quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

ACERCA DE LIVROS QUE ME OFERECERAM PELO NATAL

Como me vou entendendo entre livros novos?
No Natal ofereceram-me A Psicologia do Amor, que é, curiosamente, mais interessante do que me parecia. Um psicólogo norte-americano, judeu, contemporâneo, conhecido por uns quantos best-sellers (Quando Nietzsche Chorou e outro sobre Schopenhauer) escreveu, à imagem de Freud, a descrição de casos seus. Em Freud, como sabemos, tratava-se de "pensar" os seus casos para erigir uma teoria e um método - a própria psicanálise. Aqui, claro, não há tanto. Um pouco de exibicionismo - «Vejam como sou bom a resolver problemas» -, um pouco de aproveitamento - «Reparem como estes casos são interessantes» -, temperados por um excelente poder narrativo, fazem das dez situações expostas algo que merece ser lido: porventura mais próximo de Dr. Phil do que de Freud ou Jung, mas ainda assim...

Meu irmão recebeu um livro de que não gostou. Ofereceu-mo para o trocar, em estado novo, pelo que muito bem entendesse. Para mim! Aceitei - não digo o que se foi, mas digo o que veio: Maldito Sejas Dostoiévski, uma edição da novíssima Teodolito, que me prende desde a primeira página. Crime e Castigo, anunciam, mas em Cabul, e hoje. Bah! Passam ao lado do essencial, mas quem esperava melhor das "frases de promoção"? É um livro interessante e original - com falhas e desvios, de que talvez venha a falar mais tarde, mas, em síntese, muito interessante.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CARLOS DE OLIVEIRA: UMA ABELHA NA CHUVA



Há que regressar aos autênticos iniciadores.
Por vezes esquecemo-nos. Lemos hoje um autor que nos parece de uma extrema originalidade, ou de um hermetismo que se deixa confundir com originalidade, e perdemos de vista como, anos antes - e porventura de forma maior, ou com mais razão - já alguém tinha aberto essa senda. De vez em quando, descobrimos um desses que abriram uma senda, um autêntico iniciador. Ou redescobrimo-lo. Ou, por algum motivo, torna-se evidente o que nos escapara numa primeira leitura, feita há já muito tempo.

É o caso de Carlos de Oliveira. Não digo que não haja quem se lembre dele: mas, convenhamos, Carlos de Oliveira foi sempre um autor discreto. Uma Abelha na Chuva, que é um romance de pequena extensão, talvez aquilo para que os portugueses possuem o termo "novela", era apresentado aos alunos do secundário. Penso que, actualmente, já nem isso - entre Eça e Saramago, esses gigantes "oficiais", escasseia o espaço para os demais. Mas Uma Abelha na Chuva é, mais do que tudo, uma história muito, muito, muito bem escrita, que apetece ler pela maravilhosa e criativa simplicidade do sabor das palavras. Aquela descrição física de uma personagem, com que abre o romance, contém tudo quanto é importante para o início de uma história: o gosto e o poder de dar a ver em todos os pormenores, quase como o cinema, e a capacidade de se apresentar uma situação, introduzindo, e simultaneamente adensando, um enigma.

Uma Abelha da Chuva é o texto de Carlos de Oliveira que mais aprecio. Mas em Finisterra, outra obra-prima, encontramos precisamente a origem portuguesa de tantos posteriores experimentalismos [atrever-me-ia a dizer que até de uma intelectual tão incensada ainda como Gabriela Llansol]. Sem falsas pirotecnias, sem forçar absolutamente nada, deixando que as palavras sejam guiadas pela alma das próprias palavras, pela sua poesia interna, que o leitor saboreia e a que regressa, um pouco perplexo, nunca certo de haver esgotado todo o seu sentido.

Há que voltar aos autênticos iniciadores. Há que reler os clássicos discretos. Há que nunca esquecer Carlos de Oliveira. [Que, pessoalmente, em matéria de escrita de romance, tanto me ensinou, mais até do "haver-me influenciado". Mas a quem interessa isso?] Há que retomar Uma Abelha na Chuva. Uma e outra vez.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ALESSANDRO MANZONI: OS NOIVOS [I PROMESSI SPOSI]








I Pomessi Sposi chama-se, em português, Os Noivos.


Obtive-o mercê de algum trabalho. Estava esgotado e nunca foi reeditado: mas encomendei-o em várias livrarias e, de uma, acabaram por me enviar um exemplar lindíssimo, de páginas amarelecidas. [Publicado em 1963].
Como não há fome que não dê em fartura, de uma adega de certa biblioteca recolheram também um exemplar da mesma edição, que eu tinha pedido há séculos e não tive coragem de agora recusar, pelo que tenho, neste momento, o livro em duplicado.

Raios! Meu primo não tinha mentido. Percebo até a sua inveja: «Ainda não leste? Que sorte teres ainda um livro desses pela frente.» [Percebo-a, porque sinto exactamente isso: «Que bom! Ainda não acabei de ler, ainda só vou a meio... Tanta página pela frente...»]
Passamos o primeiro capítulo, que descreve exaustivamente o local em que tudo se passa [«se passou», na presumida realidade, ou «se passará», do ponto de vista da narração] e é uma razão para que o livro não torne a ser publicado tão cedo em português (não por mim, diga-se, que sou um fanático das descrições bem escritas...), e entramos numa história de tom camiliano. É fácil perceber a influência de Os Noivos em Os Mistérios de Lisboa, sobretudo no que respeita a algumas personagens: estou naturalmente a pensar na figura, tipicamente romântica, de um frade que foi um homem da vida, um espadachim de passado tumultuoso e consciência pesada pelo arrependimento; ou nos próprios jovens enamorados, um jovem camiliano que ferve em pouca água e se apaixona perdidamente por uma moça camilianamente singela e cândida.

Há, em Os Noivos, a sistemática compreensão das personagens, reveladora de uma arguta inteligência emocional. Nunca se trata de explicá-las segundo uma psicologia de pacotilha. Trata-se da exposição de motivações desencontradas no interior de um mesmo sujeito, de mudanças de sentimento, da falsa interpretação, pelo próprio, do que está a sentir, ou do que o leva a determinadas decisões: é de uma subtileza e de uma penetração magistrais; penso [por exemplo] na jovem que professou, Gertrudes, depois de combates mais contra si mesma do que contra seu pai e sua mãe, que a manipularam e empurraram para uma tal situação. A mão dessa freira terá, na história, um papel decisivo. Para o bem, primeiro, para o mal, depois. E também esta visão está por todo o Camilo, como sabemos. O capítulo, sobretudo, em que se narra a história dramática da sua "escolha" é de uma profundidade que impressiona hoje da mesma maneira que no tempo do autor.

Existe qualquer coisa de comédia de enganos, de entrechos paralelos que vão sendo expostos separadamente, para que se perceba como se conjugaram para um determinado episódio [e o narrador volta atrás, para recuperar um fio que parecia esquecido, mas sem o qual se não captaria o "todo" das consequências]; qualquer coisa de uma explicação sociológica, que nos coloca em face dos pormenores históricos da sociedade da época, com classes e castas que se entrecruzam numa relação de forças nunca muito justa; qualquer coisa de um humor que se imiscui na tragédia: os caracteres são impagáveis nas suas fraquezas.

Estamos perante um tema de grande simplicidade: um casal de jovens prometidos não pode casar-se, porque o padre Abúndio, delicioso cobarde, se recusa a casá-los, visto que foi ameaçado por um nobre que está enamorado da rapariga. Mas o padre não diz as razões: adia, inventa, contorna sine die, de modo a que algo aconteça que o livre da sua responsabilidade.

I Promessi Spsosi é um clássico. É um romance magnífico, subtil, guiando-nos numa ânsia de saber mais e de continuar lendo, que nos domina por completo. É um daqueles livros que nos devoram: durante um certo período da nossa vida, enquanto estamos com ele, não nos larga, chama-nos, assombra-nos, ocupa-nos a mente. Acordamos a pensar nele, adormecemos com ele no espírito. Curiosamente, não tenho ideia de que Alessandro Manzoni tenha escrito qualquer outro romance. Penso que não, o que o emparceira com outros ilustres autores de alguma extraordinária obra única, como Tomasi de Lampedusa, autor do maravilhoso O Leopardo, ou numa acepção ligeiramente diferente, Proust lui-même.





Podia não o ter encontrado? Podia. Mas não era a mesma coisa.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

HAROLD BLOOM: GÉNIO


Confesso que sou sensível a teorias que provocam. Se acontece a "provocação" ter substância, isto é, sobreviver a um primeiro sobressalto, então, ainda que discordemos da teoria, ter-nos-emos deslocado: há um movimento da nossa estrutura de referências que, se não conduz necessariamente a uma mudança de paradigma, também se não faz sem efeitos, mesmo que mínimos e subliminares.


Um exemplo: lia, com esse tipo de espanto, um crítico literário espanhol afirmar que Kafka era «um mau romancista». Acrescenta que, em O Processo, a primeira frase constitui um erro fatal. Abre-se a cortina com um período excessivamente revelador, porque conteria já todo o desenvolvimento e o fim da história. Discordo do juízo de valor, mas não posso deixar de concordar que a abertura de O Processo, de resto um livro extraordinário, é, a esta luz, uma abertura infeliz.


Harold Bloom é um destes pensadores.
Se abstrairmos, nas suas análises subtis, de algum elemento de arbitrariedade e de algum elemento de busca de efeito a todo o preço, o que resta é, ainda assim, uma visão competente e sagaz, muito estimulante, de uma cultura enciclopédica, conservadora e todavia original, e sempre provocadora.


Estou com um livro seu, Génio, entre mãos.
Pessoalmente, dispensaria que ele o tivesse organizado à imagem do Talmude. Mas concedo que, se prescindimos de uma exposição histórica de certos autores, carecemos de um outro critério de arrumação. E, é certo, por artificial que seja o que obtemos, o Talmude fornece uma chave de organização tão boa como outra.

Por outro lado, existem aquelas convicções muito fortes, a que eu chamaria "manias", de Bloom. Insistir em que José Saramago é o mais talentoso de todos os autores contemporâneos parece-me pouco razoável. Mas muito bem. Admitamos que há, no mais racional dos críticos literários, um incontornável lugar para o "gosto", e que o gosto tem razões que a razão desconhece.

