segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O QUE AMO EM E. DICKINSON

Convencionou-se que dispensar maiúsculas é rebelde e irreverente; não conheço nada mais «à moda», mais fácil, mais banal. Parece-me particularmente revolucionário, pelo contrário, o emprego de maiúsculas por Emily Dickinson, que carrega de palavras importantes e significativas os versos, a cada passo, obrigando a que nos detenhamos na aura aristocrática que a maiúscula confere.

Toca-me a necessidade que tem de quebrar as frases com os seus travessões, aqueles traços que interrompem blocos de sentido, para que não atravessemos demasiado precipitadamente para o bloco seguinte.

Toca-me que se pressinta uma visão de perfeita intensidade sob cada um dos poemas que escreveu: a compreensão funda de uma ideia que habita outro mundo, não o mundo das palavras mas o de certos imensos e esplendorosos silêncios, embora nas palavras tenha Emily de se exprimir e comunicar.

Toca-me a ausência de um sistema: cada poema é único e só. Nasce, clareia e dissolve-se. E assim deve ser, para que haja espaço para um outro poema - novo e solitário momento único, que não subsiste para além de si nem se relaciona com nada para lá de si.

Toca-me que um poema seu seja tão difícil quando a ele chegamos e iniciamos a leitura - e tão simples e intuitivo quando o lemos e dele partimos, plenos daquilo em que ele nos transformou.

E gosto da confusão: da ideia de que tudo sobrou em cadernos que ela foi preenchendo com muitas centenas de poemas, os quais não podemos catalogar nem organizar segundo critério nenhum, uma vez que o caos reina nesses cadernos e nem uma elementar sucessão temporal se deixa aí determinar.

sábado, 27 de novembro de 2010

EMILY DICKINSON: POEMA 249 [1861]


Wild Nights - Wild Nights!
Were I with thee
Wild Nights should be
Our luxury!

Futile - the Winds -
To a Heart in port -
Done with the Compass -
Done with the Chart!

Rowing in Eden -
Ah, the Sea!
Might I but moor - Tonight -
In Thee!
***
Ou, na tradução discutível (como qualquer uma seria) de Nuno Júdice:
-
Noites Selvagens - Noites Selvagens!
Estivesse eu contigo
As Noites Selvagens seriam
A nossa luxúria!
-
Fúteis - os Ventos -
Para um Coração no porto -
Inúteis as Bússolas -
Inútil o Mapa!
-
Remando no Paraíso -
Ah, o Mar!
Pudesse eu atracar - Esta noite -
Em Ti!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

CLARICE LISPECTOR: A PAIXÃO SEGUNDO G.H.


Tantas razões podem iniciar a aproximação a um autor, a uma obra que desconhecíamos. É um período exaltante, aquele em que antecipamos uma certa descoberta: falaram-nos do escritor, ou da obra, ou de um seu romance em particular; criámos uma figura da sua escrita: durante esse tempo, talvez não estejamos obcecados, mas um artigo sobre ele, qualquer coisa que ouvimos, a alguém, acerca do que escreveu, vêm acutilar-nos a ansiedade e o desejo, arrepiam-nos, reafirmam a convicção de que temos de o procurar, precisam o grau de urgência dessa descoberta a fazer.

Sucede-me frequentemente. Às vezes, todavia, por uma certa conjugação de factores, adiamos o encontro. Não encontramos a obra, ou - sim, pode até ser isso - temos algum medo do desapontamento. E sentimo-nos culpados, como se fugíssemos ao destino, a um sentido maior. A um encontro que nos permitiria, quem sabe, encontrarmo-nos também connosco.

Com Clarice Lispector foi assim: houve um livro dela que não consegui ler. Está algures entre outros, e um dia procurá-lo-ei convictamente. Mas, muito tempo volvido sobre essa experiência frustrada - ou esse prometido encontro em que passámos ao largo -, li certo post, que me agitou. Citava-se aí uma verdadeira declaração de amor que Clarice fazia à língua portuguesa. Outras referências se acumulavam e me surpreendiam. Não é verdade que, quando começamos a reparar em algo, tudo parece, repentinamente, falar-nos disso? Pois bem, em redor de mim, cada vez mais, tudo eram sinais de Clarice, apontamentos de e sobre Clarice, a voz de Clarice, a sombra de Clarice.

