sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

BILL BRYSON: BREVE COMENTÁRIO A (QUASE) TODA A SUA OBRA



Dedico este comentário a meu primo: sei que, das longínquas paragens onde me segue, atento, não deixará de perceber a alegria com que destaco o autor em causa e sua obra, como um caso do tipo de objecto que nos moverá (espero que em breve) a uma discussão entusiástica, entre copos de vinho tinto, sem consenso à vista, mas com mútuo enriquecimento pelo caminho.

Neste momento tornei-me cativo de Bill Bryson; principiei por ler-lhe Breve História de (Quase) Tudo, livro de divulgação científica em que mapeia e historia as descobertas teóricas e práticas através das quais o ser humano tem interpretado e transformado a realidade. De um modo simples, mas (como se costuma acrescentar a propósito desta categoria de livros) sem sacrificar o "rigor" das informações e das explicações, Bryson cruza áreas, conta episódios trágicos e cómicos das vidas dos cientistas ou dos combates para impor as mais rocambolescas hipóteses, desce ao fundo da terra e do mar, projecta-se para o infinitamente distante, observa o macroscópico e diminui até poder entrar no subatómico, sempre num tom de convívio que o torna o parceiro de uma conversa impagável.

O entusiasmo levou-me a descobrir um segundo livro do autor: Shakespeare do 8 aos 80. Havia um atractivo particular: que seria capaz de me revelar um escritor norte-americano sagaz, culto e espirituoso, acerca da vida de um homem de quem tão pouco se sabe, e de quem quase tudo se pode inventar e tem inventado? Não me senti defraudado: à míngua de pormenores biográficos inquestionáveis, torna-se sempre possível reconstituir a Inglaterra da época, os estratos sociais, as lutas religiosas, os costumes, as ambiências, as novidades e, por fim, pode sempre apresentar-se e discutir-se as mais variadas hipóteses que foram sendo criadas nos últimos séculos, numa feliz biografia das biografias sobre Shakespeare.

Houve mais dois livros, seus, que acabei por ler, apesar dos títulos suspeitos. Por Aqui e por Ali é a vivíssima descrição da longa e aventurosa caminhada em que Bryson, e Katz, seu amigo, ousaram percorrer, ao longo de meses, o sinistro Trilho dos Apalaches. É bem divertido. Mas o meu predilecto, Nem Aqui nem Ali, A Europa de Estocolmo a Istambul, é o relato de uma viagem que Bryson fez pela Europa. E neste ponto, meu primo [um "estrangeirado" que, apesar do seu matrimónio feliz com uma norte-americana, estabelece fronteiras rígidas ao que aceita que alguém do Novo Mundo se atreva a dizer acerca do Velho Mundo] começaria logo a divergir de mim. Porque Bryson tem um olhar extremamente crítico - hilariante, de resto  - sobre as imperfeições dos belgas, dos ingleses, dos franceses, dos italianos. E, claro, põe-nos sistematicamente perante generalizações que podem ferir os mais susceptíveis: mas estas, no seu discurso fulgurante, são relâmpagos de ironia e espírito de observação que deveriam fazer o leitor europeu rir com gosto de si próprio. Onde meu querido primo veria, com crescente irritação, um americano cheio de si e arrogante, perorando sobre a antipatia dos parisienses ou a total incivilidade dos romanos ao volante - eu vejo antes um turista apaixonado pela ideia da Europa, rendido às referências histórico-culturais e aos artistas europeus, com os quais, aliás, mostra grande familiaridade, um pouco intrigado por observar que a Europa concreta não corresponde muitas vezes ao ideal romântico que possamos ter cultivado.

