terça-feira, 7 de maio de 2013

TEOLINDA GERSÃO: A CIDADE DE ULISSES



Entramos sempre num romance acompanhados dos nossos preconceitos. Já lemos outras coisas daquele autor. Ou fugimos a lê-las. E, portanto, deixamos que as ideias feitas nos determinem antecipadamente a chegada ao novo território; às vezes, porém, mobilizamo-las para uma luta que se revela inglória. Insistimos numa derradeira resistência, e vemo-las, por fim, a dissolver-se uma por uma: é o que acontece nas raras ocasiões em que nos deparamos com uma obra mais forte do que o pré-conceito que dela estabelecêramos.

Com Teolinda Gersão sucede-me agora esta segunda alternativa.

Porque, por algum injusto motivo, Teolinda Gersão fora sempre por mim tomada como uma autora menor; uma contista premiada, sim, mas aquém de um limiar que separa as pessoas que gostam muito de escrever - e insistem -, dos verdadeiros escritores. Recusei-me a alguns livros seus, que a minha mãe sugeria. Tive-os em casa, emprestados, esquecidos. Acabava por não lhes tocar.

Iniciei A Cidade de Ulisses nem sei bem porquê.

Logo nas primeiras linhas, deparo com uma escrita incomum pelo constante risco da surpresa; vejamos por exemplo os diálogos, expostos num curiosíssimo terreno de ninguém, subtil e feliz, entre a voz directa e a indirecta. As palavras que "ouvimos" não são, pois, as das personagens, e sim as do narrador, reconstituindo-as; no entanto, fá-lo mantendo sempre uma estranha proximidade com as palavras de cada um dos falantes, como se, assumindo que está a falar em vez deles, no-los desse ao mesmo tempo a ouvir. De Eça de Queirós a José Saramago, há uma linha de convivência entre a fala directa e a sua reconstituição, que Teolinda Gersão domina, e recria.

Simultaneamente, para nós, leitores, que não ignoramos que a autora é uma mulher, subsiste um efeito de ironia no
espectáculo de a ver vestir a pele de um narrador do sexo masculino. É mais labiríntico do que pode parecer à primeira vista: porque este narrador tem os vícios de todos os homens, as características que as mulheres odeiam: digamos, entre outras, um típico egocentrismo, ou uma incapacidade larvar para se entregar inteiramente ao romantismo do amor. Contudo, Teolinda Gersão consegue a proeza de captar esse ângulo sem aproveitar para o ridicularizar ou denegrir. Mais: é à luz da perspectiva masculina, que fala acerca da personagem feminina, observando-a do exterior, na sua ingenuidade, ou na importância fulcral que o amor para ela tem. E esta brincadeira de olhares, não sendo propriamente uma novidade literária [posto que existiram sempre mulheres capazes de usar muito bem o olhar de um narrador masculino, mais talvez do que o contrário], consuma-se aqui com uma generosidade e uma paciência que resgatam o amor, e tornam aceitáveis - ou compreensíveis - as velhas diferenças entre os universos masculino e feminino.        

Sobre este livro, projectamo-nos todos, e cada um descobre o que lhe interessa. Francisco José Viegas detém-se na Lisboa de Teolinda [e é certo que é uma Lisboa riquíssima, que se vai intercalando num tom mais ensaístico do que romanesco, a propósito de locais, de peças, de nomes, de camadas histórico-temporais que vieram a sobrepor-se...]; Inês Pedroso detecta ironicamente o escândalo de uma história sobre um amor com final feliz; eu gostaria de ressalvar a beleza de uma escrita que apetece seguir sublinhando as frases com o lápis.

1 comentário:

Numa de Letra disse...

Gostei muito...

http://numadeletra.com/a-cidade-de-ulisses-de-teolinda-gersao-56804