sábado, 26 de fevereiro de 2011

FORMIGA PREVIDENTE OU CIGARRA ESBANJADORA? OU QUÊ?

Recebi o meu ordenado.
Em poucos dias, adquiri já os seguintes livros:
Correcções, de Jonathan Franzen (o mais caro, mas o mais apetecido); Vamos Todos Matar Constance, de Ray Bradbbury (digamos que, neste caso, foi também o preço de saldo o pormenor a que não resisti); A Economia Não Existe, de Antonio Baños Boncompain (aqui, percebe-se: foi o título, aquilo a que não resisti. E lendo-o, não o considero uma desilusão: só uma meia-desilusão...); E hoje mesmo, da abençoada Trama, trago um exemplar de uma reedição (de tiragem limitadíssima) de Quando Escreve Descalça-se, de Miguel-Manso.

Conclusão: agora, depois disto, vou ter de começar a fazer regime.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

RENÉ DESCARTES: DISCURSO DO MÉTODO



O Discurso do Método, que me não lembro quando li pela primeira vez, mas não foi certamente no liceu - os professores de filosofia não convidavam à leitura dos textos dos filósofos; escondiam-no-los bem... -, é, sem dúvida, uma obra extraordinária.

É verdade que a argumentação de Descartes nem sempre se mostra inatacável. Nada na progressão do seu raciocínio parece, realmente, «indubitável». Algumas das ideias que apresenta como «evidentes» são, bem vistas as coisas, muito pouco evidentes. O pendor para a falácia respira asmaticamente em cada página. A segunda prova da existência de Deus, por exemplo, é uma falácia tão berrante como certas gravatas são berrantes. E, claro, à sua contenção more geometrico prefiro mil vezes a subtileza dos pensamentos de um Pascal. Tudo isto dito, mantenho a afirmação com que iniciei o texto: trata-se de uma obra extraordinária.

Há, em Descartes, uma candura que só Kant porá consequentemente em causa. Essa candura, curiosamente, é-me agradável, refrescante, como se fosse possível esperarmos que o pensamento se baste a si próprio, que encontre, no seu interior, todas as peças e ferramentas para «montar» a verdade: como certos produtos que compramos no IKEA.

Agrada-me essa frescura própria de quem não sofreu demasiado. A filosofia de Descartes permite uma leitura em que suspendemos as nossas crenças. Do mesmo modo que eu não creio no inferno, mas não posso deixar de crer plenamente no inferno enquanto leio Dante; da mesma maneira que sei que o som não se propaga no vácuo, mas isso não me impede de acreditar nas naves que se deslocam, veloz e ruidosamente, nos vazios do universo, em Star Wars; da mesma maneira que sei que o pequeno «Marcel», de Em Busca do Tempo Perdido, não é, de facto, Marcel Proust (não é ninguém a não ser uma personagem-que-recorda-e-narra, uma ilusão falante), mas, no entanto, a sua existência física não está em causa durante a leitura da obra - também, quando leio o Discurso do Método, me sinto tranquilo e confiante na força do pensar. Percebo as dúvidas mais excêntricas que o assolam. (Mesmo esta: que o mundo que vejo ou cheiro ou toco possa não existir a não ser como engano ou sonho). E sinto-me deliciado pelo engenho com que ultrapassa essas dúvidas. Claro: ao fechar o livro, meditando, descubro as falhas, as fragilidades, as arestas, as falácias, o delírio, a mentira até. Mas, regressando à leitura,torno a sentir-me em casa: na casa do pensar.

Não sei se é esse conforto que se espera de um filósofo, se o contrário. Nietzsche dá-me precisamente o contrário. Sempre. Mas Descartes recebe-me muito bem; acolhe-me com uma desusada hospitalidade: não poderia enjeitá-lo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

TRINDADE COELHO: IN ILLO TEMPORE



Hoje, que a praxe está sob suspeita - aliás justamente, em grande medida - e um certo humor estudantil, desrespeitoso e transgressor, se tornou inaceitável, Coimbra perdeu o encanto: refiro-me à Coimbra dos estudantes de capa e batina, da cabra, das serenatas e dos namoros, das guerras aos futricas, das arruadas, da poesia sarcástica e do fado coimbrão. À Coimbra das repúblicas, do desprezo pelos caloiros, dos jornais estudantis e de monumentais assembleias de alunos. Dos copos e das noitadas.