Até uma gigantesca biografia, publicada, entretanto, por um norte-americano, e que por todo o lado se comentava: não a li, mas folheava-a irresistivelmente nas livrarias, como um vagabundo fumando beatas do chão: a relação complexa com sua mãe, judia perseguida pelo nazismo, o Brasil como o refúgio da família, a psicanálise da escrita, a paixão pela vida. Já prefigurava um novo encontro com Clarice: feito, é certo, de indecisão e hesitação, medo de me decepcionar, falta de coragem.

Leio A Paixão Segundo G. H. E o texto encantatório remete-me inesperadamente para A Nuvem do Não-Saber (que é um livro místico, de autor anónimo, inglês, em cujo prefácio sublinho: «um dos mais belos tratados espirituais de todo o século XIV»); não é uma comparação artificial, nem fútil, nem para armar. A cada passo, o romance de Clarice evoca, em mim, A Nuvem do Não-Saber. E aquelas palavras, que o classificam, eram as palavras que procurava, porque o romance de Clarice é um dos mais belos tratados espirituais jamais escritos em língua portuguesa.

Quem era a narradora e protagonista, antes de uma certa transformação? Esta a pergunta que conduz as primeiras páginas, os primeiros capítulos, como se de perceber o que se era, e o que se perdeu, dependa perceber o mundo em que se entrou, a desorganização em que se está, e o que se ganhou. Se é que "perder" ou "ganhar" fazem qualquer sentido, perante esta mudança em direcção ao que, por vezes, se designa (Clarice designa) por horror: sem dúvida o desamparo e o desnorte, a "desorganização", o sublime em que sentimos saudades do ser estável que fomos, e do que nos era essencial e deixou de ser:

«assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira perna me assusta [... ] era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar».

É um maravilhoso tratado espiritual: e, como tal, não o lemos (e estou ainda no princípio) sem que, de algum modo, uma interrogação nos não domine, as nossas prioridades se não redefinam ou, pelo menos, não sofram um estranho e assutador abalo.

domingo, 21 de novembro de 2010

BORGES, LEITOR DE DANTE

Reproduzo esta pintura belíssima, que pedi emprestada ao blogue de Bea7rix Kiddo (o magnífico Tenho Estado a Ler Whitman), porque me parece a ilustração adequada ao contexto de uma conversa que ela e Morcegos no Sótão travaram, então, e no mesmo blogue, a propósito de Dante. Pensei meter-me nessa conversa, comentando, por minha vez. Mas preferi não me tornar intruso.

A questão aparecia por causa de A Divina Comédia. Nenhum dos dois a tinha lido, ambos desejavam fazê-lo. Morcegos no Sótão preocupava-se, entretanto, com o italiano que deveria dominar para se abalançar a uma tal leitura. Bea7rix recordava a premiadíssima tradução de Vasco Graça Moura - que, porém, se encontra esgotada. Mas, com certa ironia, propunha-se aprender italiano depois de ter lido A Divina Comédia.