Resulta, de tudo isto, um livro maior mas desigual, e com debilidades [que mo fazem ler sentindo-me interpelado, agastado, comovido], erigido sobre a tese do génio, isto é, a ideia de que, mais do que à cultura, ao tempo, a uma técnica que se aprenda ou às influências, o que verdadeiramente explica a grandeza de algumas obras literárias é, paradoxalmente, algo da ordem do inexplicável: o génio do seu autor. O tempo, a cultura, a técnica ou as influências de Marlowe não eram diferentes das de Shakespeare - e, no entanto, Marlowe nunca seria Shakespeare. Nem Marlowe nem, segundo Bloom, nenhum outro alcançou, alcançaria ou alcançará uma realização literária tão múltipla e tão perfeita. (Dante teria sido quem mais se aproximou).

E sob o princípio do génio, dividindo os autores por diferentes tipos de génio, incluindo, na obra, os portugueses Luís de Camões, Eça de Queirós e José Saramago, Harold Bloom apresenta-nos os génios cujas obras, para ele, formam o cânone da literatura ocidental. Poderemos não nos render, mas saímos acrescentados da leitura.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

LLOYD JONES: MR. PIP


Mr. Pip é o nome do último livro que li. Enquanto espero que o meu primo consiga desencantar-me I Promomessi Sposi, do qual me dizia, sem ironia, «o quê?! Nunca o leste? Fico com inveja de ti, pá, e do teu projecto de vires a ler um livro como esse», mergulho em Mr. Pip e, por várias razões, sinto-me extasiado.

Primeiramente porque é, de certa forma, um livro em torno de um outro livro, Grandes Esperanças, de Charles Dickens. Mas, em segundo lugar porque, ocorrendo num tempo, num espaço e com personagens plausíveis, reconstitui, todavia, um tempo, um espaço e personagens de uma plausibilidade "estranha", que nos é distante. E portanto há um tom quase surrealista e kafkiano na forma como seguimos os jovens negros de uma ilha, assolada por uma guerra civil, perante Mr. Watts, o professor improvisado [e o único branco da ilha], que lhes apresenta Grandes Esperanças, de Dickens.

É uma obra sobre confrontos: de culturas e de valores, de experiências e de visões do mundo e da vida. Com a dureza extrema subjacente ao testemunho da incompreensão e da intolerância, mas guiado pela busca da compreensão e da universalidade, que poderia ser precisamente achada em Grandes Esperanças (o qual representa, como Lolita em Teerão, a ideia e a experiência de uma obra criada num certo tempo e no contexto de uma certa cultura - lida por outras pessoas, de um tempo e de uma cultura sem as mesmas referências) e a ternura de todos querer reconciliar e salvar no seu coração - mesmo os inimigos que, em vida, nunca se aceitaram - é um livro muito belo. E muito duro. Mas muito belo.

domingo, 20 de novembro de 2011

ARISTÓTELES: POÉTICA


Soube que um leitor, atento e fiel, deste meu blogue (um único leitor, portanto, mas um que muito especialmente prezo) se tem ressentido do meu silêncio.

Não vale a pena explicar por que me remeti ao silêncio. Inúmeras razões, desde a expectativa de que a referência a "Mira-Lata" fizesse o seu efeito, até uma fase de hiperactividade profissional, passando por alguma desmotivação, poderiam ser justamente alegadas. Mas não me afastei dos livros, isso não: e para reatar a dinâmica "bloguista", escrevo hoje sobre um que, estranhamente, me tocou fundo. É a "Poética", de Aristóteles.

Descobri-o numa oficina de guionismo, patrocinada - gratuitamente - pelo clube de cinema que dinamizamos, o Francisco e eu, na minha escola. Temos recebido, semanalmente, a visita da realizadora Joana Pontes, a qual, perante uma audiência muito jovem, nos fala sobre "enredo", "plot point", "desenlace", sinopses e guiões propriamente ditos, princípios e fins, pontuando o seu iluminado ensinamento com exercícios e experiências colectivas de construção de estórias. Lembro-me que, numa das primeiras sessões, Joana Pontes trazia a "Poética", de Aristóteles. E de que nos disse: «É claro que tudo o que eu vos possa dizer, mais, o que os melhores guionistas hoje sabem e usam, já tinha sido descoberto por Aristóteles. Está tudo concentrado, com uma enorme clareza, neste livrinho...»

Posso ter pensado que houvesse algum exagero. Não me lembrava da "Poética". Tê-la-ia eu lido? É possível, se atendermos a que cursei filosofia e Aristóteles está longe de me ser um desconhecido. Mas não o li certamente segundo o prisma da sua "utilidade" ou da sua "actualidade". Fui em busca; não havia; encomendei-o.

Não há o menor exagero. Espanta-me reconhecer [uma vez mais] que, a despeito de termos evoluído tanto em matéria de tecnologia, no que diz respeito ao essencial [como seja contar uma história], tudo está nos Gregos. Ou nos Romanos. Não em Aristóteles em particular - porque Aristóteles reflecte, no caso da "Poética", sobre o que estava incorporado, de há muito, no que os poetas, seus contemporâneos e anteriores, já faziam. Não descobrimos nada de original na maneira de narrar com o fito de interessar o leitor ou o espectador; nada de novo na forma de "imitar" acções e acontecimentos, relações e decisões que exponham as personagens nos seus vícios e virtudes, encaminhando-as para a felicidade ou, mais provavelmente, para a infelicidade. Nada de novo sob o sol.

Aristóteles é um amante de teatro. Conhece a maioria das obras do seu tempo, tem predilecções (o "Édipo", de Sófocles, por exemplo, é, para ele, o protótipo da grande tragédia), compara, explica o que falha aqui e o que brilha ali, e traduz esse prazer pela imitação dos actos de homens representada para o público, numa série de lições absolutamente extraordinárias. Analisa as emoções fundamentais do leitor/espectador [que são a compaixão e o temor], a importância da estrutura, actuando, por dentro, como a necessidade que permite desenvolver coerentemente a história [por oposição aos "maus poetas", que optam por ir adicionando episódios que não fariam falta ao todo, se os eliminássemos], o papel da "peripécia" e do "reconhecimento" e, à medida que avanço no texto claríssimo, vou enchendo as margens de anotações: pequenas filas de aranhas desenhadas a lápis de carvão, que nem talvez eu próprio, mais tarde, consiga descodificar.

Descubro erros meus [a tentação, por vezes, para o "episódico", própria de todos os "maus poetas"] e erros de alguns contemporâneos premiados. Às vezes, obviamente, discordo. É importante não confundirmos um gosto particular com uma lei universal. Mas é um livro que faz qualquer autor sentir que os Antigos sabiam já tudo quanto sabemos - e talvez um pouco mais, porque estavam atentos a muito daquilo que esquecemos.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O CONTEMPORÂNEO «INCONTORNÁVEL»



Dava, há dias, comigo a pensar isto: Saramago é, para todos os portugueses, o único autor português contemporâneo verdadeiramente «incontornável». [Usei aspas para que se intuísse alguma ironia que a palavra me merece].

Até no seu modo polémico, José Saramago conseguiu que todos os portugueses se definissem, literária e esteticamente, em relação a ele. Da mesma forma que, a propósito de Nietzsche, Eric Weil afirma que, se podemos falar de um autor cristão, é precisamente dele - na medida em que todo o seu pensar se configura em relação a Cristo, ainda que para o contestar -, também faz sentido dizer-se que os portugueses são todos saramaguianos. Mesmo os que o odeiam, mas fazem desse ódio uma referência como não existe outra com o mesmo peso, com idêntica intensidade.

O século XX português é absolutamente saramaguiano. Torga, Jorge de Sena, Nemésio, Sophia ou David Mourão Ferreira - cinco exemplos imediatos de autores portugueses que considero melhores do que Saramago, isto é, mais profundos e mais cultos - não tiveram o seu impacto. Não fizeram a mesma revolução na escrita: foram herdeiros e continuadores de uma tradição, enquanto que José Saramago a transformou radicalmente. Aqueles foram sínteses brilhantes e inovadoras, este foi o advento de um outro mundo.

Nem sempre gostei de Saramago. Como homem, critiquei-lhe a presunção e a arrogância. Como escritor , considerei-o bastas vezes superficial. Comparem uma página de Clarabóia (mas, para não sermos injustos, uma página de O Ano da Morte de Ricardo Reis, que é do seu melhor, se não o seu melhor) com uma página de Mau Tempo no Canal. Há, em Saramago, uma ausência de densidade ou de riqueza na reflexão, que, pelo contrário, encontramos em cada linha de Nemésio. E, no entanto, ninguém se define em relação a Nemésio. Gosta-se ou não, mas não se está num território virgem, inexplorado, em que se semeiam religiões, fés radicais, terríveis incompreensões, radicais antipatias. Saramago suscita-as. E influencia-nos. A todos. De um ou de outro modo, para o mal ou para o bem, mas a todos.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

JOSÉ SARAMAGO: CLARABÓIA

Tenho, com a obra de Saramago, a relação complexa que muitos outros portugueses.
Reconheço a originalidade da sua escrita; a pertinência de reduzir toda a pontuação ao essencial, de modo a melhor conjugar uma variedade de vozes num mesmo período, abatendo fronteiras e limites, desprezando calcificações e departamentos, na busca de um texto múltiplo e polifónico. Sinto que esta linguagem devolve ao leitor uma cadência oral, fazendo cada um de nós ouvir no seu espírito um leitor íntimo que lhe segreda palavras audíveis, ouvidas dentro.

Daí a minha curiosidade pelo primeiro romance de Saramago: esse que escreveu quando era um jovem e ainda não descobrira o seu estilo (e a sua voz); o tal que foi recusado por uma editora que, tantos anos volvidos sobre um arrogante silêncio, se prontificava agora a publicá-lo. [Penso que a história tenha sido assim]. Comprei-o. Tenho estado a ler.

Já se adivinha a voz de Saramago? Diria que não. Os sinais não existem ainda ou são discretos. Nada anuncia a revolução por vir. E, contudo, um editor inteligente teria publicado o romance do jovem desconhecido? Sem dúvida: desde a ideia de ir transitando, de apartamento em apartamento, de andar em andar, pelos diferentes moradores de um mesmo prédio, até à forma como nos descreve as personagens e narra as situações, mais lírica e menos ironicamente do que a do último Saramago, tudo em Clarabóia é um assombro e uma delícia: no espírito de observação, na captação e compreensão dos sentimentos, na beleza da expressão, este livro não mostra somente o que Saramago ainda não ganhara; mostra também o que perdeu com o seu enquistamento num estilo que, por novas possibilidades que lhe oferecesse (e lhe ofereceu, e nos ofereceu), o dominou, lhe exigiu muito, lhe cortou outras possiblidades.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

MIRA-LATA


Mira-Lata é o título do último livro que escrevi.
Tem duas particularidades: a primeira é que os dois contos sobre cães abandonados - e resgatados - que o compõem foram oferecidos a um grupo de apoio a animais abandonados. E portanto o livro, com ilustrações e um belíssimo trabalho gráfico da Ana Cristina - mais o prefácio da Ana Galvão - irá ajudar animais que alguns portugueses ignorantes e criminosos continuam, em pleno século XXI, a maltratar e a desleixar. Ou seja, eu e as Anas não estivemos a brincar à caridadezinha, como lembrava este magnífico blogue a propósito de certa campanha de um Banco. Nós não ganhamos um tusto - os animais, espero, sim.

