quarta-feira, 31 de julho de 2013

A.J. CRONIN: AS CHAVES DO REINO



O Concílio Vaticano II começou no início dos anos sessenta, mas só em meados da década, com Paulo VI, atingiria a sua mais elevada expressão ecuménica, abrindo janelas, revolucionando costumes, submetendo as regras, até certo ponto, ao primado da fé e do sentimento. Só muito mais tarde ainda, porventura nos anos 80, se falará da Teologia da Libertação, tanto no correctíssimo ideal de se pôr sempre do lado dos pobres, como na sucessão de erros e equívocos bem-intencionados em que se terá deixado capturar.

Ora, este romance é dos anos 40. Mais precisamente, de 1941: que o protagonista de As Chaves do Reino seja o comovente Padre Francis Chisholm, cuja vida ilustra a fórmula «Ama e faz o que quiseres» [Santo Agostinho] torna-o, tantos anos antes dessas experiências da história da igreja católica, o precursor contemporâneo de uma ânsia de retorno à autenticidade cristã, a um espírito de fraternidade e a um despojamento, preparado para aceitar e compreender mesmo o mais longínquo, se é que faz sentido crer que «na casa do Pai há muitas moradas...»

Minha mãe, que há muitos anos lera, e amou, este livro, confidencia-me agora que, justamente entre as senhoras da Acção Católica Portuguesa, a que pertencia, a obra causou furor, e as atitudes intempestivas do Padre Chisholm eram debatidas e, em última análise, duramente criticadas. Por exemplo: que ele tivesse aceitado deixar morrer o seu grande amigo sem lhe conceder a extrema-unção, por respeito pela dignidade do ateu convicto que este fora em vida. Acredito que, em certos meios, ainda hoje tal gesto pudesse consternar.


A predisposição de Francis para o amor, que o leva a ser um amigo genuíno do mandarim Chia [a quem também recusa uma "conversão insincera", motivada pela gratidão], ou de um casal de Pastores protestantes norte-americanos, que se esperaria que viessem a ser seus rivais, senão inimigos, na obra de evangelização entre os chineses, revela a grandeza e a rectidão dos sentimentos e da intuição cristãos que o impelem: ao contrário dos homens da hierarquia, finos e delicados, eficazes e diplomáticos, em busca de uma competência profissional da igreja, traduzida em números de convertidos ou na extensão física da missão, como se tudo se resumisse ao cumprimento de objectivos empresariais; retóricos de discurso elegantemente burilado, reféns da preocupação de agradar.

Trata-se, no mais amplo sentido da palavra, de um romance de caracteres. Múltiplos, humaníssimos, seres intimamente bondosos mas com pecados, ou viciosos que, no fundo, se defendem a seu modo da vida, gente que percebemos que se vai transformando, ou poderia transformar-se. [Nem sempre, aliás, a transformação coincide, em todos eles, com uma evolução; mas só raramente não vemos nestas personagens alguma possibilidade de bem e de salvação]. À medida que no-los apresenta, define, através deles, uma visão completa de todo um mundo, toda uma época e toda uma cultura. A estreita aldeia escocesa, primeiramente, num ambiente piscatório, de onde será transplantado, aquando da trágica morte de seus pais, para uma família mesquinha e arrivista, da qual o salvará mais tarde a tia Polly. Por fim, a aprendizagem e a formação da sua vocação, nos primeiros contactos com o preconceito e o maquiavelismo, que lhe repugnam, de professores e estudantes.

Estes ambientes são tão bem caracterizados que, por um momento, o leitor sente que vai perder algo disto, destas pessoas, deste mundo, quando Francis Chisholm é enviado para a China. Grave engano! Os capítulos sobre a sua vida na China são de uma intensidade dramática que nos exalta. A dureza da sua fixação em território inóspito, a constante aventura em que se converte uma vida que tão pouco e tão poucos tem para se expandir, a relação impossível com a aristocrática e arrogante madre que o virá ajudar na missão, a força de amizades improváveis, contra tudo - a fome, as doenças, os ataques movidos por cruéis senhores da guerra - devolve-nos o melhor do cristianismo: num homem rude e impaciente, tão avesso à pieguice como à ostentação, completamente falho de outra diplomacia que não a de uma alma que se entrega totalmente e sem subterfúgios, encontro - eu, eterno insider-outsider do cristianismo - a empolgante vibração da Boa Nova.

sábado, 27 de julho de 2013

R.A.P. & M.E.C.


