domingo, 25 de abril de 2010

JUAN JOSÉ MILLÁS: O MUNDO o mundo é a rua da tua infância



Considero-me, vaidosamente, um leitor talentoso.
Na verdade, o mérito não me cabe, sequer, por inteiro. O segredo consiste em proceder ao contrário do que sugere o aforismo mortífero de um crítico [pensei que fosse de Oscar Wilde, mas descobri, há algum tempo, que não]: «Nunca leio um livro», afirmou, «sobre o qual tenha de escrever: influenciam-nos tanto...»; ou seja: o meu segredo está na capacidade de me deixar influenciar.

Não só pelo livro em concreto, mas por tudo e por todos quantos me possam ter posto na sua peugada. Sim, presto atenção aos blogues acerca de literatura, às críticas dos jornais, adquiro revistas literárias - mas nem precisava: mais perto de cada um de nós (e, seguramente, por menos dinheiro), há um avô ou um primo, um colega, um amigo, um leitor compulsivo que descobriu ou redescobriu alguma coisa, e não quer senão partilhá-la. Aproveito sempre. Oiço, bebo-lhe o interesse, aspiro-lhe o entusiasmo como quem fuma uma droga particularmente forte e, geralmente, parto em busca da obra. Não me tenho arrependido; não me tenho dado mal.

Uma amiga tem sido responsável por diversas surpresas agradáveis, nos meus mais recentes tempos de leitor. Passando-as em revista, observo que todos os seus conselhos literários me enviavam para romances de autores espanhóis. Poderá ser uma coincidência, ou será que a literatura espanhola, tão pouco cara aos portugueses, lhe toca particularmente?

O último livro de que me falou chama-se O Mundo (o mundo é a rua da tua infância), escrito por Juan José Millás, Prémio Planeta 2007, Prémio Nacional de Narrativa de 2008.

Imagino que os leitores deste blogue possam achar alguma graça aos meus comentários. Muitas vezes, agradar-lhes-á o reconhecimento de afinidades, a confirmação de gostos comuns por autores ou escritos que eu e eles amávamos já. Outras vezes, poderá dar-se que eu diga algo interessante sobre este romance, aquela novela, o outro poema. Mais raramente, acredito (mas posso estar enganado) que alguém se dê ao trabalho de ir ler determinada obra por eu ter sido persuasivo. Não que aspire a que este blogue seja, como Soares dizia da sua presidência, uma «Magistratura de influência». Bem. Mas se tiver momentaneamente esse poder, que se verifique neste caso. Absolutamente. Não adiem o encontro com um texto maravilhoso, todo feito de uma memória à procura da infância. E, nos episódios que perpassam ante os nossos olhos não estão somente imagens da criança que o narrador foi: brilha o próprio espírito da infância.

Porque a criança, nos seus desconhecimentos e nas suas pesquisas, e nas transgressões que essas pesquisas dela exigem, é um misto de poeta e de criminoso. De facto, ela é criminosa sobretudo perante a sua própria consciência: o que esconde aos adultos, mesmo os cêntimos que rouba aos pais, ou as diversas pequenas fugas - não são senão os instrumentos para a sua descoberta de um mundo cheio de alçapões, janelas ou bairros misteriosos. E nunca, como nessa fase de descoberta, é possível a reveladora mudança de ângulo, a perspectiva nova e inebriante, resultantes de algo tão simples como uma janela de cave, com uma insuspeitada visão para a rua, de baixo para cima, que tudo muda, que metamorfoseia completamente o olhar.

Para «Juanjo», o narrador, toda a vida se encontra repleta dessas «passagens» para outros mundos. Mas é certo que ele está rodeado das suas drogas: já para não falar do éter, que surripia, há páginas maravilhosas sobre o sono, o vulgaríssimo dormir, que ele "consome" constantemente, em qualquer lado, e lhe transfigura o mundo, dotando-o de uma estranha natureza, entre o onírico e o real; e páginas encantadoras sobre a febre - e os tão apreciados estados febris, a partir dos quais tudo ganha uma espécie de euforia maravilhosa e um pouco alucinada...

O livro é escrito num registo humorístico extremamente feliz: mesmo as situações ou as personagens macabras, à luz do olhar infantil de «Juanjo», vêm tocados de um halo que os regenera. Nada é autenticamente trágico nas ironias e nos paradoxos da vida. Tudo é só, de uma forma comovente, muito engraçado e muito profundo. Não me lembro de muitos outros livros que me tenham feito rir assim, não só para dentro, em gargalhadas intelectuais, mas para fora, em pequenas sacudidelas de ar e de voz.

É interessante apercebermo-nos de como, em adulto, o narrador mantém, como Proust, a propósito de uma mera sensação actual, o dom de um total regresso à infância: um intenso e pleno reviver do tempo perdido; e de como essa ponte permanece intacta, em grande parte porque o olhar infantil está ainda conservado no olhar deste adulto. De algum modo, a escrita, por um lado, mas também as suas neuroses, por exemplo a compulsiva necessidade de não negligenciar um plano de fuga em qualquer ocasião, são os elementos indestruídos, indestrutíveis, da criança que nunca saiu da rua da sua infância.

«Teria gostado de sonhar este capítulo», escreve Juan Millás, «escrevê-lo sob hipnose. Levei-o comigo para a cama durante dias e dias, dentro da cabeça, para ver se conseguia que atravessássemos juntos a fronteira da vigília.»

