domingo, 30 de janeiro de 2011

DE LEITORES E DE LEITURAS

A questão das leituras é especialmente complicada.
A mim, parece que é quase impossível que o modo como um leitor interpreta um romance não tenha que ver com um parti-pris ideológico. No sentido lato de «ideológico».
Sobretudo, julgo que uma mulher lê sempre com o que há em si de mulher, um homem como um homem. E podem dizer-me: Raio, que se esperava?
A questão é que ler como mulher significa, de algum modo, julgar as mulheres de um romance. Não sei se os homens também não julgam principalmente as personagens femininas - embora, no seu caso, de uma perspectiva masculina.

O problema é que se espera sempre uma identificação, ou seja: uma leitora aguarda, mais ou menos secretamente, que as mulheres de um romance sejam interessantes, ou que alguma delas o seja: mas o que é ser interessante? E por que teria de haver um modelo, um exemplo, quando no dia-a-dia encontramos pessoas de todos os tipos, interessantes e desinteressantes, e a própria verosimilhança exige que as personagens incorporem diferentes características e defeitos, insuficiências, limitações e manias, independentemente de serem femininas ou masculinas?

Uma leitura «feminista» ou uma leitura «masculinista» excluem, na minha opinião, diversas possibilidades e nuances: por exemplo, a possibilidade de que uma personagem feminina, porventura extraordinária, nos seja apresentada a partir do olhar de uma personagem masculina, que a diminui na sua grandeza; digamos: um marido infeliz e esgotado por muitos anos de relacionamento. Ou, claro, vice-versa. Mas também ao leitor cabe mover-se por entre essas perspectivas ilusórias e redutoras; cabe descobrir o «interesse» ou o «valor» deste ou daquela, para além da visão que (mesmo quando não seja directamente expressa por uma personagem) se percebe que recupera e reconstitui, para efeitos romanescos, a visão dessa determinada outra personagem. [James Wood é nada menos que brilhante nessa análise do ponto de vista que subjaz ao discurso; na análise do «quem realmente fala, aqui? Será mesmo o autor?»]

Não sou melhor leitor do que ninguém. Mas um segredo tenho: não julgo. Farejo com mais interesse as complexidades de carácter e a verosimilhança do que o reconhecimento. E, é verdade, gosto de pessoas impossíveis, aprecio personalidades malévolas e mesquinhas, não enjeito gente superficial ou estúpida, ou reaccionária. Talvez na vida o faça - mas, na literatura, certamente não.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Nada Mais e o Ciúme: Exibicionista! Vaidoso!

ECOS DO LANÇAMENTO E ECOS DE VENDAS

Devo dizer que a sessão correu muitíssimo bem. A Elisa Costa Pinto fez uma leitura que me agarrou pela profundidade: já tinha ouvido dizer a pessoas que escrevem, que, no momento em que ouvem falar inteligentemente acerca dos seus textos, se sentem como perante algo que deixou de lhes ser familiar, inteiramente por redescobrir a partir de outros enfoques, de ângulos que não tinham percebido. Mas não sabia até que ponto isso, mais do que uma pose ou uma frase bonita, é a mais pura das verdades.

«Observo apenas», escreve Kant, na Crítica da Razão Pura, «que não raro acontece, tanto na conversa corrente, como em escritos, compreender-se um autor, pelo confronto dos pensamentos que expressou sobre o seu objecto, melhor do que ele mesmo se entendeu, isto porque não determinou suficientemente o seu conceito e, assim, por vezes, falou ou até pensou contra a sua própria intenção»: não é tanto que eu tenha falado, pensado ou escrito «contra a minha própria intenção»; é que a minha intenção não era senão um dos motores na construção de uma história que se modifica consoante a intenção de cada leitor, de quem quer que dela se aproprie. O que não deixa de ser estranho. É o mínimo que posso dizer: o que não deixa de ser muito estranho. Agradável e incomodamente estranho.

Senti-me acolhido e amimado. Objecto de atenção, curiosidade, interesse. Um agradecimento ao grupo que se empenhou em organizar a cerimónia, com tanto cuidado e carinho.

Agora, um interregno comercial, estúpido e infame, mas necessário: o livro pode ser encomendado on-line. [Sítio do Livro]. Está à venda na livraria Trama - que adoro, mas, entre pilhas de livros para organizar, ainda não encontrou tempo para referir este Nada Mais e o Ciúme, o que compreendo, por egocentrista que seja -, na livraria Barata - onde, pelo que me dizem, o esconderam bem - e na livraria Galileu, de Cascais.