Seja como for, não darão por perdido o tempo que dediquem à descoberta de um escritor com tamanho "wit"; meu primo não deve perdê-lo: aguardam-nos algumas discussões interessantes sobre as viagens de Bryson.      

sábado, 29 de agosto de 2015

VALTER HUGO MÃE: O FILHO DE MIL HOMENS


Por variadas razões, a minha relação com a obra de Mãe nunca foi pacífica.
A sua insistência numa prosa toda de letra minúscula, mais do que me parecer uma arrojada inovação estilística [que não era] arrepiava-me pelo vazio de objectivos ou razão. Li a máquina de fazer espanhóis, que apesar disso - e de um tom deprimente, com o qual nem sempre me foi simples lidar - considerei um romance notável. Mas a verdade é que, sob uma tal neblina de preconceitos e ideias feitas, a minha ocupação da obra do autor foi sempre incompleta. Desisti de muitos romances seus pelo caminho.

As minhas amigas São e Maria falaram-me agora, com um inesperado encantamento, de O Filho de Mil Homens. Elogiavam-lhe a beleza da prosa poética e, sobretudo, a "perfeição" da história. A São catalogou-o, sem medo, como o melhor que a literatura portuguesa lhe ofereceu nos últimos anos. Tive de o ler.

O que aqui impressiona é uma compreensão do humano, de tudo quanto é humano, muito para além dos códigos e das fronteiras. Ao seu olhar, comportamentos que uma cultura «normal» (segundo uma norma, afinal) repudiaria, ou que uma certa sofisticação renegaria, revelam-se-nos comoventes, transparentes na sua naturalidade simples. Não provêm do mal, mas das debilidades. Não que as pessoas se não julguem. Julgam os outros e julgam-se a si mesmas; têm-se por imperfeitas: a filha que se esquece da mãe, ou a abandona por umas horas - ou chega a pensar em sufocá-la suavemente - sente-se uma má filha, horrorizada com os seus pensamentos; a mãe que não sabe amar o seu filho "maricas", amando-o porém nos mesmos gestos canhestros em que quer e não consegue renegá-lo, ou o renega incompletamente, culpa-se e martiriza-se: porventura por amá-lo tanto...

Não há personagens absolutamente virtuosas, mas uma selva onde se reinventa, nas suas relações, sem qualquer bússola, gente imperfeita, magoada, ferida pela vida ou pela comunidade, em busca de uma felicidade, que - este é o segredo de VHM - nunca se realizará de acordo com as convenções, nem com as expectativas normais, mas em equilíbrios frágeis de sentido: "frágeis" precisamente porque inesperados,
porque adversos à norma, instituindo-se como uma nova norma.  

A beleza, a poesia deste romance, encontra-se nesta visão quase franciscana - o termo é, a esse propósito, de Alberto Manguel, num prefácio ao livro - sobre um mundo de marginais, uma anã, um órfão, um "maricas", uma mulher desonrada..., como um circo de aberrações que [Manguel novamente certeiro] no encontro com o outro, transformam a «angústia» em «regozijo» e «a solidão em afecto.»  

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

JOSÉ CARDOSO PIRES: ALEXANDRA ALPHA



Como já me sucedeu a propósito de outras obras, li, quando jovem, Alexandra Alpha e guardei dele, por muito tempo, a memória de um romance pesado e desinteressante. Agora que sofro de uma febre de re-leituras de J.C.P., extasiado com o autor de quem afinal passara ao lado, mantinha como última resistência este Alexandra Alpha. E lembro-me bem de, há uns meses, concordar com o meu amigo Marrão neste diagnóstico: «O Cardoso Pires é um autor soberbo. O pior dele é "Alexandra Alpha".»

Que engano! Que precipitação e que falta de perspicácia. Alexandra Alpha revelou-me um inesperado Cardoso Pires, armado de uma impiedosa e corrosiva ironia em relação a um universo intelectual, académico. Mas é impressionante o seu conhecimento das referências de que troça: os universitários imbuídos de cultura francesa (anos 60/70), que citam os estruturalismos na filosofia, na literatura, no cinema, nos programas culturais-chic da televisão [seria certamente o canal 2 de então], as palestras, os seminários, a linguística de Kristeva, a psicanálise lacanaiana, de uma ou de outra forma todos estes itens são coleccionados com um prazer e uma perícia de frequentador do meio. Como num roman à clef, todos aqueles personagens, debates, formulações, teorias, remetem para rostos concretos com os quais não suspeitaríamos que José Cardoso Pires, o contador tradicional de histórias - a que chama "fábulas" - convivesse com tamanho à-vontade.