Eu sonhei este livro: li-o sob hipnose. Sob um encantamento que ainda se não esvaiu. E, parafraseando Millás: tive febre enquanto li o livro; e o livro tinha febre enquanto o li...

domingo, 18 de abril de 2010

SÁNDOR MÁRAI: A HERANÇA DE ESZTER


É com um estranho sentimento e sentido de veneração que me debruço sobre quase toda a arte que provém do Império Austro-Húngaro: e, no entanto, nada pareceria promissor neste império artificial, gigantesco, reunindo caoticamente diversas etnias, costumes, línguas, interesses, com a argamassa de uma poderosa família (os Habsburgos) e um imenso aparelho burocrático, como Musil refere (e descreve) em O Homem sem Qualidades quando, com algum humor, retrata o funcionamento da "Cacânia".

Porém, contra todas as expectativas, tanto na literatura, como na pintura ou na música, por exemplo, o Império Austro-Húngaro foi um harmonioso viveiro de génio e talento. Do meu ponto de vista, mesmo as contradições daquela cultura com algo de manta de retalhos, e os choques que levariam à I Grande Guerra - são ingredientes que trabalham, no espírito dos artistas austro-húngaros, com um veio de desencanto e cepticismo, uma tristeza que levou muitos ao suicídio, um quase desespero que é notório na obra de quase todos. Veja-se a ficção de Zweig, veja-se o próprio Musil, veja-se Brosch. Veja-se Sándar Márai.

Acabo de ler, deste último autor, A Herança de Eszter.
Na nota de contracapa é identificada uma personagem, Lajos, como «um canalha encantador e sem escrúpulos, dotado de um poder de sedução irresistível». Há, nesta personagem, uma falta de carácter, uma facilidade em seguir a mentira, em nela se comprazer e por ela viver, que lembra José Fouché (e vem-me à memória "Fouché" precisamente por causa da excelente biografia que lhe dedica Stephan Zweig, outro austro-húngaro famoso); neste caso, contudo, a capacidade de burlar, fazendo-se irresistível, como se hipnotizasse as pessoas, é elevado por Lajos quase a uma prática estética, ou mesmo artística e, perversamente, talvez a lei moral.

Odiamos a personagem, o seu modo de usar as pessoas que o querem, que o amam, de não ver a vida senão como risco, perigo e terreno fértil, sem compromissos nem constrangimentos, tudo lhe sendo permitido. Mais: trata-se (e neste aspecto Marái parece-me particularmente interessante e profundo) de um homem que, pela sua maneira de ser, tudo transforma em falsidade, mesmo quando o que diz corresponde aos factos, mesmo quando as suas palavras são "verdadeiras". E, portanto, atingimos um outro tipo de inverdade, que é ontológica, e nem sequer depende já propriamente da correspondência entre o discurso e a realidade. Ao mesmo tempo que o odiamos, porém, não podemos deixar de reconhecer que uma admiração secreta nos aproxima dele, como se a sua hediondez nos hipnotizasse, como se o seu poder magnetizasse o leitor da mesma maneira que a todos os que o envolvem e não lhe resistem.

Alguns romances - e, por exemplo, os de Hermann Brosch ou de Musil, para nos mantermos no interior do campo literário e cultural austro-húngaro, ainda que Marái seja de um azulejo específico, diferente, no interior deste mosaico - vivem da linguagem, ou da descrição, ou da filosofia que os impregna, mais do que da "história": aqui, é quase unicamente da história que se trata; tudo vai sendo sacrificado a uma progressão eficaz, muito rápida, levantando dúvidas, mantendo um suspense em relação à trágica conclusão. Esperarmo-la ou não, prevermo-la ou não, depende, curiosamente, de até que ponto nos parece que Lajos poderá chegar. Um homem que enganou, traiu e roubou, e regressa muitos anos depois, vem para reparar o mal? Ou vem para o terminar?

Trata-se de um romance curto - talvez lhe chamasse uma novela. De uma intensidade que nunca abranda. Se às vezes, nas afirmações, nas ideias, aqui, ali, algo nos soa como déjà-vu, déjà-lu, é, sem dúvida, porque estamos no âmago de uma série de circulações e de influências que constituíram uma parte do que o Ocidente verdadeiramente é. Todos os ecos são significativos, todos os reconhecimentos são produtivos. Trata-se de um grande romance.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

MACHADO DE ASSIS: DOM CASMURRO

Florinha Afável, leitora brasileira de que sou, por minha vez, leitor constante, lançou-me um desafio a que seria indelicado não replicar. E, realmente, injusto: «Para quando, José Pacheco», assim me perguntava, «o seu comentário a um autor brasileiro?»

O Brasil possui, e não o digo para agradar mas para deixar que me situem claramente desde o princípio deste texto, em áreas cruciais da cultura, algumas das melhores expressões no mundo inteiro. Curiosamente, por uma infeliz conjugação de factores, os portugueses, que falam a mesma língua e podiam ter o privilégio de conhecer bem esses casos e essas expressões da arte e da cultura, conhecem-nos geralmente mal; sabem que o Brasil tem alguma da melhor e mais bonita música que se faz no mundo inteiro, é certo, mas lamuriam-se da "injustiça" daquilo a que chamam uma «troca desigual», um intercâmbio desequilibrado; não sabem, porém, que tem uma das melhores imprensas escritas; ou um dos cinemas mais vanguardistas; ou um teatro riquíssimo. E nem sequer muitos de entre os portugueses mais cultos têm noção de que a filosofia é muitíssimo bem tratada no Brasil, e de que algo como «filosofia brasileira» é uma expressão que remete para uma actividade vasta, contínua e muito interessante; em suma, os portugueses tendem a reduzir a cultura brasileira à telenovela, que apreciam bastante. E ao Carnaval, que vão copiando em pequenino. Acerca da literatura que o Brasil tem produzido ao longo da História, por exemplo, tudo são, por cá, ignorância e sombras.