«Só as pessoas superficiais não julgam os outros pelas aparências...»

Oscar Wilde?
Não. Ricardo Araújo Pereira citando Miguel Esteves Cardoso.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

ROMAIN GARY: LUAR DE MULHER [UMA BREVE CITAÇÃO SEGUIDA DE UMA BREVE QUESTÃO]




«Rebuscou a carteira, tirou de novo um cartão de visita...
     »- Já me deu um, repeti.
     »Multiplicava as provas da sua existência.»


[Pergunto-me como é que um tipo que escreve assim pode ter sido quase completamente esquecido.]

quarta-feira, 24 de julho de 2013

FRAGMENTOS



A Teresa recomendou-me "As Chaves do Reino"; ainda nem bem tinha acabado de ler a prescrição e já me encontrava em viagem para o achar. Está ali, em cima de uma mesa. Abençoada Ulisseia que tão bons livros traduziu e publicou numa certa época.

Com este poder da Teresa, que em poucas semanas revolucionou o meu universo de livros inesquecíveis, só talvez o meu primo, que me presenteou com uma extensa lista, e minha mãe, que me apresentou Somerset Maugham e Erskine Caldwell. [Mas não é maravilhoso perceber que, possivelmente até ao fim dos meus dias, esta lista será sempre uma lista provisória e incompleta?]

Porém, em relação aos relatos maternos, existem hoje dificuldades praticamente intransponíveis. Lembro-me, por exemplo, de que quando eu era menino ela me contava certa história policial em que uma mulher idosa teria cometido um assassinato. Uma jovem que tratava dessa velha - de família? uma enfermeira? - descreveu-lhe, por graça, como poderia ter sido a própria senhora a praticar o crime. Fitando-a, percebeu-lhe o desconforto, o ar sério e grave; soube que tinha acertado em cheio. Disse: «Estou sozinha com uma assassina»; e sentiu-se mal, ou desmaiou, ou qualquer coisa. Mas como diabo conseguirei chegar a um livro sobre o qual, apesar dos pesadelos que me provocou, não sei absolutamente mais nada, e de que a minha mãe já não se lembra?

Outro seria um extraordinário "Narrow Street", que leu em inglês, mas não sabe quem é o autor. Nas minhas pesquisas, acabo por ficar à beira da possibilidade de um tal Elliot Paul [e a obra chamar-se-ia então "A Narrow Street"], mas não será que que a minha mãe se referia antes a "Narrow Corner", do seu querido Maugham?

Ou então, um outro policial em que um homem, à noite, se sente incomodado na sua tranquilidade doméstica pelo ruído de um grupo. Sai, admoesta-os. «E desapareçam daqui, se não...»; mais tarde, a sós com a mulher, confessa-lhe: «Ainda bem que não perguntaram: se não, o quê...?»

Pode ser que um dia recupere algumas das obras a que pertencem estes deliciosos e saudosos fragmentos.  

terça-feira, 23 de julho de 2013

ROMAIN GARY: A PROMESSA




«Acabou-se. A praia de Big Sur está deserta e deixo-me ficar deitado na areia, no mesmo sítio onde caí. A bruma esbate as coisas; nem um mastro no horizonte; num rochedo em frente de mim, milhares de aves; noutro uma família de focas: luzidio e devotado, o pai emerge incansavelmente das vagas com um peixe na boca. As andorinhas-do-mar aterram às vezes tão próximo que contenho a respiração e os meus velhos gostos despertam: pouco falta para que elas venham poisar na minha face, aninhar-se-me no pescoço, nos braços, e recobrir-me completamente... Aos quarenta e quatro anos continuo a sonhar com uma espécie de ternura essencial

Sei que este início sobreviverá, como um pai-foca, incansável e devotado, a milhares de páginas dos romances que desejo poder vir ainda a ler. Cria um espaço próprio em nós, não é verdade? Torna insípido quase tudo o que lemos antes, e, posso adivinhar, muito do que esteja para vir. Por que interrompo a citação? Por que não continuo simplesmente citando esta reunião sagrada entre as visões do seu passado, e as frases, de uma beleza dolorosa, com que Romain Gary no-lo oferece nesta obra?