Ocorreu-me uma pequena conferência em que Borges nos apresenta a sua própria leitura, fascinante, do poema de Dante. [Se não se trata de uma conferência, seria uma entrevista entre várias que lhe haviam sido feitas não me lembro já por quem. Ainda procurei por aí, na minha estante, entre livros que julgo ter adquirido na mesma altura. Não o encontrei, pelo que terei de a reconstituir de memória].
*
O que Jorge Luís Borges conta é como, na sua juventude, aprendeu o italiano precisamente com A Divina Comédia. Possuía, obviamente, uma edição bilingue: mas, tanto quanto me parece, as traduções do poema são, na sua maioria, bilingues. Borges ia de eléctrico, a cegueira ainda o não invadira, e aproveitava um percurso demorado para mergulhar no texto. Começava sempre pela versão original. Lia um primeiro conjunto de versos, tentando apreender-lhes o sentido, o que, curiosamente, conseguia fazer com mais facilidade do que temera. Afinal, o italiano - e mesmo o italiano de Dante; não sei, aliás, se Borges não diz: principalmente o italiano de Dante - não é tão irredutivelmente diferente do castelhano (ou do português), que não seja possível retermos uma ideia, uma significação. Então, lia a tradução; depois, porventura, voltaria aos mesmos versos anteriores, em italiano, para confirmar, para consolidar.
*
A seguir, lia os seguintes, e assim progredia. Este era o seu método. E percebeu que, ao fim de algum tempo - ou seja, ao cabo de umas quantas viagens -, o seu italiano se aperfeiçoara o suficiente para prescindir da tradução, a não ser pontualmente.
*
Pessoalmente, gosto muito da tradução feita por Sophia. É muito cuidada, muito bonita. Mas não me lembro de que seja bilingue.
A de Vasco Graça Moura, que li mais tarde - e emprestei, e nunca mais recuperei... - é bilingue. Está esgotada? Raios!

sábado, 20 de novembro de 2010

É A MINHA VEZ DE JOGAR


Recebi um dardo de B. Kiddo.

Presumo que deverei enviar os meus próprios dardos-escolha de blogues altamente recomendáveis.

Levei tempo a decidir-me.

Por um lado, porque não deverei devolver dardos. A ideia, como já li algures, é mais «passa a outro e não ao mesmo».

Por outro lado, porque vejo muitos blogues de grande qualidade.

De maneira que fico por 4. Unicamente. Justificação: são quatro descobertas que não dispenso. Dois deles, que eu saiba, estão fora desta rede de blogues que se conhecem unzaozoutros, se seguem e se amam unzaozoutros. E nem têm especialmente que ver com literaturas: apenas com bom gosto.
Ei-los:

MARGARIDA VALE DE GATO: MULHER AO MAR



Há várias maneiras de um livro ser ou devir invisível. Perdoem-me a insistência, como se me tivesse especializado no tema da «literatura invisível» ou, mais prosaicamente ainda, como se estivesse com uma tecla emperrada, marcando continua e obcecadamente um único carácter.

Mas para além de livros que desaparecem no tempo, e as editoras esqueceram de vez, outros existem que, apesar de recentes, no entanto não vingam. E evaporam-se. Não deixam sequer um rasto, a pegada a que teriam direito, e a que nós, leitores, temos direito.

Falo de um, que foi publicado em Abril de 2010; teve uma segunda edição de 300 exemplares. (Que é isso? Uma insignificância...). A seguir, desapareceu. Haviam-me falado acerca dele (e sou um ouvinte muito atento a esses rumores), não o encontrei, tive de o pedir, esperar, tornar a pedir, esperar ainda mais. Tenho-o por fim nas mãos - é um dos 300 exemplares da 2ª edição de Mulher Ao Mar, de Margarida Vale de Gato, a preciosa tradutora de vários autores ingleses. E não sei se de outros.

Gonçalo M. Tavares é um génio. A sua poesia é mesmo extra-terrestre. Visita-nos, vinda de um planeta desconhecido. Viagem à Índia é um livro maior. Mas o que quer que faça tem circulação imediata, exibição delirante, infindáveis comentários de sumidades que não há forma de se sumirem. E é um ganho que assim seja. Mas, na minha elementar opinião, Margarida Vale de Gato é uma poeta absolutamente extraordinária. (Emprego, para ela, o termo "poeta" deliberadamente, com uma vénia à minha amiga Elisa, que reserva "poetiza" para as poetas pequeninas, que se dedicam ao tricot das palavras). De modo que algo de injusto se insinua neste seu veloz regresso à invisibilidade. Vens do nada e ao nada voltarás!Se não injusto para a autora, que acredito que se não preocupe com tal absorção pelo esquecimento prematuro, sem dúvida para os leitores que a não descobrirão.

