segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

JONATHAN FRANZEN: CORRECÇÕES


O livro era uma promessa. Primeiramente, o homem do fraque havia-o recomendado, no seu blogue, como sendo um dos imperdíveis de 2010. [Tenho-me dado bem com os conselhos do homem do fraque: Miguel-Manso, Vonnegut...]. Mas, há dias, um comentário de António-Pedro de Vasconcelos referia-se também a Correcções como sendo um livro da linhagem de O Homem Sem Qualidades ou Em Busca do Tempo Perdido. Obras imensas, demoradas, pacientes e carecidas de um leitor paciente para o recompensarem. Não resisti mais, fui em busca.

Evidentemente, estou longe de o ter terminado. Mas é verdade que todos os demais ficaram suspensos, flutuando num limbo, à espera que eu possa voltar a dedicar-me a eles, ou seja, aguardando que eu cumpra a minha prioridade - leio Correcções com uma energia e uma convicção que me faltavam há muito.

Confesso que não encontro Proust. Bem sei que ninguém me disse: «É Proust!» Disseram-me: «Há uma linhagem comum, uma tradição que os liga, é um género similar de romance». Ainda assim: em Proust, como sabem, as menores sensações são voluptuosamente descritas numa linguagem incomum, cativante, que apetece ler como se fossem os versos de um poema. Franzen não dá isso, não dá tanto. Dá-nos um romance sobre uma família que vamos compreendendo em torno de um tema muito, muito, muito simples: o desejo que a mãe (Enid) tem, de reunir, em sua casa, num último Natal, a família: seu esposo (Alfred), um engenheiro reformado, que o descontrole e o esquecimento da doença de Parkinson devoram aceleradamente; os filhos (Chip, Denise e Gary), a nora e os netos: mas todos eles estão longe uns dos outros, separados, mais do que pela distância física, por tensões e irreconcliações dramáticas.

Mas se o tema é de uma alarmante simplicidade, a estrutura do romance é elaboradíssima. E magnífica. Porque é no decurso das situações em que as personagens se relacionam (e confrontam) umas com as outras, que vão emergindo e se vão mostrando as personalidades, os medos, as raivas e as histórias pessoais que as foram construindo. Um mero exemplo da mestria com que Franzen revela as pessoas a partir do banho das situações: veja-se toda a segunda parte, em que o leitor é testemunha de uma terrível sucessão de cenas em família. Gary Lambert (um dos filhos), Caroline, a mulher deste, e seus três rapazes. Mas onde principiávamos por ver, ilusoriamente, um homem seguro e sólido e uma família nuclear perfeita, cedo descobrimos uma luta interna que se agudiza, depressões, paranóias, vigilâncias, a tentativa, por parte de cada um dos progenitores, de aliciar os filhos num clube que se oponha ao outro progenitor. Há questões que nunca chegam a ser superadas: quando se pensava que a razão as solucionara para seguir em frente, eis que regressam sempre, mesquinhas, atormentadoras, sob a forma de uma pergunta aparentemente irrelevante, que se torna uma estranha obsessão.

Porque é, fundamentalmente, isto que está no centro do romance. Personagens que procuram «corrigir» (não só corrigir-se a si mesmas, mas corrigir o passado, como se houvesse uma segunda e paradoxal oportunidade para reviver, de um modo novo e melhor, emendado, o que já passou); mas que nunca entendem que as suas tentativas de «correcção» da vida não são sequer operações racionais, porque o que as impulsiona (e bloqueia) é da ordem do irracional: perspectivas erradas, desejos de vingança, incapacidades de compreender outrem, um programa ineficaz de manipulação, escolhas mal feitas que assombram, do fundo da sua história, cada um destes indivíduos infelizes.

É um livro que se lê com angústia. Uma angústia fininha, como certa chuva que nunca desaba por completo. É um livro em que nos lemos - ou, como escreve, sobre ele, Don DeLillo, um livro em que, em última análise, lemos a nossa própria cultura.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

ANTONIO BAÑOS BONCOMPAIN: A ECONOMIA NÃO EXISTE


Todos os racionalistas, que desconfiam dos sentidos, perguntam (ou partem sub-repticiamente da pergunta): Como posso eu estar certo de que a «realidade», que apreendo através de sensações, é real? Por que não uma ilusão, uma alucinação, uma virtualidade, um sonho?

A pergunta soa-nos mal, porque a «realidade» é a realidade a que nos habituámos. Não a questionamos porque não percebemos que, na aceitação do que os sentidos nos entregam, há um acto de fé.

Da mesma forma, quando Antonio Baños Boncompain escolhe, como título da sua obra, A Economia Não Existe, introduz, na leitura, um desconforto e uma inevitável perplexidade. Porque a economia é a nossa realidade, porque comanda as nossas vidas (e de que maneira!), e porque existem até prémios Nobel dessa matéria.

