segunda-feira, 24 de abril de 2017

BRUNO VIEIRA AMARAL: AS PRIMEIRAS COISAS



É mais forte do que eu. Confesso. Mistura de inveja e ressentimento. Confesso. Mas de cada vez que tenho nas mãos um romance premiado em algum concurso literário português, folheio-o sob o impulso de um cepticismo mesquinho, qualquer coisa que soaria, digamos assim, como: Ora então vamos lá ver o que tem este livro de singular e, afinal, de premiável.

Das vezes que me lembro, havia efectivamente algo interessante e suficiente para desfazer a hipótese de um prémio de amigos ou superar a ideia do mero gosto subjectivo dos jurados: posso, de repente, recordar os prémios de João Ricardo Pedro, Afonso Reis Cabral e, claro, Afonso Cruz.

Quanto a Bruno Vieira Amaral (Prémio José Saramago 2015): ainda numa livraria, desconfiei do que a sinopse prometia, não me deixando igualmente convencer pela primeira página. Mas lendo-o, já em casa, fui aceitando que me cativasse — vagarosamente, nunca se tratou de uma sedução urgente: uma rapidinha —, e reconheço que o romance principia a capturar-nos por causa da sua atraente flexibilidade, como o exercício de um flâneur, ou seja, uma divagação em que não sobressai qualquer estrutura, que no entanto está lá, invisível porém sólida, a qual, se, por um lado, orienta coerentemente a narrativa, que, de resto, mais do que uma narrativa em sentido estrito, funciona como um dicionário de situações, por outro lado (daí a sua invisibilidade), não condiciona esse modo de contar, ilusoriamente espontâneo e distraído, imerso em sinuosos, contínuos e maravilhosos associações e pormenores. É a forma justa, aliás, para descrever o  estado de espírito do narrador e o carácter errático dos seus dias: 

«Era como se, a cada dia, a minha vida se reiniciasse, como se não houvesse qualquer sequência entre um dia e outro. Como se o único ponto de união fosse eu, mas eu fosse outro todos os dias, guiado por intenções inconsequentes, quando não contraditórias.»

Não é certamente uma obra que retenhamos pela qualidade poética da linguagem. Refiro-o apenas porque, para mim, como leitor, a riqueza da escrita não é um aspecto despiciendo, e sim preponderante na fruição de um romance. Mas retemo-lo pela atenção a detalhes tão simples e fortes como o facto de o Correio da Manhã e jornais desportivos serem os únicos que podemos ler em qualquer café, ou observações tão verosímeis e palpitantes como a de um indiano que, numa biblioteca,  consumia, habitualmente, um jornal, com a minúcia (e demora) com que uma Testemunha de Jeová devoraria a Bíblia, ou a de uma mulher que furtava rosas de um jardim, cortando-as com um corta-unhas, ou ainda a referência à inscrição estampada na t-shirt vestida por um velho (I Semana Multicultural do Bairro Amélia); estas "cenas", reconhecíveis, muitas delas associadas a pormenores típicos do Portugal dos anos 80, constituem o que nos permite testemunhar, quase em estado de assombro, a criação dessa magnífica, inesquecível, personagem-colectiva que é o Bairro Amélia — e a sua evolução, ou, em parte, estagnação, desde a infância do narrador, que julgou haver-se libertado dele para sempre, até ao seu regresso, anos volvidos, deprimido e sem alternativas, após tremendos tombos na sua vida "lá fora".

É um romance muito belo, muito irónico, muito culto e pungente; lemo-lo como se estivéssemos passeando e observando o próprio bairro, e o Teixeira, o Abel, a Carla, a Vera, o Virgílio - ou, obviamente, o Fion - e de todos eles fizéssemos (e ao mesmo tempo não fizéssemos, meros estrangeiros atentos que ali somos) parte das vidas expostas pelo narrador, entre o mundo da memória e o do presente. Tudo isto é:  e portanto, é também, claro, um prémio justíssimo.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

STEFAN ZWEIG: JOSÉ FOUCHÉ



Provavelmente, foi escrever sobre o Barão Corvo que me trouxe à memória um livro interessantíssimo, de Stefan Zweig, que tenho discutido com meu irmão se lho emprestei, se o perdi, se simplesmente se encontra fora de vista, entre outros livros meus, mal arrumado.
Não sei bem por que razão estas figuras da vida e da História me perturbam tanto. O padrão é: homens inteligentíssimos e de enorme criatividade, mas sem escrúpulos absolutamente nenhuns. Talleyrand seria o meu predilecto (?), porque, evidentemente, a todos estes elementos acrescenta uma verve e uma ironia que se traduziram em frases e epigramas de uma acutilância e de um sentido de humor cruéis. Mantenho com tais personagens uma pérfida relação de admiração-ódio, que só um psicólogo experiente conseguiria explicar.

