terça-feira, 19 de março de 2013

NUNO CAMARNEIRO: NO MEU PEITO NÃO CABEM PÁSSAROS


«Vai um pássaro a voar baixinho, tia, é lindo e vai perdido a voar. Aqui não é céu de pássaros. Tenho muito calor dentro de mim, tia, tenho calor e falta-me o ar. Leve o pássaro para a rua, lá para onde puder voar. No meu peito não cabem pássaros

Principio, talvez maldosamente, por esta passagem: não tanto por se tratar da fala em que se revela e justifica o título da obra (o que já seria maldoso, porque não me parece grande título), mas também por constituir uma ilustração clara do que julgo ser o pecado capital deste romance. As pessoas têm lido o trecho em causa com algum encantamento; é o que vem imediatamente à memória quando se quer citar um excerto desta estreia, escrita [assim é referido na contracapa] «numa linguagem bela e poderosa»; a sua poesia toca-nos, arrasta-nos. A mim, confesso, não arrasta para lugar algum. Por um lado porque, num romance que pretende apreender uma realidade, não cabem crianças a quem a febre aguce este tipo de talento espontâneo; os meninos e as meninas às vezes surpreendem-nos, sim, e a inocência poética das suas palavras pode ser maravilhosa, mas esta linguagem na boca de uma criança que «arde em febre na cama» introduz uma nota errada, qualquer coisa que soa mal, um excesso imperdoável. [Mesmo percebendo todos  quem é o poeta que inspira este Fernando, por enquanto menino]. Depois, dissecando a passagem, descobrimos-lhe um timbre de déjà-vu, que incomoda: pássaros a voar no peito? pássaros a debater-se, presos na gaiola do peito? Onde é que já ouvi isto? Não certamente em Fernando Pessoa; sendo, esta personagem, Pessoa em menino, faria todo o sentido não propriamente um pastiche - mas uma aproximação ao que poderíamos imaginar como a escrita de um FP ainda criança; ora, ao invés, ficamo-nos pelo tom de poesia menor...

Alguns jovens autores têm sido sobrevalorizados; confunde-se muitas vezes o escritor potencialmente bom com o grande escritor acabado. Voltemos à passagem citada. Se insisto no que poderia considerar um pormenor despiciendo, é porque, em No Meu Peito Não Cabem Pássaros, tropeço continuamente neste tipo de pormenores. Num capítulo anterior, a mesma criança [Fernando], «um homem por ser», «um rapaz que», assustado, num barco, «deixa um lugar por outro», também já se pusera, sobre «uma secretária roída», a escrever prosa poética deste jaez, acerca do mar:

«Da última vez estavas igual, tinhas já essa cor de ir e vir dentro de ti. [...] Tens vantagens claras, claro que tens, nós estamos de passagem, agarrados ao que ficou e incertos no que será, tu não

«essa cor de ir e vir»; Céus! Não sublinho estas passagens, pois, por perversidade, mas porque elas são a moeda falsa (e desnecessária) numa escrita, de facto, poderosa e bela. Nuno Camarneiro é um grande escritor em potência; cria frases que são luz e música, como:

«Alguns homens são de tripas e escamas, depois de amanhados ficam um pouco que não chega e mal se vê. Há outros em que tudo se aproveita, homens com segredos nas entranhas e na pele, que contam histórias sem fim»

[Certo: o «que contam histórias sem fim» podia bem evitar-se; mas prossigamos]:

«São esses os homens bons e às vezes nem homens são, mas cães ou gatos, ou crianças que brincam umas com as outras

É verdade que se narra uma ficção que apetece, de capítulos curtos, tensos, melancólicos. Que se assiste a uma mudança contínua de ângulos, a qual é uma mudança de tempos e de lugares, coincidente, por sua vez, com diferentes perspectivas; ou seja: há um dispositivo extraordinário, sem dúvida, MAS a que, todavia, faltará a argamassa, a unidade motora. Porém, as personagens cativam nas suas particulares formas de desamparo e desintegração, à medida que as identificamos com as personalidades que as inspiraram. [Porque a partir de figuras reais, se desenham, delicada e criativamente, personagens extraordinárias, e isso é, quanto a mim, o que o romance possui de mais «belo e poderoso». Por exemplo o menino inventor de animais inesperados, que a irmã, demasiado terra-a-terra, nunca adivinha, é inesquecível. Mais tarde perceberemos quem é esse menino Jorge que há-de acabar por se mudar para Buenos Aires]; se, como escrevia, o texto de Camarneiro alcança muitas vezes uma qualidade literária e poética sublime - não tenhamos receio da palavra -, então parece que só lhe falta haver desenvolvido um critério: como se a tentação de criar bela e poderosamente o levasse, aqui, ali, muitas vezes aliás, a um exagero, a um "overacting", um artificialismo já quase rococó. Como se, capaz do melhor, não conseguisse distinguir dele o metal falso, a figura banal, a frase forçada. Como o menino Fernando que nos mostra.   

3 comentários:

redonda disse...

Cheguei até aqui numa procura no Google por informação sobre um livro.
Gostei do que li e para ser mais fácil, espero que não se importe que me tenha tornado seguidora.
Gábi

Unknown disse...

Olá, José. Gostaria de uma nota em relação à análise que fez sobre o autor Nuno Camarneiro. Longe de mim, por falta de conhecimentos e capacidade, querer fazer uma análise do mesmo calibre, mas aproveito algumas coisas que foram escritas para deixar alguns apontamentos para o debate. Já li o “No meu peito não cabem pássaros” e, entretanto, aproveitei a sua dica, estou a ler o livro do Rubens Figueiredo. Agradeço, aliás, estas sugestões e outras que possam vir.
Considero que o Nuno Camarneiro tem, de facto, uma grande capacidade de produzir frases lindíssimas. Mistura poesia na narrativa que nos deixa cilindrados de belo. Com isto não considero que não tenha razão quando diz que ele sublinha de mais, ou que complica, ou que ainda não é um escritor acabado, mas apenas que desvaloriza em demasia essa capacidade. Ou seja, será mais provável, certo, que Nuno Camarneiro faça o caminho que lhe falta para ser o escritor acabado e de qualidade que se augura, do que um escritor, que tenha uma técnica sólida, ou uma boa história para contar, escrever com a criatividade e beleza de Nuno Camarneiro. O que ele apresenta é um grande potencial e não podemos, devemos, dizer apenas que ainda não está lá. Esse potencial, por si só, é motivo de registo e exaltação.
Jorge Louro

josépacheco disse...

Perfeitamente de acordo, Jorge Louro. E Camarneiro não terá culpa da sobrevalorização que é feita pela editora e pela imprensa, que essas, sim, têm sido o que me dá vontade de pôr os pontos nos ii. Mas, repito, tem toda a razão.