Era aqui que eu queria chegar. Eu próprio, tão lesto a criticar, conheço pouco e mal, e disso já por aqui me auto-critiquei, os "novíssimos" da Literatura Brasileira. Procurarei corrigir. (Talvez nesse ponto, aliás, as sugestões dos leitores brasileiros deste blogue possam fazer luz sobre caminhos a pesquisar...).

Entretanto, dos mais antigos, escolho sem hesitar um autor cuja obra considero moderníssima. Falo de Machado de Assis.
E de entre tantos livros notáveis, nomeadamente Memórias Póstumas de Brás Cubas, que é uma obra maior, opto pelo maravilhoso Dom Casmurro. Acho difícil compreender como um romance possa ser, simultaneamente, tão inovador (ainda hoje) e tão atraente. O inovador não é quase sempre aquilo que temos de lutar para perceber, o desconfortável, na medida em que põe em causa os nossos hábitos, as formas adquiridas de ler? Pois bem: Dom Casmurro prende-nos do princípio ao fim: frases curtas, capítulos muito curtos e uma história encantadora, repassada de filosofia, melancolia e ironia.

O que me parece verdadeiramente extraordinário é, porém, o efeito conseguido por Machado de Assis ao pôr-nos perante um narrador que é o próprio protagonista: é, portanto, Bentinho que nos conta as circunstâncias do seu nascimento que, já inesperado, seria tido por um milagre; a sua paixão e luta para conquistar Capitu; e, chamemos-lhe assim, a grande dúvida que surge como por acaso, mas alastra e cedo se tornará o centro de gravidade do romance.

Claramente, não conhecemos a verdade - e, a todo o momento nos compenetramos de que estamos sempre em face da visão de Bentinho, da sua interpretação dos factos, errónea ou não, plausível mas nunca definitiva, porventura cega pelo ciúme ou pela insegurança.

Ora é essa maneira de construir uma história na primeira pessoa, assumindo a dúvida e, ao mesmo tempo, a impotência para alguma vez resolver definitivamente essa dúvida, que toca aquelas páginas de um cepticismo e de uma oscilação entre possibilidades opostas - à luz dos quais podemos entender perfeitamente a dramática ambiguidade de sentimentos de Bentinho em relação a Escobar, seu amigo, ou Bentinho em relação a Ezequiel, seu filho.

Algum crítico afirmou que, nessa medida, se torna possível reler o livro segundo diferentes interpretações e, de cada vez, chegando a uma conclusão diversa. Tanto eu não diria. Em nenhuma das leituras que fiz me consolei com uma única conclusão. Em qualquer das vezes, as conclusões estavam todas presentes numa inconclusão que me deixou estupefacto. Todavia, isso sim, em cada uma das leituras, Dom Casmurro me apareceu como um livro que tudo me parecia perguntar - e não saber responder -, mas sempre com a mesma força, a mesma alegria levemente angustiada, o mesmo poder.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

FERNANDO PESSOA & COMPANHIA ILIMITADA

Fernando Pessoa era de uma curiosidade e de uma inspiração febris: escreveu poesia, mas não houve um único género literário a que se não tivesse entregue (até anedotas, muito engraçadas, aliás como não poderia deixar de ser, Pessoa escreveu...); conhecia profundamente os clássicos; estudou a fundo a astrologia, fazendo reparos ao Grande Mago, Aleister Crowley, que veio de propósito a Portugal para descobrir quem diabo era o portuguesinho que assim o emendava; à numerologia; à grafologia; à frenologia: fez esboços do seu nariz, dividindo-o em segmentos, movido em parte pelos complexos que parece que tinha por causa do tamanho deste, e em parte pelas conclusões científicas a que pretendia chegar acerca do significado das medidas e forma nasais; quando a psicanálise entrou em cena, seguiu-a conscienciosamente, muito atento à fórmula freudiana; fartou-se de inventar; por exemplo: o carreto da máquina de escrever enervava-o, de modo que se pôs a desenhar imediata e meticulosamente uma série de projectos para conceber um novo tipo de carreto; propôs um anuário, precursor das "páginas amarelas", com um modo de "codificação" avançadíssimo para a época; foi um editor que estampava dinheiro nas coisas de que gostava e eram boas, indiferente ao sucesso comercial; estudou medicina, por interesse e para dar à figura de Ricardo Reis, médico, a devida credibilidade; e as últimas pesquisas já apontam, para além dos muitos que julgávamos conhecer, setenta e dois heterónimos. Outra investigadora procura provar pelo menos oitenta.

Visito a Casa Fernando Pessoa. Regresso encantado, com muito da minha imagem feita sobre o poeta (imagem fabricada, em grande parte, pelo Gaspar Simões...) completamente estragada: em vez do homem tímido, recatado, fechado em casa, o pândego, que, irritado pelos olhares viperinos das vizinhas, se fazia passar por bêbedo, atirando-se para cima dos carros, abraçando-se ao candeeiro, numa cena à Pátio das Cantigas, e subindo os degraus de gatas, depois de ter ido à esquina simplesmente comprar um jornal. Descubro não só o escritor prodigioso, o genial poeta, ensaísta, novelista, dramaturgo, inventor, mas o conviva apetecível, o grande brincalhão, o tertuliano indefectível, o excelente amigo. O caso único em Portugal. Em vários aspectos, por muito tempo, o notável único Caso português.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

PAUL AUSTER E AS ALUNAS DE QUEM FUI ALUNO

Tenho encontrado, nos últimos meses, alunas de, quê, há seis, sete anos? (Seria já há dez?!) Eu mais grisalho, elas não: na mesma, na mesma, exactamente na mesma! Eram já brilhantes, sempre ansiosas pelo jogo de refutar os meus argumentos, e estão agora concluindo doutoramentos - preparando-se para ser arguidas por uns senhores de batina, que levantarão objecções mas, pobres deles!, não conseguirão melindrá-las minimanente.

