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terça-feira, 20 de agosto de 2013

DANTE & CLARA PINTO CORREIA


Clara Pinto Correia produziu um livro cujo título é No Meio do Nosso Caminho.
Percebe-se, portanto, a piscadela de olho aos leitores cultos, que aliás confirmo numa badana do livro:

«"No meio do nosso caminho", como ficou escrito desde que Dante escreveu a Divina Comédia, é a passagem pelo purgatório.»

Lamento imenso ter de corrigir. Na verdade, como sabem todos quantos leram a Divina Comédia, a afirmação está errada. Esta metáfora de um verso inicial da obra nada tem rigorosamente que ver com o purgatório.

Pelos vistos, em matéria de cultura literária não existem apenas cultos e incultos.
Há um perigosíssimo "meio caminho", de que resultam tremendos dislates. [Claro que, não existindo um grau absoluto do ser-se culto, a meio caminho estaremos, num certo sentido, todos nós. Mas não é à aprendizagem e ao aperfeiçoamento que me refiro. É ao meio caminho do "dar-se ares"; do fingimento e da aparência. De fazer crer que se leu o que se não leu, se viu o que se não viu, se ouviu o que se não ouviu. De não ter efectivamente experimentado algo, não resistindo a exibir as suas marcas, com a familiaridade dos tolos.]

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O QUE TRANSMITE UM LIVRO? [UMA CITAÇÃO]

Esta história provém da literatura taoísta; Oakeshott refere-se-lhe, em nota de rodapé, num dos seus livros. É aí que, por sua vez, Andrew Sullivan a vai pescar. Longo caminho no tempo e no espaço percorreu a fala do fazedor de rodas para poder acertar-me. Cito, paradoxalmente, num blogue de amor aos livros, este discurso que os mais precipitados poderiam reduzir a uma crítica de todos os livros:

«Falando enquanto fazedor de rodas, olho para o assunto da seguinte maneira; sempre que estou a fazer uma roda, se bato devagar de mais então vai longe mas não tem firmeza; se bato demasiado depressa, então tem firmeza mas não vai profundamente. O ritmo certo, nem demasiado lento nem demasiado rápido, não pode chegar à mão a menos que venha do coração. É algo que não se pode exprimir com palavras; há nisto uma arte que nem ao meu filho consigo explicar. É por isso que me é impossível que o deixe continuar o meu trabalho, e cá estou com mais de setenta anos ainda a fazer rodas. Na minha opinião, o mesmo deve ter acontecido com os homens antigos. Tudo o que valia a pena transmitir morreu com eles; o resto puseram-no em livros.»
Andrew Sullivan, A Alma Conservadora

domingo, 8 de agosto de 2010

UMA CITAÇÃO QUE VALE A PENA


«Quando comparamos a nossa ridícula existência com as existências literárias que fomos acumulando na estante, tudo se torna incomparavelmente mais insignificante. Mais triste. Mais inútil. Porque a grande literatura não nos torna maiores. Torna-nos menores. E torna tudo mais pequeno. Podemos amar a donzela da praxe com devoção e zelo. Vocês conhecem: a Teresa, bonitinha, com apartamento em Telheiras e um Cinquecentto em segunda mão. Mas, honestamente, algum dia amaremos alguém como Dante amou Beatrice? Como o Quixote amou Dulcineia? Como Bendrix amou Sarah sob um céu carregado de demência e morte? Nada na vida é como nos livros. Não chove como na Londres de Larkin. A comida não sabe tão bem como nos romances de Hemingway. Os melhores martinis que tomei foram na prosa de Fitzgerald. Nos meses de verão, Veneza fede - mas nunca na literatura de Mann, Calvino ou Brodsky».