É neste universo cifrado que cresce o menino órfão, adoptado por Alexandra, entre as amigas desta, os companheiros de debate, num mundo em transição, em que floresce uma Lisboa secreta, paradoxal, vetusta mas carregando no ventre insuspeitados gases [a metáfora grosseira é deliberada] de revolta e mudança.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

BRUNO SCHULZ: AS LOJAS DE CANELA


É com certa euforia que descubro [não seria adequada a expressão: «acabo de descobrir», uma vez que me sinto muito longe de haver acabado este processo] As Lojas de Canela, de Bruno Schulz.
Proporcionou-me o encontro David Grossman, autor de Ver: Amor, um romance que talvez não perca tempo a comentar, mas, no que me diz respeito, é resgatado pelo seu amor à obra de Schulz.

A linguagem dos contos, chamemos-lhe as «breves peças» de que se compõe As Lojas de Canela, é de uma riqueza proustiana: a magia, escreve Grossman, «reside na sua fertilidade, uma abundância quase em putrefacção de tantos sucos verbais.» Acrescenta: «Bruno, que sabe dizer tudo de dez formas diferentes, cada uma delas tão exacta como a agulha de uma bússola»; o uso do termo putrefacção pode chocar, mas não é inteiramente absurdo: a verdade é que um primeiro contacto me foi penoso, porque uma tal superabundância principia, porventura, por nos encandear e ferir os olhos. É preciso, pois, que o leitor esteja advertido. Mas também advertido da vantagem de insistir. Se não renunciar, se for aprendendo a nadar no interior daquela poliédrica linguagem, cedo tomará consciência de que se iniciou numa elevadíssima e compensadora experiência da leitura. Dois ou três exemplos, apenas, da extrema felicidade dos recursos de Bruno Schulz:

«Depois de arrumar a casa, Adélia puxava os estores de linho e mergulhava tudo na penumbra. Nessa altura as cores baixavam uma oitava, os quartos enchiam-se de escuro como se fossem mergulhados de repente numa luz de profundidades marinhas que se reflectia nos espelhos verdes da água [...]»

«O cãozinho era de veludo e morno, todo ele vibrante com as pulsações do seu pequeno e apressado coração. Em vez de orelhas tinha duas pétalas, tinha olhos azulados e turvos, uma boca cor-de-rosa onde podíamos, sem perigo, enfiar um dedo, delicadas e inocentes patas com uma almofada por baixo que era rosada e nos enternecia

«A casa abandonada não o reconhecia como dono, os móveis e as paredes espreitavam-no com uma desaprovação emudecida. [...] E depois de andar de um armário para outro, quando acabava por encontrar toda a roupa necessária e se vestia entre móveis que o suportavam em silêncio e com ar ausente, ao ficar finalmente pronto e em condições de sair, com o chapéu na mão, sentia-se no derradeiro instante incomodado por não encontrar a palavra capaz de quebrar aquele mutismo hostil [...]»

Preferi chamar às suas miniaturas «peças» em vez de «contos», porque a lógica do conto é, em geral, outra: a da narrativa curta, que se desenha em direcção a um fim que a complete como um sentido coerente e surpreendente: nestes fragmentos, diferentemente, há a descrição de pessoas, lugares, um momento ou uma situação. Como pinturas. [Schulz era também pintor.] As personagens principais, que
 vão passando de «peça» para «peça», ou de um conto para outro, como se mudassem de aposento, possibilitam-nos captar uma época, uma cidade e seus habitantes, a família do narrador. São figuras maiores, na sua autenticidade como nas suas idiossincrasias, que Schulz revela sempre sob um halo encantador, por insuportáveis que pudessem ter sido. [Imaginem o que seria viver com aquele pai, em acelerada decomposição mental, mas vista benevolamente pelo narrador, sobretudo na sua dimensão criativa e exótica; ou com o tio Carlos, a sós na casa de que não cuida e o repudia.]