Essa turma inigualável, de que me recordo muitas vezes, aventurava-se pela filosofia com uma intuição segura e uma curiosidade arrojada. Discutíamos acaloradamente durante a aula e, frequentemente, ficavam uma, duas, um grupo, a conversar comigo pelo intervalo fora.

Foi esta turma que me apresentou Paul Auster. Mais precisamente, foi uma dessas alunas brilhantes, que revi por estes dias. Eles eram todos leitores sedentos, apaixonados por descobertas; trocavam livros, partilhavam o que cada um deles achava.

Agora que, entretanto, me afastei de Paul Auster e raramente me sinto tentado a relê-lo, não posso esquecer o sentido da descoberta deste autor. Fiquei absolutamente fascinado com O Palácio da Lua, embora tivesse achado, já na altura, que havia demasiadas coincidências, nem sempre irónicas, para solucionar, como deuses ex-machina, os problemas que se punham ao desenvolvimento da narrativa. Mas A Música do Acaso, em contrapartida, era tecnicamente perfeito, seguindo uma ideia rica de possibilidades: quando tudo empurra o protagonista para um certo caminho, ele escolhe o oposto. E assim sucessivamente. Era, como se pode supor, um manancial de surpresas atrás de surpresas.

Com o lamechas Timbuktu - desculpem-me a franqueza -, Auster irritou-me; o meu interesse por ele reavivou-se através de uma série de contos e pequenos textos, entre os quais pequenas peças de teatro, repescados ao seu trabalho de juventude e reunidos num volume. O nome? Não me lembro, mas havia por ali, entre outras pérolas, um quasi-policial fabuloso, bem urdido e empolgante. O "quase" não é depreciativo, mas uma qualidade de um romance que até no género que adopta consegue iludir o leitor.

Qualquer das maneiras, é claro, o encontro de Auster é um exemplo do que tenho aprendido com os próprios alunos; «Aprendo muito com os meus alunos» tornou-se, bem sei, uma frase feita, um cliché politicamente correcto. Mas é verdade que as surpresas de um professor são sem fim; bem vistas as coisas, portanto, este post não é tanto sobre Paul Auster: é sobre aquela turma saudosa. Meninas, vamo-nos vendo.

domingo, 11 de abril de 2010

O INFERNO


De um outro blogue meu, recupero, para aqui, este texto que redescubro agora, antiquíssimo, porém, escrito por um eu mais jovem mas já de acordo com aquele que eu viria a ser...


Da brutal Divina Comédia de Dante Alighieri, a última parte, «O Paraíso», parece-me um final insípido para a obra. Mas sejamos justos: insípido precisamente porque quem leu as partes anteriores e se deixou arrebatar por elas não se pode conformar nem satisfazer com uma conclusão que não está à medida da tensão e do prazer (literário, poético, estético) que tinham vindo a crescer em si. Mesmo a parte do meio, «O Purgatório», parece-me insuficiente ou, pelo menos, esquecível. Pelas mesmas razões: falta-lhe a tensão trágica do início, aquela dor que nos toca e comove, a crueldade que tudo impregna e nos dilacera de um modo sublime.
Que início é esse? «O Inferno».

Se as partes finais da Comédia nos parecem desequilibradas e frágeis, se nos cansam, é porque o «O Inferno» já nos deu tudo. Deu-no-lo de uma forma terrível, triste, como se pudéssemos ouvir o choro e o ranger de dentes. Deu-no-lo de uma forma por vezes insuportável, roçando o mau-gosto e a morbidez. Mas deu-no-lo. Poética e dramaticamente, psicológica e filosoficamente, «O Inferno» é uma obra sublime. Só por um equívoco se pode ter pensado que ela deveria - ou poderia - ser continuada. Na verdade, «deveria»: Dante, crente, não tinha alternativa senão mostrar que o inferno não é tudo; que, pelo contrário, para quem escolhe bem, para quem escolhe O Bem, é o céu que se apresenta como a feliz totalidade. Deveria, portanto, tê-lo feito. Mas não «poderia». Porque não lhe era possível superar a magnífica dimensão do seu «Inferno».

Dante é o poeta que nos narra como, conduzido por Virgílio, ali seu guia, morto e jazendo no inferno, visita e conhece os diversos círculos infernais, onde se vão cruzando com as almas condenadas de contemporâneos de Dante, homens e mulheres que, manchados por imperdoáveis pecados, teriam sido lançados no lugar de maldição. É ignóbil, podemos pensar. Com que direito julga Dante os seus contemporâneos, ou os homens do seu passado recente e do passado antigo? Com que legitimidade a sua «visão», o seu poema, lhes condenam as almas?
Dante: «Essa hiena», lhe chama Nietzsche, «essa hiena que uiva por entre as sepulturas»...