[Uso uma tradução, já com alguns anos, de Augusto Abelaira, que se chama "A Promessa", e não "Promessa ao Amanhecer"; o título original é "La Promesse de l'Aube": promessa "do" amanhecer...].

Existe uma injustiça no cerne da relação entre a mãe e seu filho; não sei se lhe chame injustiça, mas como designá-la então? De um lado, porque uma mãe, criando vida a partir do seu próprio corpo, abdica sempre de si mesma, e será capaz dos mais drásticos sacrifícios para que o filho se realize; do outro lado, porque um filho é necessariamente, e antes de mais, um projecto da mãe por interposta pessoa. Uma promessa: um filho deverá encarnar, como escreve Gary, o «happy end» da mãe.

Lendo este livro, apercebemo-nos a cada passo desta injustiça. Mas também de como ela é inseparável de uma espécie de essencial vulnerabilidade humana. Desse reconhecimento, aliás [que nunca se confunde com a aceitação da estupidez ou da indignidade, com os seus próprios e bem diferentes deuses, inscritos na mitologia infantil que Gary reconstitui], desse reconhecimento de uma fragilidade inerente à condição humana, nasce o génio para a escutar, compreender e amar; amá-la como, talvez, ao que há de mais autêntico. «Tive sempre uma grande tendência para procurar, por trás das grandes razões, um impulso íntimo e procurar no coração das imponentes sinfonias o débil e terno som de uma flauta que subitamente afaga os ouvidos


Não há, na vida de Gary, senão a mãe que se lhe devotou e a que se dedica inteiro, entre improváveis insuficiências e certezas absurdas. Falar tão-só (e repetidamente, como o faço) de "injustiça" a propósito deste laço seria, isso sim, uma injustiça extrema e uma burrice de leitura; nenhum dos dois tem contas a pedir: sabem ambos que a essência da sua relação é um amor infinito, uma fusão inquebrável. A fragilidade como um dos paradoxais modos de uma força sobre-humana. Ou o inverso.

Um exemplo deste sentido da debilidade, o terno e sofrido som da flauta, encontra-se, aqui, não tanto na ausência de um pai, mas na descoberta tardia do destino deste. [O pai, com a sua expressão melancólica, tê-lo-á visto uma ou duas vezes na vida, porque era casado com outra mulher de quem tinha outros filhos.] Saber-se-á que ele fora liquidado num campo de concentração; mas só mais tarde Gary descobre que não terá entrado sequer no local onde o gazeariam. Sucumbiu, de pavor, na fila que era dirigida para a câmara de gaz. Porém, essa fraqueza - não ousaria chamar-lhe cobardia -, essa falta de heroicidade, é o que reconcilia Gary com a ideia de haver sido seu filho. O que o faz aceitar aquele desconhecido como sendo, por direito, um pai humano, que o mereça.

É difícil resistir à tentação de ler este texto profundo sem, precisamente, o encerrar numa «imponente sinfonia», deixando escapar a autenticidade que o constitui. É com um sentido de humor subtilíssimo que Romain Gary desafia os leitores que lhe abordam a memória munidos de um discurso correcto, seja o da psicanálise, ou outra tábua de ideias feitas. Arriscamo-nos a não escutar o débil, o frágil, o belo, o comovente amor, a total entrega de um filho a essa mãe «desmedida», excessiva, ressentida, escandalosa, uma figura inesquecível de russa, fumadora inveterada, negociante atrevida e talentosa, que não admite que o menino venha a ser menos do que «um grande homem», um génio, um ser de eleição; o quê, tornou-se indiferente: um violinista, um tenista, um escritor, um diplomata. Um destino que se cumprisse, desforrando-a das perseguições dos deuses da idiotice, da maldade, da infâmia e da vileza; de todos os que troçaram e a ridicularizaram, e os amesquinharam e incompreenderam.

