sábado, 12 de março de 2011

O DON TRANQUILO ***

«- Liólia, o meu amigo Lisstnítzki!
« - Ah! Lisstnítzki! Muito prazer. O meu marido falou-me de si...
«Estava ofegante. O seu olhar sorridente, baço de felicidade, deslizou rapidamente por Lisstnítzki. Partiram juntos. A mão peluda de Gortchákov, com os dedos sujos, cheios de espigas, e de unhas negras, apertava a cintura virginal da mulher. Enquanto caminhava, Lisstnítzki ia olhando de soslaio aquela mão, aspirando o cheiro a verbena e àquele corpo feminino aquecido pelo sol, e sentia-se profundamente infeliz, como uma criança injustamente ferida. Olhava a ponta rosada da orelha pequena a espreitar por baixo de uma madeixa de cabelos de ouro avermelhado, a pele acetinada da face tão perto dos seus olhos, depois o olhar dele deslizou como um lagarto para o decote do vestido e viu um pequeno seio de uma brancura leitosa, com um mamilo castanho. De tempos a tempos, a mulher voltava para ele os olhos claros de reflexos azulados, e o seu olhar era acariciador, amigável, porém uma dor fina e irritante magoava Lisstnítzki quando esses mesmos olhos, ao fixarem-se no rosto negro de Gortchákov, brilhavam de uma maneira inteiramente diversa...»

[o segundo volume foi, talvez, o interregno necessário para situar historicamente o romance no quadro da revolução bolchevique; este, o terceiro, é, de novo, muito belo e muito sensual, como podem avaliar pela descrição do injusto e descabido ciúme de Lisstnítzki]

sexta-feira, 11 de março de 2011

MAURICE OU A HOMOSSEXUALIDADE SEGUNDO E.M. FORSTER


Pensei usar, como título deste post, «O Que é Precisamente um Homossexual?»; parecia-me uma pergunta provocatória. Mas reconsiderei: em que consistia a provocação senão, vendo bem, no facto de se reduzir o homossexual a um objecto que se disseca? Desagradou-me, desisti do título.

E, no entanto, o que é um homossexual? Não falo de um gay: o conceito de gay é diferente do de homossexual; diz respeito a uma representação cultural da homossexualidade, que implica a assunção orgulhosa e festiva da mesma, como uma certa maneira de estar na vida. É-se gay como se é hippy ou freak: trata-se de uma escolha de tribu, de indumentária, de arte, de estilo.

Trato a questão da homossexualidade porque ela me irrompe a propósito de um livro de E.M. Forster. Maurice, completado em 1914 - mas publicado somente em 1971, não certamente por acaso - é um desses livros que se lêem numa vertigem, como à beira de um precipício de que não conseguimos afastar-nos. Precisava de ir para a cama, mas continuava a dizer-me «Só mais um capítulo» e, meia hora mais tarde «Agora é que é o último»: todavia estamos presos, sabem como é?, até ao momento em que, por fim, a cabeça cai sobre as páginas.

A homossexualidade descrita por Forster é típica de jovens de colégios ingleses, que se vão descobrindo a si próprios, ao seu corpo e ao seu desejo, no círculo de uma camaradagem com os colegas, com os quais partilham um espaço e, portanto, uma intimidade. Está longe de ser uma homossexualidade que se exponha. Pelo contrário: os professores vigiam, as mães, quando os recebem em casa, nas férias, empurram-lhes, para cima, primas ou vizinhas casadoiras. Em muitos casos, é uma condição que a vida se encarregará de dissolver: haverá os que efectivamente se casam e têm filhos: a homossexualidade teria sido, para eles, uma experiência suscitada unicamente pela proximidade erótica de outros rapazes e pela ausência de mulheres? Despiram-na sem problemas, quando tiveram de vestir outra roupa? Ou recalcaram-na? Ou reprimem-na no dia-a-dia, desejando e sonhando ainda com aquilo de que, porém, abdicaram?

Sei, pois, o que é um homossexual à luz deste romance, Maurice. É um homem - não um homem num corpo errado, não um homem que deveria ter nascido mulher, mas um homem. E o que caracteriza este tipo de homem, digamos assim, é uma certa forma de percepcionar a realidade. Porque o desejo está sempre, precisamente, ligado a uma certa forma de percepcionar: desejar uma mulher é percepcionar as mulheres (e uma em particular) de um dado modo, conferindo-lhe um sentido que o corpo masculino não possui para esse olhar; pelo contrário, desejar um homem é compreender de uma dada forma o corpo do homem, um movimento, um ritmo, uma força singulares.