A capacidade de sobrevivência de Fouché é digna de menção. E, como parte dela, a sua leitura imediata dos acontecimentos e o seu sentido de antecipação: foi um jacobino ferrenho, que conspirou contra Robespierre assim que percebeu que este principiara a retirar-lhe a confiança.  (Tratando-se de Robespierre, não era preciso ser-se um Fouché para se intuir como terminaria o alastrar da suspeita). Guilhotinado aquele, começaria, em breve, a conspirar contra os conspiradores, porque  também estes mostravam reservas (ironicamente, por causa da sua primitiva ligação a Robespierre). Foi, mais tarde, ministro de Napoleão. Conspirou contra o corso quando o prenderam, mas o próprio o recuperou quando escapou da ilha de Elba e formou o célebre governo que duraria100 dias.

Aliás, a este propósito, meu irmão conta-me a história dos 3 sucessivos títulos de um jornal apoiado por Talleyrand, aquando da fuga de Bonaparte. Primeiro: «O Assassino em Fuga»; segundo: «Napoleão Aproxima-se». Terceiro: «O Imperador Voltou». É este espírito, comum às duas raposas velhas, Fouché e Talleyrand, poderosos ministros de todos os governos que passavam, revolucionários e contra-revolucionários, anti-monárquicos e monárquicos novamente, que faz da sua facilidade em trocar de camisa, uma espécie de arte, que desprezamos e contudo nos fascina. Às críticas, Talleyrand retorquiu, com toda a sua soberba e cinismo: "À minha volta é que tudo muda. Eu sou o único que sempre se manteve igual a si próprio."

Zweig, como sempre, é magistral na composição do retrato psicológico da pessoa. Mostra o dinamismo camaleónico de José Fouché como o efeito de uma ausência de vincos de carácter demasiado marcados ou marcantes, um deliberado apagamento de si, uma fuga a toda a luz: o seu génio movia-se unicamente na sombra. Fez dos bastidores o seu habitat, nisso, antiético do rival Talleyrand, que em todo o lado brilhava sem esforço. Fouché evitou sempre as reuniões ou os comícios onde se esperaria que interviesse; não precisava de aparecer para reivindicar publicamente os louros das suas próprias jogadas. Manobrou como a serpente. Teve nas mãos, em diversas fases, um poder imenso. Usou e abusou sem piedade do seu poder. Sem piedade nem remorsos, sem ideologia nem princípios que não o de manter-se à tona. Ou melhor: não propriamente à superfície, mas sob a superfície, onde o não vissem, e de onde tudo e todos via.

terça-feira, 11 de abril de 2017

FR. ROLFE (BARON CORVO): HADRIAN THE SEVENTH



The Quest for Corvo, se bem se lembram, é o título de uma biografia que me deixou estupefacto com o seu objecto: o homem que se auto-denominava Barão Corvo, cuja genialidade perversa revela um narcisista de rostos múltiplos, intratável, inadaptado, embusteiro, e que escreveu, entre muitas obras, Hadrian the Seventh. A. J. A. Symons, autor da biografia, interessou-se pela figura graças precisamente a esse romance, que lhe caíra casualmente sob os olhos, e de que descreve, deste modo, o início: 

«O proémio apresenta George Arthur Rose esforçando-se em vão por trabalhar, quase prostrado com a dor de um braço, no vigésimo dia de vacinação. O seu trabalho é a escrita; e pela detalhada descrição subsequente dos seus pertences e ambiente, torna-se tão credível como claro que este pobre, só e misantrópico sofredor, num quarto-cama suburbano, é um homem notável e um autor em luta. Há muitas personagens na literatura destinadas a imprimir uma tal convicção no espírito do leitor; muito poucas o conseguem.» A conclusão, naturalmente, é que, ao contrário de tantos, Rolfe consegue imprimir essa convicção. E porquê? Por causa do seu talento, sem dúvida. Mas, sobretudo, se «este homem recebe instantaneamente vida nas páginas de Fr. Rolfe», isso sucede «pela melhor de todas as razões (como descobri mais tarde): porque ele era o próprio Fr. Rolfe

Leio Hadrian the Seventh e... como? Ai não vo-lo tinha dito? Peço perdão, estou muito excitado. Recebi, finalmente, a encomenda, após meses de espera. Não terminei ainda a leitura, mas vou rascunhando estas notas à medida que progrido, e tê-la-ei concluído no momento em que publique o presente post. O proémio é tão interessante como prometido: os vívidos pormenores do quarto arrendado, onde George Arthur Rose, esfaimado e deprimido, vive com o seu gato, numa permanente angústia, constituem um mundo concreto, que respira. Vemos o quarto; lemos, sobre o ombro do misantropo, os artigos da actualidade que lhe interessam no jornal do dia, à medida que ele conta, maniacamente, os  verbos no infinito e almoça uma parca sopa; vemos o seu caderno de transcrições, numa escrita arcaica; o dicionário pessoal de expressões latinas e gregas, com as quais enriquece a sua prosa em inglês; ou os livros que pede emprestado à senhoria, e consome enfastiadamente, ao mesmo tempo que enrola e fuma (fá-lo constantemente) o seu precioso tabaco.