A estratégia de Antonio Boncompain é de uma simplicidade elementar. Primeiramente, começa por questionar a economia como ciência: que raio de ciência seria essa em que, a despeito de uma linguagem ininteligível, que só os eleitos decifram (e, porventura, nem todos) e de uma impressionante utilização das matemáticas, realmente não se é capaz de quaisquer previsões? Todas as crises parecem inesperadas: é um facto. Os Nobel são os primeiros a mostrar espanto quando o terror cai globalmente sobre as nações. Por outro lado, não é verdade que as crises são criadas pelos próprios responsáveis pela economia? Não é verdade que é o discurso economista que, num certo sentido, provoca os altos e baixos? Não é verdade que a crise resulta, em primeiro lugar, da psicologia - o medo e o pânico, ou a confiança dos consumidores e dos accionistas?

Mas, se quisermos fazer uma abordagem histórica, observamos que as «leis naturais e eternas» da economia são, na verdade muito recentes. E, comparando sociedades, também não temos dificuldades em perceber que houve - e há - sociedades onde a «economia» não tem qualquer papel. Em torno destas ideias, na verdade muito simples, mas que nunca havíamos posto com esta acutilância, Antonio Boncompain revela a economia como uma pseudo-ciência, no limite do imoral (porque carece da pobreza para produzir riqueza, por exemplo; ou porque nos ensina a ver como incontornável o trabalho assalariado, quando este é uma invenção cretina da Idade Média, que não visa senão reproduzir-se indefinidamente, reproduzir o sistema e controlar a perigosa mobilidade dos pobres, fixando-os e criando-lhes rotinas de que dependa a sua subsistência); é uma «ciência» de profetas que, em última análise, não serve senão os próprios profetas (cuja palavra decide a dinâmica dos mercados) e as classes privilegiadas.

Há, neste livro, um humor ácido a que não estamos habituados. Talvez essa veia sarcástica tenha sido um aspecto perturbador no início da minha leitura, como se representasse falta de seriedade, uma falha imperdoável em trabalhos académicos. Mas, assentemos, não se trata de uma tese académica. A Economia Não Existe é um texto de divulgação, uma cantiga de escárnio e mal-dizer, uma excelente provocação da forma como a nossa vida se deixou enredar completamente por meandros que fazem passar por científico o que tem, antes de mais, um carácter ideológico e político.

Frustra-me, talvez, perceber que é com base num absoluto logro que o governo do meu país decidiu fazer desaparecer, todos os meses, uma parcela significativa do salário que nós, funcionários públicos, conquistáramos. Mas não deixa de ser importante lembrá-lo, compreendendo o cinismo com que, ao longo do tempo, os mais diversos economistas (ou pré-economistas; vide São Tomás de Aquino himself) estavam conscientes de que, em última análise, se trata sempre de encontrar os meios mais eficazes de manipular os meios e condições de subsistência dos indivíduos na cidade.

«O» POEMA DE JOSÉ RÉGIO

O sublime Cântico Negro, de Régio, no incontornável blogue «suplementar» de Mariana, ou seja, aqui:

sábado, 26 de fevereiro de 2011

FORMIGA PREVIDENTE OU CIGARRA ESBANJADORA? OU QUÊ?

Recebi o meu ordenado.
Em poucos dias, adquiri já os seguintes livros:
Correcções, de Jonathan Franzen (o mais caro, mas o mais apetecido); Vamos Todos Matar Constance, de Ray Bradbbury (digamos que, neste caso, foi também o preço de saldo o pormenor a que não resisti); A Economia Não Existe, de Antonio Baños Boncompain (aqui, percebe-se: foi o título, aquilo a que não resisti. E lendo-o, não o considero uma desilusão: só uma meia-desilusão...); E hoje mesmo, da abençoada Trama, trago um exemplar de uma reedição (de tiragem limitadíssima) de Quando Escreve Descalça-se, de Miguel-Manso.

Conclusão: agora, depois disto, vou ter de começar a fazer regime.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

RENÉ DESCARTES: DISCURSO DO MÉTODO



O Discurso do Método, que me não lembro quando li pela primeira vez, mas não foi certamente no liceu - os professores de filosofia não convidavam à leitura dos textos dos filósofos; escondiam-no-los bem... -, é, sem dúvida, uma obra extraordinária.

É verdade que a argumentação de Descartes nem sempre se mostra inatacável. Nada na progressão do seu raciocínio parece, realmente, «indubitável». Algumas das ideias que apresenta como «evidentes» são, bem vistas as coisas, muito pouco evidentes. O pendor para a falácia respira asmaticamente em cada página. A segunda prova da existência de Deus, por exemplo, é uma falácia tão berrante como certas gravatas são berrantes. E, claro, à sua contenção more geometrico prefiro mil vezes a subtileza dos pensamentos de um Pascal. Tudo isto dito, mantenho a afirmação com que iniciei o texto: trata-se de uma obra extraordinária.

