sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

UMA MENSAGEM BREVE

Aos meus leitores, os desejos sentidos de um bom Natal e de que, no conjunto das suas prendas (penso logo em prendas: que fútil sou!, querem ver que nem falo de «paz» como as misses...?), venham alguns livros por que possam apaixonar-se.
Conto muito com uns quantos.

Logo volto.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

FRADIQUE MENDES: O INEFÁVEL PACHECO

«Pacheco não deu ao seu País nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque «tinha um imenso talento». Todavia, meu caro sr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente aclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visível! O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente ele atravessou a vida sobre eminências sociais: deputado, director-geral, ministro, governador de bancos, conselheiro de Estado, par, presidente de Conselho - Pacheco tudo foi, tudo teve, neste País que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado do seu imenso talento. Mas nunca, nestas situações, por proveito seu ou urgência do Estado, Pacheco teve necessidade de deixar sair, para se afirmar e operar fora, aquele imenso talento que lá dentro o sufocava. Quando os amigos, os partidos, os jornais, as repartições, os corpos colectivos, a massa compacta da Nação murmurando em redor de Pacheco «que imenso talento!» o convidavam a alargar o seu domínio e a sua fortuna - Pacheco sorria, baixando os olhos sérios por trás dos óculos dourados, e seguia, sempre para cima, sempre para mais alto, através das instituições, com o seu imenso talento aferrolhado dentro do crânio como no cofre de um avaro. E esta reserva, este sorrir, este lampejar dos óculos, bastavam ao País que neles sentia e saboreava a resplandecente evidência do talento de Pacheco

Eça de Queirós, A Correspondência de Fradique Mendes [VIII]

EÇA DE QUEIRÓS: A CAPITAL



Às vezes, pergunto-me se não foi com Eça de Queirós que aprendi a captar o cómico das coisas. Sim, eu sei, a génese do meu sentido de humor, valha ele o que valer, tem uma impagável dívida que contraí com o meu avô, o meu tio, o meu irmão, o meu primo. (Deve ser um humor excessivamente masculino, este que só parece ter como referência os homens da minha família); mas, em última análise, avô, tio e primo formaram-se na leitura de Eça de Queirós, citavam-no abundantemente, lembravam e imitavam falas como: «Homem, deixe-me olhar para si, que você é um monstro» (Alves & Cia.), ou: «Para ver as igrejas, Titi, para ver as igrejas» (que é a justificação apressada do hediondo Rapozão, quando, em A Relíquia, cai na asneira de dizer à tia, rica e beata, que gostaria de ir a Paris, esse «antro de perdição!», como exclama imediatamente a velha senhora).

É difícil, depois de o ler, não ficarmos a falar e a escrever como Eça, com a sua ironia incisiva e cáustica, sintetizada em frases breves, implacáveis, sob a aparência inocente e anódina que lhe advém dos diminutivos e das expressões típicas de velhas, padres e arrivistas lusos. É difícil que não nos deixemos penetrar pelo seu veneno saudável. É difícil que, a prazo, a sua visão do ridículo da hipocrisia não se aproprie dos nossos próprios olhos.

Todo o Eça me foi importante. O livro que ainda hoje prefiro é o mais queirosiano da sua obra; não me faz a menor confusão que, em outro sentido, secreta e objectivamente, possa até ser o menos queirosiano de todos. Falo, evidentemente de A Capital: se este romance, publicado postumamente, teve já demasiada intervenção de algum descendente (que o terá rescrito, mais do que revisto), a verdade é que o que ficou e aí está é, no espírito e na letra, puro Eça de Queirós.