Neste livro, acontece a um jovem (Clive) deixar de ser homossexual porque, bruscamente, devido a contingências diversas, a sua percepção se modifica. Clive não tinha procurado mudar, não quereria sequer mudar, uma vez que tal mudança ia trazer sofrimento a Maurice, que se apaixonara por ele e por quem estivera apaixonado. Mas nada podia fazer: a sua percepção mudara e, portanto, desaparecia, instantaneamente, a atracção pelo objecto de desejo, que amara enquanto (e só enquanto) o percepcionava de outra maneira.

Não é um tratado, não é um ensaio, não é uma abordagem científica da homossexualidade. Está completamente errado, ou poderia estar certo; tem - ou não - que ver com a própria experiência do autor. Não sei, não me interessa. É uma tese artística, é um motor ficcional. Constrói um romance que nos entra no sangue. É quanto basta.

quinta-feira, 10 de março de 2011

NADA MAIS E O CIÚME: UMA RECENSÃO

Uma recensão feita a Nada Mais e o Ciúme, que me enche de orgulho, precisamente aqui.

quarta-feira, 9 de março de 2011

MIKHAIL CHOLOKHOV: O DON TRANQUILO **



Na (dir-se-ia que descoordenada mas, de facto, dotada de uma lógica própria) minha leitura de diversos livros quase simultaneamente, venho de fechar o segundo volume de o Don Tranquilo.

O Don em causa, para evitar equívocos, não é uma pessoa, mas o rio don, aliás só periódica e ilusoriamente tranquilo. Que acontece do primeiro volume para o segundo? Tudo muda. Sobre as mesmas paisagens, na proximidade visível e audível do omnipresente rio, tendo como personagem colectiva os cossacos e os seus cânticos dolentes e sarcásticos, tudo muda porque os ventos da história transformam a geografia humana. E o que no volume anterior era tão-só pressentido, as rodas de uma revolução iniciando clandestinamente a sua marcha - os propagandistas perseguidos pela polícia do czar, as reuniões secretas com camponeses absorvendo a nova verdade... -, abate-se, neste segundo volume, em toda a sua força. Vivemos, agora, os tempos da revolução bolchevique. O exército conhece fissuras e discussões internas. As personagens, algumas das quais já nossas conhecidas do primeiro livro, vão-se situando, inseguras ou firmes nas suas ideias, perante uma nova realidade, perante novas expectativas e outras promessas.

Ler estes dois volumes tem, precisamente, isso de extraordinário: mostrar-nos o labor da história e a mudança das pessoas, determinada pelo tempo. Sabemos já que, ao longo dos quatro livros que constituem o Don Tranquilo, o rio será precisamente metáfora de um tempo enganador, pacífico e tremendo, carregando em si inimizades e amores, revolução e serenidade, guerra e paz. (E não uso inadvertidamente o título de Tolstoi, consciente, agora, do modo como Cholokhov procura, no seu romance, seguir a visão imensa do mestre).

Este volume é o mais claramente político. Para quem, como eu, tinha lido o anterior há não muito tempo, falta, aqui, o esteio dramático que tanto me interessara naquele: falta, antes de mais, Aksínia. A personagem que tinha tocado o primeiro livro com uma força e uma grandeza atordoadoras, profundamente femininas, tem, agora, uma breve aparição. E falta amor: falta a pulsação de uma história de amor impossível, precisamente a de Aksínia. É só já quase nas últimas páginas, que venho de ler, que um amor capaz de mover montanhas se assume na relação trágica de Buntchuk e Ana. Mas lembrar-nos-emos de Ana como de Aksínia? Sonharemos com ela? Desejá-la-emos com a mesma dolorosa intensidade dos sonhos irrealizáveis? Compreende-la-emos tão completamente, na sua semelhança e na sua diferença em relação a nós mesmos?

O que é fascinante neste volume diz respeito mais à psicologia de massas do que à de indivíduos; mais à História do que à história (ou a estória); mais ao testemunho da revolução bolchevique do que ao testemunho da paixão erótica; muito mais à consciência de personalidades políticas (e aos dilemas éticos que as escolhas políticas implicam) do que à consciência de pessoas existindo, como se a existência fosse um terreno de relações e sentimentos prévio a todo o compromisso ideológico. Este volume é um excelente ensaio de História e das ideias políticas na Rússia, mas é um insuficiente romance. Coisa que o primeiro, seguramente não era.

terça-feira, 8 de março de 2011

UMA SENSAÇÃO DESAGRADÁVEL APÓS TER LIDO UM POEMA DE HOJE

Um ligeiro problema com a poesia portuguesa de agora é que todos os poemas, de todos os jovens poetas, se parecem imenso. Mesmo os melhores poemas têm um incómodo travo a déjà-vu. E talvez aconteça algo semelhante em todas as épocas, talvez haja, nesta fisionomia familiar e comum, algo de espírito do tempo, a que se não consiga fugir.

