domingo, 30 de janeiro de 2011

DE LEITORES E DE LEITURAS

A questão das leituras é especialmente complicada.
A mim, parece que é quase impossível que o modo como um leitor interpreta um romance não tenha que ver com um parti-pris ideológico. No sentido lato de «ideológico».
Sobretudo, julgo que uma mulher lê sempre com o que há em si de mulher, um homem como um homem. E podem dizer-me: Raio, que se esperava?
A questão é que ler como mulher significa, de algum modo, julgar as mulheres de um romance. Não sei se os homens também não julgam principalmente as personagens femininas - embora, no seu caso, de uma perspectiva masculina.

O problema é que se espera sempre uma identificação, ou seja: uma leitora aguarda, mais ou menos secretamente, que as mulheres de um romance sejam interessantes, ou que alguma delas o seja: mas o que é ser interessante? E por que teria de haver um modelo, um exemplo, quando no dia-a-dia encontramos pessoas de todos os tipos, interessantes e desinteressantes, e a própria verosimilhança exige que as personagens incorporem diferentes características e defeitos, insuficiências, limitações e manias, independentemente de serem femininas ou masculinas?

Uma leitura «feminista» ou uma leitura «masculinista» excluem, na minha opinião, diversas possibilidades e nuances: por exemplo, a possibilidade de que uma personagem feminina, porventura extraordinária, nos seja apresentada a partir do olhar de uma personagem masculina, que a diminui na sua grandeza; digamos: um marido infeliz e esgotado por muitos anos de relacionamento. Ou, claro, vice-versa. Mas também ao leitor cabe mover-se por entre essas perspectivas ilusórias e redutoras; cabe descobrir o «interesse» ou o «valor» deste ou daquela, para além da visão que (mesmo quando não seja directamente expressa por uma personagem) se percebe que recupera e reconstitui, para efeitos romanescos, a visão dessa determinada outra personagem. [James Wood é nada menos que brilhante nessa análise do ponto de vista que subjaz ao discurso; na análise do «quem realmente fala, aqui? Será mesmo o autor?»]

Não sou melhor leitor do que ninguém. Mas um segredo tenho: não julgo. Farejo com mais interesse as complexidades de carácter e a verosimilhança do que o reconhecimento. E, é verdade, gosto de pessoas impossíveis, aprecio personalidades malévolas e mesquinhas, não enjeito gente superficial ou estúpida, ou reaccionária. Talvez na vida o faça - mas, na literatura, certamente não.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Nada Mais e o Ciúme: Exibicionista! Vaidoso!

ECOS DO LANÇAMENTO E ECOS DE VENDAS

Devo dizer que a sessão correu muitíssimo bem. A Elisa Costa Pinto fez uma leitura que me agarrou pela profundidade: já tinha ouvido dizer a pessoas que escrevem, que, no momento em que ouvem falar inteligentemente acerca dos seus textos, se sentem como perante algo que deixou de lhes ser familiar, inteiramente por redescobrir a partir de outros enfoques, de ângulos que não tinham percebido. Mas não sabia até que ponto isso, mais do que uma pose ou uma frase bonita, é a mais pura das verdades.

«Observo apenas», escreve Kant, na Crítica da Razão Pura, «que não raro acontece, tanto na conversa corrente, como em escritos, compreender-se um autor, pelo confronto dos pensamentos que expressou sobre o seu objecto, melhor do que ele mesmo se entendeu, isto porque não determinou suficientemente o seu conceito e, assim, por vezes, falou ou até pensou contra a sua própria intenção»: não é tanto que eu tenha falado, pensado ou escrito «contra a minha própria intenção»; é que a minha intenção não era senão um dos motores na construção de uma história que se modifica consoante a intenção de cada leitor, de quem quer que dela se aproprie. O que não deixa de ser estranho. É o mínimo que posso dizer: o que não deixa de ser muito estranho. Agradável e incomodamente estranho.

Senti-me acolhido e amimado. Objecto de atenção, curiosidade, interesse. Um agradecimento ao grupo que se empenhou em organizar a cerimónia, com tanto cuidado e carinho.

Agora, um interregno comercial, estúpido e infame, mas necessário: o livro pode ser encomendado on-line. [Sítio do Livro]. Está à venda na livraria Trama - que adoro, mas, entre pilhas de livros para organizar, ainda não encontrou tempo para referir este Nada Mais e o Ciúme, o que compreendo, por egocentrista que seja -, na livraria Barata - onde, pelo que me dizem, o esconderam bem - e na livraria Galileu, de Cascais.

Se os que têm curiosidade na obra e pensam que «irão comprá-la» (daqui a uma semana? um mês? um dia destes...?) não avançarem, não sei como diabo irei acabar de a pagar no imediato. Fica muito mal esta advertência no blogue? Olhem que não. Entendam isto como um acto de resistência. Sem qualquer vitimização da minha parte, sem embarcar em teorias da conspiração, peço apenas que se detenham um momento na seguinte pergunta: será mesmo que o sistema está montado para que uma voz que não chegue via editoras esteja morta à nascença?

PS: Um mail da Catarina, da Trama, fez com que me apercebesse da injustiça da minha consideração. O livro está em destaque na livraria, desde há muito. Os meus sinceros pedidos de desculpa à Trama.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

GONÇALO M. TAVARES: O SR. ELIOT E AS CONFERÊNCIAS


Gonçalo M. Tavares esteve hoje na minha escola, sabem? Ah, sim, roam-se de inveja. Apesar das solicitações, dos prémios, das viagens, respondeu com a maior das simplicidades ao meu convite, ou melhor, à minha insistência, e entrou às catorze e pouco, cansado, com a sua barba e os seus caracóis, uma voz muita pausada, para «animar» (palavra da moda) um «workshop» (esta não vou sequer comentar). Foi delicioso: o erro era o seu tema e ponto de partida - e o ponto é que no «erro», que a escola proscreve e os educadores aparam, ou corrigem, Gonçalo nos mostrou a emergência de toda a criatividade. Há algo verdadeiramente novo que não seja um erro em relação aos cânones? A um certo conceito do que «deve ser», do que deveria ser para estar certo?

De alguma maneira, O Senhor Eliot e As Conferências, de Gonçalo Tavares, é também um livro que se vai construindo em redor de um erro, ou de um ângulo errado. Ou de sucessivos ângulos errados. Obviamente, não posso dizer muito mais do que isto - e é pena, porque me apetecia, mas qualquer palavra em excesso estragaria o prazer da descoberta.

Há, de facto, um senhor Eliot como personagem: mas que Eliot é este? T. S. Eliot? Os nomes resultam, em GMT, de uma apropriação incompleta, mais simbólica do que realista: Eliot é Eliot e não é Eliot - um nome canaliza determinada energia histórica e biográfica, absorve certas referências, mantém uma aura, uma mitologia, mas, para além disso, a personagem que comunga esse nome com um escritor é uma caricatura; remete para o nomeado a partir de uma chave que distorce. Este Eliot, personagem de Tavares, é um escritor que faz uma série de conferências acerca de poesia. Cada conferência se debruça sobre um verso conhecido - as palestras têm, na assistência, Borges, Breton, Balzac ou Swedenborg. (Wahrol espreita a sala, numa das conferências, mas desaparece rapidamente).