A inesperada e inquietante visita dos dois ilustres prelados é absolutamente central, por muitos motivos. Antes de mais, mostra-nos de que forma uma situação extremamente implausível vai conquistando toda a credibilidade, ao longo e mercê de uma conversa eléctrica, sob o signo do profundo ressentimento de George Arthur Rose e do sentido de remorso e de justiça de Sua Eminência: é um diálogo perpassado de queixas, paradoxos brilhantes, reflexões sobre a condição humana e a vocação divina da igreja, e de improbabilidades que se vão tornando aceitáveis e consistentes. Propõem-lhe, 20 anos após haverem-no rejeitado, a admissão, como sacerdote, no seio da igreja católica. Sim: vêm para pedir desculpa e reparar a injustiça. Por outro lado, seguimos, como quem escuta depois à porta, a discussão entre os dois visitantes acerca da visita que vieram de fazer, e do homem que os recebeu. É uma análise surpreendente, como se o autor (que é, afinal, o próprio protagonista) saísse de si para, pela voz dos prelados, se olhar imparcialmente, sem medo de reconhecer a sua excentricidade e o tom artificial, de teatro, presente no modo como se dirigira às eminentes visitas e estas, entre si, criticam.

Existe uma neurótica mudança de,  como agora se diz, "registo", e todos os registos são assombrosos. Da já mencionada descrição de ambientes e estados psicológicos, para os extensos artigos de jornal, sobre a situação na Rússia ou sobre o Conclave em Roma, dos diálogos vertiginosos, à Oscar Wilde, para a demorada e fascinante confissão de George Arthur Rose, que é um ensaio de psicologia sobre a relação amorosa do homem consigo, com o próximo e com Deus, ou mesmo da observação minuciosa, e penso que correcta em todos os pormenores, das intrigas que subjazem ao processo de votação que elegerá o Papa, passando pelas críticas venenosas aos jornalistas e às razões da sua ignorância, em todos os quadros e através de uma superabundância de meios, a obra de Barão Corvo contém um poder desigual mas sempre enorme e magnético. Já agora, convém acrescentar que a escolha do pobre George Arthur Rose para Papa, é bem menos convincente, ainda que decorra de uma situação fascinante, e engenhosamente concebida.
Resta perguntar: de todos os argumentos para justificar e explicar os actos de George Arthur Rose/ Fr. Rolfe, até que parte crê o próprio, esse intrigante Barão Corvo? Até que ponto vê, de facto, nos outros, os malfeitores e os inimigos, e, em si, a contínua vítima de homens falsos, "amigos" traiçoeiros e maldosos? A resposta do seu biógrafo é: crê piamente na sua versão. A isto se chama, é claro, paranóia. Sempre considerei que, justamente, a paranóia é uma eficaz oficina de ficção.

sábado, 8 de abril de 2017

GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ: O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA


Ainda que Cem Anos de Solidão, lido durante uma juventude desesperadamente romântica, tenha sido um romance que me submergiu torrencialmente, por alguma (infundada) razão acabei definindo Gabriel Garcia Márquez, no geral, como um autor menor. Preconceitos que nos engasgam: talvez o motivo fosse uma persistente comparação entre ele e Mario Vargas Llosa, formada já numa fase muito posterior à da leitura que tanto me preenchera, fase essa em que: 1) procurava há muito um certo livro de Llosa e não o achava em livraria alguma, enquanto a obra de Márquez invadia  todas as prateleiras 2) a truculência reaccionária de MVL  exercia sobre mim um estranho fascínio, em face do qual GGM representava o papel de intelectual morno e «politicamente correcto».

Descubro, agora, O Amor em Tempos de Cólera, e percebo o calibre da minha injustiça. A mão de Márquez é genial. A fulgurante construção da narrativa, a novidade e a beleza das imagens, a cultura que permite a reconstituição da época, revelam um Autor Maior; reconheço, de certa forma, aquela escrita. É-me familiar: vou recordando, através dela, o engenho e a imaginação que já me haviam encantado em Cem Anos de Solidão, que aparentemente tinha esquecido.

O Amor em Tempos de Cólera é a história de um amor tenaz, obsessivo como uma vocação ou um destino. Trata a paixão de um jovem sem pedigree, Florentino Ariza, por Fermina Daza, uma rapariga bela e altiva, a filha de um homem rico mas pouco instruído, o qual, precisamente por essa razão, aspira a que ela ascenda, por via do casamento, a um ambicionado estatuto na sociedade. Ariza, o poeta, nunca desistirá: nem de lhe fazer uma corte longa e sem sucesso; nem (quando ela finalmente lhe aceita o namoro), perante a ameaça do pai, que, a seguir, a levará a viajar, para que ela o esqueça de vez. Nem mesmo, pior do que tudo isso, quando a própria Fermina Daza, regressando da sua viagem, o reencontra, afinal fisicamente medíocre, sem qualquer luz ou magnetismo, e o rejeita, cruelmente, pela segunda vez. Ou sequer quando, algum tempo após, ela principia o namoro com um jovem e pretendido médico, o Dr. Juvenal Urbino, com quem se casará, partirá para uma demorada lua-de-mel europeia, e de quem, por fim, engravidará.