Mas o que me fascina no olhar de Dante é um subtilíssimo veio de piedade e simpatia por alguns dos seres que ele vê no inferno, e o misto dessa simpatia apiedada e uma rígida aceitação do implacável plano divino que os castiga para sempre.
Dante «compreende» a ira de Deus, o modo como Ele condena à eterna consumação algumas das almas mais nobres e justas da História? Dante «compreende» que Virgílio esteja no inferno, tal como, aliás, o próprio Platão ou Aristóteles? «Compreende-o» com o seu coração? Não pode compreender, porque os admira, porque aprendeu das suas obras, porque Virgílio foi o seu guia, o seu mestre, o seu duce, aquele com cuja poesia, porventura, aprendeu a ser poeta - mas, não compreendendo, aceita intelectualmente, num acto de fé de profundas tristeza e amargura, porque sabe que, sendo eles anteriores historicamente ao cristianismo, não poderiam ser salvos pela Verdade que, coitados, não conheceram. É uma concepção que nos soa como de uma terrível injustiça. A punição não pune só os maus, pune também os que, inocentemente, não conheceram a Luz. Não que a tivessem recusado: somente porque não foram do tempo histórico em que ela se ofereceu aos homens.
Mostra-nos esse sentimento de piedade um outro momento tremendo do poema: quando Dante vê, no círculo dos que cometeram adultério, duas almas enamoradas que, na pena eterna, na infelicidade eterna, têm, pelo menos, a felicidade de haverem permanecido eternamente juntas. Mas não é extraordinária a comoção que invade Dante, quando a história dos dois jovens pecadores lhe é narrada, a beleza que irradia desse seu acto em vida, ao mesmo tempo pecaminoso e amoroso? Não é extraordinária a forma como, por fim, Dante desmaia, como esmagado pela sublimidade daquele sofrimento?

É um inferno sombrio, apaixonado, cruel, de castigos extremos, de torturas terríveis. É um inferno onde o mal se nos apresenta carregado de tensão e dor. Sonhamos com ele. Assombra-nos. Distorce-nos os pesadelos e a imaginação. Nunca esqueceremos determinadas figuras da dor e do arrependimento.
É um poema magnífico onde - Jorge Luis Borges, mais do que ninguém, chamou-me a atenção para isso - as frases podem ser lidas segundo interpretações que se sobrepõem sem se anularem e, às vezes, anulando-se. É um inferno em que tudo tem de ser compreendido a uma luz muitas vezes diferente da luz da aparência: é o mesmo Borges que nos afirma que o pecado pelo qual se castiga Ulisses não é o pecado de que, à primeira vista, ali se fala, o da fraude: é antes um outro pecado, um pecado oculto, que nunca chega a ser dito e o leitor pode nem sequer descobrir.

É um poema com várias leituras possíveis: uma, histórica, uma, puramente estética, uma, filosófica, uma, religiosa. Ou uma múltipla.

Dir-se-á que a menos viável, hoje em dia, é a religiosa. Que nem mesmo uma pessoa crente poderá crer no inferno de Dante. Do meu ponto de vista, é um erro. Para mim, que não sou religioso, que me pavoneio no mais frio e racional ateismo, a leitura religiosa do «Inferno» é inevitável: o impossível inferno torna-se-me presente, indiscutível, e creio nele enquanto os meus olhos seguem os versos impressionantes.

sábado, 10 de abril de 2010

ÁLVARO DE CAMPOS: A TABACARIA


Eu não era propriamente um leitor de poesia.
Recomecemos: como leitor de poesia, ter-me-ei ficado, na adolescência, por uma leve náusea a propósito de Os Lusíadas e uma admiração ilimitada pelo Gonçalves Crespo, vejam lá!, poeta um bocadito menor, autor de um poema que eu relia, no entanto, completamente conquistado, e de que cito de memória estes primeiros versos: «Baçus, mulher de Ali, pastora de camelas/ Viu de noite, ao fulgor das rútilas estrelas/ Vail, chefe minaz de bárbara pujança/ Matar-lhe um animal. Baçus jurou vingança./ Corre, célere voa...», e por aí fora.

A minha primeira experiência poética, no sentido em que se falaria de uma experiência mística, deu-se pelos meus dezassete anos. E pelo mero acidente de, numa feira do livro, ter comprado certo livro - porque o dinheiro não chegava para nenhum outro.

E esse livro, que nem sequer era de Fernando Pessoa ou qualquer dos seus heterónimos, mas de um estudioso que já não recordo, citava, quase na íntegra, A Tabacaria, de Álvaro de Campos. Ora bem. Poderia agora pôr-me a romancear, como se estivesse criando o meu próprio mito, mas não vale a pena, porque a realidade se me impõe à memória. Estou a ver-me, tanto como nos vemos a nós mesmos. O cabelo despenteado de que já aqui falei, os óculos graduados que afugentavam todas as miúdas por quem me apaixonava, os pés de lado. Parara num dos caminhos, ladeado pelas barraquinhas das editoras ("stands", como gostam que lhes chamemos), lendo o poema. E não posso jurar senão que, na minha memória, aconteceu isto: o mundo parou.

Escrevi noutro texto que a poesia raramente se me revela na imediatez da sua maravilha. "Raramente". Tenho de a reler, buscando, num nervosismo e numa ansiedade que ainda mais me bloqueiam o acesso. Mas, dessa vez, A Tabacaria tomou conta de mim. Talvez porque há qualquer coisa de uma novela que nos prende desde os versos iniciais, talvez porque somos convidados a entrar em memórias magoadas de infância, talvez porque nos identificamos com o reconhecimento da fraqueza do poeta, aquele seu "humano, demasiado humano" que, na hora da verdade, não encontra congéneres, nem iguais, nem com quem possa partilhar a experiência da inferioridade; talvez por causa da mesquinhez, da simplicidade sem metas que nos é tantas vezes próxima, e ali entra pela mão do «Esteves», que é qualquer uma destas composições de «sol e enchidos, subserviência e fantasia» (Hélia Correia) com que nos cruzamos no dia-a-dia.