Claro que o interessante é cada uma das comunicações de Eliot. O interessante é a abordagem de Eliot, o seu olhar clínico e racional. Os efeitos são imprevisíveis e muito engraçados. Trata-se de sete, sendo que a sétima não existe senão como título e promessa. A não ser que o meu exemplar tenha páginas a menos. Mas com Gonçalo M. Tavares não se sabe, nunca se sabe. Em todo o caso, o pequeno volume de capa alaranjada, com desenhos nervosos da autoria de Rachel Caiano, é uma obra leve e estranha, intrigante e surpreendente. O humor, a estranheza, a distorção. A criatividade usando os hábitos e as referências comuns para formar um universo paralelo.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O NARRADOR: MARCEL, WATSON, PEDRO


O narrador é uma figura cheia de possibilidades. [Só José Saramago, coitado - e perdoem-me a heresia - não percebeu isso. E ganhou um prémio Nobel sem o ter percebido...].

Deste ponto de vista, Proust é inultrapassável. [E, claro, como lembra Mariana, está implícito nesta afirmação um juízo de gosto...] Um narrador que, ao longo de sete volumes, se engana na sua visão, enuncia certezas que mais adiante terá de rever, apresenta leituras que há-de corrigir, é o mais brilhante dos narradores: um narrador que vai crescendo e amadurecendo, que vai reajustando e refazendo, a quem falta a omnipotência porque está mergulhado, de alguma forma, na história que trata de contar, ciente de que essa história, que conta, o conta também a si, e que se fazem um ao outro conjuntamente, e conjuntamente se corrigem um ao outro.

Lembro-me de um romance policial de Ellery Queen que, neste particular ponto, me marcou extraordinariamente. O detective Queen debruça-se sobre uma narrativa inédita, escrita pelo Dr. Watson - (Sherlok Holmes é, pois, o protagonista). E quando, no fim do texto, é apresentada a solução do crime, Watson está ufano, glorificando a inteligência de Holmes. Todavia, Watson está equivocado. O leitor Queen - de quem, por sua vez, nós somos agora leitores - segue o texto com muita atenção, e percebe, não só que Watson nada entendeu, como que Sherlok Holmes, aceitando sacrificar o criminoso errado, está, no fundo, perfeitamente consciente do erro. É um engano pérfido, conveniente - mas Sherlok Holmes, ao longo do texto, faz afirmações que permitem perceber que está a laborar em erro. Fá-lo deliberadamente: vaidoso como é, não consegue não deixar indícios, pistas, outras possíveis interpretações. Para que se saiba que há um engano, mas ele não se enganou. Em todo o caso, a verdadeira solução poderia ficar para sempre recalcada, se o texto de Watson, o narrador estúpido, não fosse lido por Ellery Queen, o leitor mais inteligente do que o narrador, que vê, através do narrador, o que ao narrador escapou.

No romance que escrevi - e que, aparentemente, dizem-me, está sendo negligenciado pelas próprias livrarias que o aceitaram e escondem, mas que fazer? -, salvaguardando as devidas distâncias, foi também o que procurei: um narrador, Pedro, muito próximo das personagens sobre que fala e que, porventura, não vê objectivamente. Gosto da ideia de um romance em que os leitores possam perguntar: Mas esta perspectiva não pode ser uma ilusão de óptica? A verdade não estará, algures, numa interpretação que o narrador nunca foi capaz de fazer...?

A omnisciência esgota-me.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

VIKRAM SETH: UM BOM PARTIDO (3 VOLUMES)






Há dois pormenores que me levariam a aproximar-me quase necessariamente desta obra.

Em primeiro lugar, o autor é um escritor indiano formado na cultura e na língua anglo-saxónicas, e que retira, de ambas as esferas, o mais rico e o mais interessante: uma criatividade mitológica e pagã, um espírito de observação subtil e minucioso, uma superabundância de vozes sagradas segredando-lhe aos ouvidos e uma disciplina do cepticismo e da frieza, num cruzamento que se realiza sob um humor quase desapiedado. O próprio V. S. Naipaul é um outro e flagrante exemplo dessa ligação de fontes que, num escritor talentoso, abre caminhos que raramente são negligenciáveis.

Em segundo lugar, o romance que aqui quero mencionar é um grande romance, no sentido, desde logo, da sua extensão: A Suitable Boy, Um Bom Partido na tradução portuguesa, em 3 volumes, é uma daquelas sagas familiares que precisamos de tempo, muito tempo, para ler, habituando-nos a personagens com as quais passamos a conviver num registo quase quotidiano, cujas qualidades e defeitos principiamos a conhecer na sua consistência, cujos rumos pessoais e laços inter-pessoais seguimos com gosto ou tristeza, surpreendendo-nos ou lamentando-os.

Nestas quatro famílias, os Mehra, os Kapoor, os Khan e os Chatterji, revelam-se protagonistas que reflectem a luta entre uma Índia antiga, tradicional, eterna, nas suas crenças e nas suas estratégias de manutenção de privilégios, e uma Índia jovem, em choque com um sistema de castas que se impõe como um destino. Lata, precisamente, é uma jovem que vai sendo desenhada nos seus contornos dilemáticos, que não poderíamos reduzir, senão abusivamente, à «rebeldia»: na verdade, é sob o signo de um amor que não coincide com as conveniências nem com a decisão familiar previamente negociada, que nos apercebemos da sua fragilidade e da sua inteligência, das suas hesitações e escolhas, sempre entre forças contrárias, igualmente avassaladoras.

Desde a dedicatória que este romance, bebendo nos modelos dos mestres, os refaz, contudo, com uma espantosa originalidade. E se a dedicatória pode ser um bom exemplo, então não resisto a citá-la:

«UMA PALAVRA DE AGRADECIMENTO

A todos quantos de mim são credores
De inúmeras dívidas onerosas:
Vós, musas minhas, cruéis e bondosas;
Meus bons pais, que mil zangas e humores
Sem queixas me sofrestes, não esqueci;
Tribunos mortos, cujas orações
Pilhei para compor minhas libações;
Todos vós, cujas mentes espremi
Sem dó, porque do tormento refém;
Tu, alma tonta, que com parco quinhão
Te bastaste para urdir esta ficção;
E tu, leitor, donde todo o lucro vem:
Comprai-me antes que o siso prevaleça,
Vos mirre a bolsa e o pulso desfaleça.»