 A fluidez da estrutura contagia-nos o estado de espírito: personagens que parecem fundamentais, mas se vão de nós, e personagens que julgamos secundárias, até que abrem um percurso principal da história; episódios que diríamos fixar o contexto central, quando, na verdade, são apenas a ligação para outros contextos, outros ramos do todo. É água a correr sob os nossos olhos: o suicídio, o xadrez, manias, família, ambições, chantagem, viagens, tragédias, o ridículo, a perda, o perdão e o imperdão, a música, o amor, o desamor e diferentes ou até opostas formas de fidelidade, não cessam de correr com tamanho ímpeto e tal leveza, que mal nos apercebemos de que a estas quase 400 páginas subjaz um organismo maravilhosa e milimetricamente concebido.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

GILBERT CESBRON: OS SANTOS VÃO PARA O INFERNO


«Crescer é tornar-se infiel.»
Gilbert Cesbron, É Mozart que Assassinam

Tenho andado em maré de recordações literárias. Os livros que trouxe das estantes de meu irmão, ou os que lia em adolescente, por exemplo Enid Blyton e Júlio Verne, ou os que me marcaram como um ritual de iniciação ao tempo de leitor adulto. Curiosamente, no meio desse processo, houve uma bizarra, nebulosa e inexplicável paixão que me guiou, sei lá! diria que pelos 15 ou 16 anos. De onde me saiu a primeira obra de Gilbert Cesbron, sou incapaz de precisar: alguém a emprestara a minha mãe? A meu irmão? E qual era? Os Santos Vão para o Inferno, sobre a infernal vida dos padres-operário? Ou aquele, cujo título não recordo, acerca de uma elegante jovem de facies horroroso? Outra pergunta: porque me terá fascinado a tal ponto essa série de romances da autoria de um escritor católico francês? Nunca mais voltei a pensar nele. Alguma associação, há pouco, mo devolveu subitamente à memória.
Desse contacto incompreensível, retenho, agora, quatro coisas: o prazer dessa leitura; um episódio particular de um dos seus romances: um jovem que se preparou diligentemente para copiar num exame, ordenando, diante do espelho, as cábulas em diversos departamentos de um casaco "especial" - fintado pelo pormenor de as estar a colocar perante um espelho, que inverteria a direita e a esquerda, confundindo-o completamente no momento-chave (o momento do exame, claro); outro episódio, que já aliás mencionei: uma rapariga muitíssimo feia, procurada por uma colega que, ao dar-se com ela, realça a própria quase-beleza; e, last but not least, uma particularíssima utilização dos parênteses, a que me rendi de todo, maravilhado pelos efeitos, e que não tenho dúvida de que ainda hoje imito, embora nunca mais me tivesse lembrado da génese de tal influência. Gilbert Cesbron foi ultrapassado pelo tempo, por novos interesses, descobertas e fascínios maiores. Tornei-me ingrato e infiel ao que me concedeu. Mas, como afirma o próprio: que mais significa crescer senão isso?

sexta-feira, 3 de março de 2017

ALDOUS HUXLEY: A ILHA


O quarto de meu irmão 11 anos mais velho do que eu, no apartamento onde vivíamos, em Lourenço Marques, era, para mim, a caverna de Ali Babá. Para entrar como visitante clandestino, o "Abre-te Sésamo" reduzia-se a que o mano se tivesse ausentado. Havia um barco telecomandado; havia misteriosos mapas do mundo; havia uma colecção de soldadinhos de plástico, não de chumbo, que eu me entretinha pondo-os a guerrear uns contra os outros, sobre um dos mapas, para que invadissem ou defendessem fronteiras; porta-chaves [mas talvez esteja equivocado: a deliciosa colecção de porta-chaves podia estar em outra casa, quase em outra vida]; umas folhas onde colegas dele haviam desenhado a sua caricatura, ao lado de uns poemas bem-dispostos, alusivos a certa ida à praia do Tofo. E livros. O Idiota, que foi o meu primeiro Dostoievski, O Músico Cego, de um contemporâneo russo, talvez O Admirável Mundo Novo mas não posso jurar, alguma coisa de Papini, O Homem, de Irving Wallace, O Desprezo, de Moravia, O Livro de San-Michele. Lembro-me destes.

Ora li há pouco, numa revista, alguma referência a determinada obra de Huxley, reeditada recentemente como um romance distópico. Interessei-me, cheguei a procurá-lo por livrarias. Não o achei. Entretanto, por mero acaso, vasculhando nas minhas próprias estantes, apercebi-me, perplexo e eufórico, de que o possuía - A Ilha, numa edição "Livros do Brasil", com uma dedicatória escrita pela amiga que o oferecera, em 1967. Pois. Entenderam tudo: trouxe-o, entre muitos outros livros, da biblioteca de meu irmão, a saudosa caverna de Ali Babá em que me iniciei na prática de tantos espantos. Mais: recordo-me perfeitamente de o haver lido. A avaliar pela data, bem jovem. Releio-o agora, ansioso por descobrir em que medida a narrativa se me vai revelando, na forma de um conhecimento antigo como o mundo, recalcado mas de alguma maneira familiar, pronto a despertar, a reemergir, a regressar, a devolver-se-me. Esta leitura, perdão, esta re-leitura é, pois, em si, uma experiência maravilhosa.  

