conheciam e é ainda desconhecedíssima, se exceptuamos os consumidores oriundos de uma certa elite cultural), a pintura de Paula Rego (que todos reconhecem e se tornou indiscutível) e a música dos Deolinda, que ultimamente está na moda, merecidamente, aliás, mas, à época, dava os primeiros passos, ou os primeiros acordes - de maneira que ainda constituíam novidade.


O ponto comum deste cruzamento (poesia, pintura e música) era o grotesco: um certo trabalho sobre o grotesco; e, claro, o facto de esse trabalho artístico ser, nos três casos, realizado por mulheres. [Também nos Deolinda, porque embora haja, na banda, músicos do sexo masculino, não só a vocalista, Ana Bacalhau, é uma mulher, como a imagem ou o heterónimo para que o grupo remete, a Deolinda que lhe dá nome, seria uma jovem típica portuguesa, à janela, entre gatos...]


Voltemos a Adília. A sua poesia possuía-me completamente. Lera excertos, lera alguns livros breves, um já com muitos anos (talvez o seu primeiro, Um Jogo Bastante Perigoso...) e vinha de resdecobri-la, e completá-la na gigantesca Obra, que reúne poemas seus de várias proveniências.


Os poemas de Adília têm uma forma quase crua de enunciar nomes e espaços. Quando nos fala das paredes «em obras» da faculdade, ou do escritório de um senhor que não me lembro quem seja, ou de um conferencista, ou de um escritor ou de um professor, nós sabemos que está a nomear objectos reais do seu círculo geográfico, académico, familiar, de amizades. E a «oficina do grotesco» (para referir o nome de um grupo dramático de boa memória) principia precisamente aí, nesse enunciar o real para o denunciar em inesperadas deformidades. Um desejo insatisfeito, uma omnipresente frustração perante a monstruosidade de que resulta o choque entre o desejado prazer e a penosa realidade tornam os sonhos em pesadelos risíveis: objecto da vingança perpetrada pelo escárnio e pelo maldizer.


A poesia de Adília é, por vezes, brutal: com os meus alunos, procedeu-se a uma selecção, próxima de censura, que evitava os poemas de linguagem mais explícita e escabrosa. Mas é um canto que caminha sempre entre uma sensibilidade triste, uma ternura talvez demasiado frágil e quase inocente, que regressa continuamente, e o riso sarcástico e endemoninhado: caminha na proximidade dos contos e mitos infantis (a carochinha, a sereia, o príncipe), mas para deles extrair uma assustadora perversidade.


É uma poesia imperdível: como raros autores na novíssima poesia portuguesa, Adília não é igual a ninguém mais. Inventou-se, forjou-se, ri-se. À nossa custa, sem dúvida. À sua custa, certamente. E corajosamente.

sábado, 12 de março de 2011

O DON TRANQUILO ***

«- Liólia, o meu amigo Lisstnítzki!
« - Ah! Lisstnítzki! Muito prazer. O meu marido falou-me de si...
«Estava ofegante. O seu olhar sorridente, baço de felicidade, deslizou rapidamente por Lisstnítzki. Partiram juntos. A mão peluda de Gortchákov, com os dedos sujos, cheios de espigas, e de unhas negras, apertava a cintura virginal da mulher. Enquanto caminhava, Lisstnítzki ia olhando de soslaio aquela mão, aspirando o cheiro a verbena e àquele corpo feminino aquecido pelo sol, e sentia-se profundamente infeliz, como uma criança injustamente ferida. Olhava a ponta rosada da orelha pequena a espreitar por baixo de uma madeixa de cabelos de ouro avermelhado, a pele acetinada da face tão perto dos seus olhos, depois o olhar dele deslizou como um lagarto para o decote do vestido e viu um pequeno seio de uma brancura leitosa, com um mamilo castanho. De tempos a tempos, a mulher voltava para ele os olhos claros de reflexos azulados, e o seu olhar era acariciador, amigável, porém uma dor fina e irritante magoava Lisstnítzki quando esses mesmos olhos, ao fixarem-se no rosto negro de Gortchákov, brilhavam de uma maneira inteiramente diversa...»

[o segundo volume foi, talvez, o interregno necessário para situar historicamente o romance no quadro da revolução bolchevique; este, o terceiro, é, de novo, muito belo e muito sensual, como podem avaliar pela descrição do injusto e descabido ciúme de Lisstnítzki]