A outra particularidade é que tentámos fazer uma obra asseada. O facto de nos dirigirmos a leitores bondosos e predispostos não nos serviu de desculpa. As histórias são o melhor que consigo, e se valerem pouco é porque o autor não dá para mais. Mas as ilustrações, o arranjo gráfico, aquela capa delicada e cheia de bom gosto são a prova do que afirmo.

Gostava que o vissem como um objecto estético que apreciem e que queiram partilhar.

Eis onde o podem encomendar:

http://lojinhanaaas.blogspot.com/2011/10/mira-lata-contos-que-ajudam-o-naaas.html

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

KNUT HAMSUN: FOME


A situação daquele jovem - que a vive e a narra - é extrema: escritor, culto e criativo (pensa frequentemente em iniciar um ensaio que desmonte aspectos da filosofia de Kant), sem laços familiares que o protejam ou o façam pertencer a um mundo humano, numa solidão sem história, isto é, de cujo passado e razão nada sabemos, sem amigos (apenas vagos conhecidos), descreve com uma minúcia incisiva e insensata o passar do tempo [exterior e interior, numa espécie de contínuo diálogo consigo mesmo] nas ruas de Oslo, então Kristiania.

É um tempo de indigência. A roupa está num fio, não pode pagar à senhora que lhe arrendara um quarto (que, portanto, abandonará); os valores invertem-se; a desocupação e a fome [uma fome trágica, que ora se satisfaz graças a qualquer expediente, mas dali a três horas haverá de regressar com novo impulso e uma força mais voraz], a desocupação e a fome tornam-no delirante. E, portanto, o seu narrar está perturbado por essa espécie de indistinção entre a fantasia e a realidade, por uma euforia optimista e sem razão que se metamorfoseia, inesperadamente, num pessimismo aflitivo.

Sobretudo, a mentira ganha contornos que só podem explicar-se à luz desta situação-limite. Gostaria de, precisamente, me centrar na questão da mentira, que me parece muito mais interessante do que, por exemplo, a da "fome" (a fome como símbolo e a fome, até, como atitude ética) que tanto impressionou Paul Auster. [Auster é o prefaciador. Deixei de amá-lo há anos. Adiante]. Porque a mentira é, sem dúvida, muitas vezes tão-só um truque empregue pelo protagonista para conseguir algum
dinheiro; na maior parte dos casos, é simplesmente o modo de disfarçar o embaraço e a vergonha; ou serve para se justificar, perante os polícias, do seu aspecto de vagabundo e do seu vaguear nocturno; mas é também uma espécie de irresistível pulsão: mentir porque o irritam, mentir porque pode inventar uma história interessante, a que acrescenta pormenores cada vez mais complexos - e implausíveis -, mentir como puro exercício de delírio e criatividade, mentir porque as pessoas não merecem a verdade, mentir como forma de escape e de auto-alienação, mentir sem motivo.

É um romance que inventa e lança meios que alguns dos maiores escritores do século XX irão aproveitar, temática e formalmente - o pensar como fala interior, com fendas, hiatos e inconsequências lógicas; a angústia existencial perante o absurdo. Muito melhor e mais puro do que em alguns dos seus discípulos.

sábado, 1 de outubro de 2011

DOMINGOS MONTEIRO: O CAMINHO PARA LÁ


A escrita de Domingos Monteiro, o seu estilo, tem, de facto, um elemento que a torna irresistível. Começamos a ler e damo-nos conta de que não há distância entre nós e o sentido do texto, como se o sentido fosse a nossa própria pele, os nossos próprios órgãos. Chamemos, a esse elemento do seu estilo, e à falta de melhor palavra, "limpidez". Ou "claridade": qualquer coisa que lembra Sophia - uma ausência de esforço, de ornamento despropositado; como se se tratasse de procurar sempre, e quase sempre alcançar, a coincidência entre o sentido e a expressão, entre o conteúdo e a forma; as palavras precisas, as frases a que não acrescentaríamos nem suprimiríamos coisa alguma. E o efeito estético é o de uma simplicidade que nos purifica.

O amigo que me emprestou este livro dizia-me, completamente rendido: «Domingos Monteiro, do meu ponto de vista, é o melhor escritor português do século XX». Não sei - não diria isso. Lembro-me de Sophia, que ainda agora mencionei, Jorge de Sena ou David Mourão-Ferreira (ou Torga ou Saramago, entre outros que injustamente esqueço - e alguns que não refiro porque não gosto) e não consigo comprometer-me com tamanha afirmação. Mas compreendo esse entusiasmo. E é evidente que, porque Domingos Monteiro é um autor quase desconhecido, ainda mais apetece engrandecê-lo, sob a forma de um paradoxo reparador, como se disséssemos: «O melhor escritor português do século XX é um escritor que nem os portugueses praticamente conhecem...»

O Caminho Para Lá é um romance de uma actualidade que impressiona. Lemos uma história que, como todas as que merecem ser lidas, saltou para fora dos locais e do tempo que descreve, para nos oferecer sentimentos próximos e autênticos. O "caminho para lá" é o caminho buscado por uma criança para se reencontrar com a mãe que morreu. E todas aquelas terríveis personagens que realizam o seu teatro em torno dessa criança (em face da incompreensível morte) são inesquecíveis na sua humanidade obtusa, na sua piedade sádica, na sua pequenez sórdida ou na sua inesperada grandeza. Desde o pai, Luís, que não aceita o filho porque o culpa injustamente pela morte da mãe, até ao tio Carlos, marginal e "incorrecto", sempre em conflito com a própria irmã, a Çãozinha, piedosa, de uma virtude mesquinha, passando pelo empregado Falinhas, para quem toda a natureza se concerta numa fraternidade essencial e a morte é uma ilusão (e que é, aliás, para mim, a personagem menos interessante e menos profunda) ou pelas carpideiras, no seu coro trágico, todas estas pessoas perpassam diante dos nossos olhos, fornecendo um assustador consolo, mas desejando, no fundo, vingança.

«As mulheres fixavam a porta, de vez em quando, para ver chegar o pequeno. Sabiam que o pai não o quisera ver, mas não ignoravam que a mãe não podia ser levada para a cova sem que o filho se despedisse dela. Por nada deste mundo arredariam pé dali. Dentro delas agitavam-se os sentimentos mais desencontrados: pena, e uma espécie de rancor satisfeito, um rancor que vinha do fundo do tempo e se transmitia de pais a filhos. Sentiam-se como que vingadas de uma humilhação milenária. A morte, a morte compensadora e invencível, estendia sobre todos a sua sombra igualitária. Aquela gente bem comida, bem tratada, caridosa nas horas vagas, mas sempre desdenhosa, também morria como os mais. A morte não poupava ninguém. E ela ali estava para castigar e corrigir as injustiças do mundo...»

É um romance delicado, frágil, como a respiração de uma criança assustada. Há uma dor que o percorre, um espanto informulado, informulável, perante uma natureza que se compõe, aparentemente, como uma fraternidade de seres (a crermos na visão daquela espécie de Alberto Caeiro humilde, que é o Falinhas), mas esconde o mistério de uma injustiça fundamental. É um texto muito belo, estranhamente belo: reflecte a beleza que possa haver na inocência descobrindo a crueldade; aí se debatem a contínua saudade e uma ténue esperança.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

UM PUNHADO DE LIVROS DISPOSTOS À RODA DE MIM

Estou com mais do que um livro entre mãos. Ainda não acabei Um Par de Olhos Azuis. Iniciei Fome. Não resisti e comprei um outro, na fnac - cujo nome não sou capaz de referir de memória. Mas, entretanto, emprestaram-me um, de Domingos Monteiro: um romance, não um conto. (Só conhecia, de Monteiro, um punhado de contos). Chama-se O Caminho Para Lá e, de facto. prendeu-me. Os outros estão, momentaneamente suspensos. Por excelentes que sejam, aguardam - às vezes acontece-me isto: um certo livro impõe-se, exige uma relação de exclusividade, e eu comprometo-me.

sábado, 17 de setembro de 2011

THOMAS HARDY: UM PAR DE OLHOS AZUIS


O romance parece uma rede cultural e literária. Notem o conjunto de referências subjacentes ou explícitas: o título de cada capítulo, por exemplo, é citação-chave (de Shakespeare, principalmente, mas não só: Marlow, Gray, Burns...) e há outras, constantes, a autores e a obras que, de certa forma, definem o universo e a tradição com que Um Par de Olhos Azuis dialoga e de que se pretende a continuidade.

Com uma escrita delicada, muito suave, descrevendo o ambiente e as personagens com agudeza, Thomas Hardy revela-nos pessoas na sua ambiguidade de sentimentos e valores e naquela hesitação humana que Shakespeare tão brilhantemente nos soube mostrar. Esta capacidade de captar pessoas que nem sempre compreendemos, mas, sobretudo, que nem sempre se compreendem muito bem a si mesmas, nem aos seus sentimentos, nem, muitas vezes, às razões secretas do próprio coração, é uma das linhas que distinguem as maiores obras.

Este Romeu e esta Julieta, contrariados, no desejo que os compele um para o outro, pelo pelo pai da rapariga, têm nome para a atracção que sentem. Amor, paixão. Subtilmente, Hardy vai insinuando que as palavras definitivas são enganadoras. Qualquer atracção é composta de diversos ingredientes, desde a inocência ao interesse, desde uma afinidade de gostos à excitação provocada precisamente pelo facto de esse amor ser impedido por agentes extrínsecos. E os ingredientes vão-se recompondo em novas e paradoxais combinações, com diferente poder de união. A decisão irreversível tomada uma manhã pode parecer-nos estranha e impossível na manhã seguinte.

Os preconceitos são analisados por Hardy com um humor doloroso, mas, ao mesmo tempo, com uma disponibilidade para aceitar e amar todas as personagens nos desajustamentos e nas fragilidades. Escutamos uma voz cuja subtileza pode ser confundida, por vezes, com pouca profundidade: são os pequenos gestos que contam, os movimentos íntimos, minúsculos e mutáveis, muito mais do que as palavras grandiloquentes e as decisões inabaláveis; os preconceitos, muito mais do que o carácter ou as filosofias; o coração, com as suas razões discretas, seguramente mais do que a razão.