Nunca a tal ponto me lembro de assistir à (re)criação de um mundo a partir de peças desiguais e aparentemente desconexas, num fino limiar entre a realidade e o delírio: mas é o que Bruno Schulz faz. "As Baratas" e principalmente "A Borrasca" são maravilhas de inversão mágica - veja-se como, neste último, uma sublime tempestade se abate sobre a cidade, a partir da desarrumação da casa, loiça suja, móveis desarrumados, que parecem acordar todas as noites, explodindo pelos ares e convocando os ventos! O que nos expõe é uma realidade tão intensa e tão completa, que nos custa crer que, dali a pouco, a guerra irromperia, os pilares em que esse mundo assentava desabariam, e o próprio Schulz, cidadão polaco de origem judaica, seria infamemente assassinado por um oficial nazi.  

segunda-feira, 20 de julho de 2015

JOSÉ CARDOSO PIRES: O ANJO ANCORADO



Relendo, muitos anos volvidos, O Anjo Ancorado, de Cardoso Pires, sinto-me hoje muito mais impressionado do que da primeira vez.
Sondando os que sobre ele escreveram, de um citadíssimo Pinheiro Torres, a Tabucchi ou, agora, a Mário de Carvalho, torno a ficar impressionado, mas aqui pela negativa. Este léxico de lugares-comuns acerca
 de Cardoso Pires, que se foi apurando ao longo dos anos, e insiste em falar na sua linguagem «despojada» (à imagem, diz-se muito também, dos norte-americanos) deixa-me de cabeça perdida. Ou esta ideia de uma falsa limpidez, uma metódica e clara construção narrativa que oculta os seus segredos técnicos, os seus andaimes, o seu aparato.
Primo: não há qualquer secura. Se há prosa luxuriante é a de José Cardoso Pires: tudo é a perfeição das mais refinadas figuras de estilo; pedidos de empréstimo à linguagem popular; achados que ficam a reverberar no espírito do leitor. Se querem dizer que não há "excesso", digam-no; que se evita a pirotecnia fácil, de acordo. Agora não falem de "despojamento" a propósito de um texto onda não existe praticamente um período que não seja de uma notável e complexa originalidade, e que apela constantemente para uma releitura da beleza que nos marcou.
Secundo: não é uma escrita que esconde todas as artimanhas, como um mágico bem-sucedido, como a tranquila superfície onde nenhuma técnica se dá a ver. Tem, pelo contrário, uma série de erros de construção, aliás tão bonitos que pareceriam deliberados - mas tem, e dou um exemplo óbvio: remissões forçadas,
para, quando por exemplo se fala de João, se completar a imagem da personagem.

Posto isto, a novela, a que Cardoso Pires chama "romance", é magnífica. A história é de uma cativante simplicidade. As conversas entre intelectuais (o casal, os grupos) servem para  reconstituir uma época e a sua atmosfera específica. Mas entre essas reflexões que se estendem por diálogos (e não há quem não sublinhe a vivacidade e a autenticidade desses diálogos, uma vez mais: tipicamente norte-americana) desliza uma trama tão linear, no melhor dos sentidos, tão encantadora, tão clara, que fechamos a última página num silêncio que preferíamos manter.

José Cardoso Pires fala, algures, de O Anjo Ancorado como uma fábula. É o mot juste. Dois mundos e, portanto, dois tipos sociais, o dos intelectuais burgueses [João ainda vagamente progressista, apesar do desencanto] confrontando-se com os diversos tipos de povo - «confrontando-se» apesar de, teoricamente, não estar contra «aquela gente», bem pelo contrário; povo sofredor mas astucioso: imaginemos, transposto para o mundo humano, uma ave colorida e rica, ou seja, uma ave burguesa, e uma pobre e velha raposa.