Há, em Descartes, uma candura que só Kant porá consequentemente em causa. Essa candura, curiosamente, é-me agradável, refrescante, como se fosse possível esperarmos que o pensamento se baste a si próprio, que encontre, no seu interior, todas as peças e ferramentas para «montar» a verdade: como certos produtos que compramos no IKEA.

Agrada-me essa frescura própria de quem não sofreu demasiado. A filosofia de Descartes permite uma leitura em que suspendemos as nossas crenças. Do mesmo modo que eu não creio no inferno, mas não posso deixar de crer plenamente no inferno enquanto leio Dante; da mesma maneira que sei que o som não se propaga no vácuo, mas isso não me impede de acreditar nas naves que se deslocam, veloz e ruidosamente, nos vazios do universo, em Star Wars; da mesma maneira que sei que o pequeno «Marcel», de Em Busca do Tempo Perdido, não é, de facto, Marcel Proust (não é ninguém a não ser uma personagem-que-recorda-e-narra, uma ilusão falante), mas, no entanto, a sua existência física não está em causa durante a leitura da obra - também, quando leio o Discurso do Método, me sinto tranquilo e confiante na força do pensar. Percebo as dúvidas mais excêntricas que o assolam. (Mesmo esta: que o mundo que vejo ou cheiro ou toco possa não existir a não ser como engano ou sonho). E sinto-me deliciado pelo engenho com que ultrapassa essas dúvidas. Claro: ao fechar o livro, meditando, descubro as falhas, as fragilidades, as arestas, as falácias, o delírio, a mentira até. Mas, regressando à leitura,torno a sentir-me em casa: na casa do pensar.

Não sei se é esse conforto que se espera de um filósofo, se o contrário. Nietzsche dá-me precisamente o contrário. Sempre. Mas Descartes recebe-me muito bem; acolhe-me com uma desusada hospitalidade: não poderia enjeitá-lo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

TRINDADE COELHO: IN ILLO TEMPORE



Hoje, que a praxe está sob suspeita - aliás justamente, em grande medida - e um certo humor estudantil, desrespeitoso e transgressor, se tornou inaceitável, Coimbra perdeu o encanto: refiro-me à Coimbra dos estudantes de capa e batina, da cabra, das serenatas e dos namoros, das guerras aos futricas, das arruadas, da poesia sarcástica e do fado coimbrão. À Coimbra das repúblicas, do desprezo pelos caloiros, dos jornais estudantis e de monumentais assembleias de alunos. Dos copos e das noitadas.

In Illo Tempore é, portanto, no nosso tempo e cada vez mais, um livro politicamente incorrecto. Todavia, em capítulos curtos e autónomos, cada um dos quais conta um episódio, ou uma anedota coimbrã do seu tempo de estudante, Trindade Coelho apresenta-nos personagens pitorescas, cheias de malícia, raramente malvadas, com um sentido de humor e um espírito da brincadeira, que, simultaneamente, testemunham o modo irreverente de ser, típicos de uma época e de um lugar.

Há passagens notáveis de inocência e malandrice: por exemplo, a propósito daqueles rapazes que viviam em comunidade, a quem uma vizinha velha enviou uma taça de marmelada, que agradeceram num poema escrito a várias mãos; ou do modo como os estudantes usavam o carnaval para organizar desfiles de escárnio e crítica. Mas, o principal do humor que se derrama por essas páginas, diz respeito à palavra: a réplica rápida e mordaz, o trocadilho bem conseguido, a frase dúbia e mortífera, as alcunhas certeiríssimas.
É toda uma cultura que hoje não seremos, talvez, capazes de compreender. Uma cultura, ao mesmo tempo, da brevidade: jovens que estavam de passagem por Coimbra (mesmo, como acontecia a muitos, quando demoravam demasiado tempo a concluir o curso) e, durante essa passagem, quase no sentido iniciático, se deixavam enredar mais facilmente pela alegria das noitadas, do que pela obrigação do estudo; muito mais pelo desrespeito relativamente à autoridade, do que pelo exemplo vindo de cima. Há, nessa Coimbra de outro tempo, a intuição clara de que se estão a gastar os últimos cartuchos: dali a poucos anos serão, todos eles, senhores casados e respeitáveis. Serão advogados ou engenheiros, no comboio da rotina.

É divertido? Creio que sim. Mas de uma diversão que transporta em si um elemento de nostalgia e despedida. A juventude é destravada porque é breve. Coimbra, que pertencia aos jovens, era necessariamente destravada - e breve.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

CONVITE A TODOS OS QUE QUEIRAM


Não se esqueçam:
reservem essa tarde para me abraçarem