Ao humor e à delicadeza da narração de Hardy há que acrescentar a sua perícia na forma como lida com as tensões e com a ignorância do leitor relativamente ao todo dos factos. Multiplicam-se fios de mistério que nos prendem, situações que não sabemos como interpretar, dúvidas que nos fazem penetrar ansiosamente o capítulo seguinte. Camilo e Proust são dois nomes que recordaríamos para tentar dar a ver em que consiste um certo estilo, um certo tom, um certo romantismo que ama as suas personagens, mas não crê excessivamente na pureza absoluta do que as move.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

ELOGIO DO REVISOR



Não sei há quanto tempo se estabeleceu como profissão o trabalho de rever as provas antes de se publicar um livro. O «meu» revisor, ou seja, a pessoa que reviu meticulosamente o romance Nada Mais e o Ciúme, sabê-lo-ia com certeza.

Trindade Coelho, em In Illo Tempore, conta a seguinte história que resumo de memória: num texto em que ele escrevera «dizia-se à saciedade», o tipógrafo emendou «saciedade» por «sociedade»; Trindade Coelho tornou a escrever «saciedade», e o tipógrafo alterou de novo. Até que, ao fim de duas ou três alterações e reposições, o autor falou com o homem, que lhe respondeu: «Ficará como o senhor doutor quiser, mas olhe que toda a gente sabe que se diz "sociedade", não "saciedade".» Existiriam já "revisores profissionais"? Ou era aos tipógrafos expeditos que cabia rever os textos?

Há livros mal revistos ou a que, mais provavelmente, tenha de todo faltado uma revisão. O autor pode ser extraordinário, mas a verdade é que se nota essa diferença. Uma distracção aqui, um desconhecimento ali, uma fragilidade acolá. Em contrapartida, qualquer romance melhora substancialmente se tiver passado pelas mãos de um revisor a sério. Talvez alguns escritores se sintam ameaçados. Não deviam. O revisor não é somente um homem que domina perfeitamente a língua, deve ser uma pessoa superiormente culta, que se passeia com grande à vontade por muitas esferas do saber. Com o "meu" revisor não só fui chamado a prestar atenção a pormenores de pontuação que me haviam escapado, como a erros de conteúdo relativos - por exemplo - aos poderes da raia [zoologia], às regras do sumo [desporto; cultura japonesa]. Detectou referências que eu discretamente fizera, sem querer ostentar, remetendo-as para Hitler [história, política internacional] ou para Nietzsche [filosofia], não, por sua vez, para se exibir, mas para me sugerir que contextualizasse de outro modo.

Em algumas das sugestões que fez pareceu-me evidente alguma ironia. Sobretudo quando se tratava de neologismos que eu ousava. A ironia fere-me, irrita-me. Como se uma mente mais culta ou mais inteligente do que a minha se divertisse à custa das limitações que revelo. Mas que querem? Há na competência e no rigor algo que se confunde facilmente com arrogância. Parece-nos sempre que as pessoas que realmente sabem e se indignam com as falhas que consideram "inadmissíveis" são pouco tolerantes.

Robert Conquest apresentou três leis da política, a primeira das quais determina que «toda a gente é de direita em relação àquilo que sabe melhor». Admito que o termo «direita» seja, aqui, muito ambíguo. Mas trata-se, explica-nos Scruton, de se mostrar «desconfiado em relação ao entusiasmo e à novidade e respeitoso para com a hierarquia, a tradição e os modos estabelecidos». Julgo, é claro, que em literatura, onde a originalidade não deixa de ser fundamental, qualquer apreciação enquistada num «respeito» fundamentalista pela «hierarquia» e pela «tradição» possa pecar por obtusidade. Vasto é o campo onde a visão do artista tem de se impor - e se vale alguma coisa, caberá ao futuro julgar, mais do que ao revisor. Mas mesmo assim. É talvez este critério de pouca abertura que torna, os bons revisores, profissionais escrupulosos e impacientes com os erros.

Perante um revisor como aquele que trabalhou sobre o meu texto, sinto-me frágil e embaraçado. Chego a pensar: «Mas afinal eu não sei escrever.» Todavia, dois minutos após termos concluído a nossa reunião, percebo que o romance que eu escrevera está agora muito melhor, muito mais sólido na forma e com menos imprecisões no conteúdo. Quase - ocorre-me - como se tivesse sido escrito em co-autoria. E agradeço não sei bem a quem ou a quê [ao destino, talvez], que, mais do que o facto de escrever um romance que foi sujeito a uma revisão, esta fosse feita por um revisor de primeira.

sábado, 3 de setembro de 2011

O.K. BOUWSMA: CONVERSAS COM WITTGENSTEIN


Considero A Namorada de Wittgenstein um dos dos blogues mais belos, subtis e originais do que se convencionou chamar a blogosfera. Infelizmente, a minha tentativa de contacto com a sua autora acabou por se revelar um exemplo de incomunicação, e os meus elogios tiveram, segundo ela, o efeito pernicioso de lhe anestesiar o espírito e a criatividade. Não o fiz por mal. E a minha admiração por um blogue perfeito permanece incólume.

De certa forma, compreendo a sua reacção e as suas palavras. Essa atitude de rigor, aliás, numa pessoa que prefere evitar a distracção e a futilidade, tem tudo que ver com o próprio Wittgenstein, que a inspira e é chamado ao título do blogue em causa.

Releio um livro muito antigo, Conversas com Wittgenstein, e é a propósito deste que o perturbador desencontro entre mim e a sua "namorada" me vem à memória. O livro a que me refiro nunca chegou verdadeiramente a ser escrito. Aquando do falecimento de O.K. Bouwsma, encontrou-se, no seu espólio, uma série de fichas, com tópicos e rascunhos brevemente alinhavados, que procuravam dar conta, com um notório fascínio, das conversas que ele mantivera com o filósofo. Em Julho de 1949, Ludwig Wittgenstein visitou a Universidade de Cornell: esse foi o início de um conjunto de sessões (que continuariam mais tarde, no Smith College, em Outubro, e em Oxford, de Agosto de 50 a Janeiro de 51) ao longo do qual Bouwsma e Wittgenstein, muitas vezes sozinhos, algumas vezes inseridos em pequenos grupos de académicos, discutiriam temas, reflectiriam sobre questões que os clássicos nos legaram, pensariam em diálogo.

Wittgenstein tinha a fama de ser intratável. As suas explosões de irascibilidade eram frequentes. Desde o princípio que Bouwsma refere a sua inibição diante do grande filósofo, o medo de o agastar ou de lhe ferir a susceptibilidade. Mas o que este livro, na sua forma incompleta e descosida, expõe de maneira singular, é o prodigioso espectáculo do acto de pensar: somos testemunhas do nascer das ideias no contexto da conversa; de uma busca de imagens e de exemplos para ilustrar o «conteúdo teórico» (e os exemplos e as imagens de Wittgenstein são extraordinárias, como sabemos); e, principalmente, de um esforço quase implacável de rigor: é fácil pensarmos mal; é fácil iludirmo-nos pela própria equivocidade das palavras que temos ao nosso dispor: para Wittgenstein, pelo contrário, é sempre possível segurarmos limpidamente o essencial, seguirmos o raciocínio evidente, excluindo o canto das sereias metafísicas.

Ora, deste ponto de vista, a sua indignação permanente, a sua irritabilidade fácil, a sua hipersensibilidade perante todas as formas de aparência e engano (em que o social é, afinal, pródigo) tornam quase bela a misantropia em que se fecha: aquela falta de paciência para as encenações da vida em sociedade.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

HÁ OBRAS QUE, SE COMEÇAMOS A CITAR, TEMOS DIFICULDADE EM PARAR DE CITAR

«Certo dia, Rosewater disse uma coisa interessante a Billy acerca de um livro que não era de ficção científica. Disse que tudo o que havia para saber da vida estava em Os Irmãos Karamzov de Fédor Dostoievski.
»- Mas isso agora já não basta - disse Rosewater.

»Uma outra vez, Billy ouviu Rosewater dizer a um psiquiatra:
»- Eu acho que vocês vão ter de inventar uma data de mentiras novas, pessoal, se não as pessoas simplesmente não vão querer continuar a viver.

»Havia uma natureza-morta na mesa de cabeceira de Billy: dois comprimidos, um cinzeiro com três cigarros sujos de batom, um cigarro ainda aceso e um copo de água. A água estava morta. E é assim. Havia ar a tentar sair da água morta. As borbulhas colavam-se às paredes do copo, demasiado fracas para saírem.»

Kurt Vonnegut, Matadouro Cinco

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

KURT VONNEGUT: MATADOURO CINCO


A primeira referência que tive de Kurt Vonnegut foi esta. O nome «Vonnegut» não fazia, até então, parte da minha galáxia. Pesquisei ao de leve, cheguei a folhear mas, para ser sincero, o dinheiro coloca-me sempre inúmeros dilemas e, na altura, estava mais empenhado em outros autores. Fiz mal.

Descubro Vonnegut agora, em face de uma tradução portuguesa a que não resisti. E que dizer? Lembro-me de que o Homem de Fraque mo sintetizava como um escritor de ficção científica que parte da banalidade quotidiana americana dos anos sessenta, sem naves supersónicas nem sabres de luz. (Não que eu tenha algo contra as naves supersónicas ou os sabres de luz). E esta síntese tão simples e tão precisa esgota um terço do que eu poderia dizer acerca de Vonnegut.

Mas a questão é que esta geração extraordinária de autores norte-americanos dos anos cinquenta/sessenta (em que incluo, obviamente, o meu adorado Salinger), que, de um ou de outro modo, sofreu o horror da Segunda Grande Guerra, partilha uma linguagem capaz de exprimir um ponto de vista comum: ou a de um jovem desamparado (Salinger) ou a de um cidadão vulgar (Vonnegut); e esse tom simples, coloquial, despido de retórica - se ignorarmos o facto de que reconstituir essa linguagem é, em si, um empreendimento retórico de grande fôlego - provoca um efeito inesperado, atordoador, propiciador de uma empatia indefinida. E, durante o tempo da leitura, cremos que estamos ou diante de um jovem, com a sua indignação e os seus palavrões, ou diante de um sujeito um pouco cretino, cujas confissões nunca entendemos até que ponto são um puro exercício de delírio, ou a revelação autêntica do contacto com seres extra-terrestres.