O início do texto é poderoso. Mesmo inesquecível - salvo que eu o esquecera completamente; devo acrescentar que, juntamente com o incipit de A Condição Humana, de Malraux - outra re-leitura, minha, por estes dias -, o começo de A Ilha demonstra a mestria fulgurante do autor: a situação incompreensível que nos agarra de imediato, a estranheza de uma floresta circundante que o protagonista, acordando de um desmaio, não reconhece nem entende, esse ambiente pontuado por uma voz de comando que, vinda de algures, retoma ciclicamente as mesmas palavras, são elementos que introduzem simultaneamente o enigma e um suspense avassaladores.

Curiosamente, adiante, narra-se o episódio do encontro de Will com duas crianças nativas, falando todavia um inglês perfeito, e de súbito a memória salva-se aos escombros para vir respirar ar puro: toco, hoje, precisamente na mesma dúvida que me havia já assaltado então: quando a menina insiste com o náufrago para que descreva o pânico experimentado em face das serpentes que podiam tê-lo matado, e o conte uma outra vez, e mais uma, até que, por força do repetir da história e da sua banalização, as emoções que lhe estão associadas se diluam e desapareçam, duvido de novo que uma garota fosse capaz de dominar uma tal técnica.

Depois, mais adiante, tropeço em outros momentos familiares. A descrição das personagens é sempre muito viva: Sua Alteza ou o jovem príncipe são indivíduos extraordinários, nos paradoxos de uma inocência incapaz de adivinhar os males contidos nos seus projectos. É interessante, aliás, que tratando-se de um romance engagé, não se esvazie da riqueza narrativa ou da subtileza dos pormenores em prol da tese que visa ilustrar.

Porque, francamente, que é uma obra de tese, é. Como, aliás, tudo quanto, praticamente, Aldous Huxley escreveu: romances sobre o sacrifício da natureza e do elemento natural no homem, asfixiados por sociedades artificiais, subjugadas à lógica de uma super-industrialização que, destinada a beneficiar os indivíduos, cedo se torna no princípio da sua mecanização e da sua infelicidade. Um pesadelo. Todos os seus romances - e este não é excepção - abrem oportunidades a longas digressões que são autênticos tratados de filosofia, psicologia, sociologia.

Mas que, por outro lado, a arte de narrar nunca se degrada por esse motivo, nem a criação de personagens profundas, com inúmeras e contraditórias camadas, também é verdade.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

SIMONE DE BEAUVOIR: MEMÓRIAS DE UMA MENINA BEM-COMPORTADA


Às vezes tropeço em mim a pensar que ninguém se conhece realmente a si próprio. E a concordar com Nietzsche, que cito de memória: conhecer-se é o mais difícil tipo de conhecimento. Daí que, em última análise, as memórias tenham sempre uma parte de involuntária ficção. As recordações são interpretações, e há que suspeitar do modo como nos explicamos a posteriori.

Em nenhum livro isso me pareceu tão evidente como em Memórias de Uma Menina Bem-comportada. As razões que a filósofa atribui, anos volvidos, aos comportamentos da criança de 4 ou 5 anos que ela foi justificam tanto tais comportamentos, como, inversamente, olhados a essa luz, tais comportamentos servem para justificar a sua teoria filosófica. É um círculo vicioso. Onde descreve birras e zangas perfeitamente inaceitáveis, que, se eu a elas tivesse assistido, me fariam comentar «raios! mas que garota tão mal-criada», Simone de Beauvoir detecta profundas razões existenciais, uma surda indignação da menina contra a sem-razão das regras do mundo [em que não vê nenhuma necessidade, tão-só a arbitrariedade] ou a revolta contra a sistemática representação de papéis pelos adultos quando lidam com as crianças.

«Foi por isso que resisti vivamente quando a avó me quis ensinar as notas musicais. Ela indicava com uma agulha de tricotar as bolas inscritas na pauta; tal linha equivalia, dizia ela, a tal nota no piano. Porquê? Como? Eu não via nada de comum entre o papel e o teclado. Quando pretendiam impor-me regras injustificadas, revoltava-me; da mesma maneira recusava as verdades que não eram reflexo de um absoluto. Só queria ceder à necessidade; as decisões humanas eram causadas mais ou menos por caprichos, não tinham suficiente peso para forçar a minha adesão.»