Não deixa de ser tocante a história do «rapaz magro, de olhos grandes e melancólicos» e um sugestivo velho «paletó cor de pinhão», que, acreditando na poesia que lhe transborda da alma, vem à capital em busca da oportunidade de publicar a sua obra. A catadupa de gente que o despreza, ou que o quer converter a algo, ou que deseja simplesmente aproveitar-se da sua ingenuidade e do seu sonho, ou que o ama, ou que o ridiculariza, ou que o expõe, ou que o agride, a sombra de um amor ideal e impossível, a descrição de certos hotéis ou de certos restaurantes, infectos e absurdos, ou das situações em que os equívocos se reproduzem como coelhos, fazem de A Capital um romance em que o trágico e o cómico genialmente se unem naquela substância perante a qual nunca sabemos se havemos de chorar ou de rir.

Detenham-se, por exemplo, na narração de um jantar que se irá preparar às custas de Arturzinho, para que este se dê a conhecer (e à sua obra) à sociedade ilustre e cultivada de Lisboa. «Aperfeiçoavam o plano primitivo: além da leitura, poderia haver música.; seria necessário convidar o Sarrotini; para fazer um brinde à imprensa, convida-se o Carvalhosa! E Artur via elevar-se pouco a pouco aquela festa, como um grande troféu que se orna. Melchior acabou por afirmar que a coisa "havia de dar brado no país!"»; e vejam, com um horror movido a gargalhadas, o desequilíbrio em que se vai fazendo esta festa até um certo fim, que eu não deverei - por muito que me apeteça - aqui revelar.

Regresso sempre a Eça de Queirós. O mundo dá voltas, descubro - felizmente - autores novos (que são muitas vezes, por paradoxo, autores bem antigos), sigo variados rumos, rio-me de outras comédias e de outros comediantes: mas, inevitavelmente, retorno a Eça. Leio a meu filho umas páginas de Alves & Cia., um pouco espantado de que ele não ria como eu, retomo pela quinta vez a leitura integral de Os Maias, vasculho as cartas mais divertidas de Fradique Mendes. E folheio capítulos de A Capital. Convivo com o Ega, o Alves, o Rapozão, o Fradique, a viúva Pacheco (num texto absolutamente extraordinário). Busco esse inolvidável Pacheco, homem dado por brilhante, em Portugal inteiro, embora nunca tivesse escrito ou dito algo que se aproveitasse, porque, avaro, aferrolhava no crânio, como num cofre, as suas melhores ideias e as mais interessantes frases. E, pelos olhos do autor, vejo o Portugal que é essencialmente o mesmo de sempre. O mesmo de sempre.

domingo, 19 de dezembro de 2010

FRIEDRICH NIETZSCHE: A GAIA CIÊNCIA


Agora que tenho andado sem leituras novas, acabando, simultaneamente, vários livros começados em diversas fases, interrogo-me sobre qual o livro de que gostaria de falar no blogue. Existe algum que me tenha marcado inesquecivelmente e ainda aqui não referisse? A pergunta, como perceberam, é uma ironia de efeito retórico. Existem inúmeros, claro. Aliás, deixem-me já tomar nota de alguns, para me lembrar mais tarde: A Montanha Mágica, de Thomas Mann. O Idiota, de Dostoievski. Os fabulosos: Canção de Amor de Mr. Prufrock, e: Terra Devastada, ambos de T. S. Eliot. E o Quijote? Ou o bizarro Almas Mortas, norteado por uma ideia absolutamente impagável?

Deixemo-nos de divagações. Duas razões me põem no trilho de um certo livro cuja leitura resgato hoje à memória: o facto de Beatrix citar amiúde esse autor; e o facto de me ter lembrado dele no decurso da discussão com Francisco (que aqui já também mencionei). Começo então por dizer de que autor se trata: Friedrich Nietzsche. Livros seus poderiam ser vários, de entre aquela série de Obras Escolhidas, numa tradução cuidada, que a Relógio D'Água editou. Mas decido-me: nenhum Nietzsche me influenciou como o Nietzsche de A Gaia Ciência.