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CONSTANTINO CAVAFY: ÍTACA



«Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Cíclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseídon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Cíclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseídon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
Terás compreendido o sentido de Ítaca




Tradução de Jorge de Sena

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

RUI KNOPFLI: O ESCRIBA ACOCORADO



Há uns anos, pediram-me que escrevesse um artigo sobre Rui Knopfli. Assim o fiz. Considerava-me, aliás, imodestamente, a pessoa indicada para a tarefa: eu era moçambicano como ele (embora de uma outra geração: lembro-me de lhe ser apresentado numa festa, eu garoto, ele já poeta consagrado) e habitávamos ambos, intelectualmente, uma mesma cultura africana, em relação à qual, ao mesmo tempo, nos sentíamos «outsiders». Escrevi o artigo com grande prazer, carregando-o do que me pareciam observações ousadas e pertinentes, eticamente corajosas e politicamente incorrectas. Fi-lo num computador fixo - que, entretanto, se avariou. Não consegui salvar nenhum dos documentos que o computador albergava. Mandei-o à merda (ao computador, claro. E esta palavra, inabitual neste blogue, não visa senão mostrar a raiva e a indignação que senti). O artigo foi à vida. Nunca mais o reconstituí.

Estou agora com O Escriba Acocorado nas mãos. É um livro com quinze poemas magníficos, em cujos versos nos ecoam Homero, Camões e Villon, ou ecoam heróis e mitos ocidentais, muito mais do que os poetas africanos ou de que paisagens de grandes savanas e selvas luxuriosas. Como escreve Eugénio Lisboa, no seu posfácio, numa «África primitiva e hirsuta, a que no, no fundo, não sente pertencer (onde se não insere), ele, o poeta "desenraizado", fica abusivamente de fora»; a observação de E. Lisboa vem a propósito de um certo poema em que Rui knopfli menciona uma flor, que despe sucessivamente das características esperadas (não é uma rosa multicolor, nem uma flor barrocamente complicada, não tem cheiro nem cor...), para concluir: «É uma flor de plástico». Ou seja, é esta ironia final que, num certo sentido, o faz, simbolicamente, acolher uma natureza falsa, ao invés da pujança da natureza que nos habituámos a ligar a uma ideia de África.
A ironia é, na poesia de Knopfli, a expressão de um desencanto, como perante um crepúsculo de crenças e de ideais. A beleza intensa e aguda, e dolorosa, dessa poesia, é precisamente a do desenraizamento: a de uma liberdade que não tem um meio a que se ajustar. Quando muito, um universo que se funda em memórias de um passado colonial, e em referências que remetem para uma europa mítica, de capitais esplendorosas (mas decadentes, ou esvaziadas), nunca visitadas pelo poeta, só vaga e falsamente tentadoras ainda.

As memórias são evidentes, até em alguns títulos de obras suas, como Mangas Verdes com Sal ou O Monhé das Cobras. São memórias trespassadas, elas próprias, de uma ironia que utiliza certas ideossincrasias do colono português (como um certo gosto pela fruta «exótica», de que se apropriava, ou o desprezo contido na expressão «monhé», com que eram referidos os indianos em Moçambique), sem, contudo, se identificar com essas ideossincrasias. Sem fazer delas o seu «discurso ideológico», mas um discurso que se recorda distanciadamente. Por outro lado, as referências europeias fundam esta poesia que se escreve em linguagem erudita, sem concessões, em busca de uma dicção serena e triste, aristocrática e descrente, desenrainzada, mas tendo sabido aprender de universos diferentes; descomprometida, mas de uma sensibilidade subtil, de uma atenção ao mundo em transformação que é, já de si, uma forma superior de compromisso.

Há um ritmo em que a mudança de estrofe põe pausas, mas não pontos definitivos; um ritmo que se prolonga como, se a partir do momento em que principiássemos a ler a poesia de Rui Knopfli, ela nos arrastasse consigo sem estações, exigindo um pouco mais sempre, numa espécie de movimento contínuo. Respiramos, mas prosseguimos: é uma cadência musical que em todas as músicas bebe mas a nenhuma se sujeita, nem ideológica nem literariamente: avessa a escolas, correntes ou «ismos», a poesia de Knopfli brilha numa solidão e numa errância que não aportam, não se quebram, não se fixam. E, aí, mesmo a desilusão ou a descrença são singulares formas de beleza.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

1º LANÇAMENTO

O primeiro lançamento de Nada Mais e o Ciúme está agendado: será na Biblioteca da Escola Secundária Professor José Augusto Lucas, na 6ª-feira 28, às 18 h.

Terei o prazer de ouvir o meu livro ser apresentado por uma amiga que admiro até quase à reverência, Elisa Costa Pinto.
Quando a convidava, respondeu-me, a propósito de pensar que eu deveria «preferir alguém exterior à escola» - uma sumidade de fora da casa, que emprestasse uma aura ritual, menos familiar: «É que eu sou tão caseira!»

Como se isso fosse um defeito. Como se, em quase tudo na vida, eu não escolhesse - sempre que posso escolher - o caseiro, como sinal de um cuidado e de um requinte que não encontramos «lá fora»...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ALBERT COSSERY: A CASA DA MORTE CERTA - OU A VIDA COMO OBRA


Certos escritores são tão importantes pela sua vida como pela sua obra. Alguns, mais até pela vida do que pela obra. Seria injusto considerarmo-los fracassados por isso. Num certo sentido, é absolutamente verdade que a sua vida é a sua melhor obra. Afinal, inúmeras são as possibilidades da arte, e a própria existência é uma matéria tão boa como a tela, a pedra, o papel.

Havia, em Portugal, um artista exímio no domínio da vida: Santa-Rita Pintor. Deu-se com os melhores do seu tempo. Era um génio da performance. Participava de todas as tertúlias, dos debates mais encarniçados, pateava, gritava, arengava. Dava nas vistas pela excentricidade na maneira de vestir e de estar. Sabemos, concretamente, o que produziu? Talvez um quadro - sobre que falava mais, aliás, do que o que realmente dele realizava; não sei bem que mais nos deixou. Mas não passou despercebido. A sua vida foi uma obra plena e exuberante.

Albert Cossery é, talvez, um desses artistas. Aquilo que sabem todas as pessoas, mesmo as que nunca o leram, é o que diz respeito a uma atitude: de escárnio, de preguiça. O seu prazer assumidíssimo pela preguiça: vivia num quarto de hotel, livre, solto e descomprometido (como às vezes o invejo), e era admirado, também, pelos grandes escritores franceses do seu tempo: Genet ou Camus, por exemplo, ambos, a seu modo, artistas da vida.
Cossery - basta ir à wikipédia - tornou-se conhecido pela sua propositada lentidão na escrita. É da sua autoria, precisamente, o programa de escrever romances «ao ritmo de uma frase por dia». Escreveu oito, se me não engano. E, dos oito, conheço um único: A Casa da Morte Certa.

