sábado, 23 de março de 2013

FIGUEIREDO vs. CAMARNEIRO



Em primeiro lugar, não queria que se pensasse que estou de má-fé ou tenho qualquer coisa contra o Nuno Camarneiro, que não conheço a não ser de uma fotografia sua, em que me parece muito frágil num cachecol, ou talvez simplesmente de pescoço enfiado num lenço de linho indiano.
Em segundo lugar, sou o primeiro a desprezar comparações - diferentes autores dão-nos coisas muito diferentes, e o que num vale a pena não tem de se confrontar com o que em outro valha a pena.

Mas porque esta questão tem vindo a borbulhar-me no espírito, peço aos estimados leitores que leiam No Meu Peito Não Cabem Pássaros e, a seguir, Passageiro do Fim do Dia, do brasileiro Rubens Figueiredo, considerado o melhor livro de 2011, e Prémio Portugal Telecom de Literatura do mesmo ano.

Se pusermos de parte os prémios, que são importantes para a promoção do autor, mas influenciam pouco ou nada a minha descoberta dos textos [aliás, no que toca a prémios estão ambos bem servidos], e se pusermos ainda de parte o elemento de subjectividade e gosto pessoal na apreciação, que é de se considerar mas não esgota tudo, e sem prejuízo de que eu esteja totalmente equivocado e o futuro venha a provar que não passo de um leitor imbecil, nesta comparação se evidencia a diferença de que tenho tentado falar. E que os comentários grandiloquentes de alguma crítica (ou as frases de contracapa) ainda mais confundem. Trata-se da distinção entre uma obra potencialmente boa [que considero a de Camarneiro] e uma obra boa em acto [a de Figueiredo]. A distinção entre o que se está formando, porventura num caminho promissor e entusiasmante, e o que alcançou a sua autonomia. Não que Rubens Figueiredo não tenha já por onde ou para onde evoluir. Um seu posterior romance poderá representar um salto qualitativo em relação a este. Mas Passageiro do Fim do Dia é o que é, e não se vê como seria melhorado, enquanto que relativamente a No Meu Peito Não Cabem Pássaros percebemos, a cada passo, o que deveria ser apurado, afinado, reescrito - e, sobretudo, contido. O que ainda falta a Camarneiro é, diria, uma certa contenção, uma voz que se sublinhe menos, que não fale sempre por uma espécie de amplificador estilístico.

E, para que não subsistam dúvidas, repito exactamente o que escrevi em outro post: encontramos essa tendência para o excessivo paredes meias com ideias perfeitas, frases, períodos, parágrafos, páginas para que eu, sem receio, reservei o adjectivo «sublime».

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