Este livro de umas setenta e tal páginas arranca-nos ao sossego e atira connosco para pinturas que principiam por nos enganar: sob a paciência e a virtude femininas, que a sociedade consagra, o que inesperadamente se abre, em cada um dos seus poemas, é a cortina para o sublime espectáculo dos segredos mais ocultos da mulher: a raiva e o desejo - mas isso não é novo, temo-lo vindo a saber, cada vez mais, nas últimas décadas -, a loucura do ciúme ou da culpa, a transgressão assumida, a hipocondria, o mero e tremendo ressabiamento. A sombra de Sylvia Plath, Emily Dickinson, Christina Rossetti ou Ana Karenina (que será, para todo o sempre, a sombra dessa luta contra os homens que as dominaram, ou desprezaram, ou incompreenderam até à morte...) pressente-se em todas as páginas.

Esta segunda edição acrescenta um pósfacio de Hélia Correia: as palavras com que fizera a apresentação do livro, no seu lançamento, em 25 de Abril; pretexto para equacionar a poesia de Margarida Vale de Gato como uma revolução. Relendo o texto de Hélia Correia, detenho-me nos meus sublinhados, «um rompimento assim a si mesmo se espanta. Perde as margens», «é a infiltração de uma desordem, de um descaramento - essa mulher de Rilke que bruscamente afasta as mãos do rosto de maneira que ele vai colado nas suas palmas, deixando, por momentos, o nada em seu lugar»; «A que com elas [com essas mulheres] fala alcançou já o outro lado do poema, aquele em que pode dizer o que quiser, como quiser, com as palavras que quiser». É talvez preciso uma mulher, e uma mulher como Hélia Correia, para compreender esta poesia «do outro lado», já sem proibições, que infiltra uma «desordem» e um «descaramento».

Toca-me particularmente, em Mulher ao Mar, a gramática revolucionária e ululante, como se as quebras de uma desordem interior, vivida por dentro de uma alma fragmentária, carecessem de se exprimir sob a forma de rupturas ou desvios sintácticos. Como se reconhecesse na poesia "rap", ou nos poemas de certos cantos alentejanos, a forma irmã, expressão de uma outra respiração.
Uso literalmente, aqui, o termo "respiração": se o poema, como a canção, exige "ser dito", ser entoado em voz alta, então torna-se evidente que a respiração monocórdica, compassada, com pausas previstas, a que recorremos aquando das leituras de outros textos (nas leituras consideradas "bem feitas"), de nada nos serve aqui. Algo de uma asma plena de energia tem também de se infiltrar para que, ao dizer estes poemas, nos reecontremos com o seu negro sentido, nas asperezas do entrecortado, das pontes destruídas, das frases rompidas. Das vírgulas inexistentes, ou cortanto inesperada e provocadoramente a fluência. Pensando bem, não espanta que o tivessem suprimido. Toda a revolução, lembra Hélia Correia, tende a integrar-se: apomos-lhes, a prazo, «formas sossegadas», «uma assembleia, uma constituição, um modelo europeu». É o caso do 25 de Abril. Ou, então, não há formas sossegadas que se lhes aponham e as solucionem. Não há reconciliação. Como o livro de MVG. Que fazer? Ainda para mais ninguém lhe pega? Delete!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O TRIO

«Henriqueta mastigava devagar, apreciando o porco. O seu corpinho seco punha naquela mesa a única nota de uma vida cheia de ocupações correntes, ligadas umas às outras por horas bem saboreadas, más e boas. Ângelo era animado e com um dito a propósito para tudo. Fazia sair as conversas dos cantos mais refolhados da insignificância e do silêncio. Pegava nos assuntos cautelosamente, como no rabinho de um rato; depois deixava espernear o rato, arredado e radiante. Por esse lado parecia-se muito com a irmã; mas separava-os um mau humor corajoso e esfuziante em Henriqueta, um pouco enfastiado e sorna no solteirão. Sentados à mesa, frente a frente, eram como dois primeiros violinos afinados em contracanto, de uma virtuosidade prodigiosa. Januário vibrava de quando em quando à cabeceira a sua arcada de basso, decisiva nas mudanças de andamento

Mau Tempo no Canal