Se os que têm curiosidade na obra e pensam que «irão comprá-la» (daqui a uma semana? um mês? um dia destes...?) não avançarem, não sei como diabo irei acabar de a pagar no imediato. Fica muito mal esta advertência no blogue? Olhem que não. Entendam isto como um acto de resistência. Sem qualquer vitimização da minha parte, sem embarcar em teorias da conspiração, peço apenas que se detenham um momento na seguinte pergunta: será mesmo que o sistema está montado para que uma voz que não chegue via editoras esteja morta à nascença?

PS: Um mail da Catarina, da Trama, fez com que me apercebesse da injustiça da minha consideração. O livro está em destaque na livraria, desde há muito. Os meus sinceros pedidos de desculpa à Trama.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

GONÇALO M. TAVARES: O SR. ELIOT E AS CONFERÊNCIAS


Gonçalo M. Tavares esteve hoje na minha escola, sabem? Ah, sim, roam-se de inveja. Apesar das solicitações, dos prémios, das viagens, respondeu com a maior das simplicidades ao meu convite, ou melhor, à minha insistência, e entrou às catorze e pouco, cansado, com a sua barba e os seus caracóis, uma voz muita pausada, para «animar» (palavra da moda) um «workshop» (esta não vou sequer comentar). Foi delicioso: o erro era o seu tema e ponto de partida - e o ponto é que no «erro», que a escola proscreve e os educadores aparam, ou corrigem, Gonçalo nos mostrou a emergência de toda a criatividade. Há algo verdadeiramente novo que não seja um erro em relação aos cânones? A um certo conceito do que «deve ser», do que deveria ser para estar certo?

De alguma maneira, O Senhor Eliot e As Conferências, de Gonçalo Tavares, é também um livro que se vai construindo em redor de um erro, ou de um ângulo errado. Ou de sucessivos ângulos errados. Obviamente, não posso dizer muito mais do que isto - e é pena, porque me apetecia, mas qualquer palavra em excesso estragaria o prazer da descoberta.

Há, de facto, um senhor Eliot como personagem: mas que Eliot é este? T. S. Eliot? Os nomes resultam, em GMT, de uma apropriação incompleta, mais simbólica do que realista: Eliot é Eliot e não é Eliot - um nome canaliza determinada energia histórica e biográfica, absorve certas referências, mantém uma aura, uma mitologia, mas, para além disso, a personagem que comunga esse nome com um escritor é uma caricatura; remete para o nomeado a partir de uma chave que distorce. Este Eliot, personagem de Tavares, é um escritor que faz uma série de conferências acerca de poesia. Cada conferência se debruça sobre um verso conhecido - as palestras têm, na assistência, Borges, Breton, Balzac ou Swedenborg. (Wahrol espreita a sala, numa das conferências, mas desaparece rapidamente).

Claro que o interessante é cada uma das comunicações de Eliot. O interessante é a abordagem de Eliot, o seu olhar clínico e racional. Os efeitos são imprevisíveis e muito engraçados. Trata-se de sete, sendo que a sétima não existe senão como título e promessa. A não ser que o meu exemplar tenha páginas a menos. Mas com Gonçalo M. Tavares não se sabe, nunca se sabe. Em todo o caso, o pequeno volume de capa alaranjada, com desenhos nervosos da autoria de Rachel Caiano, é uma obra leve e estranha, intrigante e surpreendente. O humor, a estranheza, a distorção. A criatividade usando os hábitos e as referências comuns para formar um universo paralelo.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O NARRADOR: MARCEL, WATSON, PEDRO


O narrador é uma figura cheia de possibilidades. [Só José Saramago, coitado - e perdoem-me a heresia - não percebeu isso. E ganhou um prémio Nobel sem o ter percebido...].

Deste ponto de vista, Proust é inultrapassável. [E, claro, como lembra Mariana, está implícito nesta afirmação um juízo de gosto...] Um narrador que, ao longo de sete volumes, se engana na sua visão, enuncia certezas que mais adiante terá de rever, apresenta leituras que há-de corrigir, é o mais brilhante dos narradores: um narrador que vai crescendo e amadurecendo, que vai reajustando e refazendo, a quem falta a omnipotência porque está mergulhado, de alguma forma, na história que trata de contar, ciente de que essa história, que conta, o conta também a si, e que se fazem um ao outro conjuntamente, e conjuntamente se corrigem um ao outro.

