terça-feira, 27 de junho de 2017

MARCEL PROUST: O EPISÓDIO DA MADALENA




Em Proust, a celebérrima passagem da madalena, mencionada, até, por quem nunca haja lido A la Recherche, é, de facto, nos seus pormenores ínfimos (tratando-se precisamente de um texto confeccionado, todo ele, em pormenores), um dos pontos supremos da Literatura.

Retomo-o de memória, certamente com lapsos. Conta o narrador, Marcel, que uma tarde em que chegara, fatigado, a casa, a mãe lhe perguntou se lhe apetecia um chá. Num primeiro momento, respondeu que não. (A sua referência a esta resposta gratuita e dispensável na economia do texto é simplesmente encantadora). Repensando, aceitou. E fora-lhe servido um chá acompanhado de uma madalena.

A madalena de que Marcel nos fala nada tem que ver com o bolo a que os portugueses dão o mesmo nome. É, antes, uma espécie de biscoito, minuciosamente descrito pelo autor, com estrias e em forma de concha. Quando o jovem molha um pedaço da madalena no chá e o saboreia, dá-se imediatamente uma epifania: não unicamente pela intensidade do sabor, em si mesmo, mas porque este traz vagamente incorporado o pressentimento de uma outra dimensão, como uma vivência havida e entretanto olvidada, uma reminiscência magnífica, mas não identificável.

Perplexo com o poder de tal experiência, Marcel repete-a. E, de novo, se opera o milagre. Um prazer que vem tanto de uma veia secreta da memória, como do paladar. Entusiasmado, o jovem decide-se, pois, a iniciar uma paciente análise, provando uma terceira vez, com o fito, quase científico, de surpreender e compreender o pleno sentido daquela sensação, de lhe alcançar as raízes. Percebia, contudo, que, à força da repetição, o efeito se ia tornando mais ténue. Banalizava-se: perdera a magia primordial. Parou, então, de insistir. Como se quisesse distrair-se; afastar do espírito a sua impaciente curiosidade por um momento, de forma a não afugentar a possibilidade de um reencontro. Bem entendido, não podemos forçar-nos a esquecer, seja o que for, por certo tempo. Não somos capazes de uma distracção intencional, encomendada. De modo que esse esforço para desviar a própria atenção devém contraproducente, quase desastroso.

Em dado momento, porém, o reencontro sucede. Ah! Como numa explosão, repentinamente, o sabor revela toda a sua história: Marcel recorda-se então de que, quando visitava a sua tia, na pequena vila em que ela vivia, muitos anos antes, a tia lhe oferecia um pedaço de madalena embebido no seu chá; eis que, de súbito, tudo lhe vem à memória: não apenas a tia, o seu cheiro, a sua cama, o seu quarto, mas toda essa casa em que passava férias na infância, e o jardim envolvente, e as ruas e os passeios e as casas e as lojas da pequena vila, e os seus habitantes, um por um, como génios que houvessem estado encerrados durante séculos no seu espírito, libertados, por fim, por aquele sabor que, uma vez recuperado tanto tempo após, lhes reconstituía, agora, o mundo e a vida.

Vou reler. Está no primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, volume que se chama, na recomendável tradução de Pedro Tamen, Do Lado de Swann.      


quarta-feira, 21 de junho de 2017

JOHN BANVILLE: OS INFINITOS



É evidente que, se usarmos como medida a maioria do que hoje se escreve, em qualquer língua (não que se não escreva muito bem, também), o estilo de Banville tem um gosto desusado, que, por mim, aprecio veementemente. É a forma, de resto, que eu próprio escolheria (se o talento me chegasse) para um romance da minha autoria: sumptuosa, contida apenas por uma lúcida elegância - a consciência de que bastaria pouco mais para se cair no pecado do excesso e do mau-gosto. Não é propriamente Agustina, porque não há quem se lhe compare; mas também não é Mário Cláudio, que ilustra, do meu ponto de vista, o mencionado pecado do excesso.
As personagens de Banville pensam. Perguntamo-nos, às vezes, se é normal. Escrevo-o sem qualquer intuito irónico. Será que pensamos assim tanto? Que nos interrogamos tão continuamente, no decorrer do quotidiano e ao longo dos nossos actos mais banais (actos como irmos à casa de banho, ouvirmos o ruído da urina na água, puxarmos o papel higiénico, e o autoclismo; ou a rebuscada curiosidade sobre o que realmente veria, da janela de um comboio que passa, o garoto fitando, insistentemente, a janela da casa em que se encontra o sujeito, neste caso Adam filho)? Precisamente: os momentos do dia-a-dia são povoados por essa espécie de vírus, as ideias minúsculas e ridículas, as irrelevantes observações de si para si, os pensamentos errantes e distraídos, que nos tornam fantasmas nas situações, ou parcialmente fantasmas: sempre, ao mesmo tempo, presentes e ausentes, como se uma parte de nós escapasse ao aqui e ao agora; como se o meu eu invisível acompanhasse a presença e a minha acção no mundo, a partir do seu mundo paralelo, com pontos de contacto com as coisas e com os outros, e pontos incontactáveis.

A quinta em que a família se reúne para se despedir de um moribundo - marido, pai, genro - é, também, um lugar povoado por outras presenças invisíveis. Falo dos deuses gregos, os Infinitos, que Banville trata com a mesma seriedade (e a mesma dogmática segurança no que respeita à evidência da sua intervenção no mundo humano) que Homero ou Camões. Que o próprio Hermes seja, aliás, o narrador, torna a construção do olhar que subjaz a este romance, uma obra-prima. Não é o olhar omnisciente de Javé: é uma consciência que conhece bem as pessoas, criaturas suas, e melhor, até, do que estas se conhecem a si próprios; mas não deixa de se surpreender ou desesperar com os seus hábitos e as suas escolhas. Também não é um olhar terno: os humanos, que não são os heróis da Ilíada, este grupo de vulgares mortais, revela, contudo, a estranha - e até certo ponto risível - invulgaridade das suas obsessões, dos seus desejos e dos seus temores. A narração de Hermes mantém-se irónica, frequentemente sarcástica. A piedade não faz parte da sua panóplia. 

A capa, a contracapa e as badanas do livro estão recheadas de mais ou menos curtas e fulgurantes afirmações acerca da obra, transcritas dos mais diversos jornais. Mais do que uma delas sublinham a ideia de que, tratando-se de uma narrativa em cujo centro se encontra a morte, nem por isso devém mórbida ou deprimente. Sei responder a essa perplexidade: por um lado, porque fala do aproximar-se da morte, mas na perspectiva de um imortal, o qual nos confessa a que ponto a mortalidade, oferecendo à vida e aos actos humanos o seu carácter frágil, valioso e intenso, se torna objecto da inveja dos deuses. É um pouco dessa intensidade, aliás, contida em tudo quanto seja passageiro, aquilo a que Zeus aspira de cada vez que se une a uma mulher mortal, que insaciavelmente deseja; por outro lado, porque o moribundo, em coma na sequência de um AVC, cultiva uma inacessível e incomunicável vida interior. No âmago do vegetal a que o velho Adam Godley, o Adam pai, aparentemente se reduziu, efervesce, porém, um mundo de sensações, ideias e memórias aprazíveis. Godley compreende o que se passa em seu redor, melhor do que qualquer um dos outros membros da sua família. Não de uma compreensão ressentida e inconformada, mas sem peso, quase sempre alegre.

Talvez desta leitura subsista, sobretudo, uma forma fina e filosoficamente irónica, leve mas não superficial, de se olhar nos olhos a morte.