quinta-feira, 23 de maio de 2013

MÁRIO DE CARVALHO: O VARANDIM SEGUIDO DE OCASO EM CARVANGEL


Os dois pilares da escrita de Mário de Carvalho são os romances de Eça de Queirós e o prazer da língua portuguesa.
Terá havido outras mediações, incorporações, influências. Mas quase me atreveria a dizer que, com o Eça numa mão e o seu português cultivado e prolixo noutra, Mário de Carvalho não carece de nada mais para se haver tornado o escritor originalíssimo que é.

Não resisto - eu que tanto falo contra as comparações espúrias e, no entanto, constantemente as faço - não resisto a pedir que olhem para uma página de Mário de Carvalho e para uma de Mário Cláudio; ambos se chamam Mário. Estou a brincar, claro, mas há semelhanças: têm os dois o gosto requintado da língua portuguesa no seu uso mais invulgar, recuperando palavras quasi-perdidas, redescobrindo camadas de português sob o actual português, rebuscando um estilo que escapa ao lugar comum ou à frase feita. Mas o que no primeiro se faz com uma elegância que gostamos de saborear, é no segundo o excesso gongórico, o refinamento pesado e cansativo. Mário de Carvalho sabe narrar, e as possibilidades da língua são, nas suas mãos, um terreno inesgotável para a construção de narrações ágeis. Há uma velocidade dos acontecimentos que é inversamente proporcional ao tempo de que precisamos para ler, lenta e cuidadosamente, fruindo a melodia riquíssima do texto.

O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel consta de duas novelas reveladoras dessa sua voz criativa e muito irónica; estamos num país imaginário, vagamente inspirado numa Polónia onde grassa uma revolta surda, contra um monarca ilustrado mas fraco, aconselhado por homens interesseiros.

Na primeira estória, uma família bizarra, caída na pobreza e, portanto, em relativa desgraça, descobre no seu varandim com vista para o «enforcamento dos anarquistas» uma inesperada possibilidade de enriquecimento. Este é o fio condutor de uma narrativa onde, em cada momento, o humor desapiedado de Mário de Carvalho nos vem exigir um riso amargo. Um exemplo reside nos episódios em que o avô é subido, e descido, na sua cama, escadas abaixo ou escadas acima, consoante as conveniências, ora da neta egocentrista, ora do neto empreendedor e perdulário.
A segunda estória, Ocaso em Carvangel, é mais confusa e menos interessante, com demasiadas personagens, que alguma falta de domínio [do autor, ou do leitor, ou de ambos] faz que se vão perdendo de vista. Até a ideia [o jovem incapaz de escolher entre duas irmãs gémeas, que se transformará no enigmático príncipe dos mabecos] parece, em si mesma, um motor um pouco frágil. No entanto algumas passagens são deliciosas, algumas personagens absolutamente imperdíveis, alguns aspectos da ideia conduzem a efeitos surpreendentes. E a leitura, a leitura é sempre o gosto das palavras nos olhos e no cérebro, e muitas vezes, em surdina, passeando na língua. 


  

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