É uma obra imensa sobre o sentido da imperfeição e do perdão. Sobre a fé numa França que a mãe idealizara, e os acolherá, nem sempre com justiça ou isenta de estupidez e preconceito. Sobre o cepticismo, que é uma inevitável dimensão de qualquer fé: ou seja, a descoberta, pelo malabarista, de que nunca há-de conseguir jogar com sete bolas. Faltará sempre a realização do espectáculo com essa sétima bola, posto que, se fosse capaz, passaria imediatamente a desejar incluir uma oitava - a qual seria, nesse outro nível, a sempre ambicionada e impossível sétima bola.

     

       

domingo, 14 de julho de 2013

ROBERT BRASILLACH: COMO O TEMPO PASSA



Meu avô citava-me uma frase temível, com que Brasillach se elevava sobre a mediocridade virtuosa dos seus perseguidores. Guardei-a comigo durante séculos. Um dia, tentei recordá-la. Tinha-a esquecido. Irrevogavelmente.

Certa vez, passei por um alfarrabista e topei, em francês, com um livro desse autor que meu avô tanto admirava. Comme le Temps Passe. Trouxe-o comigo. Li-o, com a lentidão e o esforço de quem ainda não estava preparado. Pela segunda vez, esqueci Brasillach.

Foi a Teresa que mo sugeriu agora, numa tradução portuguesa que nem sabia existir, da Ulisseia.

Robert Brasillach [se queremos começar por um ponto incontornável, que Teresa também refere] foi fuzilado aos 36 anos, devido à sua colaboração com as forças nazis. Muitos intelectuais franceses, naquela intolerância que a França herdou directamente da sua revolução, aquela estreiteza que não admite mais do que um único ângulo, proscreveram Brasillach, sublinhando os filmes ou as fotos em que ele aparece entre oficiais nazis, ou aqueles em que o vemos no uniforme da traição. Que merda que este homem, como Céline, outro fulgurante fantasma do lado errado, haja sido também um escritor de génio.

Mas Céline foi sempre um provocador: o seu anti-semitismo ou a sua veia fascizante estão presentes na  obra extraordinária que nos legou, sobretudo em Morte a Crédito, sob a forma de desprezo pelos pequeno-burgueses ou de sarcasmo. Em Céline há uma bem-vinda truculência, mas nenhuma gentileza. [Não é rigorosamente verdade: a sua "petite musique" tem inesperados surtos de delicadeza e amor.] O que Brasillach, pelo contrário, revela na sua obra é uma personalidade gentil e melancólica. Nenhuma agressividade, nenhuma truculência.

Como o Tempo Passa é um dos mais interessantes romances que li, não nos últimos meses, mas desde sempre.

Primeira questão: com que idade o terá escrito, se foi morto aos 36 anos?
Retomemos, como segunda questão, a que já formuláramos: como pode este homem, não só que escreve com tamanho talento, mas mostrando este espírito de observação e compreensão, esta sensibilidade, esta captação dos sentimentos humanos, esta proximidade do mais refinado e do mais subtil do espírito, esta cultura, haver sido um simpatizante do nazismo? A minha resposta apontaria para a tese do equívoco. Tem de ter havido um equívoco na posição política de Brasillach, um engano em relação ao autêntico alcance e prática do nacional-socialismo, um desconhecimento dos campos de concentração, do assassinato mecanizado em larga escala. Desengano-me. A menor pesquisa exige que me desengane: na forma da sua colaboração em jornais, nas denúncias dos patriotas franceses, que não hesitou em fazer, sobretudo no anti-semitismo que assumiu e ostentou, está claro que a tese do equívoco é uma tese ingénua.

O que não se explica é, então, o romance maravilhoso acerca da transição do século XIX para o século XX, como um movimento prodigioso, exuberante e demasiado veloz; tendo vivido a sua infância feliz numa ilha descrita como o éden, René e Florence criam uma ligação aparentemente indestrutível. O início não é sempre o éden, a felicidade e o que se julga indestrutível? Bravios, livres, magníficos, desconhecendo qualquer disciplina severa ou currículos rígidos, não precisando, para um enquadramento mínimo, senão da tia Esperança e de um bizarro professor, Matricante, os dois meninos têm tudo quanto lhes falta. Marca-os a imagem de um tutor que nunca realmente viram, que designam respeitosamente por A Figura, e de que temem o retrato que se encontra no escritório.