João Pereira Coutinho, Vida Independente

segunda-feira, 26 de julho de 2010

MATAR UMA COTOVIA: RASCUNHOS DE LEITURA



1
O engenho criativo de Harper Lee é muito claro: começa por nos expor um mistério verdadeiramente temível para aquelas crianças (o mistério de Boo Radley, preso há muitos anos em casa dos pais e do irmão, vivo ainda, segundo certas versões, morto já, de acordo com outras, que se mantém ao longo da obra toda e encontrará o seu lugar máximo no desfecho da narrativa); mas, depois, parece afastar-se desse núcleo; quase como se o esquecesse: vai-se ocupando de outros interesses e de outras brincadeiras dos miúdos; com o tempo de aulas, mais os equívocos, cómicos, à volta da chegada, à terra, de uma nova professora e suas tentativas ingénuas para aplicar teorias "modernas" àquela realidade tão diferente do que ela esperara encontrar. São episódios que quase nos fazem perder de vista o perigo; como os porquinhos brincando, na serra, enquanto o Lobo não vem. De modo que é sempre de repente, inesperadamente, que as crianças tornam a tropeçar na casa, no mistério - que nunca dali se movera, e sempre estivera esperando por elas...

2
Por outro lado, defendo, cada vez mais, que o território do romance é o do meramente sugerido; o daquilo que o leitor vai adivinhando, à medida que "interpreta" o texto (por que se comporta, realmente, esta personagem assim?, qual o seu segredo: terá inveja, estaria apaixonado por aquele outro, lutava contra a memória do pai...?). Ao contrário de uma obra de filosofia ou psicologia, em que se exige que o autor nos apresente, sem segundos sentidos, a sua teoria, um romance prende-se com a arte da subtileza. E, assim, ao ler, em Por Favor Não Matem a Cotovia, a passagem em que Scout surpreende, à noite, uma conversa entre Atticus (seu pai) e o tio Jack, que conclui o capítulo do seguinte modo:

«Vá lá perceber-se porque é que as pessoas sensatas se transformam completamente em doidos varridos quando surge alguma coisa que envolve um negro. É algo que eu ainda não entendi... Só espero que o Jem e a Scout saibam procurar as respostas em mim e não no que se diz pela cidade. Espero que confiem suficientemente em mim... Jean Louise?
«Em pânico, senti que me tinham descoberto a careca. Meti a cabeça por entre a porta, mostrando-me.
«- Pai?
«- Vai para a cama.
«Corri para o meu quarto e meti-me na cama. [...] Mas nunca consegui descobrir como é que o Atticus sabia que eu estava à escuta e só muitos anos depois é que percebi que o seu objectivo, naquela noite, era mesmo que eu ouvisse cada uma das suas palavras.»,

sinto-me inevitavelmente frustrado. Não sentem, também, esta exposição como uma oportunidade perdida? Uma chance, não explorada, de subtileza?

3
Precisava realmente Harper Lee de nos dizer tudo? Havia necessidade de nos explicitar que só muitos anos mais tarde descobriria que o seu pai "sabia" que ela estava à escuta? Não poderia ter semeado indícios? Deixar que isso fosse uma interpretação possível (porventura não a única possível)?

domingo, 30 de maio de 2010

MÁRIO DE CARVALHO: UMA CITAÇÃO


Mário de Carvalho, autor português cuja ironia aprendi a apreciar num conto para crianças, que lia ao meu filho, O Homem que Engoliu a Lua, afirma, numa entrevista a Carlos Vaz Marques, o que passo a citar:

«Já pensou - e este é mais um tema - que o fascismo e o totalitarismo são capazes de ser naturais? E que a evolução humana se tem feito precisamente contra aquilo que é natural? Que o natural de dois homens que se encontram, como dois índios nas planícies americanas, é matarem-se um ao outro? Que o natural, se calhar, é o canibalismo? Que o natural se calhar é a escravização do outro?»

«O natural», acrescenta C. V. Marques, «é as tartarugas serem atacadas e mortas, como acontece tanto no princípio como fim do seu livro, pelos falcões ou pelas corujas-das-torres

Em confronto com o mito do Bom Selvagem, de Rousseau, para quem é a cultura que degrada a bondade intrínseca da natureza, que excelente proposta de análise e discussão para os meus alunos.