A caracterização é de uma acutilância exímia. O que parece um traço rápido, de sketch, apenas dois ou três pormenores, revela-se na verdade de um enorme poder de evocação físico, psicológico e social. O garoto com o casaco de adulto, que lhe dá pelos joelhos, é um exemplo de como um detalhe essencial mostra mais do que um tratado. E ninguém como Cardoso Pires para percebermos que, muitas vezes, é no subtil pormenor que se distingue, da outra, a literatura maior.

           

sexta-feira, 8 de maio de 2015

EDITORA UTOPIA


Não tenho dúvidas de que um editor que tenha, na sua alma, a vocação de oferecer ao mundo aquilo que vale a pena ser lido, deve começar por ter criado uma exigente pureza da sua consciência leitora. Há-de manter incólume uma capacidade para descobrir segredos e raridades, mesmo depois de já ter lido muita coisa, muita coisa, muita coisa. [Porque se termos lido bastante nos refina o talento para descobrir o que é bom, lermos em modo de trabalho, de enfiada, já cansados e com a ansiedade do que nos falta ainda ler, confunde critérios e embota a perspicácia]. Sobretudo, um editor fervoroso não pode ceder ao preconceito. Não pode ler mais ligeira ou menos respeitosamente o jovem estreante, desconhecido, sem créditos. A isso me refiro quando lhe peço que mantenha a pureza do olhar, o gosto pela descoberta, a sensibilidade para a surpresa. O mais difícil será não ceder às expectativas do mercado. Ler sem pensar «Terá saída? Venderá bem? Haverá público para isto?» [Porque a pergunta certa parece-me outra: «Isto é mesmo bom? É excelente? Merece?»]
Arriscar contra a generalidade e contra quem manda. Esta seria a minha carta de princípios como editor.  

sábado, 11 de abril de 2015

LEOPOLDO ALAS: A CORREGEDORA


     Eis um livro sobre o qual, a vários títulos, faz muito sentido escrever um comentário em Profissão: Leitor. Leopoldo Alas não é um autor conhecido do vulgo e em La Regenta deparamos com uma imensa obra do século XIX, mencionada por Mario Vargas Llosa como «o melhor romance espanhol [desse século]»; "imensa" tanto pela qualidade como pela extensão: seiscentas e tal páginas repartidas por dois tomos tornam-na um daqueles romances demorados, desusadamente demorados, em que se nos pede que adiemos o virar da folha, porque tudo exige o deleite segundo um tempo e um ritmo próprios. Dou o exemplo de uma passagem que sublinhei - não adianta nem atrasa rigorosamente um passo no desenvolvimento da trama, seria perfeitamente dispensável no desenho do esqueleto da história, e no entanto é fundamental para nos conduzir à penetração num certo estado romântico de beatitude e alegria da protagonista:
    
     «De ramo para ramo saltavam pardais e tentilhões, sempre de bico aberto, mas nunca chegando a cantar decentemente, distraídos com qualquer coisa, travessos, a chilrear em vão.» [Não é delicioso?] «De vez em quando, caíam folhas secas dos ramos para a fonte; flutuavam às voltas, numa lenta marcha e, aproximando-se da estreita abertura por onde a água saía, começavam a deslizar rapidamente em linha recta e precipitavam-se na corrente, onde a superfície lisa se convertia em ondulada prata. Uma alvéola debicava no chão e debicava aos pés de Ana, sem medo nenhum, fiada na agilidade das asas; dava voltas e voltas, varria o pó com a cauda, aproximava-se da água, bebia, chegava de um salto à sebe, escondia-se por um momento entre os ramos mais baixos da amoreira, e, por pura curiosidade, voltava a aparecer, sempre alegre, sempre pespineta; quedou-se imóvel por um momento, como que a decidir-se; de repente, assustada, só por medo, sem o menor motivo, foi-se embora, com um voo rápido e direito ao princípio, ondulante e pausado depois, perdendo-se na atmosfera que o sol oblíquo tingia de púrpura