A Casa da Morte Certa, para além de um título fabuloso, é um romance sobre personagens mesquinhas, pobres, invejosas, ressentidas, egoístas, talvez ainda sobre um senhorio rico mas desamado - não me lembro -, mais egoísta e mesquinho do que todos os outros. E algo de confrontos cobardes, de arruaceiros infelizes, de relações sem possibilidade de confiança. Curioso que, deste livro que, na altura, me impressionou deveras, não consiga agora senão evocar mais do que estes fragmentos sobre uma comunidade de vizinhos árabes, mal-cheirosos e mal avindos, maldosos e sem esperança. Apetece-me reecontrar o livro, e relê-lo, para o comparar com estas memórias esparsas e vagas de uma leitura adolescente.

Em todo o caso, não importa. Porque a memória que me permanece nítida é a da vida de Cossery - e do statement que ela implica, e que ela foi. Talvez erradamente, escrevo este post para falar de um executante maior da arte do escárnio e da preguiça. Na própria vida.

domingo, 16 de janeiro de 2011

ANTONIO MACHADO: POESIA


El ojo que ves no es
ojo porque tú lo veas;
es ojo porque te ve.

Antonio Machado, Consejos, Coplas, Apuntes, Poesía

sábado, 15 de janeiro de 2011

MIGUEL-MANSO: SANTO SUBITO (COMEÇADO A LER HOJE MESMO)



Voltei à Trama. Falei com Catarina que, no primeiro dia, seguindo o mandamento da sua voz interior, me não ligou nenhuma, completamente presa ao trabalho, e hoje me prestou uma atenção e um sorriso que me deixaram bem disposto para o resto do dia.

E saio de lá com Santo Subito, de Miguel-Manso, que me fora indicado pelo Homem do Fraque como um dos livros imperdíveis do ano passado.

Esta poesia de Miguel-Manso remete para uma cultura dos livros: Regresso à Biblioteca de Francisco Vieira, por exemplo, que é uma das partes do livro, evoca, nos títulos, Li Ching-Yuen, Àlvaro de Campos/Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes, Joseph Conrad, Peter S. Clements, Karl Marx-Friedrich Engels, João Falco/Irene Lisboa, Soeiro Pereira Gomes, Heinrich Harrer, Herberto Helder. São poemas que, mesmo quando mais longos, e alguns são-no, outros não, vivem, cada um deles, de um ângulo, uma invenção, um achado poético. Às vezes, um único verso é, como um aforismo, uma síntese total, uma descoberta poética.

Neste livro em que a experiência da cultura, da poesia e até simplesmente da língua latinas, isto é, do Latim como língua em que se exprimiram o melhor da cultura e da poesia, são um esteio permanente, há todavia uma erupção da fala simples, jovem, contemporânea, coloquial («A poesia, tipo,/ não precisa de, bom,/não é exactamente uma canção, uma praça ou um parque de Outono [...]», ou: «sim, Rui/[...]aquele mesmo hotel/cujo nome não me lembro/e é melhor assim [...]»), uma tensão entre a abundância e o despojamento (como entre o erudito e o simples) que afectam o leitor, que o obrigam a, digamos, uma leitura em estado de perplexidade. Porque, em última análise, nada, aqui, se lê simplesmente: há no verso que, numa primeira leitura, nos soa elementar, uma qualquer ameaça oculta, uma dúvida corrosiva. Um perigo sob a forma de um clarão. Uma tristeza perante os paradoxos injustos da realidade; um desafio ao que na realidade nos escapa: como no arrepiante «Café Gelo». Ou, mais metafisicamente, como perante o absurdo do nosso limite: porque, afinal, «está muito mal contado, isto da morte».

Miguel-Manso teria podido manter-se-me desconhecido? Claro que sim - como todos os autores discretos. E ainda pensam que a blogosfera não tem um papel inigualável?

A IMPERFEIÇÃO DE JORGE LUÍS BORGES



O que faz, talvez, de Jorge Luís Borges um escritor que temos sempre prazer em ler, sobretudo no que respeita aos seus ensaios, é um misto de mitologia e de imperfeição que ele manipula com grande seriedade.

Sei que este primeiro parágrafo está no limiar do iconoclasta. Mas não era minha intenção; deixem-me explicar. Nós sabemos, e já até incorporámos no nosso imaginário de leitores de Borges, que os elementos históricos ou biográficos que este refere são, frequentemente, incorrectos. Uma data aproximada, um elemento confundido, um pormenor que não se acerta com os factos verificáveis. Mas essa negligência, que seria imperdoável em qualquer estudo académico, adquire, em Borges, um encanto muito peculiar, porque, nele, existem sempre labirintos em que nos perdemos, de modo que nunca sabemos muito bem o que é real e o que é ficção. Ninguém como Jorge Luís Borges para conferir uma indiscutível verosimilhança aos seus tratados históricos inventados, às suas insensatas enciclopédias chinesas, ou para nos fazer crer que pode ter existido um louco como Pierre Menard, o segundo autor - e sem incorrer em plágio - de Dom Quixote. Da mesma maneira, todavia, nos seus estudos, nas suas apresentações de autores ou de obras, nas suas conferências, tudo é importante - enquanto interpretação, leitura e reflexão pessoais - mas, por outro lado, muito desse «tudo» pode ser troca ou invenção.
Essa deliciosa imperfeição (mas ainda assim imperfeição, como o é qualquer imprecisão segundo os padrões convencionais) confere a Borges liberdade para construir a sua mitologia. Os mitos de Borges são as obsessões de Borges. E se todos nós, de uma maneira ou de outra, somos obsessivos, não há muitos de nós que, como Borges, tenhamos conseguido fazer dos nossos pesadelos ou dos nossos fascínios psicológicos, dos nossos complexos e temores, ideias esteticamente esplêndidas, teorias seríissimas que não podem ser levadas a sério senão durante o tempo da sua leitura, símbolos e mitos: e nessa corrente tudo se junta: todos os livros, sim, mas tal é já sabido - o próprio Borges se encarregou de erigir em mito a obsessão de uma biblioteca com todos os livros; mas também o conjunto dos sonhos que a humanidade sonhou desde os primórdios. Desde que um Adão e uma Eva tiveram, pela primeira vez, consciência de que sonhavam.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

BORGES E A CORAGEM DE CONFESSÁ-LO

«Nunca esquecerei a minha primeira leitura de Kafka numa certa publicação profissionalmente moderna de 1917. Os seus redactores - que nem sempre careciam de talento - haviam-se dedicado a inventar a falta de pontuação, a falta de maiúsculas, a alarmante simulação de metáforas, o abuso de palavras compostas e outras tarefas próprias daquela juventude e, provavelmente, de todas as juventudes. Entre tanto estrépito impresso, uma narrativa que tinha a assinatura de Franz Kafka pareceu-me, apesar da minha docilidade de jovem leitor, inexplicavelmente insípida. Ao fim de todos estes anos, atrevo-me a confessar a minha imperdoável insensibilidade literária: passei diante da revelação e não dei por ela

Jorge Luís Borges [Introdução a O Abutre, de F. Kafka]

TRAMA



Descobri a Trama através de Anita no Alfarrabista. É uma livraria pequena, na Rua São Filipe Nery [51-A], perto do Largo do Rato. Os clientes são atendidos por livreiros a sério, não por jovens uniformizados e desconhecedores. Percebe-se que os livros não são, para eles, meros objectos de compra e venda: estão ali como estão em minha casa, meio espalhados mas segundo uma lógica em que se não perdem. A própria secretária de onde me atende (e atenta) um rapaz de barba e cachecol de lã, diante de um computador, mostra uma irresistível e maravilhosa desarrumação de livros sobre livros.