Quando arrancado ao éden para ir estudar em Paris, René será o jovem um pouco perdido, uma espécie de "homem sem qualidades", que nenhum traço final define. Como o próprio tempo, ele é a substância mutável, curiosa, flexível, com saudades e recordações que o visitam, mas o não enraízam. Conhecerá por fim A Figura - um prestidigitador com pouca fé no futuro da sua arte - e há-de reencontrar, ao longo dos anos seguintes, o seu mestre Matricante. Este será sobretudo o instrumento do tempo, que se apaixona pelas grandes invenções quando ninguém ainda crê nelas: o cinema, no início; mais tarde o automóvel, na sua expansão. René segui-lo-á, sem convicção, mas curioso, em todas essas incursões mágicas e maravilhadas.

A simplicidade do reencontro com Florence, nessa Paris que tão pouco se parece com o mundo fechado da sua infância, e o narrador nos descreve nos múltiplos pormenores que reconstituem a Cidade-Luz num tempo de luz, faz dele um destino. Mas tudo isto sem excesso estilístico, sem uma voz narrativa que se imponha grandiloquentemente. Há, pelo contrário, um estilo perfeito, feito de frases tão belas, mas ao mesmo tempo tão naturais, que chegam a passar despercebidas; é em geral a uma segunda leitura que lhes captamos o segredo, e nos surpreendemos, esquecidos por uns instantes de respirar. Como se tivéssemos sido atingidos.

Mas é uma simplicidade enganadora. Em determinadas situações, compreendemos o encadeamento surdamente exigido para que o leitor duvide do que compreendeu. Quando René, entretanto casado com Florence, de quem teve um filho, se afasta dela, por que razão se afasta? Por causa de uma conversa sobre o sentido da guerra? Ou porque assistiu ao espectáculo de um beijo trocado entre Florence e um jovem militar estouvado? E viu, realmente, o espectáculo? A que assistiu efectivamente René? Ou a que foge? Florence não o sabe. Mas o leitor também não está certo.

Nesta reconstituição do tempo como um contínuo movimento de encontros, perdas, por vezes de reencontros (mas não de tudo o que quereríamos reencontrar, e nem sequer necessariamente do que nos parecia então essencial), libertam-se episódios paralelos, histórias minúsculas, de personagens secundárias que são outros tantos braços do tempo. Como a de Patrice e do seu cego. Ou como a de sua mãe. São apontamentos comoventes, terríveis, luminosos no modo como se destacam do denso conjunto de sombras que as sufoca. Ou a do pequeno espanhol, tão prematuramente morto; e a propósito da noite passada, em Toledo, por René e Florence, atentemos nas quinze páginas [quinze!] em que nos é contado o modo  como os dois jovens se entregam um ao outro, num misto de pormenorizada descrição dos gestos e das expectativas, na encantadora dança dos dois corpos, e de cuidadosas elipses, ou sugestões, com que se evita uma exposição grosseira. São quinze páginas inesquecíveis, que todos os escritores portugueses deveriam ser obrigados a ler, se é verdade que a literatura portuguesa é conhecida como generalizadamente pobrezita na descrição do acto sexual.

Robert Brasillach permanece um enigma.
Como o Tempo Passa, em todo o caso, é uma obra literária maior. Se não resgata o homem, resgata-se a si própria.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

GEORGES PEREC: A VIDA, MODO DE USAR



Georges Perec é um escritor sobejamente conhecido. Por mim, só o era de ouvido. Mas acontece que uma das suas primeiras obras, O Condottiere, recusada por diversas editoras, e sobretudo por essa recusadora-mor que é a Gallimard, veio a ser recentemente redescoberta, numa mala - aliás como Perec tinha previsto, em carta onde se lamentava das sucessivas recusas -, e publicada agora sob os justos holofotes e ao som de trombetas.

Imagino-me no lugar de um conselheiro editorial da Gallimard. Vejo-me olhando, com alguma relutância, para o original de um escritor desconhecido, depois principiando a folheá-lo e, por fim, embrenhando-me no texto. Pergunto-me, honestamente: haveria a menor possibilidade de deixar escapar tudo o que se diz [mas agora é fácil dizê-lo] que germinava já neste seu início? deixar-me-ia enganar, empurrando para longe as folhas, com algum enfado, e comentando para os meus botões: «Este tipo é um fala-barato», ou «Há aqui ideias interessantes, mas o sujeito perde-se em palavreado: tal como está, parece-me impublicável»? Ou intuiria a luz, «Espera aí, espera aí», uma leve incerteza progressivamente consumida pelo reconhecimento do génio...?