Juro-vos: a escrita de Vonnegut é absolutamente deliciosa, no seu despojamento próprio de um rascunho, que evita descrições ou desenvolvimentos exaustivos. Em breves apontamentos, relata-nos a história de Billy Pilgrim, o qual, durante a guerra, foi feito prisioneiro pelos alemães (e assiste à destruição de Dresden, como aconteceu com Vonnegut himself), e mais tarde, de regresso a Ilium, ao emprego, à noiva, casando, tendo filhos, sofrendo um acidente e, por fim, a morte da mulher, «intoxicada por monóxido de carbono. E é assim», acaba revelando que, desde há algum tempo, mantinha contacto com os habitantes do planeta Tralfamadore.

Que pensar da loucura de Billy Pilgrim? Que pensar desta visão absolutamente nova do tempo e da morte, que os tralfamadorianos lhe haviam ensinado? Que pensar da sua volubilidade ao tempo, que lhe permite viajar, subtrair-se ao presente, reinscrever-se num fluxo contínuo onde nada verdadeiramente começa e coisa alguma tem de facto fim?

Nuno Júdice afirmava categoricamente, num livro cujo título suspeito é ABC da Crítica [como se fosse possível resumir todo o trabalho de crítica literária às regras estanques de uma espécie de manual], que nunca se deve falar acerca do livro antes de o ter lido na íntegra. Parece óbvio. Curiosamente, é uma regra que não sigo: começo a escrever no ponto exacto da leitura em que sinto que o livro me tocou e inspira, como se houvesse uma espécie de urgência e qualquer adiamento fosse impossível e criminoso. Que eu depois mude de ideia - aconteceu-me -, que tenha acrescentos importantes, que tenha falado de mais, ou de menos, nada disso é grave. Em última análise, uma crítica pode ser totalmente rescrita a seguir - mas parece-me importante iniciá-la no ponto certo de ebulição. Não concluí a leitura de Matadouro Cinco. Mas já sei o que vale - e não me apetece esperar mais para vo-lo dizer...
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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

IRIS MURDOCH: UMA CABEÇA DECEPADA


Iris Murdoch, curiosamente, é uma autora que nunca chamara por mim. Havia boas razões para que eu lhe prestasse atenção: estudante de Literatura Clássica, que se dedicaria, mais tarde, à filosofia, sob orientação de nada menos que Wittgenstein, Iris Murdoch escreveu ensaio, poesia, teatro e romance, deixando-nos páginas onde, perante as escolhas e os actos de personagens capturadas na armadilha de situações inesperadas, se abre um terreno frutífero de reflexão moral.

Talvez temesse precisamente isso: um excesso de filosofia a contaminar os romances, com longas e densas tiradas na boca de personagens. Enganei-me. Murdoch é subtil. E este romance - muito possivelmente o primeiro que li dela - conta uma história no limiar do verosímil, de uma intensidade russa, segundo uma trama complexa, mas que nem por um momento nos fatiga ou desinteressa. Por um lado, porque é absolutamente surpreendente: Iris Murdoch vai virando esquinas que nos colocam em face daquilo que o protagonista - e narrador - não tinha previsto, nem, precisamente, o leitor.

O que está em causa é tão-só a civilidade: até que ponto as relações humanas - quando expostas ao fogo da paixão, da traição, da culpa, do ciúme e do medo, sob o contínuo e secreto desígnio de uma luta pelo poder de pessoas sobre as pessoas - podem «resolver-se» civilizadamente; como se fosse possível uma generosidade e uma compreensão quase ilimitadas, um perdão ou uma aceitação que evitassem sistematicamente o escândalo, a raiva. Como se os conflitos de amor e poder pudessem concertar-se amigavelmente. Ou, pelo contrário: até que ponto toda a generosidade e perdão são ilusórios, toda a compreensão e aceitação de um novo estado nas relações não implica um recalcamento de fúrias primitivas e implacáveis desejos de vingança.

Sob o signo de Medusa - Honor Palmer é uma personagem extrema, capaz de uma atracção horrorosa e incompreensível -, Uma Cabeça Decepada é um romance impregnado de uma aura mitológica que o torna, paradoxal e estranhamente, próximo de nós, de uma perturbadora autenticidade: trabalhar os mitos é, de certa forma, redescobrir, mais do que o "paradigma", a própria alma de certos actos e relações humanos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O QUE É, AFINAL, UM LIVRO PERFEITO?



Num comentário simples, possivelmente sem segunda intenção, o meu leitor Bruno Bravo obriga-me a rever o que disse acerca dos livros perfeitos que já li.
A primeira questão que se me põe é a do que é um livro perfeito. E, claro, tenho consciência de que um livro perfeito não pode ser senão o livro perfeito para um leitor. Ou seja, um elemento de subjectividade, que diz respeito à ligação específica entre aquele texto e aquele leitor, não pode ser ignorado. O livro perfeito é sempre «o meu livro perfeito». Nada mais. Num blogue em que não falo senão dos «meus» livros, do modo como certas obras me tocaram e passaram a fazer parte da minha experiência, parece-me perfeitamente aceitável.

Posto isto, surge um outro problema. Conheço cada vez mais pessoas que fazem gosto em dizer que não têm «um» livro da sua vida (ou «um» filme, ou «uma» música...) mas, no mínimo, dezenas. Sinto-me culpado por contrariar essa tendência. Mas tenho um livro da minha vida, como sabem todos os que acompanham este blogue. É Em Busca do Tempo Perdido. É o «meu» livro absolutamente perfeito, no qual Marcel Proust atinge uma dimensão da escrita, na expressão das percepções e da memória destas, como nunca mais tornei a ver. Falo com toda a seriedade, e não para armar aos cágados. Cada período nos envolve, como se nos afogássemos tranquilamente nele, como se nada mais existisse senão aquela sucessão de imagens segundo ângulos que são sempre extremamente inesperados.

No mesmo círculo da perfeição, digamos assim, aceito «O Inferno» da Divina Comédia. Só «O Inferno»: «O Purgatório» e «O Paraíso» nunca me tentaram - talvez por insuficiência minha, porque os li com a mente demasiado carregada das tensões do inferno para que pudesse apreciar aquela beatitude. E talvez devesse relê-los. Mas, perfeito é, paradoxalmente, «O Inferno». Porquê?

Em primeiro lugar, porque a linguagem poética de Dante é muito, muito bela, mesmo [isto é: especialmente] quando se trata de expressar cenas horrendas («dantescas») de sofrimento e mal. O horror exerce um perturbador fascínio sobre mim. Mas, mais do que isto, «O Inferno» coloca questões extremas da emoção e da psicologia humanas: no vórtice da imperdoável culpa, deparamos com almas atormentadas de que nos apiedamos. Nem sempre o desígnio de Deus é muito claro; nem sempre nos parece justo. Uma das cenas que mais me comovem é a dos jovens amantes, castigados em nome de um amor adúltero e proibido, uma paixão pecaminosa mas de que se não arrependem: estão no inferno, mas eternamente juntos, de maneira que algo de bom, ilusoriamente, permanece intacto na ligação daquelas almas.

Por outro lado, Dante é a testemunha completa, piedosa, plena de sensibilidade e afecto, que se entristece - e desmaia - perante o tremendo espectáculo a que assiste. Tem medo, curiosidade, sente-se perturbado e condoído. E tudo se nos afigura tão vivo e tão real que, durante a leitura de «O Inferno», nem por um momento nos lembraríamos de pôr em causa a existência do inferno.

Sou um leitor predisposto para amar. Em geral, prefiro falar dos livros de que gosto - e gosto de muitos, muitos, muitos. Mas sempre senti que todos os demais estão em outro patamar. Possivelmente porque cada um deles trabalha profundamente «um» sentimento ou «uma» sensação ou «um» ângulo, mas só Dante e Proust mobilizam, em mim, uma infindável panóplia de sentimentos e sensações, agregando-as e desagregando-as vertiginosamente, fazendo-me descer ao que de mais profundo possa existir em mim, intelectual, psicológica, moral e esteticamente.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

WILLIAM MAXWELL: VIERAM COMO ANDORINHAS


Agrada-me chegar a livros inesperadamente. Ou porque um amigo me aconselhou, ou porque o meu interesse foi fisgado por um comentário no suplemento literário de um jornal. Mas a minha forma predilecta é a de chegar a livros através de livros.

Este romance, sobre que hoje venho falar, é abundantemente referido em Ilha Teresa, de Zimler: Teresa, a protagonista - e narradora -, uma garota portuguesa emigrada nos EUA, ignorada pela mãe fútil e pelos adultos em geral, sente-se fascinada com um livro que anda entretanto lendo, recomendado pelo professor de inglês. Trata-se de They Came Like Swallows, de William Maxwell.

As razões pelas quais Teresa consegue identificar-se com as personagens desse romance, que vai lendo, particularmente Bunny, não deixam dúvidas: a mesma dificuldade em compreender e integrar-se num mundo onde tudo está permanentemente prestes a desfazer-se; a mesma necessidade de algo - ou de alguém - que funcione como um ponto fixo de paz e de sentido, a partir do qual o mundo se restaure. E, por fim, a perda definitiva desse ponto fixo - a morte de quem nos vela. [O pai de Teresa falecera...]

Procurei o livro em causa, entusiasmado. Pretendia encomendá-lo em inglês, não fazendo a menor ideia de que o romance existe numa tradução portuguesa. Ora existe. Vieram como Andorinhas. [É então isso que significa "swallows"?] Devoro-o. Estou em êxtase, faltam-me palavras.

Antes do mais, deixem-me dizer duas palavras sobre a questão da perspectiva. A primeira parte do livro é escrita segundo a perspectiva de Bunny (o que não quer dizer que este seja o narrador), a segunda segundo a de Robert, seu irmão mais velho, e a terceira não sei, ainda não sei. [Sei-o agora: é James, o pai].

Bunny lembra o pequeno Marcel, de Em Busca do Tempo Perdido. A mesma sensibilidade excessiva e descontrolada, quase histérica, e o mesmo amor ilimitado pela mãe. De algum modo, mesmo geográfica e geometricamente, é sempre em redor de sua mãe que o espaço se lhe dá no seu sentido. A biqueira do sapato dela, por exemplo, no momento em que ela se encontra de pé, é o início do padrão do tapete. E, na ausência da mãe, as colheres são simplesmente colheres: só na sua presença o mundo se ilumina e as colheres podem ser bonecos com os quais brinca.

Ainda antes de sabermos por que motivo teme todos os demais (ou quase todos), somos confrontados com esta frase que, na sua simplicidade, introduz de imediato uma sensação de insegurança e desconforto em relação ao pai: «Ela afastou-se para poder observá-lo e ver se ele se tinha lavado devidamente, e Bunny reparou com alívio nas migalhas no lugar do pai, no guardanapo dobrado displicentemente.» [O alívio perante a ausência do pai, perante os indícios de que este já tomara o pequeno-almoço e se fora].