Há qualquer coisa de sagrado naquele lugar. Não é um MacDonald's de livros, é uma capelinha com tesouros secretos, onde nos sentimos muito bem, vasculhando, folheando, perguntando. Descobri um Cortázar que me ficou debaixo de olho, tropecei no Santo Súbito de Miguel-Manso. [Não comprei, infelizmente não ia preparado, o que é um bom pretexto para o regresso].
Como imaginam, é com algum orgulho que vos anuncio que o meu livro também já está aí à venda. E há que dizer isto com a maior das sinceridades: não deixem de fazer uma visita à Trama - mesmo que o meu livro não interesse a ninguém.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

LER-ME-ÃO?

Inexperiente em matéria de publicação, anunciei o livro demasiado cedo. Precipitei-me. E o certo é que suscitou alguma curiosidade a que a gráfica não podia dar resposta: os livros não estavam prontos. Houve quem se registasse na página d'O Sítio do Livro, para encomendar o meu Nada Mais e o Ciúme, que, afinal, ainda não era fisicamente encomendável.

Temo que, neste adiamento, as pessoas que acicatei se esqueçam de novo. Temo que o livro regresse ao nada mais rapidamente do que o que levou a de lá sair. Ele está, realmente e por fim, em condições de que o peçam e o leiam. Repito o endereço para encomendas:

http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/nada-mais-e-o-ciume/9789899712201/

A livraria em que o podem comprar é, para já, a Livraria Barata, na Av. de Roma, próxima do cinema Londres.

O primeiro lançamento será feito na minha escola. Não poderia - e não quereria - recusar o generoso convite. A ver vamos quando. Mas para todos os que prefiram manter-se afastados de um meio tão circunscrito, haverá um segundo lançamento [?] ou uma apresentação na própria Livraria Barata, a uma hora meio-nocturna, razoável, de que darei conta. Gostava que aparecessem. Para eu vos conhecer, para ouvir um encorajamento, receber um beijo ou um abraço. Até lá.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

ALFRED DÖBLIN: BERLIN ALEXANDERPLATZ



Duas amigas minhas comentavam a semelhança de perspectiva entre Uma Viagem à Índia (já aqui referido), do génio português Gonçalo M. Tavares, e o inesgotável Berlin Alexanderplatz, de Alfred Döblin. Não os teria associado. E não posso dizer que me lembrasse do que possibilitaria a analogia entre os dois livros. Em casa, já com Berlin Alexanderplatz nas mãos, folheando-o como se folheasse a memória de uma leitura feita há muito, percebi. Claro.

Também em Berlin Alexanderplatz, o herói - ou anti-herói -, Franz Biberkopf, parte, como o Bloom de Uma Viagem à Índia, de um facto horrendo: a mulher assassinada. [No primeiro caso, porque o próprio Biberkopf a matara, no segundo porque o pai de Bloom mata a nora]. A morte violenta é a provocadora de uma viagem, uma demanda, uma aprendizagem, uma transformação.

Lembro-me de um outro livro da autoria de Döblin, posterior, em que este narra uma viagem (fora e dentro de si próprio, sem dúvida), a sua fuga da Alemanha nazi, passando por Lisboa. Há uma descrição da cidade, dos seus habitantes, de um ruído nocturno, tipicamente português, que impede as pessoas de dormir; há uma descrição dos eléctricos e o recordar do seu espanto ao cair numa cidade cheia de vida e desperdício (ao contrário da Alemanha de que escapava, marcada pelo silêncio, pelo medo, pelo racionamento, pela violência); e, sobretudo, há aquela tenebrosa passagem, que tanto me envergonhou, acerca do som característico com que certos portugueses arrancam às profundezas um escarro.

Mas regressemos a Berlin Alexanderplatz. Trata-se de uma dessas obras monumentais - a wikipedia compara-a a Ulisses, mas eu lembro-me imediatamente de Os Cadernos Póstumos de Mr. Pickwick ou O Homem sem Qualidades - em que se sobrepõem diferentes tipos de escrita: a linguagem erudita, a sabedoria bíblica, a fala de rua, berlinense. Cruzam-se diferentes referências na reconstituição dessa viagem que aproxima Biberkopf dos vários rostos do mal, que prefiguram sempre as garras e as ameaças do nazismo: veja-se como Reinhold, que - se bem me lembro - nunca perceberemos o que tem precisamente contra Franz Biberkopf , sempre que dele se aproxima, o faz com uma intenção e uma sanha pérfidas e persecutórias.

Döblin - como Musil, como Bröch - está na raiz e no horizonte de Gonçalo M. Tavares. Os seus homens amputados, ou em demanda, os seus Walser e os seus Bloom, recuperam - brilhantemente - o melhor que tais autores de língua germânica haviam construído: estes romances, enormes, dolorosos e falhados. No melhor e no mais interessante sentido da palavra: falhados.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A MINHA MESINHA DE CABECEIRA


Uma amiga minha diz que leio como quem faz «zapping». Dito deste modo, pode parecer mal. Como se a minha leitura fosse superficial, deslizante, saltitando sempre, incapaz de descer até ao fundo. Não penso que assim suceda. Mas é verdade que os livros me crescem à volta e que gosto de mudar, me dispersar, não deixar nenhum fora de um minúsculo foco de atenção que seja. Onde me sento, brotam livros. Onde estou, aí vêm eles, não sei de onde, como erva ruim.

Na minha mesa de cabeceira, por exemplo, vai-se erguendo uma pilha. Já a dividi em duas torres mais baixas. Vejo, numa das bases, A Alma Conservadora, de Andrew Sullivan. Não o pus de parte, mas cheguei, há dias, a um ponto de saturação, e preferi repousar dele. Mais acima está, transposto para um francês contemporâneo, perfeitamente legível, Les Essais, de Montaigne. Gosto de ler alguma passagem à noite, durante aquele período em que todos se deitaram e se cria uma particular intimidade entre mim e as páginas. Sublinho-as, anoto-as.

E, por falar em «sublinhar» e «anotar», eis, ali, um outro livro em francês. Les Pensées, de Pascal. Tenho diversas versões em tradução portuguesa: este, trouxe-o da estante de meu saudoso tio (idolatrado, desde sempre, pela criança e, depois, pelo jovem que eu era...), precisamente porque tenho todo o interesse em interpretar e compreender os sublinhados e as anotações que ele fora fazendo: que encontrou o meu tio António em Pascal? O que considerou acerca de uma sua frase? Como a comentou? O que o fez deter-se num determinado parágrafo? (Contudo, ainda não principiei...).