     Quem me deu a conhecer o autor e, ainda não contente, me emprestou o livro, uma tradução perfeita, de Joana Morais Varela, que a Contexto publicou em 1988, chamava-me a atenção para a semelhança entre esta escrita e a de Eça de Queirós. Sem dúvida. Para além da época e de um certo carácter ibérico que os une numa eleição de temas e formas, aproxima-os a qualidade da obra. Não me atreveria a sugerir que Leopoldo Alas é até superior a Eça de Queirós, porque ele há coisas que nem a mim próprio ouso murmurar. Mas assemelha-os a ironia, em Alas porventura mais leve e mais subtil, um fôlego espantoso e paciente para o entretecer de linhas diversas e dissemelhantes numa unidade firme, e um génio da escrita que os faz reinventar as figuras de estilo inesperadas e criar a frase expressivamente dramática ou cómica.

     Trata-se, como em O Primo Basílio, do estudo da tentação no seio da alma feminina virtuosa. É certo que visão é projectada pelo olhar de um homem: mas em Alas a visão em causa é uma visão carregada de seriedade e compreensão, um pouco estupefacta, talvez, mas sempre consciente de que o que se espera não é que se arvore em juiz. E, portanto, é sob o pano de fundo da mediocridade da cidade de Vetusta que se digladiam aspirações e inclinações no interior de almas nobres. A mediocridade de Vetusta, escrevi: a esse propósito, aquilatem a finura da ironia na forma como Vetusta nos é apresentada, na frase com que o romance inicia: «A heróica cidade dormia a sesta

     Ana, a corregedora, é uma personagem feminina digna de um panteão onde não repousam [apenas no sentido em que o seu estado natural não é o repouso] aquelas que mais revisitamos.

segunda-feira, 16 de março de 2015

ROBERT M. PIRSIG: ZEN E A ARTE DE MANUTENÇÃO DE MOTOCICLETAS


     Um amigo meu com interesse e sentido de humor, biólogo que não desdenha visitas amorosas à filosofia, andava lendo, há algum tempo - na língua original - Zen and the Art of Mortorcycle Maintenance. Percebi o seu entusiasmo. Prometeu que mo emprestaria assim que o acabasse. Fê-lo.

Há uma antiga tradução para português, na Presença. Mas mesmo essa não é facilmente encontrável, a não ser em alguma biblioteca ou encomendando-a. Inicio a leitura e compreendo a euforia do meu amigo, ainda que não seja um livro feito para ele. Não o digo com arrogância. Não é provavelmente um livro feito senão para uma pessoa, e essa pessoa sou eu.

Cada leitor terá a sua própria experiência, até certo ponto intransmissível. Mas Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas baralha o maço das questões que mais importância têm ganhado para mim na complexa fase da vida por que passo; por um lado porque me identifica - e com que pormenor: sou mesmo eu! - como uma personagem: alguém que se distancia criticamente da tecnologia, infeliz sempre que tem de lidar com ela, evitando quaisquer novidades, resistindo aos progressos que melhorariam significativamente a comodidade do seu quotidiano; pessoalmente, preferi sempre que houvesse um mecânico, um técnico, um especialista ou uma amiga devotada para consertar as avarias e repor nos carris [frequentemente através de operações muito simples] o que, nas minhas patas, tende a descarrilar. Por outro lado, o autor que me interpela e interroga sobre a inépcia que a cada passo revelo, fá-lo a partir do meu território. O que é perturbador. Ou seja: a sua reflexão constitui-se na familiaridade com os filósofos, os antigos ou os modernos, Platão, Descartes, David Hume ou Kant [e devo dizer que, acerca dos Antigos, reformula em termos extraordinariamente inovadores e interessantes o derradeiro sentido da luta entre Sócrates - o mesmo seria dizer: Platão - e os sofistas, com o desenho final de Aristóteles, responsável pela nossa compreensão, porventura errada, dessa luta, e suas consequências para a História da filosofia.] : é à luz das ideias dos filósofos, que se analisa a inabilidade, para a tecnologia, de certos artistas e de certos intelectuais, mostrando que se trata de um divórcio imbecil, inútil, equívoco e empobrecedor.