Não que todos os meus conflitos com o filólogo-filósofo estejam definitivamente sanados. Não poderiam está-lo, uma vez que há poucos pontos comuns entre nós dois (perdoem-me a ousadia da comparação): ele é um filósofo e um escritor de génio e eu sou um leitor limitado; ele leva a sério a plenitude do pensar por si próprio, enquanto, pelo contrário, algo do espírito de rebanho faz parte da minha condição: Nietzsche, a despeito dos factores históricos e culturais que terão determinado o seu pensar, pensa sempre autónoma e indomavelmente. Já eu estou demasiado preso ao que a minha História e o meu tempo me ensinaram a «dever» pensar.

É Nietzsche que me ensina, aliás, a reconhecer em mim mesmo essa cobardia: «A reprovação da consciência», escreve ele, «mesmo entre os mais conscienciosos, é fraca em comparação com o seguinte argumento: "Isto ou aquilo é contrário aos bons costumes da tua sociedade". O olhar frio, a boca contraída da parte daqueles entre os quais e para os quais a pessoa foi educada, eis o que mesmo o mais forte teme. Que é que ele verdadeiramente receia? O isolamento! Este argumento é capaz de abalar mesmo os melhores argumentos para uma pessoa ou para uma causa. Assim se exprime, em nós, o instinto gregário.» [A Gaia Ciência, # 50]. Mas, talvez precisamente por causa da auto-crítica a que ele me conduz, detecto, nos seus textos, a respiração oposta, a inteligência contrária ao «instinto gregário», a liberdade e a coragem que chamam por mim, comigo se confrontam e nunca me deixam dormir.

A Gaia Ciência é uma poesia singular: escrito em parágrafos, tão ao jeito de Nietzsche, alguns brevíssimos, outros relativamente longos, e naquele tom religiosamente ateu, aforístico e arrogante que o caracterizam, este livro compraz-se com o paradoxo e a constante deslocação de ângulo (frequentemente: inversão) relativamente àquele em que assenta o hábito e o senso comum. É fascinante seguir a lucidez e a habilidade subtis de uma tal operação de mudar de enfoque, da procura de um olhar fresco e sem lastro, desmistificador, irónico e perigoso. É uma poesia (insisto: muito mais do que uma filosofia) à procura da alegria do saber: uma alegria que nos parece impiedosa e injusta, porque é sempre a assunção da vitalidade e da força que empurram «continuamente para longe de nós algo que quer morrer».

A Gaia Ciência é - foi sempre, para mim - o livro de um inimigo. Um inimigo fortíssimo e sem o qual teria ficado mais pobre. Não é qualquer um que consegue ser tamanho e tão digno inimigo: competente e completo. Digo-o com o reconhecimento e o carinho que lhe são devidos. Gosto muito dos meus amigos. Todavia, sei que - raramente, mas às vezes - surgem inimizades que fazem mais pela nossa evolução do que algumas amizades.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

CAMILO PESSANHA: VIOLONCELO

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.
Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...
Trémulos astros,
Soidões lacustres...
_ Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
_ Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha, in Clepsidra

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

E QUANTO ÀS OBRAS MAGNÍFICAS QUE NADA TÊM A DIZER?



Numa demorada discussão com o meu amigo Francisco, hoje, apercebi-me de que nos divide a importância da «mensagem».

Francisco exige mensagem à arte. Considera insatisfatória uma obra que, mesmo tocando-lhe nas vísceras e nos sentimentos, não lhe fale igualmente à razão. A tudo tem de subjazer uma intenção - e o trabalho do receptor é sempre um trabalho hermenêutico, o desvendamento de uma narrativa intrínseca. Só faz sentido, para o meu amigo, o que é verbalizável. Aquilo de que se dirá: «Percebo o que queres dizer, autor».

Meu amigo entende que o objecto de arte que não contém um discurso a revelar é um objecto de arte menor e pobre. A Miró, Francisco preferirá sempre o Picasso da Guernica.

Do meu ponto de vista, pelo contrário, é menor & pobre uma arte que se deixe resumir a um discurso (ético, político, religioso, o que seja). A arte, mesmo quando contém uma concepção sobre o real no seu ventre, é arte na medida em que a supera, em que se torna essencial para além dessa concepção.