É um livro maravilhoso, escrito, todo ele, nesse dificílimo equilíbrio entre o que explicitamente se diz e o que se deixa adivinhar. Cada frase é de uma contenção perfeita - e nessa contenção lê-se todo um universo unicamente sugerido. Por outro lado, voltemos por um instante à questãoa da «perspectiva»: o modo como Maxwell a constrói deveria servir, julgo eu, como um exemplo para todos os aspirantes a escritor. Se não, veja-se: se ao longo da primeira parte, o irmão de Bunny, Robert Morisson, nos aparece como um miúdo petulante, antipático e agressivo, ao longo de toda a segunda parte compreendemos a sua visão do mundo e, portanto, compreendemo-lo: vítima do acidente que lhe roubou uma perna, ciumento e carente - embora, paradoxalmente, incapaz de exprimir fisicamente afecto -, Robert é um pré-adolescente que não entende a fragilidade do irmão, nem a preferência da mãe.
A essa luz, curiosamente, é Bunny que nos parece uma criança mimada e um tanto falsa na manipulação do carinho dos adultos.

É todo este quadro de relações complexas, psicologicamente muito bem tratadas, que vai ser alterado com o desaparecimento do seu eixo. O que é o «dia depois»? O que resta quando já não há fundamento amoroso?

Existem livros muito bons - mas os livros perfeitos são raros. Conhecia três. [Não se percam nas contas pelo facto de um deles ser constituído por sete volumes]. Posso parecer hiperbólico, e não sei se esta sensação perdurará: neste momento, em que o leio ainda, posso dizer-vos que descobri mais um livro perfeito.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

a internet como veículo para o regresso ao prazer da leitura em papel

Na série de autores Não-Nobel a que me referia em outro post, aludi a Raymond Chandler. Chandler, afirma-se na contracapa de À Beira do Abismo, «não foi premiado por ser o representante de um género literário considerado menor pela Academia [o policial]».

Se quiséssemos comprovar esse preconceito recorrendo a um caso semelhante (que, por acaso, escapa à colecção de O Público), Ray Bradbury é o que imediatamente me ocorreria. Gosto muito de Fahrenheit 451, que é, para começar, um romance impressionantemente bem escrito, do ponto de vista literário; para além disso, uma das homenagens mais belas, que conheço, à literatura: não esquecer que é a história de um grupo de resistentes, leitores impenitentes, numa sociedade futura em que a leitura foi interditada. [Todos sabem que ler pode ser perigoso, porque faz pensar]. Tornado um objecto de culto, filmado por Truffaut, este romance nunca poderia despertar a atenção da Academia. Estava manchado por um pecado: era ficção científica.

Recordo-me deste livro no momento em que aderi a uma página, no facebook, de leitores. Nada mais do que isto: apaixonados pela leitura, que trocam ideias (a discussão sobre Saramago é interessantíssima), partilham livros de vida, fazem o elogio do prazer da página em papel, que podem manusear, e cheirar e sublinhar, anotar e, num sentido que a leitura virtual nunca permitirá, «possuir». Numa sociedade da não-leitura, em que tudo se reduz e simplifica (com algumas vantagens, não duvido), é sempre um refrigério cruzar-me com um grupo que nada mais une - uns serão bancários, outros professores ou desempregados - senão um dos aspectos essenciais: o gosto, o prazer, a paixão de ler...

Este é o meu 300º post. Tenho muito prazer em dedicá-lo a este grupo maravilhoso.

RICHARD ZIMLER: ILHA TERESA


Pondo de parte as razões sentimentais, Zimler interessou-se por Portugal por causa da comunidade judaica de Belmonte: igualmente judeu, escrevendo uma tese académica, aprendeu o português, estabeleceu laços, viveu entre nós muitos anos. Suponho que passa ainda frequentes temporadas portuguesas.

Por escolha, de certo modo, Richard Zimler veio-se tornando um sujeito culturalmente anfíbio, ligado às tradições e aos costumes portugueses, conhecedor das manias e dos tiques lusos [porventura como nem os próprios portugueses, porque olhando-nos como alguém que está simultaneamente fora & dentro], mas, ao mesmo tempo, norte-americano da cabeça aos pés, apreciador daqueles desportos que movem multidões e os europeus não entendem, atento a Obama, hipocondríaco.

Ilha Teresa é, antes de mais, um testemunho de - e talvez uma homenagem a - esse cruzamento de culturas e ways of life. Sobretudo desse ponto de vista, parece-me extremamente bem conseguido: as referências, constantes, nunca são de mais: das séries televisivas ao Starbuck's, das avenidas aos cabs que as percorrem velozmente, das marcas - de cerveja ou cigarros - às músicas, tudo se constitui como uma série de ícones de fácil reconhecimento. Eis os EUA na sua imagem imediata, familiar, com a qual tem de lidar, no dia-a-dia, uma jovem emigrante portuguesa, a Teresa do título, numa família em desagregação.

A escrita é curiosa: sendo Teresa (uma jovem cujo inglês não é a língua-mãe) a narradora da sua história, a linguagem dela tem de ser imperfeita, pejada de erros e clichés; a sua perspectiva dos acontecimentos é, naturalmente, indignada e parcial. Se evitarmos a sistemática comparação com The Catcher in the Rye [que é uma das obras da minha vida, e o romance em que a técnica de Zimler vai aqui beber], a linguagem juvenil de Teresa, com alguns palavrões e frases típicas, cria, no leitor, um misto de empatia e distanciamento. Lemos sobre uma linha ténue, entre a tolerância e a intolerância, irritando-nos com a estupidez dos seus actos, ao mesmo tempo que podemos compreendê-los e, até, aceitá-los.

É um Zimler muito diferente daquele a que nos habituáramos. Seguindo uma rota inesperada: como um escritor dextro testando a sua mão esquerda, para empregar a expressão de Gonçalo M. Tavares. O que, claro, é sempre um ganho.

domingo, 21 de agosto de 2011

O JORNAL PÚBLICO E UMA COLECÇÃO DE «NÃO-NOBEL»

Num duplo testemunho de cultura e bom gosto, o jornal Público tem vindo a publicar, todas as quintas-feiras, uma série de obras cujos autores não foram premiados senão pelo tempo. Como nos é lembrado, não só se trata de fazer justiça a um punhado de escritores maiores com os quais, por uma razão ou por outra, o Nobel se não quis comprometer, como de «voltar a dar aos leitores obras que há muito desapareceram das livrarias para dar espaço à proliferante produção contemporânea, nem sempre mais interessante do que aquela que a antecedeu».

Espanta-me que um jornal se atreva a uma tão meritória aventura. Porque é um risco. Hardy, Machado de Assis, Kazantzakis, Joyce, Remarque ou Chandler vieram, entre muitos outros, sendo paulatinamente editados. Pelos vistos, com tão pouca adesão dos leitores, que em alguns quiosques já nem encomendam os livros. O «público», não o jornal mas o conjunto de consumidores, é assim mesmo. Infelizmente: pouco atento, sem interesse; qual será o interesse (perguntar-se-ão muitos) de editar uma colecção de «não-Nobel», ao invés de uma de «Nobel»? Uma série de impremiados em vez de premiados? O cidadão comum não ia ser mais perspicaz que a Academia...

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

HAENDEL EM ILHA TERESA, DE RICHARD ZIMLER

«E ouviu-se aquela voz.«
«Era uma voz agudíssima sustentando uma única nota perfeita. Quando subiu de intensidade fiquei à espera que se rompesse ou que descesse na escala. Mas não. Não saberia dizer se era uma voz de homem ou de mulher. Era sobrenatural. E talvez por isso mesmo senti a pele arrepiar-se.«
«Quem haveria de dizer que uma única nota nos podia preencher tão completamente?»

«Foi no dia seguinte que eu decidi o que gostaria de cantar se eu pudesse aparecer diante de Deus para pedir que o meu pai voltasse para mim: "Então o que vai ser, minha menina?", perguntava-me o Senhor Deus numa voz imponente, como aquela voz terrífica do feiticeiro de Oz quando a Dorothy lhe foi pedir ajuda. Tremendo como a Judy Garland, eu dizia: "Ombre mai fu, Senhor." Era o nome da ária. Foi composta no século XVIII por Georg Friedrich Haendel. Cantava-a Andreas Scholl.«

«Não houve nunca sombra/ de planta tão cara e gentil/ tão suave«

«Encontrei a tradução na capa do disco. Era uma canção de gratidão pela sombra. Só isso. Uns versos sobre uma coisa tão insignificante como a sombra era capaz de me fazer rir antes de o meu pai morrer, mas agora deixavam-me imaginar o que teria feito o Georg Friedrich Haendel pensar que escapar do sol era tão importante que o levou a escrever a mais bela canção do mundo sobre isso mesmo.»

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A RESSURREIÇÃO DE MOZART: UM EXERCÍCIO DE SUBTILEZA


Estou ainda de volta de Nina Berbévora: gostei tanto do seu livro que, lembrando-me de que na feira do Inatel, onde o comprei, havia pelo menos mais um título da autora [numa edição da antiga Âmbar, que já nem deve existir], tornei ao local, e trouxe comigo A Ressurreição de Mozart.

A influência de Proust, neste meu texto, será excessiva se vos confessar que a leitura desta novela me fez evocar uma tarte de requeijão, deliciosa, que costumava pedir para sobremesa, num restaurante vegetariano entretanto desaparecido? Tenho, nas memórias da minha língua, o sabor daquela tarte. E o adjectivo que me ocorre é: subtil. Oiçam: por um instante, parece que escapa: a tarte está quase a tornar-se-me doce na língua, mas não inteira nem absolutamente. Como se a doçura se escondesse, muito fina e muito etérea; bruscamente alcanço-a, mas não a capturo. Perpassa, fugidia.

O conto de Berbévora participa desse tipo de subtileza. De algum modo, a história que nos é narrada poderia ser interpretada a uma certa luz. Faria, talvez, sentido: todavia, é também viável e, porventura, mais sensato e realista, que a não interpretemos a essa luz. [A graça residiria, então, mais no "equívoco" do que no "sobrenatural"]. E mesmo nesse caso, cingindo-nos aos factos relatados, estaríamos em face de uma história muito intensa, vivida durante a invasão de Paris pelo exército alemão. É uma história pungente - imbuída do troar longínquo dos canhões, de famílias que fogem, em longas filas, desespero e abandono. Mas o coração-leitor pede algo mais: espera sempre por esse quase-nada pressentido, essa possibilidade [impossível] de se tocar um sentido intangível, sublime, da ordem do amor e da música.