Lembro-me de um romance policial de Ellery Queen que, neste particular ponto, me marcou extraordinariamente. O detective Queen debruça-se sobre uma narrativa inédita, escrita pelo Dr. Watson - (Sherlok Holmes é, pois, o protagonista). E quando, no fim do texto, é apresentada a solução do crime, Watson está ufano, glorificando a inteligência de Holmes. Todavia, Watson está equivocado. O leitor Queen - de quem, por sua vez, nós somos agora leitores - segue o texto com muita atenção, e percebe, não só que Watson nada entendeu, como que Sherlok Holmes, aceitando sacrificar o criminoso errado, está, no fundo, perfeitamente consciente do erro. É um engano pérfido, conveniente - mas Sherlok Holmes, ao longo do texto, faz afirmações que permitem perceber que está a laborar em erro. Fá-lo deliberadamente: vaidoso como é, não consegue não deixar indícios, pistas, outras possíveis interpretações. Para que se saiba que há um engano, mas ele não se enganou. Em todo o caso, a verdadeira solução poderia ficar para sempre recalcada, se o texto de Watson, o narrador estúpido, não fosse lido por Ellery Queen, o leitor mais inteligente do que o narrador, que vê, através do narrador, o que ao narrador escapou.

No romance que escrevi - e que, aparentemente, dizem-me, está sendo negligenciado pelas próprias livrarias que o aceitaram e escondem, mas que fazer? -, salvaguardando as devidas distâncias, foi também o que procurei: um narrador, Pedro, muito próximo das personagens sobre que fala e que, porventura, não vê objectivamente. Gosto da ideia de um romance em que os leitores possam perguntar: Mas esta perspectiva não pode ser uma ilusão de óptica? A verdade não estará, algures, numa interpretação que o narrador nunca foi capaz de fazer...?

A omnisciência esgota-me.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

VIKRAM SETH: UM BOM PARTIDO (3 VOLUMES)






Há dois pormenores que me levariam a aproximar-me quase necessariamente desta obra.

Em primeiro lugar, o autor é um escritor indiano formado na cultura e na língua anglo-saxónicas, e que retira, de ambas as esferas, o mais rico e o mais interessante: uma criatividade mitológica e pagã, um espírito de observação subtil e minucioso, uma superabundância de vozes sagradas segredando-lhe aos ouvidos e uma disciplina do cepticismo e da frieza, num cruzamento que se realiza sob um humor quase desapiedado. O próprio V. S. Naipaul é um outro e flagrante exemplo dessa ligação de fontes que, num escritor talentoso, abre caminhos que raramente são negligenciáveis.

Em segundo lugar, o romance que aqui quero mencionar é um grande romance, no sentido, desde logo, da sua extensão: A Suitable Boy, Um Bom Partido na tradução portuguesa, em 3 volumes, é uma daquelas sagas familiares que precisamos de tempo, muito tempo, para ler, habituando-nos a personagens com as quais passamos a conviver num registo quase quotidiano, cujas qualidades e defeitos principiamos a conhecer na sua consistência, cujos rumos pessoais e laços inter-pessoais seguimos com gosto ou tristeza, surpreendendo-nos ou lamentando-os.

Nestas quatro famílias, os Mehra, os Kapoor, os Khan e os Chatterji, revelam-se protagonistas que reflectem a luta entre uma Índia antiga, tradicional, eterna, nas suas crenças e nas suas estratégias de manutenção de privilégios, e uma Índia jovem, em choque com um sistema de castas que se impõe como um destino. Lata, precisamente, é uma jovem que vai sendo desenhada nos seus contornos dilemáticos, que não poderíamos reduzir, senão abusivamente, à «rebeldia»: na verdade, é sob o signo de um amor que não coincide com as conveniências nem com a decisão familiar previamente negociada, que nos apercebemos da sua fragilidade e da sua inteligência, das suas hesitações e escolhas, sempre entre forças contrárias, igualmente avassaladoras.

Desde a dedicatória que este romance, bebendo nos modelos dos mestres, os refaz, contudo, com uma espantosa originalidade. E se a dedicatória pode ser um bom exemplo, então não resisto a citá-la:

«UMA PALAVRA DE AGRADECIMENTO

A todos quantos de mim são credores
De inúmeras dívidas onerosas:
Vós, musas minhas, cruéis e bondosas;
Meus bons pais, que mil zangas e humores
Sem queixas me sofrestes, não esqueci;
Tribunos mortos, cujas orações
Pilhei para compor minhas libações;
Todos vós, cujas mentes espremi
Sem dó, porque do tormento refém;
Tu, alma tonta, que com parco quinhão
Te bastaste para urdir esta ficção;
E tu, leitor, donde todo o lucro vem:
Comprai-me antes que o siso prevaleça,
Vos mirre a bolsa e o pulso desfaleça.»

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CONSTANTINO CAVAFY: ÍTACA



«Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Cíclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseídon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Cíclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseídon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
Terás compreendido o sentido de Ítaca




Tradução de Jorge de Sena