Francisco pede-me exemplos; digo-lhe: a expressão artística de Nietzsche é sempre maravilhosa, até quando, na minha perspectiva, está errada. Consigo fruir, fascinado, o movimento do seu pensar, mesmo nos momentos - frequentes - em que filosófica ou ideologicamente não estou de acordo com o conteúdo desse pensar. A poesia de Camilo Pessanha, que me prende e me deslumbra, não fala à minha razão. Interessa-me muito pouco semanticamente. Ligo-me a ela pela sua sonoridade, pela transformação das palavras em pura música.

E, finalmente, os surrealistas nunca me falaram à razão: falavam-me à desrazão. Nunca me interessaram pelo propósito, mas pelo despropósito. Até eles tinham um programa revolucionário? Quando começaram a tê-lo, começaram a escangalhar-se...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

AXLE MUNSHINE, O VAGABUNDO DOS LIMBOS



A Banda Desenhada sempre teve um lugar estranho e um estatuto ambíguo. Consumida, quase como provocação, pelos jovens da minha geração, dificilmente poderia ter importância no elenco da Arte séria. Era um pouco como o que o graffiti hoje é: uma forma de expressão irreverente, que os adultos teriam de odiar e desprezar e de que os mais novos se serviriam necessariamente como arma para desafiar a lógica e a estética dos pais.

Pergunto-me em que se tornará a BD - ou em que se tornou -, agora que já nem os jovens se interessam por ela, considerada obsoleta num mundo onde tudo se move tridimensionalmente. Provavelmente, um reduto de maluquinhos, fanáticos, fetichistas - ou (coincidente ou alternativamente) de académicos que fazem do Batman ou do Homem-Aranha objectos de dissertações carregadas de minúcias hermenêuticas.

Todavia, seria injusto que, neste blogue, longe em geral da Banda Desenhada mas sobre leituras (e não se «lê» uma BD, tanto quanto se «vê»?) não falasse acerca dessa arte que alimentou as minhas tardes intermináveis, me fez passar por mudanças bruscas de emoção, das mais subtis - ainda a ser compreendidas e treinadas pelo puto emocionalmente ignorante que eu era - às mais óbvias; povoou a minha imaginação e, sem dúvida, a ampliou, lhe deu recursos insuspeitados, lhe abriu corredores numerosos do espaço-tempo, lhe possibilitou sinapses improváveis.

Poderia falar de Tintim, o meu primeiro herói; ou de Corto Maltese, o meu último herói, e aquele em cujo grafismo despojado e sombrio mais trabalho me deu penetrar. Mas não. Acabarei por falar de Axle Munshine. Por causa das personagens; da ilimitação de mundos por onde se passeia o protagonista, em busca de uma quimera; por causa do desenho em que esses mundos alternativos nos são mostrados: e por causa da ideia que move as aventuras do «vagabundo dos limbos»: o que é o sonho senão indício de um universo alternativo, uma realidade pararela? E, posto este pressuposto, que sucede quando, no seu mundo, um homem [Axle] sonha uma mulher [Chimeer] cuja essência o ilumina e transtorna; que ele sabe que não pode deixar de existir, mas existe certamente alhures? Que sucede quando a pessoa a que nos sentimos mais intimamente ligados pertence a uma realidade de que estamos para sempre desligados, a que não acedemos nem provavelmente acederemos, um universo outro e para sempre outro?

Axle Munshine foi meu guia. Se não na vida prática, pelo menos no domínio da fantasia. Não o esqueci. Os seus álbuns desapareceram no tempo. Todos. Meu filho, a quem procurei mostrar alguns, numa biblioteca, não se interessou por esta longa odisseia intergaláctica em demanda do impossível. Ele é de uma geração para a qual os impossíveis não merecem demasiada atenção. Não sou Axle Munshine. Seria incapaz da sua insensatez. Mas, em teoria, não invejo a sensatez de meu filho.