Ah! O Fim-de-semana, de Bernard Schlink: comprei-o porque apreciara razoavelmente um outro livro do autor, O Leitor. Mas este não me prendeu. Falta-me decidir se desisti dele ou se ensaiarei uma nova tentativa. Próximo desse, o encantador A Canção de Amor de Prufrock, de T. S. Eliot, que li, reli e reli, mas fui buscar quando achei que seria possível escrever, sobre ele, um post.

De entre todos estes livros, todavia, há um que me vai guiando e que sigo continuada e demoradamente: Reviver o Passado em Brideshead, de Evelyn Waugh. Neste momento é o norte de que as outras distracções só por pouco tempo me arrancam.

Sentia-me eu confortável nesta «gestão» periclitante e confusa de tanto material? Pelos vistos não, não me chegava ainda. Porque, da Biblioteca da escola, cheguei com mais dois: O Abutre, conjunto de contos de Kafka, e As 3 Vidas, de João Tordo. É complicado? Não digo que não. Mas dá-me tanto prazer...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

GONÇALO M. TAVARES: MATTEO PERDEU O EMPREGO



O último romance de Gonçalo M. Tavares, Matteo Perdeu o Emprego, é, como todos os livros do autor, primeiro que tudo um exercício lúdico. Gonçalo M. Tavares procura, por um lado, desmontar as máquinas que possui no quarto, como um garoto traquina que vê, no relógio ou no guindaste que a tia lhe ofereceu, uma possibilidade de desarticular, de arrancar peças, extrair as agulhas e as rodas dentadas; assim procede com a tradição literária, que herda e se entretém a esventrar; mas, ao mesmo tempo, comporta-se como um jovem Edison que se interessasse por saber o que pode juntar a partir do caos que provocou, quais os elementos que imprevistamente encaixariam, quais os órgãos mecânicos que produzem faísca. Desfaz e refaz, destrói para reconstruir com uma frescura alucinante.

Poderia referir Lewis Carroll como um dos inspiradores desta loucura experimental e criativa. Mas existe, em Carroll, um tom inocente, revelador de que as suas histórias não querem amedrontar as crianças a que se dirigem. Os males estão domesticados. Há um lado de «faz-de-conta» e brincadeira que torna as mais estranhas peripécias numa espécie de jogo. Em G.M.T., pelo contrário, sentimos, sob cada frase, a vibração de perigos malvados, o movimento oculto de monstros tenebrosos. Quando a Rainha, em Alice no País das Maravilhas, grita «Cortem-lhes a cabeça!», não nos assustamos, rimo-nos. Alice não a teme, responde-lhe, nem sempre bem-educadamente. A Rainha não é terrível, é cómica. Os textos de G.M.T têm sentido de humor, sem dúvida. Mas esse humor é cáustico e perverso; não nos faz simplesmente rir: atemoriza-nos um pouco.

A linguagem dos seus romances é profundamente poética; os aforismos, na maior parte dos casos geniais, são bandeiras que vai cravando, e remetem para um saber severo, sério, em que tendemos a crer. Mesmo quando se trata de um saber irónico, que se mina a si próprio por dentro, há um efeito e uma atmosfera sagrados, que nos impressionam. Matteo Perdeu o Emprego é tudo isto: um jogo irresistível, a partir de uma série de dispositivos brilhantes, que fazem com que funcione como um conjunto de contos minúsculos, autónomos, atómicos, que, todavia, buscam uma ilusória unidade, como se fossem capítulos de um continuum. «Ilusória»: o que liga um capítulo ao outro é um elemento irrelevante, artificial - o aparecimento, em dado ponto do capítulo, de uma personagem que será a protagonista do capítulo seguinte. E cada protagonista vale pela estranheza de um certo comportamento seu, um hábito que inaugure o conceito central desse capítulo.

Mas Matteo Perdeu o Emprego não é só um livro: é, enquanto objecto que seguramos nas mãos, um objecto de arte: as fotografias de manequins (bonecos articulados que exibem roupa, nas montras) constituem, também, separadores, e pedem uma outra forma de leitura, exigem leituras que se cruzem, se demorem no olhar, na pele, nos dedos. Convocam inesperadas sensibilidades e ressonâncias, misturam formas e artes. A leitura de qualquer obra de Gonçalo M. Tavares é sempre, em vários aspectos, diferente de uma simples leitura.

sábado, 8 de janeiro de 2011

BLOCH, EXTRAORDINÁRIA PERSONAGEM DE EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO


Lendo Brideshead Revivida (porquê chamar-lhe, em português, «reviver o passado em Brideshead»? poder-se-ia reviver o presente ou o futuro?), tropeço numa personagem, o diletante Anthony Blanche, que me reenvia para uma outra: Bloch, de Em Busca do Tempo Perdido, lembram-se?

Em Busca do Tempo Perdido é o auge da literatura humana. [Literatura humana parece uma estúpida redundância, mas admitamos que haja uma literatura angélica ou divina, sobre que me não pronuncio]. Não conheço, de nenhum ponto de vista, qualquer obra que se lhe assemelhe, e já várias vezes proferi um tal juízo, dogmático e arrogante. As inúmeras personagens do romance, em sete volumes, de Marcel Proust, vão-nos sendo apresentadas, ao longo do tempo e das páginas, segundo diferentes ângulos. É inquietante apercebermo-nos, aos poucos, de que o Barão de Charlus, que pela primeira vez descobrimos nos volumes iniciais (pelo olhar do narrador que recorda e se repõe, então, no olhar da criança que era), vai sendo completado e transformado à medida que o narrador cresce, e conhece melhor Charlus, com ele convivendo em novas situações. O próprio Charlus, claro, muda enquanto envelhece. Mas não é isso, não é só isso: o pequeno Marcel engana-se na sua observação; começara por conferir ao Barão qualidades que este nunca teve, porque se equivocou na interpretação de certo contexto em que o surpreendera. E o leitor equivoca-se com o narrador. Assume, sem saber, o seu olhar iludido, de modo que a série de erros que condiciona a percepção que se tem do Barão, só com o tempo, volumes mais tarde, se dissolverá e reajustará para permitir que nos aproximemos mais da realidade de Charlus. Não é soberbo? Não é genial, esta contenção de Proust, que não joga imediatamente com as cartas todas, mas as vai ocultando e revelando ao sabor de um tempo, que ele domina? De acordo com o amadurecimento do narrador, o qual, ao longo dos anos, não poderia manter-se uma consciência fixa, igual a si própria?

Bloch é, também, uma personagem extraordinária. Retomo-a, pois, muitos anos depois, a propósito de Anthony Blanche, de Brideshead Revivida, que o evoca claramente.