E, nesse momento, fui o receptor ideal. Estava vulnerável e só. Lia Kafka, Sartre e Camus. A ausência de metafísica, o reconhecimento do sem sentido da existência cravavam-se-me como uma facada. E a composição (que eu era) de uma cabeleira hirsuta, óculos e solidão exclamou, para si mesmo: «Isto é fantástico!» Segundo a minha memória (ou é já "mito"?), terei mesmo repetido: «Isto é fantástico!»; fui sentar-me num banco, mais adiante, para ler tudo, para guardar e saborear a intensidade daquele estado.

E, desde aí, ando à procura da repetição do êxtase poético.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

JOÃO PAULO BORGES COELHO: O OLHO DE HERTZOG


É um livro de História e de histórias.

A História, para já, passa por Moçambique e, mais propriamente, por Lourenço Marques: e digo "passa" porque a cidade em causa se tornaria, na altura, 1919, um cadinho de personagens, culturas e nacionalidades, cada uma delas com a sua agenda oculta, cada uma delas ensaiando, sobre o tabuleiro moçambicano, jogadas da mais diversa ordem, pessoais ou políticas: cada uma, portanto, sendo, ali, naquele momento, uma alavanca de uma História que vinha de mais longe - entre as sobras e as possibilidades deixadas por uma Guerra de que ainda se ouviam os ecos.

Tal carácter histórico do romance é tratado pelo seu autor, João Paulo Borges Coelho, com uma seriedade que o leva a reconstituir fielmente algumas personagens - por exemplo, João Albasini, o jornalista - e, principalmente, a própria cidade: a Lourenço Marques de então, que nos vai sendo dada a provar pela citação de extensas frases publicitárias, que as fachadas dos edifícios ostentariam, e vão pontuando o texto: as pastelarias, os restaurantes, as alfaiatarias, os escritórios; Jolanda, Fábrica de Gelo, Águas Minerais, Frigoríficos, Proprietário Giuseppe Cavallari, ou Dr. Palma, Sífilis e Doenças Venéreas, Doenças das Senhoras, Clínica Geral, Consultório. Percebemos imediatamente que a linguagem dos anúncios (quer sejam verídicos, quer invenções, quer um misto) é, de facto, a da época, mesmo pelo recurso constante às palavras e às fórmulas portuguesas típicas do fim do século XIX inícios do XX; veja-se este plausível e delicioso exemplo: «Casa de João Ramos. Encontram os turistas e quantos após as horas fadigosas de trabalho queiram distrair-se fazer um bom passeio num retiro agradável com belas sombras»; nunca adivinharíamos, antes de chegar a este livro, até que ponto a viagem pela publicidade permite refazer uma cidade, mostrando-no-la nos contornos e nas cores da sua efervescência comercial.

As "histórias", por outro lado: porque, ao longo de uma exigente e cuidada construção, J. P. B. Coelho deixa que o leitor se vá apropriando dos segredos que tudo condicionam - e lançam a própria aventura -, através das histórias que vão sendo narradas ao protagonista: ele próprio, de resto, um indivíduo misterioso, com uma história que só descobrimos incompleta e lentamente, chamado Hans Mahrenholz, mas fazendo-se passar por um tal Henry Miller.

O mais curioso é que - como reconhece Henry Miller, aliás, dado, também ele, a infindáveis digressões e fantasias - é que as histórias que vai ouvindo não se encaixam umas nas outras linearmente. Pelo contrário: cedo verificamos que algumas constituem becos sem saída, desvios inusitados, porventura perdas de tempo: na verdade, nunca o são, porque independentemente da forma como nos aproximem (ou "o" aproximem) ou não do objectivo, valem por si, pelo seu interesse, enquanto outros tantos modos de nos conduzir ao passado das personagens, sobre as quais - dirá alguém - há sempre mais do que uma versão. São também essas estimáveis regressões no tempo que nos levam a Klimt, ou Schiele, ou Picasso. Às vezes, perante a realidade de certas personagens, acontece sentirmo-nos confundidos pela destreza do autor para o embuste, entre o elemento histórico e o ficcional: «E esta pessoa», perguntamo-nos, então, «terá efectivamente existido?».

Por fim, como leitor moçambicano (ou, rigorosamente: de origem moçambicana), diria que este romance traça, de certa forma, uma fronteira decisiva na literatura africana de expressão portuguesa: sinto que outros escritores, que em algum tempo terão sido capazes de nos interessar e de revolucionar a língua em que escreviam, acabaram fixando-se a uma fórmula, a fórmulas. Encantatórias, encantadoras mas, todavia, fórmulas: e, portanto, esses autores ter-se-ão ficado por um idiotismo, com os seus tiques e os seus limites. Ora é aqui, em face de um romance como este, e confirmando com uma passagem que escolho quase aleatoriamente, e cito,

«Ao lado, Gasparini afirmava ter encontrado a solução, ao mesmo tempo que temperava nas chamas de uma enorme fogueira uma panóplia de instrumentos que, dizia, de certeza curariam o doente: alicates, tenazes, punções, trocartes, agulhas. O único problema era a sua indecisão sobre qual deles utilizar. Os oficiais instavam-no a decidir de uma vez, mas ele continuava perdido em obscuras indecisões, olhando os instrumentos em brasa com umas pupilas brilhantes, avermelhadas pelo fogo.»,

que nos apercebemos do que está verdadeiramente em causa: não um "bom romance moçambicano", mas algo que, na sua particularidade, se assume na universalidade que lhe compete: a de grande literatura. Nem mais nem menos.