Os existencialistas tomam, quase por princípio, a consciência infantil como uma fonte de escolhas com profundas implicações filosóficas. É sempre nesse contexto filosófico que recordam as crianças que foram. As Palavras, de Sartre, que nem por isso deixa de ser um livro interessantíssimo, ilustra o mesmo pecado, que consistiria em apresentar todas as escolhas infantis como precoces decisões éticas, sob o peso esmagador de uma reflexão acerca da condição humana. Pode ser que eles estejam certos, e eu não. Pode até ser que eu alimente esse preconceito, relativamente às crianças, de que S. de B. fala, e tenda a vê-las como seres incompletos, senão como «coisas».

Em todo o caso, o brilho que nos cativa nestas memórias é o de um tempo já tão longínquo de nós, representado mais através de deliciosas irrelevâncias do que de grandiosas movimentações da história e da política. Reencontrar o tempo perdido (e sim, há um deliberado tom proustiano nesta obra), tratando de coleccionar fragmentos efémeros, sons, sabores, cheiros, visões, modos, tiques, lugares, é um processo melancólico mas irresistível. Os bolinhos de areia que a criança fazia, um martelinho de alcaçuz, uma écharpe de musselina verde, da mãe, as silhuetas e as vozes dos pais discutindo, as patilhas brancas e o boné do avô paterno, as flores do jardim deste, a colecção de cartões com duas fotografias que o estereoscópio transformava numa imagem a três dimensões, ou álbuns que se «animavam ao toque do polegar», o carro puxado por cavalos, e cujos bancos cheiravam a pó e a sol. E, entre todas estas fulgurações, a emergência da importância e do poder das palavras, precisamente como em Sartre, ou a importância e o poder da linguagem, a qual, primeiramente, se revela enganadora, porque acreditamos que «recobre exactamente a realidade», como se entre a palavra e o seu objecto se não concebesse «distância alguma onde o erro pudesse imiscuir-se»; mas vai, aos poucos, ganhando os contornos de um instrumento subtil e flexível, que nos ensina a pensar no gume da dúvida e de uma distância em relação a toda a realidade.
    

Por que razão o título sugere como bem-comportada esta menina que, no desfiar das memórias, nos aparece como tendo um feitio difícil, acessos bruscos de mau-humor, capaz de convulsões de irritação perante as quais os adultos se mostram impotentes? Boa pergunta. O equívoco deve-se, porventura, à tradução. Não sei como verter para português, numa única palavra, o "rangée" de Mémoires d'une Jeune Fille Rangée, mas não significa propriamente "bem-comportada": antes enquadrada, a ideia é essa, ajustada às ideias e aos valores do meio burguês em que nasceu e foi educada. E portanto este livro é, também - ou: é, principalmente - o reconstituir de uma desconstrução, da sua desaprendizagem: a progressiva autonomia entendida como libertação relativamente a um modelo de vida, a uma ordem burguesa, em que circula a má-fé.

Nesse sentido, é claro, os desaforos da menina seriam já salutares episódios de revolta. Porque se o seu mundo parece sereno e indubitável a maior parte do tempo, pelos interstícios da serenidade burguesa emergem pontos de fuga para o temível, para o infinito, para o caótico. «Por vezes um rasgão deixava entrever por detrás da tela pintada profundidades confusas». E não só a Primeira Grande Guerra, que eclode ainda durante a sua infância, mas, no dia-a-dia, a secreta percepção da instabilidade. Mesmo o Jardim do Luxemburgo, onde brincava amiúde, está longe de uma completa domesticação, com as suas «moitas intocáveis» e «relvas proibidas». São profundidades confusas, tais como os túneis de metro, que lhe pareciam fugir para o infinito, em «direcção ao coração secreto da terra», ou como um depósito de carvão, no Boulevard Montparenasse, de onde saíam homens de rostos mascarrados, e com sacas de serapilheira enfiadas na cabeça.

Em tal medida, como afirma Hegel, escolhemos o nosso próprio passado. Ou seja, interpretamo-lo como um projecto que nos anunciava desde o início - e justificaria, em potência, a nossa actual visão do mundo e a nossa filosofia.    


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

BALZAC: O TIO GORIOT


A universalidade de uma obra não se funda certamente em que ela haja sido criada fora do tempo e da história, no seio de uma espécie de mundo inteligível, não sujeito à mudança nem à corrupção. Deve-se a que um autor genial, influenciado pelo seu meio e pela sua época, até pelos tiques da moda, tenha conseguido usá-los como meios para produzir o que se não esgota nestes, mas os supera, e permanecerá para além deles.

Veja-se Balzac. Analisemos a sua escrita. É um modo de escrever «datado». Hoje, que o cuidado descritivo parece ter perdido o valor, que os jovens o repudiam e todos nós dele nos fomos desabituando, hélas!, ler um romance como O Tio Goriot significa, antes de mais, e desde as primeiras páginas, submergir num preciosismo da descrição, uma tessitura requintada, que tenta dar a ver à imaginação do leitor a pensão da senhora Vauquer, geograficamente, situando-a com pormenor na «Rua Neuve-Sainte-Geneviève», entre «o Bairro Latino e o Bairro Saint Marceau», ou económica, social, arquitectónica esteticamente, apresentando-a na sua degradação, no seu isolamento, na sua pouca limpeza, nas suas cores, nos seus cheiros, no cafarnaum de móveis, cortinados e bibelôs que a preenchem. Mas não ficamos por aqui. Ainda nada sucedeu diante dos nossos olhos, e são expostos os retratos psicológicos dos diversos ocupantes dos vários quartos da pensão. O papel e o estatuto sociais de cada um, traduzidos, em última análise, no tipo de quarto em que se instala e na renda estipulada.