O jovem Bloch finge não notar que os demais, quando olham para ele, apreendem sempre um «judeu». Mas, na verdade, está obsessivamente consciente do seu «ser judeu» e está paranoicamente desconfiado de que os outros o estigmatizam pelo mero olhar. É esta permanente má-fé, esta luta de consciências, este querer fingir que não percebe ao mesmo tempo que não consegue não reagir agressivamente ao que julga perceber, que estão na origem das suas atitudes recatadas e ostensivas, entre um snobismo refinado e a mais inesperada grosseria, a sua necessidade de passar despercebido e a de dar nas vistas da forma mais provocatória. Frívolo, culto, carente e agressivo, superficial e profundo, a contas com a história de um povo em que se reconhece e não reconhece, Bloch é surpreendente: para si mesmo o é, aliás, como se ele fosse o primeiro a não poder prever a direcção do seu orgulho, do combate entre um complexo de inferioridade e uma claudicante convicção de superioridade.

Tudo me reconduz, pois, às personagens de Proust. Os melhores livros beberam de Em Busca do Tempo Perdido. Reviver o Passado em Brideshead é um livro que tem na sua genealogia a obra de Marcel Proust.

WAUGH DE NOVO


Curiosamente, pessoas diversas e do mais variado género, quando me vêem passar com o livro que ando a ler, ou sentado, tentando precisamente lê-lo, recordam, de imediato, ou a série na TV (com Jeremy Irons, julgo) ou o filme, e recordam-nos com um encantamento e uma saudade que quase me espantam. E elas espantam-se, por sua vez, de que a série e o filme me tenham passado ao lado. Lembrar-se-ão os meus leitores?

A verdade é que, superado o prólogo (que apresenta personagens interessantes, mas, por algum inexplicável motivo, me não fixou a si), principio a aspirar, logo a partir do primeiro capítulo, o espírito de Brideshead. O segredo da escrita de Waugh, Evelyn (quem diria tratar-se de um nome masculino?), penetrou-me por fim no sangue: reside naquelas frases em que aponta os pequenos objectos que mobilam caoticamente um quarto, ou indicam a estranheza de um palacete, e através dos quais se vai deixando compreender uma atmosfera.

O espírito e a atmosfera de um lugar não são independentes dos seus habitantes. Precisamente: as personagens são descritas também como coisas (num sentido que Sartre repudiaria, mas que é literária e romanescamente tão eloquente). Isto é: conjuntos em que encontramos uma coerência inimitável, como se se tratasse de uma toilette física e psicológica: uma certa maneira de vestir, tiques, gestos, manias, hábitos linguísticos e ideológicos. Por exemplo, a simpatia e a rebeldia mimada de um Sebastian, fazendo-se acompanhar por um ursinho de peluche; ou a súmula de características de um Anthony Blanche, que «parecia carregado com a experiência do Judeu Errante», e era, no fundo, «um nómada sem nacionalidade» de que tinham, «na infância», tentado fazer «um verdadeiro inglês» (e que lembra tão fortemente uma certa personagem de Proust). Brideshead ergue-se, pois, a meus olhos: um lugar desfocado sob as lágrimas, cheio de uma graça intensificada pelo movimento da memória, centro de uma saudade e de uma evocação contínuas.

Ainda não há indícios de qualquer trama. [Estou na página 60]. Mesmo Julia, que, segundo me disseram, ganhará um papel decisivo no romance, ainda não foi por mim senão entrevista de fugida. E, contudo, Brideshead já me cativou. Uma escrita perfeita, uma delicadeza e um respeito pela memória do espaço e de momentos que nos disseram algo, primos dos que encontramos na escrita do Grande Proust; um espírito que se adensa e nos abraça; personagens que nos apeteceria que fossem pessoas do nosso convívio. Estou no ponto certo: é um livro que já não sou capaz de abandonar...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

EVELYN WAUGH: REVIVER O PASSADO EM BRIDESHEAD


Meu primo veio passar o Natal. Almoçámos um par de vezes, ouvimos fado, reunimo-nos na noite de Natal, conversámos. E, neste pouco tempo, teve tempo para semear uma curiosidade literária.

Inaugurado um novo ano sob o signo da crise e da austeridade, decidi que vou ser parco numa coisa que me é prioritária, mas cara. Os livros. Não significa, naturalmente, que economize na leitura - significa que terei de pedir emprestado e frequentar bibliotecas. E, contudo, o interesse que o meu primo semeou andou a martirizar-me, a roer, a bater contra as paredes. Fiz o pior que um viciado em luta contra o vício poderia ter feito: entrei no local do tráfico: uma livraria. Queria ver o livro em causa, tomar-lhe o peso, abri-lo; queria cheirá-lo, ler umas frases. Acreditei, no fundo, realmente, que teria força para resistir? Ou, secretamente, já sabia que não tinha a menor hipótese?

Comprei Reviver o Passado em Brideshead. Sei que houve uma série na televisão, talvez um filme. Não os vi. Tinha dito ao meu primo: «Sei que houve uma série na televisão e acho que houve um filme, mas nunca os vi». E meu primo respondeu-me: «Então, olha, não vejas, não antes de ler o livro. Depois, farás o que quiseres, mas primeiro lê o romance».

Tenho andado a adiar. Na verdade, já o iniciei, mas mal cheguei à página 28. Porquê? Para o não esgotar muito rapidamente? Porque o início ainda me não prendeu como esperava, e decidi caminhar com mais vagar, tentando encontrar o ponto, a frase, a chave a partir da qual tudo se ilumine e o seu sentido se me torne irresistível? Sei que me não decepcionará - porque, de todos os inúmeros livros que o primo me recomendou, não houve um único que se não tivesse vindo a tornar um caso absoluto e desenfreado de paixão. Seria estranho que um livro que o conquistou deste modo nada tivesse para me oferecer também. A viragem surgirá: ando a tacteá-la, sob a pele das frases, escondendo-se de mim, em secretos e subtis movimentos que não consegui ainda percepcionar. Mas é uma questão de tempo. Sei isso.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

GIL DUARTE: NADA MAIS E O CIÚME


As editoras e eu nunca nos entendemos. Ou porque me consideraram um escritor de pouco talento, ou porque não lhes apetecia apostar num cavalo desconhecido, mandavam-me passear com um pedido de desculpas e a justificação de que, «infelizmente», os meus manuscritos «não se inseriam na programação da casa».

O tempo dos ressentimentos já lá vai. Seguimos caminhos diferentes. Opto (na falta de outras opções, escusam de mo recordar) por uma edição de autor, que me dizem ser «prestigiante» (ainda bem) e uma forma de «resistência» - aos grandes conglomerados, às editoras devoradoras, a um tentacular polvo; não sei; não me interessa. Gostava que me lessem. É isso. É por isso.

Acredito na eficácia do boca-a-boca. Acredito que três bons leitores, entusiastas, possam iniciar um movimento pequenino. Também não quero que este livro seja um «best-seller». Mas seria bom que chegasse a umas quantas almas (50? 100? 200?) e as prendesse a si.