Observação: o romance em questão ganhou o Prémio Leya 2009. É um pormenor irrelevante no valor da obra.

sábado, 3 de abril de 2010

MIKHAIL BULGAKOV: MARGARITA E O MESTRE

É o momento de vos falar de um livro e de um autor que estão, entre os meus cinco preferidos, num lugar muito destacado (embora, de facto, indefinível).
Também neste caso, e uma vez mais, devo ao meu primo o conhecimento deste romance, de uma riqueza que nunca esgoto nem esgotarei. E lembro-me de que a passagem a que ele constantemente gostava de aludir - aquela com a qual, digamos assim, me espicaçou, me levou a procurar e a ler o livro - remete para um episódio que se encontra nas primeiras páginas: de facto, impagável.

Dois intelectuais de Moscovo - Berlioz e Ponirov (que, acrescenta o autor, usava o pseudónimo de «Bezdomni») - discutiam, preguiçosamente, numa tarde acalorada, quando depararam com um intrigante estrangeiro, que se lhes dirigiu fazendo perguntas.
Viremos a saber, um pouco mais tarde (Berlioz e Bezdomni também o não sabem, naturalmente, mas não estou a desvendar nenhum segredo capital), que o estrangeiro é o próprio demónio; na altura, está simplesmente atónito por descobrir que os dois escritores são ateus:

«- Admirável! - exclamou o interlocutor e, lançando olhadelas furtivas e baixando ainda mais a voz, disse: - Desculpem-me a impertinência, mas, ao que percebi, os senhores, para além do mais, também não acreditam em Deus? - Teve um olhar de espanto e acrescentou: - Juro que não digo a ninguém».

A conversa prosseguiu, nesse tom de segurança de uns, perplexidade de outro, até ao momento em que este os interroga sobre como responderiam às provas da existência de Deus:

«- Mas permita que lhe pergunte - tornou o visitante estrangeiro depois de reflectir ansiosamente. - E as provas da existência de Deus, as quais, como se sabe, são exactamente cinco?
«- Infelizmente! - respondeu Berlioz com pesar -, nenhuma dessas provas vale nada, e a humanidade já as mandou há muito para o arquivo. Pois há-de concordar que no domínio da razão não pode haver nenhuma prova da existência de Deus.
«- Bravo! - exclamou o estrangeiro. - Bravo! O senhor repete interiormente o pensamento do velho irrequieto Immanuel sobre esse assunto. E coisa curiosa: ele demoliu completamente as cinco provas, e depois, como que troçando de si mesmo, construiu a sua própria sexta prova!
«- A prova de Kant - ripostou o culto editor com um leve sorriso - também não é convincente. [...]
«- Exactamente, exactamente! - exclamou ele, e o seu olho esquerdo, verde, voltado para Berlioz, cintilou. - [...] eu disse-lhe, ao pequeno-almoço: "Desculpe, professor, mas o senhor inventou uma coisa que não faz sentido! É talvez inteligente, mas demasiado incompreensível. Vão fazer troça de si".
«Berlioz arregalou os olhos. "Ao pequeno-almoço?... A Kant?... Que está ele para ali a inventar?", pensou», não imaginando todo o alcance desta enigmática frase, que significava, precisamente, que Immanuel Kant, por se ter dedicado a demolir as cinco provas da existência de Deus, se encontrava no inferno.

O livro de que estou falando chama-se Margarita e o Mestre: narra a forma como o Diabo - Woland -, rodeado de figuras malévolas (mas engraçadíssimas, diga-se já), visita a Moscovo dos anos Vinte, com o intuito de reerguer a fervorosa e eterna luta entre o Mal e o Bem, em face da ambiguidade ética, do vazio de valores, da total ausência de consciência que grassam na sociedade soviética.

O seu autor, Mikhail Bulgakov, foi perseguido sob o regime de Estaline. Os textos satíricos que desde jovem escreveu tornavam-no suspeito. O seu humor negro e irreverente, iconoclasta, porém contagiante, punha metodicamente em causa a «sociedade perfeita»: Bulgakov não queria senão, por fim, que lhe fosse concedida autorização para deixar o país, o que nunca conseguiu, sofrendo até à morte por não poder trabalhar livremente, nem publicar. (Que o próprio Estaline tenha apoiado a admissão de Bulgakov ao Teatro de Arte de Moscovo, como encenador assistente, em 1930, não é senão uma equívoca tentativa de aproveitamento, pelo Poder, da sua fama literária, equívoco a que, seis anos depois, a demissão do escritor porá cobro).

Margarita e o Mestre é o puro delírio da magia: tudo pode acontecer - e acontece, com efeito - ao longo das muitas páginas, sob a batuta de um demónio à solta e da sua corte. A imaginação de Bulgakov tem algo de um criador de desenhos animados, que torna possível, aos pacatos cidadãos moscovitas, esticar ou encolher, ou que percam literalmente a cabeça (veja-se, por exemplo, uma memorável sessão de magia realizada pelo Diabo numa casa de espectáculos); e mais do que Woland, há uma personagem que me fascina: um gato dos infernos, grande e gordo, jogador de xadrez, amante de armas.