Robert Pirsig foi um destrambelhado. Num certo ponto do seu passado, o professor de retórica seguiu tão radicalmente as próprias questões, que se afastou do mundo entendido como denominador comum, aquele em que nos encontramos e comunicamos uns com os outros, ou seja: «enlouqueceu». Chegou a ser internado. Entretanto, anos volvidos sobre essa crise, mudou: tornou-se um burguês envelhecido e mais gordo, que se desfez de quem já foi, e do que então pensou e criou. No ponto em que a narrativa tem o seu início, Pirsig (mais o seu filho e um casal de amigos) reconstitui o percurso do seu outro eu, como se perseguisse um fantasma, a que chama Fedro: o professor que se passeava pelas margens da loucura [até que enlouqueceu mesmo]; o homem que se não instalava na vida e não temia a incompreensão nem o opróbrio; o que procurava o sentido de tudo com a seriedade que só entrevemos em crianças que brincam. Chris, seu filho, e os Sutherland, que o acompanham em moto, não compreendem este refazer de um caminho por poisos que já visitou. O próprio Pirsig não se lembra bem: às vezes tudo o que lhe sobra são vislumbres, fragmentos de imagens da mente de alguém que já não é ele, memórias em que não habita confortavelmente, ou que o não habitam, como se lhe proviessem de um longínquo outrem.

Não há romance: trata-se de uma narração verídica; em vez de trama, um problematizar contínuo, em ensinamentos que aqueles que o circundam não entendem, e com os quais o leitor se sente muitas vezes incomodado. Atrever-me-ia a escrever "mudado", se não soasse tão hiperbólico; mas aí está: é na medida dessa mudança, minha, que me parece estar a falar de um livro que teve um impacto específico sobre mim, como se me visasse unicamente a mim mesmo.      

Antes de se ter tornado o "romance filosófico" mais lido e comentado de sempre, Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas foi rejeitado por cento e tal editoras. É um facto! Não sei se realmente me anteviu como futuro leitor - sei que certamente não encontrou, em nenhum de cento e tal senhores editores, o leitor que o merecia.

domingo, 8 de março de 2015

AFONSO REIS CABRAL: O MEU IRMÃO



     Tendemos a desconfiar do Prémio Leya. Mas deixem recordar que, nos últimos anos, o dito cujo revelou escritores como João Ricardo Pedro, Nuno Camarneiro ou Afonso Reis Cabral. Poderíamos interrogar-nos, portanto, sobre este primeiro preconceito.

     Suspeitamos de Afonso Reis Cabral. Que é demasiado jovem e que o primeiro romance de um garoto há-de ter falhas; que se a crítica o tem ultimamente elogiado é por complacência, ou por ser um descendente de Eça de Queirós. São um segundo e um terceiro preconceitos.

     O romance é, objectivamente, uma estreia, mas poderia não sê-lo, de tal forma nos espanta pela originalidade, está bem escrito, a história magistralmente concebida no seu todo e no desenvolvimento, testemunhando uma profundidade emocional incomum aos vinte e poucos anos. Ou incomum, ponto.

     Quando digo que está bem escrito, ao que me refiro é a uma linguagem muito bela e muito clara simultaneamente: aquilo que outros autores, nomeadamente eu próprio, nem sempre conseguem porque o excesso de preocupação estilística pode prejudicar a legibilidade: cria uma neblina artificial, que obriga a mais do que uma leitura e afugenta o leitor. É preciso ter-se realmente um grande nível como escritor para, sem abdicar do estilo, fazer com que este se não imponha e não ofusque, não seja um ademane ou um meio de amplificação, mas apenas o modo justo de exprimir, simples (mas enganadoramente simples, porventura), distinto, evidente: é de uma limpidez que eu invejo.

     A originalidade radica logo no tema. Esta estória sobre uma paixão trágica entre dois deficientes, que nunca resvala, nem por um instante, para a pieguice ou para o moralismo, nem se deixa confundir com uma tentativa [que seria também legítima] de compreeder a condição dos "portadores de deficiência", é assombrosa na sua intensidade e na sua crueza.