O extraordinário é que essa chave está sempre latente. Em nenhum momento ela é explicitada: Berbévora resiste à tentação fácil de dizer, sequer, que a protagonista teve consciência do que poderia realmente significar a presença do estranho viajante. É uma possibilidade perante a qual é mais fácil sacudirmos a cabeça: «Não, não foi isso!»; as explicações plausíveis e rotineiras acabam por ter a última palavra.

Contudo, como na tarte de requeijão, em que o delicado sabor ia e vinha, quase se completando mas nunca se oferecendo inteiramente, também aqui há uma verdade em que quase tocamos. A subtileza na escrita é precisamente isto.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

NINA BERBÉVORA: A ACOMPANHADORA


Posso compreender perfeitamente a razão por que uma autora tão interessante e tão rica, só nos anos anos 80 se tornaria uma súbita revelação: tanto tempo de espera para uma mulher que nascera em 1901, viveu a revolução russa, foi exilada para França em 1925 e emigrou para os Estados Unidos em 1950. E a razão é uma aparente simplicidade, uma escrita em que, numa primeira aproximação, tudo se resume a umas frases que dão pouco nas vistas, narrando uma história que não fere de imediato, não rebenta por lado nenhum em foguetes. Imagino sem dificuldade editores ou críticos lendo com uma certa displicência um texto dela, pousando o copo de uísque enquanto viram uma página.

É um engano. Não conheço muitos autores que enganem deste modo. Que pareçam demasiado simples, excessivamente pobres, até ao momento em que penetremos numa certa palpitação interior, e compreendamos que há uma contenção deliberada, no limiar do resumo, do tópico rápido, que, no entanto, captura a essência da vida e dos sentimentos.

A «acompanhadora» é uma rapariga - a própria narradora -, muito jovem, que, numa Rússia sofrendo ainda as dificuldades e o espírito da revolução, acaba contratada para «acompanhar», ao piano, uma cantora lírica. O que me parece extraordinário é a complexidade e a densidade do seu sentimento em relação a Maria Nikoláevna: um misto de inveja, porque esta é a protagonista, no palco, e é bela, tem uma vida requintada e amantes; temperada por um elemento ideológico que vem justificar essa inveja e esse ressentimento em face dos privilégios da cantora («injustos», «burgueses»); e, simultaneamente, uma admiração quase ilimitada por ela, essa mulher que reúne todos os atractivos que a jovem acompanhadora nunca terá.

E, portanto, tudo se passa, interiormente, entre a compreensão e o desejo de vingança. A compreensão por uma história de amor interdita, a infidelidade de M. Nikoláevna, que faz a jovem perguntar-se, momentaneamente, se não deverá matar o marido daquela, para a libertar; desejo de vingança que a põe em face da certeza, por fim, de que é aquela mulher amada-odiada que tem de ser morta. O revólver seria sempre o mesmo, em todo o caso, descoberto com receio e fascínio numa gaveta.

É um romance breve, uma novela, muito profundo e muito belo. Terá esperado anos de mais para se tornar conhecido do mundo. E mais alguns, ainda, para que, pela mão invisível do acaso, eu tropeçasse nele, folheando-o, «Que será isto?», numa feira. Mas «tarde», em literatura, nunca significa «tarde de mais».

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O QUE TRANSMITE UM LIVRO? [UMA CITAÇÃO]

Esta história provém da literatura taoísta; Oakeshott refere-se-lhe, em nota de rodapé, num dos seus livros. É aí que, por sua vez, Andrew Sullivan a vai pescar. Longo caminho no tempo e no espaço percorreu a fala do fazedor de rodas para poder acertar-me. Cito, paradoxalmente, num blogue de amor aos livros, este discurso que os mais precipitados poderiam reduzir a uma crítica de todos os livros:

«Falando enquanto fazedor de rodas, olho para o assunto da seguinte maneira; sempre que estou a fazer uma roda, se bato devagar de mais então vai longe mas não tem firmeza; se bato demasiado depressa, então tem firmeza mas não vai profundamente. O ritmo certo, nem demasiado lento nem demasiado rápido, não pode chegar à mão a menos que venha do coração. É algo que não se pode exprimir com palavras; há nisto uma arte que nem ao meu filho consigo explicar. É por isso que me é impossível que o deixe continuar o meu trabalho, e cá estou com mais de setenta anos ainda a fazer rodas. Na minha opinião, o mesmo deve ter acontecido com os homens antigos. Tudo o que valia a pena transmitir morreu com eles; o resto puseram-no em livros.»
Andrew Sullivan, A Alma Conservadora

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

KYOICHI KATAMAYA E UM PARÁGRAFO QUE NÃO PODERIA DEIXAR DE CITAR

«De repente, tive uma terrível certeza. Por mais tempo que vivesse, nunca poderia esperar sentir uma felicidade maior que a que sentia naquele momento, a única coisa que podia fazer era tentar conservá-la para sempre. A felicidade que sentia aterrorizou-me. Se a quota-parte de felicidade que cabe a cada um está determinada de antemão, talvez naqueles instantes eu estivesse a esgotar a parte a que tinha direito para toda a minha vida. E, um dia, os mensageiros da lua arrebatariam a minha princesa e, então, só me restaria um tempo tão longo como a vida eterna.»

Kyoichi Katayama, Um Grito de Amor Desde o Centro do Mundo

terça-feira, 9 de agosto de 2011

LER NO ORIGINAL: UMA MERA OPINIÃO





Num comentário ao meu "post" sobre a redescoberta, que recentemente fiz, de Os Buddenbrook, o autor trata de «imensa presunção» o critério por si próprio estabelecido de não ler obras senão na sua língua original.

Não creio que seja presunção. Parece-me antes uma exigência rigorosa e salutar. Lendo, em inglês, The Lottery [que encomendei por não estar traduzido], apercebo-me, com óbvio deleite, da vantagem que há em descobrir Shirley Jackson no «seu» inglês: «David Turner, who did everything in small quick movements» ou «What could she be waiting for with such a ladylike manner?» ou «She had a plate with a cup of tea and a piece of chocolate cake; I had a plate with a cup of tea and a piece of marshmallow cake. We maneuvered up to one another catiously, and smiled» são alguns exemplos, que elenco ao acaso, folheando o livro sem especial atenção, não de períodos «intraduzíveis», nem, sequer, «dificilmente traduzíveis»: e, todavia, duvido que outra língua pudesse captar inteiramente o espírito deste inglês, ou melhor, o espírito do inglês de Shirley Jackson.

Posto isto, deparo-me com um problema. Leio em inglês, mas muito mal em alemão. Em francês, mas não em russo. Em italiano ou em castelhano, mas não em grego (antigo ou contemporâneo), árabe ou chinês. Isto significa, em bom rigor, que estariam excluídos das minhas possibilidades, e portanto, do meu projecto de leitura, os pré-socráticos, Platão ou Aristóteles, Virgílio, a Bíblia, Tolstoi, Dostoievski, Tchekhov, Púchkin, Bulgakhov, Kierkegaard, Goethe, Schoppenhauer, Nietzsche, Freud, Hegel ou, precisamente, Thomas Mann. Ou Mao, Lenine, Trotski, Kyoichi Katayama. [Lanço nomes como poeira, uma vez mais ao acaso da memória]. E, portanto, não posso não depender da tradução: não conviver, de algum modo, com obras traduzidas.

É possível que as traduções a que recorro provoquem danos? Até certo ponto: como não domino a língua original, não sou capaz de, pessoalmente, verificar a qualidade daquela. Mas posso certificar-me pelo menos de que a língua em que a vou ler é rigorosa e está correctamente utilizada; de que as frases têm sentido. A intuição tem, aí, um papel. «Pressinto» uma tradução certa. Posso, sobretudo, preferir traduções que as pessoas nas quais confio me afiancem ser bem feitas, posso aprender a distinguir entre diferentes tradutores.

Não me lamento. Aprendo alguma coisa acerca de tradução: que mundo é esse, que lutas travam os tradutores, quem são os parasitas da profissão, que outros estão acima de qualquer suspeita.
Corro riscos? Corro riscos. Mas como só tenho acesso a alguns dos livros que mais admiro por via de tradução, prefiro conhecê-los numa versão estropiada [se não houver outra ou eu a ignorar] do que não conhecê-los de todo.

sábado, 6 de agosto de 2011

SHIRLEY JACKSON: THE LOTTERY


Sempre fui um inveterado bebedor de contos. Tchekhov é de uma precisão extraordinária e os norte-americanos são muitíssimo bons. Em geral, as autoras norte-americanas são de uma subtileza e de uma perícia inigualáveis.

A minha amiga Cristina não gosta de contos. [Como não gosta de música brasileira nem de Woody Allen: estranhos direitos estes, que, no entanto, lhe assistem]. Argumenta que, num conto, quando o leitor começa a sentir-se próximo das personagens e mergulhado no ambiente da história, a história termina.

Posso compreendê-la. Mas, nos melhores contos, não falta nada. Entristecemos por que tenham acabado - mas não ficamos tristes, também, quando um extenso e magnífico romance, que nos acolheu durante semanas, um dia chega ao fim [ainda que tenha demorada mil e vinte páginas]? Um conto é como um poema: uma construção singular, com os ingredientes indispensáveis - e nem um para além desses - de modo a realizar-se no seu tempo certo. Uma página a mais seria a morte do artista. É tal brevidade que lhe confere o que lhe é necessário: a intensidade, a vertigem, o clímax.

Já perceberam que recebi, finalmente, depois de uma espera longa, The Lottery and Other Stories, de Shirley Jackson. Seguro com certa emoção o volume de papel agradável, uma capa sépia, com a fotografia muito simples de uma mulher sentada, agarrada à sua mala, numa pose de resignação e ansiedade que traduz o espírito dos contos de S. J.

«The Lottery» é o último, e foi por esse que principiei: 12 páginas, nem uma mais, onde se descreve uma aldeia aparentemente feliz, e a surpreendente (mesmo para quem a esperava, como eu) transição da visível bonomia para a bárbara realidade - a desocultação da normalidade, revelando o puro horror que a sustenta: horror domesticado, tornado uma parte "normal" da vida e, não obstante, absolutamente terrível. Não imaginam o escândalo que este conto provocou entre as pacíficas mentalidades burguesas, nos anos 40. Hoje, é um indiscutível clássico, um ícone que, segundo um comentador, deveio parte integrante do «inconsciente colectivo norte-americano».