Neste livro é imperdível, antes de mais, o prefácio [da autoria de um magnífico Claude Burgelin], que historia, enquadra, liga, aprofunda, compreende, em síntese: faz luz. Falarei, porém, do romance em si em outra altura. Ou talvez não. Em todo o caso, ele foi a porta correcta para a descoberta de Perec, nomeadamente de um seu outro livro: A Vida, Modo de Usar, que li a seguir.   

Todo o experimentalismo é exigente. E, portanto, cansativo. Sem o respaldo daquilo a que já nos habituámos, o novo precisa de um corpo-a-corpo. Há-de haver uma razão para ser tão difícil lermos Ulisses. Não que não seja absolutamente indispensável: de se experimentar, de se inovar, nascem as novas formas, um horizonte mais rico de possibilidades, de que entretanto aprenderemos a apropriar-nos também. Mas os nossos sentimentos, a sensibilidade, estão formados, ou até treinados, para reagir ao que lhes toca de um dado modo.

Por outro lado, se as experimentações permitem uma evolução técnica da arte, nem por isso advirá delas qualquer progresso qualitativo, ou da essência, ou da grandeza, ou da genialidade. Não se "evoluiu" para além de Homero, Dante, Shakespeare ou Proust. Nem acredito que a força intemporal da obra destes pudesse ter melhorado pelo facto de haverem conhecido outros recursos, outras figuras, outros meios.

Isto dito, A Vida, Modo de Usar é uma obra que consumimos em pequenas doses de cada vez. E, de cada vez, deixa-nos fascinados. Mas é um fascínio que precisa de se recolher, se desligar momentaneamente. Há um excesso que não é da ordem da urgência nem da impaciência, mas da concentração. Há uma forma que pede o seu tempo de digestão.

Vejamos: entra-se num prédio, visto rigorosamente como um puzzle, e vai-se descrevendo cada um dos apartamentos como se descreveriam as peças do mencionado puzzle. O que é particularmente bem conseguido é que, em cada uma dessas apresentações há como que uma suspensão do tempo. Estamos num dos quartos das criadas, por exemplo, e é como se acabássemos de chegar, surpreendendo a cama, os móveis, mas também as pessoas que lá se encontravam nesse preciso instante, um homem que fuma e lê o jornal, ou uma mulher que se penteia. Essa quase-cristalização, que captura o momento, com pessoas ocupadas em tarefas que fazem parte desse tempo subtraído ao tempo, funciona como uma ponte para se irem introduzindo explicações, um passado, uma biografia, uma história, seja a propósito de uma estante, um pente, uma caixa de charutos ou um jornal tombado no chão. Bruscamente, essa imersão na história, na biografia, parece acelerar. A narrativa ilumina-se, como quando se conta o episódio da jovem ama que deixara afogar o bebé no banho, e será perseguida pelo pai da criança, que a assassinará muitos anos mais tarde. Liga-se, pois, o tempo suspenso, enclausurado na sua lógica própria, a um tempo e a uma lógica exteriores, que o ultrapassam e acomodam. Das duas uma. Ou perguntamos «Mas para que diabo serve esta minúcia?», ou nos deixamos seduzir pela sua riqueza um pouco vã, mas cativante.

Um puzzle é uma estrutura que devemos construir. Eventualmente, uma vez composta, mostra uma figura e, então, oferece um sentido. Porém, em Perec, o sentido vem sempre em diferido. O espectáculo principal é o da sua construção. É o de nos fixarmos atentamente em cada peça, e esgotá-la, antes de a ajustarmos ao todo.

terça-feira, 9 de julho de 2013

PASCAL BRUCKNER: LUA DE MEL, LUA DE FEL




     Agora que uma versão light do sado-masoquismo ganhou um novo lugar entre as donas de casa que sentem a sua vida real esvaziada da mínima vibração erótica, graças a coisas como As 50 Sombras de GreyO Inferno de Gabriel  e outras deprimentes pepineiras, é interessante descobrir que, se não quisermos recuar até ao divino marquês, já mais próximo de nós (anos 80) Pascal Bruckner escrevera uma extraordinária e crudelíssima Bíblia da relação sado-masoquista.