In Illo Tempore é, portanto, no nosso tempo e cada vez mais, um livro politicamente incorrecto. Todavia, em capítulos curtos e autónomos, cada um dos quais conta um episódio, ou uma anedota coimbrã do seu tempo de estudante, Trindade Coelho apresenta-nos personagens pitorescas, cheias de malícia, raramente malvadas, com um sentido de humor e um espírito da brincadeira, que, simultaneamente, testemunham o modo irreverente de ser, típicos de uma época e de um lugar.

Há passagens notáveis de inocência e malandrice: por exemplo, a propósito daqueles rapazes que viviam em comunidade, a quem uma vizinha velha enviou uma taça de marmelada, que agradeceram num poema escrito a várias mãos; ou do modo como os estudantes usavam o carnaval para organizar desfiles de escárnio e crítica. Mas, o principal do humor que se derrama por essas páginas, diz respeito à palavra: a réplica rápida e mordaz, o trocadilho bem conseguido, a frase dúbia e mortífera, as alcunhas certeiríssimas.
É toda uma cultura que hoje não seremos, talvez, capazes de compreender. Uma cultura, ao mesmo tempo, da brevidade: jovens que estavam de passagem por Coimbra (mesmo, como acontecia a muitos, quando demoravam demasiado tempo a concluir o curso) e, durante essa passagem, quase no sentido iniciático, se deixavam enredar mais facilmente pela alegria das noitadas, do que pela obrigação do estudo; muito mais pelo desrespeito relativamente à autoridade, do que pelo exemplo vindo de cima. Há, nessa Coimbra de outro tempo, a intuição clara de que se estão a gastar os últimos cartuchos: dali a poucos anos serão, todos eles, senhores casados e respeitáveis. Serão advogados ou engenheiros, no comboio da rotina.

É divertido? Creio que sim. Mas de uma diversão que transporta em si um elemento de nostalgia e despedida. A juventude é destravada porque é breve. Coimbra, que pertencia aos jovens, era necessariamente destravada - e breve.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

CONVITE A TODOS OS QUE QUEIRAM


Não se esqueçam:
reservem essa tarde para me abraçarem

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

LAWRENCE DURRELL: QUARTETO DE ALEXANDRIA




Neste tempo em que o Egipto tem sido palco de uma tão conturbada exaltação, dou por mim a conversar com amigas acerca de Alexandria. Falam-me desta, elas, que a conhecem, como sendo uma cidade muito bela, ainda que de uma beleza em que a pobreza e a degradação vieram deixando terríveis sinais. E tento mostrar-lhes o que Alexandria - em que nunca estive - significa para mim.

Paro um instante para tentar aperceber-me dos contornos e da história da «minha» Alexandria. Por que tenho tão vívido no espírito, como uma evidência inata, este lugar por experimentar? Kaváfi, é claro, terá sido um dos responsáveis por tão insólita saudade a propósito de uma cidade que não vi; mas Kaváfi é uma descoberta recente: antes ainda de haver lido o poeta, Alexandria já me chamara pela voz de um outro: Lawrence Durrell, que lhe dedicara uma das obras mais complexas e difíceis, labirínticas, ousadas e terríveis: O Quarteto de Alexandria, em 4 volumes (Justine, Balthazar, Mountolive e Cléa).

O Quarteto de Alexandria
, inspirado, ao que parece, na teoria da relatividade, é uma obra em que se apresenta uma mesma realidade, ou seja, um único conjunto de factos, mas segundo diferentes perspectivas. Há uma primeira visão estática, fragmentária, em que as personagens e as situações nos são expostas como numa composição, como numa estrutura imóvel. Não existe tempo, não se percebe o que ocorreu «antes» ou o que ocorreria «depois»: observamos aspectos que se articulam num todo coerente, e que vamos abarcando à medida que subimos ou descemos o nosso olhar ao longo de um plano - de um quadro em que nada progride ou se modifica interiormente.

De algum modo, cada um dos novos volumes vai introduzindo uma outra perspectiva - quer porque é a perspectiva de uma outra pessoa (após Justine, no primeiro volume, virão falar Balthazar, Mountolive e, por fim, Cléa), quer porque, em cada casa (pretendia escrever «caso», mas o lapso enriquece o sentido) em cada "casa" estamos perante uma nova chave de apreensão dos acontecimentos: só no último volume essa chave é o tempo. Projecto gigantesco, megalómano mas conseguido, constrói-se como um monumento que usa uma substância uniforme; voltado sobre si - insisto: trata-se sempre da apresentação de um mesmo conjunto de factos -, repetindo, pois, volume após volume, o que já conhecíamos segundo um olhar diferente. E é, no entanto, sempre novo e fascinante. Não podemos deixar de nos perguntar: como se faz uma obra assim? Imensa, extensa mas articuladíssima, sem falhas: tão próxima e tão distante de Em Busca do Tempo Perdido...