Pode parecer vão e entediante, se não estivermos atentos ao facto de como, nesta descrição detalhada e exaustiva, se ilustra um microcosmo no interior de um cosmos que é a cidade de Paris do século XIX. O que faz a universalidade da obra de Balzac é, pois, primeiramente a forma como se capta a realidade de certa época segundo a visão de um artista que é, simultaneamente, um historiador, um sociólogo, um psicólogo, um economista e um filósofo; e, por outro lado, o modo como, apreendendo multifacetadamente esse mundo multifacetado, se compreende o pathos humano no que este pode revelar de melhor e de pior. Só em I Promessi Sposi, de Manzoni, encontrei nos últimos anos esse poder para descrever um tempo transcendendo-o para alcançar na sua pureza a experiência mais autêntica e intemporal do amor, da cobardia, da generosidade e da mesquinhez.

Não é despiciendo que, para além de todos os conhecimentos de que Balzac se dota para escrever a sua obra, se mostre ainda tão perspicaz ao intuir a etiqueta na forma como as damas da aristocracia parisiense recebem: refiro-me a um conjunto de regras latentes, que só um fino observador detecta como reguladoras das suas conversas. Um exemplo: Rastignac, jovem estudante arrivista, obcecado por penetrar no perímetro da Alta Sociedade, vai visitar uma viscondessa, ligada a si por um vago e remoto galho da árvore genealógica, com o fito de que ela o esclareça [o jovem acabara de cometer, noutro lugar, uma gafe que nem sequer o próprio compreendera muito bem], e, sobretudo, o guiasse na desejada e penosa ascensão; enquanto se apresentam, é anunciada outra dama: uma duquesa. Esta entra. Afáveis, corteses uma com a outra, como se fizessem dele a testemunha de uma antiga amizade. O leitor, a par de antecedentes que o jovem desconhece, apercebe-se imediatamente da duplicidade hipócrita do diálogo que se trava entre elas; entende como, sob a aparência de uma inocente e agradável troca de palavras, as duas mulheres se alfinetam perfidamente. Oferecem-se mútuas informações que poderiam passar por mera fofoca, se não soubéssemos que ambas estão conscientes de que o conhecimento que ali partilham se destina a magoar a outra. A maneira, contudo, como procedem, segundo um ritual bem treinado e consolidado, de limites perfeitamente estabelecidos, onde nunca se perde a compostura, e se utiliza o rosto do elogio para mascarar as intenções mais viperinas, é toda uma arte - em que Eugénio de Rastignac terá de se educar.

Esta é a comédia humana, em que as diferentes pessoas vão revelando de si surpreendentes ângulos, consoante o lugar que o engenho e a sorte lhes oferecem. Rastignac ou Goriot não são absolutamente maus nem absolutamente bons. O mais íntimo deles, ora vil, ora ingénuo, ora de uma inesperada grandeza, vai sendo exposto, em função de condições aleatórias mais do que propriamente de estratégias decididas. Embora algumas personagens planeiem a vida. A carta que Rastignac escreve à mãe e às irmãs, chorando por dinheiro, que sabe que só com sacrifício reunirão, é abjecta. As lágrimas e os remorsos com que lê a resposta não deixam de nos tocar. Goriot, que pagava inicialmente «mil e duzentos francos de pensão», que se «munira de um guarda-roupa bem fornecido, um magnífico enxoval de negociante que não se priva de coisa nenhuma ao retirar-se do comércio», com a «sua pesada corrente de ouro guarnecida de berloques» ou a sua «tabaqueira de ouro», foi-se transformando, por amor das filhas que o desprezam, num homem sem nada, enxovalhado por todos, triste e soturno. Herói e anti-herói, sublime e miserável, arrastado para a situação trágica que os demais lêem como cómica, foi sempre, no fundo, um simplório, um medíocre - embora o seu coração albergasse dois sentimentos sublimes: pela esposa, de que enviuvou, e pelas filhas. É por tudo isto que a obra de Balzac é universal: no concreto de cada indivíduo e da sua circunstância, aprendemos a ler o próprio Homem.

 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A.J.A. SYMONS: THE QUEST FOR CORVO, An Experiment in Biography


O tio Drosselmeyer, padrinho de Clara, é o relojoeiro com misteriosos poderes mágicos (um dos quais seria, parece, o de conceder vida aos brinquedos; oferece-lhe, aliás, o Quebra-nozes...), que surge não se sabe de onde, durante uma festa, transformando o tempo das crianças num momento exaltante, para desaparecer, sabe-se lá para onde, até porventura uma próxima festa.

