domingo, 31 de julho de 2011

THOMAS MANN: OS BUDDENBROOK

Voltei a pensar em Os Buddenbrook por causa deste post.
Li o livro quando era jovem, recém-chegado a Portugal. Curiosamente, não me lembrava dessa leitura, nem de aspectos salientes da obra, apesar do meu amor pelo escritor perfeito que é Thomas Mann. Que essas páginas amarelecidas passaram pelos meus olhos, posso confirmá-lo apreciando as notas absurdas e vergonhosas que, a lápis, fui inscrevendo nas margens: «Não há dúvida», é um exemplo dos menos embaraçosos, «de que, quando se dá uma grande mudança na vida das pessoas habituadas a viver bem, estas se agarram desesperadamente às reminiscências dessa vida passada: a prataria, por exemplo. Vide tia Amelinha». [Vejam lá, agora façam o favor de não divulgar este testemunho, que venho de expor, da indigência intelectual e psicológica da minha juventude...]

Relendo o extraordinário romance, que fui recuperar, em mau estado, à minha estante, começo por me aperceber de como os gostos do leitor em geral se metamorfosearam. E, portanto, as rotinas do escritor. Não conheço já muitos autores contemporâneos (Agustina ou Mário Cláudio são, em português, as excepções óbvias) que ousem escrever assim, porque já poucas pessoas são capazes de ler assim. Thomas Mann tem um cuidado e um deleite na descrição das características físicas, nos modos de vestir ou na decoração das divisões das casas, que pertence a outra era, a outro mundo. Num ensaio, aliás, André Breton, expondo a intenção profunda do surrealismo, agastava-se contra este tipo de descrição que, na sua opinião, impedia as pessoas de imaginar por si próprias, impedia os leitores de inventar, de algum modo, as «suas» personagens ou locais a partir de um texto. Na minha perspectiva, André Breton não tem a mínima razão: basta ler-se o início de Os Buddenbrook, os seus primeiros capítulos, para se entender que a minúcia descritiva de Mann não é um entrave à imaginação do leitor, pelo contrário: trata-se de construir um ambiente, uma atmosfera que possamos respirar e compreender. Mas chega a ser perturbador como, naquela profusão de pormenores, precisamente, a imaginação é interpelada e chamada a trabalhar. Infinitamente mais do que no vazio dos detalhes...

Pergunto-me se, como dizem depois os comentadores, Mann ou Eça de Queirós, ou Flaubert ou Proust, ao narrar uma sucessão de acontecimentos associados a uma família, a um homem, a uma mulher, estariam conscientes de que contam, simbolicamente, os grandes movimentos da história: a decadência da aristocracia ou a ascenção da burguesia, o conflito entre o comércio e a indústria - ou, no caso específico de Os Buddenbrook, «a Alemanha comercial de 1800, com as suas cidades livres, a sua cultura e o seu nacionalismo sem paixão», ou a tentativa de uma «aristocracia rural» se impor. Mas, conscientemente ou não, é em todo o caso um sinal do seu génio que conseguissem oferecer a tal ponto uma leitura de um tempo e de uma sociedade, reconstituindo brilhante e exaustivamente estes movimentos da história, a partir (por exemplo) da decadência de uma família - sem reduzir as personagens a bonecos de cartolina, veículos de «posições de classe», apreendendo, pelo contrário, a sua vida e os seus pensamentos concretos, os receios particulares, as angústias, as invejas, os amores singularíssimos.

Os Buddenbrook faz lembrar Guerra e Paz. A mesma gravidade dos magníficos jantares (como em Eça de Queirós, aliás), onde os convidados conversam, muitas vezes em francês, ou com frases em francês que revelam a importância, o significado e a influência de Napoleão (não do homem em si, mas de tudo e todos quantos impulsionou), para o espírito e para uma cultura da humanidade, para os ideais que impregnavam o Zeitgeist. É um livro superior, com uma escrita que, silenciosamente, nos envolve e acrescenta, como podem ver por este exemplo - este exemplo mínimo [e atenção, que «mínimo» significa aqui, unicamente, «entre tantos possíveis»], que cito, para concluir o post:

Era verdadeiramente admirável o apetite que desenvolvia aquela criança magra e taciturna, de rosto comprido e um tanto velho. Ao perguntarem-lhe se queria mais um prato de sopa, respondeu, vagarosa e humildemente: - Si...im, fa...z fa...vor! - Do peixe e do presunto, escolhera duas vezes dois dos maiores pedaços com grandes porções de legumes. Inclinada sobre o prato, míope e diligente, devorava tudo; sem pressa e sem falar, engolia bocados enormes. Como resposta à alocução do velho dono da casa, soltou apenas humildemente e com um sorriso acanhado as palavras arrastadas e ingénuas: - Sim... ti...o. - Mas não se deixou intimidar: continuou a comer, apesar de a comida não produzir efeito visível e a despeito de todas as zombarias; comia com o apetite instintivamente voraz da gente pobre que tem mesa franca em casa de parentes ricos; comia com um sorriso impassível, enchendo o prato de boas coisas, paciente, tenaz, faminta e magrinha.

Cruel. Sublime.

4 comentários:

SEVE disse...

Mais um! Já seremos, pelo menos quatro ou cinco...e sobre o José Rodrigues dos Santos, e que escreve por encomenda (ó zé escreve aí mais umas com 516 págins)então não é que teve a lata de publicar um pequeno livrinho com este título A ÚLTIMA ENTREVISTA DE JOSÉ SARAMAGO, retirada do livro que publicou aqui há uns tempos CONVERSAS COM ESCRITORES, um absoluto e inenarrável vendido/mercenário/ caça níqueis e sei lá que mais, para além dOORELHAS....

josépacheco disse...

Muito engraçado, Seve. Concordo absolutamente com a tua opinião sobre o José Rodrigues dos Santos - e, claro, o número de leitores que eu sobemente arrisquei é uma ironia. Acredito sinceramente que sejamos uns 10!!!

josépacheco disse...

«snobemente»

disse...

Eu ainda não li Thomas Mann. Tenho a presunção imensa de não ler traduções de modo que terá de ficar para uma próxima década, ou vida talvez... Mas os seus posts têm ajudado a fazer crescer em mim uma curiosidade já latente há muito. A ver vamos.

Relativamente ao JRS haveria imenso a dizer. O pior de tudo é que o nosso tintin ainda se põe a escrever sobre o que não sabe - ciência - ignorando, claro está, os rudimentos do discurso científico. É tudo confettis: divulgação científica para as crianças e para o povo. Os diálogos são absolutamente inverosímeis, as personagens não têm espessura... Enfim, uma escrita artificial e rasca que ninguém (nem mesmo eu) merece. Se somarmos a isto tudo o ar pomposo de grande escritor que ele nem se preocupa em disfarçar... Não, não somemos.