Contudo, sob a ligeireza deste mundo em ebulição, deste universo cujos limites se rasgam e deformam, transformado numa desarrumação sistemática, perversa e horrorosa, descobrimos a cultura profunda própria da convivência com os clássicos, nomeadamente Goethe, cujo Fausto é um permanente inspirador desta obra. Atente-se no nome de "Margarita", por exemplo, a mulher que se sacrificará, na energia e generosidade eminentemente femininas, tornando-se feiticeira, de modo a resgatar ao inferno o seu amado (o Mestre): é um nome deliberado, na maneira como evoca - e invoca, diríamos, a propósito - essa outra "Margarita", a de Fausto precisamente.

Em Margarita e o Mestre encontramos a exuberante reunião de uma escrita elegante, um sarcasmo contínuo, numa oscilação entre o cómico e o sério, numa mudança vertiginosa de forma e de estilo: nada é, por exemplo, tão filosófico, no sentido mais nobre e sério da palavra, do que o encontro entre Jesus Cristo e Pôncio Pilatos, a que acedemos num inspirado texto escrito pelo Mestre (o protagonista): esse texto vai sendo intercalado como contraponto da narrativa da revolução que a passagem do Diabo por Moscovo a todo o momento provoca. À contraluz, entretanto, vemos a realidade: as sombras do regime soviético a definir-se; descrevem-se-nos tratamentos psiquiátricos a que eram submetidos os que não se integravam; os movimentos da burocracia, intervindo e tornando submissa toda a criatividade; os comités da Arte, os vizinhos que se espiam - e uma gigantesca operação para eliminar toda a crença.

Gosto de diversos escritores russos. É verdade. De outros falarei ainda. Bulgakov, porém, é um dos maiores - e, Margarita e o Mestre, a sua obra-prima

quinta-feira, 1 de abril de 2010

HÉLIA CORREIA: ADOECER


Tenho um inexplicável e perverso fascínio por talentos desaproveitados. Homens como Fialho d'Almeida, por exemplo, ou Manuel Laranjeira, de quem se esperava tanto, cuja criatividade e qualidade de escrita prometiam obras de fôlego maior mas, em vez disso, acabaram por se dispersar em pequenos artigos, alguns contos, poesia, cartas, extraordinários, é verdade, mas aquém do que nos ofereceriam se se dedicassem. Essa preguiça de certos génios é um aspecto que me interessa neles. Porque, num certo sentido, é talvez também a ela mesma, a um certo temperamento ocioso e pouco esforçado, que se deve a sua imaginação, a sua facilidade, o seu poder criativo, pouco paciente para constrangimentos ou esforços, seguindo unicamente o seu ritmo e o seu tempo. (Nem sempre, portanto, contrariamente a um lugar comum democrático mas oco, o génio consiste em dez por cento de inspiração e noventa de transpiração!)

É um pouco assim - desculpem-me se sou injusto - que vejo Hélia Correia. Tudo o que escreve se lê como se fosse uma renda subtil de ideias; há uma poesia nas palavras que surpreende e se frui com o verdadeiro deleite da leitura. Poderia dar, como exemplo que imediatamente me ocorre, esta descrição que ela faz da carne, do corpo portugueses (descrição, aliás, pouco lisonjeira mas indiscutível) como sendo «uma composição de sol e enchidos, subserviência e fantasia». Até na ligação entre uma palavra agradável e uma desagradável, duas a duas (o sol ajustando-se desadequadamente aos enchidos, a subserviência à fantasia), se formula um certo modo de ser que nos é bem familiar, com uma notável pontaria e, apesar de tudo, uma beleza estranha e perversa. Mas, porque tudo o que Hélia escreve tem, precisamente, esse dom da maravilha, ocorre que nos deixa com água na boca. Tanto mais que longos lapsos de tempo separam os seus romances, em geral curtos, como se tamanha inspiração a fatigasse...!

Neste, que vem de ser editado e se chama Adoecer (291 páginas, contra o seu hábito), trata-se dos pré-Rafaelitas e, mais concretamente, de Elizabeth Siddal: e é vertiginosa a identificação entre a autora e o seu objecto, sobre quem afirma: «Na verdade, conheço esta mulher. Não a criei. Sei mais a seu respeito do que sei sobre as minhas personagens. Pisei já muito chão que ela pisou, toquei em coisas onde teve as mãos. De algum modo, as nossas vidas já se confundiram [...]» - identificação, na verdadeira acepção da palavra, como se se tratassem do duplo uma da outra, que levou Hélia Correia a uma minuciosa pesquisa (apesar de, em uma nota final, a autora recordar que estamos perante personagens que tiveram uma existência real, tendo havido, todavia, «liberdade criativa e não apenas na efabulação como também na localização de certas ocorrências»), que lhe permitiu reconstituir uma sociedade e uma comunidade; uma época e uma atmosfera cultural: em suma, o génio dos pré-Rafaelitas crescendo colectivamente, multiplicando-se em diferentes áreas, inovando, renovando em todas (mesmo que à custa de uma criativa regressão no tempo).

O que quer que eu pudesse acrescentar não teria a menor utilidade (a não ser que fosse um conjunto de informações sobre Elizabeth Siddal ou sobre os Pré-Rafaelitas) e, sobretudo, nunca substituiria ou, sequer, daria longinquamente conta do prazer que é ler qualquer período deste romance sobre a incompreensível paixão que, com a força de um destino trágico, reúne Elizabeth Siddal e Dante Gabriel Rossetti. Que melhor modo de concluir, portanto, este comentário, que não citando uma mera frase? Qualquer uma - para que a leiam, a sintam, como antegosto, como exemplo concentrado do que é a experiência da leitura de Hélia Correia?

Algo, simplesmente, como isto:

«Erguendo os olhos para a subida, vejo que a hostilidade do lugar levanta, exactamente como um nevoeiro.»

E isto basta! (Mas não nos basta, eu sei).