Mas todos os outros contos são feitos com a mesma originalidade e o mesmo desaforo, como se, de facto, Shirley Jackson estivesse muito empenhada na sua própria voz, sem a menor cedência. É um comentário da Newsweek: «Na sua Arte, como na sua vida, Shirley Jackson foi uma absoluta original. Escutava a sua própria voz, aceitava os seus próprios conselhos, isolando-se de todas as correntes intelectuais e literárias... Ela foi unique». A. M. Homes, na introdução, encontra-lhe uma perturbadora familiaridade com Carver, outra minha descoberta recente. E sim, entendo essa ligação, a mesma banalidade realista sob que se oculta algum segredo pavoroso, a mesma visão das famílias americanas dos subúrbios do Sul, as mulheres tristes, as dependências em relação a alguém, em relação ao álcool, as frustrações; mas, naturalmente, em Jackson o horror atinge proporções dantescas, há um negrume diferente sob as pessoas e nas profundidades das vilas.

São 26 contos. Leram bem, 26!Li dois, li a introdução. Não vale a pena telefonarem-me nos próximos dias...

PS: a capa publicada neste post não é, como perceberam, a capa do meu livro. Ou melhor: não a da edição que recebi. Mas é uma deliciosa capa de The Lottery, de «época», a que não resisti...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

UM QUESTIONÁRIO SOBRE LIVROS

1.Existe um livro que relerias várias vezes?
Mais do que um, mas, em todo o caso, muito poucos. O que me ocorre de imediato é Em Busca do Tempo Perdido. E como não teria tempo para reler a obra inteira várias vezes, refiro-me sobretudo ao primeiro volume, e ao último. Mas também Morte em Veneza ou The Catcher in the Rye. E passagens de O Inferno. [A minha parte preferida de A Divina Comédia].

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Claro que há. Ulisses, de James Joyce. O número de vezes que já o reiniciei é praticamente incontável.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Tobacco Road, penso [mas não juraria] que de Erskine Caldwell. Tanto que a minha mãe me falou dele, era eu garoto, mas nunca o consegui encontrar: tenho de me tornar amigo da Amazon, já percebi.

5. Que livro leste cuja cena final jamais conseguiste esquecer?
Sou um re-leitor contínuo do final de Os Maias. Tem de haver outros «inesquecíveis»: que raiva não conseguir lembrá-los...
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Era um devorador de Os Sete. Mas a grande revelação foi Tom Sawyer - e, a seguir, Huckleberry Finn.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Não costumo ler livros chatos até ao fim. Cada vez menos o faço, aliás. Mas um caso foi Doutor Jivago. Porquê? Ora bem. Porque a revolução russa me interessava, porque o filme me entusiasmara. Porque, é claro, nem tudo no livro me parecia chato.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Naturalmente, todos os que referi na resposta à primeira pergunta. Mais: Secret History, Lolita, O Leopardo, A Capital, A Queda de um Anjo, Crime e Castigo.
9. Que livro estás a ler?
Os Buddenbrook. Na verdade, não sei se estou a lê-lo, se a relê-lo. Já o lera, mas não me lembrava... [Acrescento recente: chegou-me finalmente The Lottery, de Shirley Jackson. Durante uns dias, não vou ter olhos para mais nada].

10. Indica 10 amigos para responderem a este inquérito.
Bisnaga Janota, São, Cristina Nunes, Paula Varela, Paula Fonseca, Elvira Filha, Elvira Mãe, Maria João, Cristiano Ronaldo e tia Amelinha.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

MANN, ROTH, SANTOS


Estou muito longe [é um eufemismo] de admirar José Rodrigues dos Santos. E se alguma vez tentei ler um dos seus livros, e confesso que sim, rapidamente o benfazejo manto do esquecimento se encarregou de o lavar e levar da minha memória.
Curiosamente, no seu programa de entrevistas, a que chama pomposamente Conversas de Escritores (não fossemos nós, por acaso, esquecer-nos de que ele é «um escritor», coisa que, de facto, não é), entrevistava, há dias, Philip Roth.

Fiquei deveras surpreendido, porque Roth goza da fama de detestar pessoas em geral, e entrevistadores em particular - ter-se-á enganado a ponto de acreditar que Santos era digno daquela conversa? Duvido.
Em todo o caso, lembro-me de que, entre outras coisas, Philip Roth disse que a leitura, tal como nós a conhecemos actualmente (ou a conhecíamos, até há uns anos) ia mudar completamente. Dentro de algumas décadas, não haverá senão leitores de uma nova literatura, sem papel, sem ironia, sem descrição, sem exigência de tempo.

Eu conheço a conversa: os reaccionários (os «velhos do Restelo») foram apregoando sucessivamente o fim da rádio, substituída pela televisão, e o fim do cinema, substituído pelos vídeos, e o fim do livro, transformado em e-book.
Eu não sou reaccionário. Ou sou. [Alguém me chamou, há tempos, «Velho do Restelo», a propósito da minha persistente recusa do Acordo Ortográfico]. Mas entendo Roth. Que, aliás, não se queixava. Entendo-o na medida em que o que ele afirma é mais subtil do que a mera questão do suporte do livro.

E aqui surge Mann, Thomas, Mann, um escritor a sério, extraordinariamente superior a Roth (e nem vale a pena a comparação com Santos).
Escrevia, num post anterior, que já ninguém lê um livro como Os Buddenbrook. É, pois, disso que se trata: já ninguém consegue ler um certo tipo de descrição, já ninguém («ninguém» é exagero, claro: ainda restamos três; quatro, com boa vontade) tem paciência para usufruir a linguagem, a «petite musique» das palavras, o prazer poético do significante, por si mesmo.

É uma mudança. It's quite a change, really! [Santos terá compreendido a ideia?]

domingo, 31 de julho de 2011

THOMAS MANN: OS BUDDENBROOK

Voltei a pensar em Os Buddenbrook por causa deste post.
Li o livro quando era jovem, recém-chegado a Portugal. Curiosamente, não me lembrava dessa leitura, nem de aspectos salientes da obra, apesar do meu amor pelo escritor perfeito que é Thomas Mann. Que essas páginas amarelecidas passaram pelos meus olhos, posso confirmá-lo apreciando as notas absurdas e vergonhosas que, a lápis, fui inscrevendo nas margens: «Não há dúvida», é um exemplo dos menos embaraçosos, «de que, quando se dá uma grande mudança na vida das pessoas habituadas a viver bem, estas se agarram desesperadamente às reminiscências dessa vida passada: a prataria, por exemplo. Vide tia Amelinha». [Vejam lá, agora façam o favor de não divulgar este testemunho, que venho de expor, da indigência intelectual e psicológica da minha juventude...]

Relendo o extraordinário romance, que fui recuperar, em mau estado, à minha estante, começo por me aperceber de como os gostos do leitor em geral se metamorfosearam. E, portanto, as rotinas do escritor. Não conheço já muitos autores contemporâneos (Agustina ou Mário Cláudio são, em português, as excepções óbvias) que ousem escrever assim, porque já poucas pessoas são capazes de ler assim. Thomas Mann tem um cuidado e um deleite na descrição das características físicas, nos modos de vestir ou na decoração das divisões das casas, que pertence a outra era, a outro mundo. Num ensaio, aliás, André Breton, expondo a intenção profunda do surrealismo, agastava-se contra este tipo de descrição que, na sua opinião, impedia as pessoas de imaginar por si próprias, impedia os leitores de inventar, de algum modo, as «suas» personagens ou locais a partir de um texto. Na minha perspectiva, André Breton não tem a mínima razão: basta ler-se o início de Os Buddenbrook, os seus primeiros capítulos, para se entender que a minúcia descritiva de Mann não é um entrave à imaginação do leitor, pelo contrário: trata-se de construir um ambiente, uma atmosfera que possamos respirar e compreender. Mas chega a ser perturbador como, naquela profusão de pormenores, precisamente, a imaginação é interpelada e chamada a trabalhar. Infinitamente mais do que no vazio dos detalhes...

Pergunto-me se, como dizem depois os comentadores, Mann ou Eça de Queirós, ou Flaubert ou Proust, ao narrar uma sucessão de acontecimentos associados a uma família, a um homem, a uma mulher, estariam conscientes de que contam, simbolicamente, os grandes movimentos da história: a decadência da aristocracia ou a ascenção da burguesia, o conflito entre o comércio e a indústria - ou, no caso específico de Os Buddenbrook, «a Alemanha comercial de 1800, com as suas cidades livres, a sua cultura e o seu nacionalismo sem paixão», ou a tentativa de uma «aristocracia rural» se impor. Mas, conscientemente ou não, é em todo o caso um sinal do seu génio que conseguissem oferecer a tal ponto uma leitura de um tempo e de uma sociedade, reconstituindo brilhante e exaustivamente estes movimentos da história, a partir (por exemplo) da decadência de uma família - sem reduzir as personagens a bonecos de cartolina, veículos de «posições de classe», apreendendo, pelo contrário, a sua vida e os seus pensamentos concretos, os receios particulares, as angústias, as invejas, os amores singularíssimos.

Os Buddenbrook faz lembrar Guerra e Paz. A mesma gravidade dos magníficos jantares (como em Eça de Queirós, aliás), onde os convidados conversam, muitas vezes em francês, ou com frases em francês que revelam a importância, o significado e a influência de Napoleão (não do homem em si, mas de tudo e todos quantos impulsionou), para o espírito e para uma cultura da humanidade, para os ideais que impregnavam o Zeitgeist. É um livro superior, com uma escrita que, silenciosamente, nos envolve e acrescenta, como podem ver por este exemplo - este exemplo mínimo [e atenção, que «mínimo» significa aqui, unicamente, «entre tantos possíveis»], que cito, para concluir o post:

Era verdadeiramente admirável o apetite que desenvolvia aquela criança magra e taciturna, de rosto comprido e um tanto velho. Ao perguntarem-lhe se queria mais um prato de sopa, respondeu, vagarosa e humildemente: - Si...im, fa...z fa...vor! - Do peixe e do presunto, escolhera duas vezes dois dos maiores pedaços com grandes porções de legumes. Inclinada sobre o prato, míope e diligente, devorava tudo; sem pressa e sem falar, engolia bocados enormes. Como resposta à alocução do velho dono da casa, soltou apenas humildemente e com um sorriso acanhado as palavras arrastadas e ingénuas: - Sim... ti...o. - Mas não se deixou intimidar: continuou a comer, apesar de a comida não produzir efeito visível e a despeito de todas as zombarias; comia com o apetite instintivamente voraz da gente pobre que tem mesa franca em casa de parentes ricos; comia com um sorriso impassível, enchendo o prato de boas coisas, paciente, tenaz, faminta e magrinha.

Cruel. Sublime.