Há razões para que se interessem. Há razões, sem dúvida, tenho modestamente de o admitir. Se não for uma, então que seja outra qualquer. Olhem. Uma excelente razão, talvez a minha preferida, é a lindíssima capa criada por Ana Cristina Marques.

Uma apresentação pública, com certa amplitude, está nos meus planos: mais tarde direi onde, direi quando. Apetecia-me que pudessem e quisessem aparecer.

Para já, para já, o livro pode ser encomendado aqui:

http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/nada-mais-e-o-ciume/9789899712201/


Até à vista.

domingo, 2 de janeiro de 2011

ROBERT LOUIS STEVENSON: O ESTRANHO CASO DO DR. JECKYLL E DE MR. HYDE


Tenho saudades do teu pendor ensaístico, disseram-me por estes dias. Dos textos que escrevias sobre a tua intimidade com certos livros. Desses posts que nos mostravam como te demoraras numa página, como te riras com uma frase, como amaras uma personagem. O teu blogue está a tornar-se, de algum modo, num catálogo. Vá! Regressa às origens.

O Profissão: Leitor deveria ser visto como um poliedro: algumas vezes citando, outras ensaiando; em certos momentos, se calhar, catalogando - do mesmo modo que ora visita a filosofia, ora a poesia, ora o romance: que interessa? O meu humor não é sempre o mesmo, nem o que me apetece fazer se mantém fixo num ponto ou se move sob uma linha contínua; talvez isso justifique o ajustamento e o reajustamento de ângulos que agradem mais a este leitor e menos àquele. Mas, posta a justificação de mau pagador, há que acrescentar que compreendo a sugestão. O «ensaio», neste sentido vago, de passeio do «flâneur», que nada guia senão o amor pelas páginas lidas, é a natureza primeira deste blogue. De facto.

E isto leva-me a um livro estranho, que li há já muitos anos: O Estranho Caso do Dr. Jeckyll e Mr. Hyde. Eu era jovem, a vida corria-me tranquilamente. Não conhecera o amor, porque as raparigas me aterravam. Mas, por isso mesmo, também não experimentara o sofrimento das paixões não correspondidas. Não tinha tido, portanto, a experiência, que o amor mostra, de me dividir, de ser duas pessoas: o homem feliz e em paz com a sua amada, e aquele que, na ausência, ou no ciúme, vê crescer em si a impensável monstruosidade.

Esse livro menor - ou frequentemente considerado menor - foi, então, a minha primeira visão da duplicidade humana no seu extremo: e ficou tão fundamente cravado em mim que depois, quando, mais tarde, nos tormentos das paixões que vivi, me tornava contrário a mim próprio, numa espécie de luta interna entre o bem e o mal, o querer e o não querer sofrer mais, a esperança e o desespero, o perdão e o ódio, a euforia e a depressão, a metáfora que encontrava para ilustrar a dupla personalidade era, frequentemente, a metamorfose do Dr. Jeckyll em Mr. Hyde.

Nabokov, num artigo que vim de reler, lembra que Hyde, o lado mau, «nunca perde o desejo de regressar à personalidade de Jeckyll». E esse aspecto, afirma, é o mais significativo, porque nos lembra que há um laço profundo entre ambas as personalidades, uma necessidade, em cada uma delas, de se completar na outra - e de retornar à outra. Poderíamos pensar, pois, que mais do que uma autêntica metamorfose, o que ocorre é, em Hyde, a «concentração» (e o termo é de Nabokov) do mal que já existia em Jeckyll. Não há homens bons, não há homens maus: ainda que nunca haja a oportunidade de se confirmar, todo o homem bom é um malvado em potência. Ou, na versão optimista, em que às vezes creio, todo o malvado é um bom homem em potência.

sábado, 1 de janeiro de 2011

GEORGE ORWELL: HOMENAGEM À CATALUNHA

Os portugueses são assim. Pode parecer politicamente incorrecto associá-los para sempre a uma natureza tão pouco promissora, reconhecível em clichés como o do improviso e o do desenrascanço - que nunca se entende se são males, se virtudes -, a impotência para a pontualidade, o engenho para o negócio da China. Talvez uma outra educação, uma profunda reforma de mentalidades, uma revolução a sério os mudasse. Que sei eu? E talvez haja uma espécie de felicidade mesquinha nessa condição, que não apeteça transformar.

Também os espanhóis são um povo cuja definição se faz em torno de um certo número de clichés - alguns muito semelhantes aos lusos, outros contrários, como se nós fossemos a parte melancólica e humilde de uma península exuberante e arrogante. Mas o facto é que os clichés sobre esse povo se vão confirmando de cada vez que fazemos uma viagem aqui ao lado, entramos numa loja ou em um restaurante madrilenos, conversamos com um indígena de Espanha.

Homenagem à Catalunha é um livro muito interessante, porque reúne diversas imperdíveis riquezas. Tomando posição na guerra civil de Espanha, George Orwell, do lado das forças anti-franquistas, vai registando as suas observações naquilo que será, por um lado, um documento fundamental, do ponto de vista histórico, para compreendermos o xadrez internacional que se projectava e reflectia ali, então; para compreendermos os movimentos e decisões de Franco, no horizonte de uma guerra mais vasta, entre Estaline e Hitler; mas, sobretudo, para compreendermos as características tipicamente espanholas que, em Espanha, esta guerra não poderia deixar de absorver. Nessa medida, o livro de George Orwell devém, por outro lado, também um fascinante documento sociológico. Tanto mais que a participação do autor se fará, sobretudo, em regimentos de anarquistas e trotskistas, clarificando o peso e a especificidade do anarquismo espanhol.

Porque em todos os espanhóis vibra um anarquista. Um maravilhoso anarquista. Antes de ser uma questão ideológica, ética ou política, o anarquismo, na sua versão espanhola, principia por ser uma questão de carácter e de maneira de ser. Uma fobia persistente à burocracia, à planificação, porventura à eficácia, uma preguiça latente, um ódio ao sagrado (que não se assusta ante expressões como «Me cago en Diós»), uma irreverência buliçosa, uma falta de controlo, com efeitos perniciosos (pois não se ganha um combate com fuzis que não funcionam ou que podem explodir-nos nas mãos) são, muito mais do que uma convicção fundamentada, traços desta personalidade: aqui, a coragem é tão grande e tão sublime como a falta de sentido prático.

Sou um leitor que saboreia o mínimo pormenor de Homenagem à Catalunha. Mais do que uma análise sobre as razões da derrota da esquerda - que também não deixa de ser -, o livro de Orwell é o livro de um sociólogo leve mas profundo, estimulante, com imenso sentido de humor e uma genuína admiração pelos companheiros de combate com que conviveu («admiração», aliás, nas duas acepções do termo: respeito e espanto).

É, pois, uma homenagem, no sentido mais completo da palavra: aos lutadores corajosos e inábeis, sensatos e loucos, ternos e ferozes: aos paradoxos vivos, sempre dignos, sempre íntegros.