É desta personagem de O Quebra-nozes que me lembro, quando meu primo, tão frequentemente referido no Profissão: Leitor [alguém me perguntava, outro dia, se um tal primo existe mesmo, ou é uma fantasia minha] quando meu primo, dizia eu, regressa a Portugal de férias, produz as suas maravilhosas operações de feitiçaria, e a seguir retoma as viagens para distantes paragens. As operações mágicas ganham, geralmente, a forma de conversas e de livros. Este Natal, recebi, dele, o Ruskin, traduzido e abundantemente comentado por Proust. Tem de ser magia. Mas não se ficou por aí: deleito-me agora, também graças a meu primo, com uma estranha biografia sobre um mui bizarro sujeito, de cuja vida e obra eu não tinha sequer o menor conhecimento. Frederick Rolfe, auto-designado Barão Corvo.  

O livro é antigo. Pertencera a meu tio que, ao que descubro, o leu e sublinhou apaixonadamente. A.J.A. Symons, autor, faz nesta obra algo que me soa absolutamente original em matéria de biografia.

O início é este:

«A minha pesquisa sobre Corvo começou por acaso num verão, à tarde, em 1925, na companhia de Cristopher Millard. Estávamos preguiçosamente sentados no seu jardinzinho, falando acerca de livros que não conheceram a merecida recompensa no que respeita à apreciação e à influência. Mencionei Wylder's Hand, de Le Fanu, uma obra-prima de construção, e as Fábulas Fantásticas de Ambrose Pierce. Após uma pausa, sem comentar os meus exemplos, Millard perguntou: "Já leu Hadrian o Sétimo?"»

«O início é este», escrevi. O início, tanto da biografia, como na medida em que o episódio aqui relatado será o ponto de partida para a pesquisa que Symons empreenderia: Millard emprestou-lhe Hadrian VII e, na leitura desse romance o biógrafo descortina a intensa presença de Fr. Rolfe, escritor de um talento sublime, cujas personagens sentem, pensam, e falam com uma vivacidade impressionante. Como Cristopher Millard haveria de revelar mais tarde a Symons, a autenticidade dos caracteres do romance provém do facto de se basearem (brilhantemente, é certo) em pessoas de carne e osso, com as quais Rolfe terá convivido; o protagonista, George Arthur Rose, injustamente acusado, e expulso do seminário, impedido de se tornar sacerdote, é o próprio Rolfe. Com a reparação que, 20 anos depois, a igreja acabará fazendo da injustiça cometida contra a personagem George Rose [falamos de uma reparação ficcionada, portanto], acolhendo novamente no seu seio aquele que se tornará nada menos do que Papa [Adriano VII, precisamente] Rolfe imagina e regista a sua vingança contra todos os que o humilharam, perseguiram, acusaram e procuraram liquidar moralmente.  

A originalidade reside, pois, em que ao invés de lermos linearmente a história de Rolfe, acompanhamos a averiguação a que o biógrafo se devota. Estamos, portanto, face a um «problema», apresentado desta maneira: quem é o homem de enorme talento, que se oculta sob pseudónimos e títulos diversos, um dos quais, o de Barão Corvo, poderá nem ser autêntico? Depois do problema, a busca de pistas para a investigação. Symons começa uma fervorosa troca epistolar com diversos indivíduos que terão privado com Rolfe, muitos como seus amigos, vários como seus inimigos, e que, quase todos, inspiraram, de uma forma óbvio, as personagens de Hadrian VII.  Ora, que se obtém desta exaustiva e minuciosa correspondência? O vivíssimo retrato de um homem fascinante. Perguntei-me, algumas vezes, se não se trataria de uma peça de ficção travestida de biografia. Não. Qualquer rápida consulta do Google me garante o carácter real de Rolfe: homossexual sem quaisquer problemas em relação à sua homossexualidade (o que deveria ser raro numa época em que estes podiam ser condenados); de uma inquieta curiosidade, que o leva a dedicar-se à pintura, à fotografia, só mais tarde à escrita; inventor de engenhos, cuja concepção e planos acusa outras pessoas de lhe terem roubado; convertido ainda adolescente ao catolicismo; alimentando a obsessão de se tornar sacerdote, via essa que, efectivamente, lhe negaram; tendo vivido na mais terrível indigência; contraindo dívidas sobre dívidas, que justificaria com histórias mirabolantes e muito improváveis; sem amigos; caindo cada vez mais na paranóia de que o mundo inteira o incompreende e persegue; multiplicando cartas em que pede dinheiro - primeiro, muito dinheiro, alegadamente para investir em projectos, finalmente quantias como 5 £, para comer; insistindo sempre no seu estatuto de Barão, Frederick Rolfe é a figura extrema do charlatão genial. Ou do louco incapaz de distinguir entre fantasia e realidade. Ou de um exímio fabricante de embustes, para quem a mentira é, afinal, uma forma superior de Arte. Um autor maldito. Um autor bendito.

Conseguirei encontrar Hadrian VII?