Deste ponto de vista, Gonçalo M. Tavares - que não é, em primeiro lugar, um poeta - surge como uma total surpresa. E não deixa de ser curioso que um dos meios de que se serve para formar o seu próprio singularíssimo rosto poético, consiste em ir beber a fontes ainda mais antigas do que as fontes em que quase todos hoje bebem.

HENRY JAMES: INFIDELIDADES

Caro Bruno Bravo:

A propósito da sua pergunta, uma leitora atenta (e conhecedora, por supuesto) afirma-me que a obra de Henry James, que o Bruno procura, se chama, em português, Infidelidades. Existem - diz-mo ela, a mim que o ignorava - o livro traduzido e até um filme.

Um abraço.

segunda-feira, 7 de março de 2011

WITOLD GOMBROWICZ: COSMOS


Interrompo Correcções. Porquê? Confesso: porque este livro de grande extensão [512 páginas na tradução portuguesa] está a ser consumido tão rapidamente por mim que, aproximando-me já do fim, desejo deter-me, reter-me. [Pressinto uma conotação sexual no que escrevo]. Não quero concluí-lo, preciso de me demorar nele: desejaria gastar meses, senão anos, em torno desta obra-prima. Ridículo, talvez? Sim senhor, mas quem disse que eu não era ridículo?

E, portanto, retomo o livrinho que Paulina me ofereceu: Cosmos, de Witold Gombrowicz.

De Gombrowicz, o autor polaco cuja obra tantos equívocos gerou, lera - também oferecido, suponho - um conjunto de cadernos filosóficos, misto de rascunho, preparação de um programa de ensino e, ao mesmo tempo, preparação para a morte. Com os dias contados, Gombrowicz agarrara-se, com um derradeiro entusiasmo, a essas digressões, muitas vezes resumidas a uns quantos tópicos, sobre Hegel, Marx e os existencialistas.

Cosmos é um livro inadjectivável. Foi um dos livros proibidos na Polónia durante o período estalinista. Como o próprio Gombrowicz dirá mais tarde, em entrevista, «Considerado como escritor de vanguarda, pensavam que eu era um homem de esquerda. Ora eu sou um escritor dialéctico, fora de quaisquer categorias, ao mesmo tempo conservador e revolucionário».

Percebo o que há de absolutamente inovador em Cosmos. A escrita, antes de mais, como se, ao longo do texto, em cada frase o autor criasse um presente fechado sobre si, e a frase a seguir tivesse de tornar a nascer do nada, desligada do momento anterior: e como se, por outro lado, a fala do narrador, a sua escrita, estivesse permanentemente desequilibrada pela interferência do pensar. Ligações imprevisíveis, associações ilógicas, ou feitas de acordo com uma lógica que não é a da "comunicação" e sim a de um monólogo subjectivo.

Mas mais do que isso, Cosmos é um romance metafísico: uma investigação, segundo o autor, sobre as «origens da realidade». Esta investigação situa-nos perante a realidade como caos: tudo é infamiliar, estranho, perturbador; e nessa imensa e entranhada estranheza, certos aspectos devêm sinais a partir dos quais se possa constituir - ou buscar - uma ordem. Sinais, também eles, estranhos e cruéis ou, pelo contrário, insignificantes, como «um pássaro enforcado, um cajado dependurado, um gato suspenso pelo pescoço, um homem também na mesma posição» e ainda «manchas, pegadas, setas, bocas que se justapõem, cerimónias eróticas»: indicadores de uma qualquer misteriosa direcção, de uma secreta comunicação ou de um imprevisível sentido da realidade.

Lemo-lo numa exaltação perturbada. E percebemos que, qualquer que fosse a visão subjacente à nossa cultura literária, esta está terrivelmente incompleta enquanto não contiver Gombrowicz: precursor de tantos percursos, demolidor de muitos outros, trabalhando intensamente uma mescla de ficção, poesia e filosofia, de que se não sai incólume.