quarta-feira, 21 de junho de 2017

JOHN BANVILLE: OS INFINITOS



É evidente que, se usarmos como medida a maioria do que hoje se escreve, em qualquer língua (não que se não escreva muito bem, também), o estilo de Banville tem um gosto desusado, que, por mim, aprecio veementemente. É a forma, de resto, que eu próprio escolheria (se o talento me chegasse) para um romance da minha autoria: sumptuosa, contida apenas por uma lúcida elegância - a consciência de que bastaria pouco mais para se cair no pecado do excesso e do mau-gosto. Não é propriamente Agustina, porque não há quem se lhe compare; mas também não é Mário Cláudio, que ilustra, do meu ponto de vista, o mencionado pecado do excesso.
As personagens de Banville pensam. Perguntamo-nos, às vezes, se é normal. Escrevo-o sem qualquer intuito irónico. Será que pensamos assim tanto? Que nos interrogamos tão continuamente, no decorrer do quotidiano e ao longo dos nossos actos mais banais (actos como irmos à casa de banho, ouvirmos o ruído da urina na água, puxarmos o papel higiénico, e o autoclismo; ou a rebuscada curiosidade sobre o que realmente veria, da janela de um comboio que passa, o garoto fitando, insistentemente, a janela da casa em que se encontra o sujeito, neste caso Adam filho)? Precisamente: os momentos do dia-a-dia são povoados por essa espécie de vírus, as ideias minúsculas e ridículas, as irrelevantes observações de si para si, os pensamentos errantes e distraídos, que nos tornam fantasmas nas situações, ou parcialmente fantasmas: sempre, ao mesmo tempo, presentes e ausentes, como se uma parte de nós escapasse ao aqui e ao agora; como se o meu eu invisível acompanhasse a presença e a minha acção no mundo, a partir do seu mundo paralelo, com pontos de contacto com as coisas e com os outros, e pontos incontactáveis.

A quinta em que a família se reúne para se despedir de um moribundo - marido, pai, genro - é, também, um lugar povoado por outras presenças invisíveis. Falo dos deuses gregos, os Infinitos, que Banville trata com a mesma seriedade (e a mesma dogmática segurança no que respeita à evidência da sua intervenção no mundo humano) que Homero ou Camões. Que o próprio Hermes seja, aliás, o narrador, torna a construção do olhar que subjaz a este romance, uma obra-prima. Não é o olhar omnisciente de Javé: é uma consciência que conhece bem as pessoas, criaturas suas, e melhor, até, do que estas se conhecem a si próprios; mas não deixa de se surpreender ou desesperar com os seus hábitos e as suas escolhas. Também não é um olhar terno: os humanos, que não são os heróis da Ilíada, este grupo de vulgares mortais, revela, contudo, a estranha - e até certo ponto risível - invulgaridade das suas obsessões, dos seus desejos e dos seus temores. A narração de Hermes mantém-se irónica, frequentemente sarcástica. A piedade não faz parte da sua panóplia. 

A capa, a contracapa e as badanas do livro estão recheadas de mais ou menos curtas e fulgurantes afirmações acerca da obra, transcritas dos mais diversos jornais. Mais do que uma delas sublinham a ideia de que, tratando-se de uma narrativa em cujo centro se encontra a morte, nem por isso devém mórbida ou deprimente. Sei responder a essa perplexidade: por um lado, porque fala do aproximar-se da morte, mas na perspectiva de um imortal, o qual nos confessa a que ponto a mortalidade, oferecendo à vida e aos actos humanos o seu carácter frágil, valioso e intenso, se torna objecto da inveja dos deuses. É um pouco dessa intensidade, aliás, contida em tudo quanto seja passageiro, aquilo a que Zeus aspira de cada vez que se une a uma mulher mortal, que insaciavelmente deseja; por outro lado, porque o moribundo, em coma na sequência de um AVC, cultiva uma inacessível e incomunicável vida interior. No âmago do vegetal a que o velho Adam Godley, o Adam pai, aparentemente se reduziu, efervesce, porém, um mundo de sensações, ideias e memórias aprazíveis. Godley compreende o que se passa em seu redor, melhor do que qualquer um dos outros membros da sua família. Não de uma compreensão ressentida e inconformada, mas sem peso, quase sempre alegre.

Talvez desta leitura subsista, sobretudo, uma forma fina e filosoficamente irónica, leve mas não superficial, de se olhar nos olhos a morte.                           

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