O narrador tem qualquer coisa de Humbert Humbert [o de Lolita]: distanciamo-nos do seu egoísmo, criticamos a sua perversão ética e psicológica, reprovamo-lo com todo o nosso ser, mas não vemos nele o vilão, o irredimível mau; só consigo apreender-lhe o amor pelo irmão - eu sei, um amor imperdoável na sua forma e nos seus motivos, desequilibrado, egoísta, perigoso, mas triste e desesperado; talvez por se tratar do narrador, em cuja mente entramos, cujo sofrimento conhecemos por dentro.

No seu desarmante despretensiosimo, Afonso Reis Cabral, em conversa [para espanto e quase indignação dos intelectuais que o entrevistavam] dizia que «foi escrevendo», «não tinha um esquema» ou um «plano prévio» do romance: bem, seja ou não sincero, o resultado é uma obra exigentemente organizada para um fim absolutamente inesperado - e olhai lá, que aqui fala o leitor treinado de policiais: um final cru, violento, tremendo, chocante, sublime.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

JEAN-MICHEL BARRAULT: O PERCURSO DO PRIMEIRO ROMANCE



  O Percurso do Primeiro Romance é, ele próprio, um romance - pouco extenso, dos que se lêem numa noite. Segui-o como se tivesse penetrado em um universo literário muito característico e familiar, de que fazem parte algumas referências, sobretudo francesas, cuja proximidade explicarei com o maior dos gostos e simplicidades: Candide, de Voltaire [porque se cultiva em ambos um mesmo tom de sátira, que é a ilustração de uma tese venenosa]; Como Falar dos Livros que não Lemos, de Bayard, uma vez que se trata de uma desmistificação desassossegadora da experiência literária, num caso a propósito do acto de ler, noutro caso a propósito do acto de escrever [e respectiva publicação]: os dois casos sujeitos aos seus ditames, ditadores e às suas regras, em mundos codificados, com rituais e rivalidades próprios, onde o que parece raramente coincide com o que é. Finalmente, e por razões muito evidentes, Ilusões Perdidas, de Balzac, em que se narra o fracasso de Lucien Rubempré, um jovem ansioso por se tornar conhecido como poeta. Gosto muito de fazer estas associações, peço desculpa. Não as interpretem como um exercício de exibição, mas uma tentativa de situar a obra numa determinada esfera.

 Caradet é o Rubempré deste percurso. E, para quem quer que se tenha já iniciado na experiência da publicação de um primeiro romance, a sua odisseia acende todas as luzes da memória. Passa-se em França, mas o cenário poderia bem ser Espanha, os Estados Unidos - ou, claro, Portugal, mas aí presumo que em pior.

 Barrault encena as frustrações do jovem aspirante a escritor como um jogo. Literalmente. O livro contém, aliás, um tabuleiro sobre o qual podemos simular um percurso, sob o acaso de lances de dados: as estações desta peregrinação, as casas a que se chega, ou aquelas a que se julgou chegar, os tempos e as situações típicos, os avanços e os recuos que proporcionam. O romance, portanto, é linear - mas não deixa de ser refrescantemente penetrante no modo como descreve as emoções do protagonista. Leiam-se as bruscas transições nos juízos de valor que Caradet vai formulando acerca da própria obra, que tanto lhe parece de uma originalidade superior como de uma aterradora mediocridade; e não se passe ao lado de uma narração quase sádica dos momentos do ridículo: quando oferecem a Caradet oportunidades que se lhe esvaem risivelmente (a televisão, a feira do livro, os públicos).

  Miguel Real, que me falou desta obra impagável, cometeu a inconfidência de me expor o fim. Não o farei, mas Real tem toda a razão: é nesse extraordinário fim que percebemos como, em função do que move o escritor, todas as contrariedades são irrelevantes. Um fim sem grandiloquência, mas certeiro.