Releio este post e sinto-me quase indignado pela reflexão, que lhe subjaz e se fica por um encantamento intelectual em torno de uma técnica, quando o romance de Durrell possibilita, mais do que tudo, o rasgar de cortinas sobre as emoções de pessoas desamparadas, num perpétuo desencontro entre o Ocidente e o Oriente, que é, em parte -mas uma grande parte - a razão de como eu vejo essa Alexandria que nunca vi.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

CHOLOKHOV E BARATA

Estou muito satisfeito por duas razões não aparentadas.

Uma, é que me trouxeram, das catacumbas da Biblioteca de Oeiras, ou seja, o depósito, o segundo volume de O Don Tranquilo, de Mikhaïl Cholokhov. Li dois parágrafos. Ao todo, dezasseis linhas. E pu-lo de parte, para me dedicar a outras tarefas que berravam por mim, mas com um estremecimento interior de alegria, um: «Espera aí, eu volto!»

Outra, é que o lançamento de Nada Mais e o Ciúme, o anunciado lançamento na Livraria Barata, já tem data marcada: será no dia 19 de Março. É Dia do Pai. É um sábado. Será à tarde - por volta das 17 h. 30 min. Terei, como oradora, Maria João Costa, crítica literária da Rádio Renascença e participante activa de Correntes d'Escrita. A todos os que puderem - e, naturalmente, quiserem - convido, desde já, para que apareçam, nesse dia, na Livraria Barata da Avª de Roma. [Mesmo quem se zangou com a Barata e jurou que nunca mais tornava a pôr lá os pés!]

sábado, 12 de fevereiro de 2011

JOSEPH CONRAD: LORD JIM




Sou um leitor que, mais do que devorar, deixa que certos livros o devorem.

De Joseph Conrad, o nobre polaco que aprendeu tarde o inglês (aos vinte e três anos), mas o aprendeu com tamanha perícia, que se tornou um cultor da língua, o meu livro preferido é The Hearth of Darkness. [Traduzido, em português, como O Coração das Trevas: obra maior acerca de um homem que mergulha na sua própria obscuridade, no seu lado selvagem, que o é de todos nós, e a frágil polidez da civilização julgara erradamente haver suprimido para sempre].

Mas há um outro romance que não esqueço. Lord Jim. Vi-o em cinema: não gostei; lera-o, a primeira vez, ainda demasiado jovem, e pareceu-me maçador. Reli-o mais tarde, já professor, porque tinha ficado marcado por um gesto do protagonista, um acto que transformaria toda a sua vida. Quis falar disto aos meus alunos. Até que ponto um acto que demora uma fracção de tempo pode ter o poder de me configurar para sempre, ao olhar dos outros, como um «cobarde»? Ou como um «herói»? Não dizia Borges que a verdade de uma vida pode ser encontrada num único instante?

Conrad - não me tomem por presunçoso - deve ser lido em inglês, porque o seu inglês o merece. E merece o trabalho e o esforço que possa dar. Lord Jim vale, pois, pela escrita muito bela, pela linguagem sofisticada e difícil; mas é, principalmente, um romance iluminado por questões filosóficas decisivas acerca da acção, que sempre me preocuparam. E questões acerca da escolha: o que há, neste gesto em que me defino, ou os demais me definem, de realmente «escolhido» e decidido por mim? O que há, em cada gesto meu, por outras palavras, de realmente «meu»?


Em Lord Jim subsiste o lado conradiano que, em si mesmo, menos me interessa, o do infinito e tenebroso horizonte marítimo, das tempestades, dos piratas, dos naufrágios. Mas é esse, também, o singular elemento da relação entre os homens ou, pelo contrário, da solidão; e, em todo o caso, sempre do encontro - às vezes do desencontro? - do sujeito consigo próprio. É sempre isto, o homem em face de si, o tema e o segredo: é-o em O Coração das Trevas, em Lord Jim, em Nostromo; até em O Agente Secreto se trata do homem perante si mesmo. É-o sempre de um modo a que a presença do mar, como em Lord Jim, empresta uma inigualável intensidade.