     Descobri aqui, num dos poucos blogues que não me cansei de seguir - não disse: o único; disse: um dos poucos - a referência ao livro, de que me pus de imediato em busca, e ao filme, que hei-de certamente ver: Roman Polanski servindo-se de Hugh Grant, Emmanuelle Seigner e Peter Coyote, aponta-me, no mínimo, para um casting inteligente.


     A questão que desde logo não posso deixar de pôr é a do efeito não-realista da escrita de Bruckner. Conrad, que amo, usara o mesmo recurso. Camus, que é mais fraco mas, ainda assim, um «clássico», também. Trata-se de, ao contrário de Hemingway, criar um texto literário, e até poético, para se nos contar uma estória que deve tocar-nos pela sua verosimilhança. Ou seja, abdica-se de uma escrita em jeito de "reportagem". O problema parece tornar-se ensurdecedor quando se espera que acreditemos na existência de uma narração oral, ou seja, de um homem que vai apresentando, a alguém (o escritor que tudo transcreverá em nosso benefício), uma trágica sucessão de episódios. Sentimo-nos desconfortáveis, porque as pessoas não falam efectivamente dessa maneira, grandiloquente e trabalhada. Aquele é o modo da "escrita", necessariamente: nem o tempo nem o contexto de uma conversa o permitiriam.


     Mas, à medida que penetramos no que está sendo narrado, começamos a compreender o sentido, a razão de ser, o objectivo último desta escolha; confrontamo-nos até com o imperativo categórico que preside à assunção da forma em causa.
Façamos uma analogia com a ópera. Também ninguém fala a cantar; não me parece que haja assim tantas pessoas que, nos últimos instantes de vida os gastem em impressionantes malabarismos vocais, ao invés de gemidos ou de arquejos. Nem é realmente habitual que se cante um pouco, ainda, quando se está com muita pressa para ir combater, ou evitar que uma catástrofe se abata sobre inocentes. Claro, bem sei que para os ignorantes da ópera, o que mencionei são itens de uma longa lista de motivos que a tornam ridícula. Mas para todos os que aprenderam a devotar-se-lhe, o canto não é um excesso na exposição operática do real: pelo contrário, é o elemento artificial (próprio da arte, pois) que o sublima e intensifica, que o torna mais triste ou mais feliz, mais comovente ou insuportável, mais belo ou mais feio, ou tremendo. Também neste romance, é disso que se trata: de uma sublimação do chocante e do agressivo, de um cântico à perversão, indispensável para que os desvios mais assustadores, na perspectiva do leitor «normal», sensato, burguês, sejam recuperados segundo uma luz que lhes traz um inesperado sentido e uma terrível beleza.

     É uma estória que nos prende e sufoca. Muito dura, verdadeiramente ousada, na procura obcecada da experiência da transgressão e do ilimitado, que consegue transformar as substâncias ou os odores mais repelentes em hinos de glorificação ao corpo feminino. Ao corpo como um todo, não como a superfície visível e aceitável, em que se ocultam, como segredos proibidos, todos os potenciais dejectos, toda a porcaria, líquida ou sólida.

     Mas é também um romance sobre a cobardia, as ilusões ou, mais propriamente, o desfazer das cálidas crenças e mitos, no momento em que um casal, concentrado na bolha do seu amor, dos seus gostos comuns, das suas «ideias eternas», numa viagem, de barco, em direcção ao seu sonho exótico de sempre, se encontra com um outro casal: Franz e Rebecca, que tendo já, de algum modo, levado ao extremo a sua destruição mútua, a expandem agora aos outros, malévola e persistentemente.

     E percebo, Teresa, porque esta livro a tocou tanto. Certamente porque rapta o leitor do princípio ao fim. Mas também por ser a paradoxal fusão entre uma radical ousadia, e o requinte e o bom-gosto, fusão essa que, Teresa, a si lhe assenta como uma luva.