domingo, 28 de fevereiro de 2010

FREUD: PSICOPATOLOGIA DA VIDA QUOTIDIANA



Florinha Afável, no seu blogue, Literatura e Confissões, que venho lendo com grande prazer, postou recentemente um texto sobre Freud, a transferência e a contra-transferência. Florinha reflecte, interroga-se, entre o registo teórico, o registo da sua própria experiência (por exemplo, a propósito da relação professor-aluno) e o do sonho. Seguimo-la nessa reflexão e nessa descrição, deliciados.

O post de Florinha leva-me de volta a Freud, que, em determinado período da minha vida, li obcecadamente. Li tanto, que me cansei. Já na ressaca, como é natural, comecei a pôr todo o seu edifício em causa. Não teria ele uma concepção demasiado saturada de sexo? (Jung acusava-o disso). Não seria o complexo de Édipo uma ficção? (Deleuze e Guatarri nunca o levaram a sério). E a relação entre o ego e o id, sob a fronteira do superego, não poderia ser vista como um drama entre personagens conflituosas, mais do que um processo psicossomático? (A Dona Glória sempre teve tal desconfiança...).

Volvidos muitos anos, e neste momento, em que o Zeitgeist tão céptico se tem mostrado em relação ao pensamento de Sigmund Freud, atacando-o por todos os lados simultaneamente, redescubro-o, confesso, com um novo gosto: é um dos romancistas mais aliciantes que já li.

Repare-se, por exemplo, em Gradiva, magnífico ensaio onde, a propósito de um romance de Jensen, faz uma análise penetrante do
sentido oculto de uma figura feminina, num baixo-relevo romano; ou, então, leia-se Uma Memória de Infância de Leonardo da Vinci, esse outro texto em que, sobre uma base de sustentação tão frágil, Freud compõe uma explicação incrível, porventura incredível, mas, ainda assim, fascinante, a partir da qual todos os meandros da personalidade de Leonardo da Vinci parecem revelar-se.

É nesses livros, tidos por menores, em que trabalha "no concreto", escavando metódica e pacientemente episódios, recordações, fantasias, como, insisto, se tratasse de escrever contos, ou novelas, ou romances, que considero Freud de uma agilidade e de uma agudeza incomparáveis. Mais, certamente, do que nas obras puramente teóricas, onde organiza um sistema que, em inúmeros aspectos, me parece - não improvável, mas insuficientemente provado.

Deste ponto de vista do que mais me interessa em Freud, há, precisamente, um livro imperdível. Refiro-me a Psicopatologia da Vida Quotidiana. Porque, aí, tudo se torna relevante: os detalhes, as descrições, as palavras, a atenção aos erros, aos deslizes, aos menores enganos. E a nossa inocência sofre um abalo quando pela primeira vez nos é mostrado que nenhum engano é simplesmente um engano, mas uma mensagem, uma advertência, um sentido secreto, um sintoma pronto a ser descodificado. Nenhuma compulsão, ou mania, ou desajustamento, são simples erros de funcionamento, mas formas de comunicação, incompreendidas, desrespeitadas e temidas.

Os «actos falhados», os desvios à norma, os comportamentos ridículos e obsessivos perseguem-nos, ilustram-nos, explicam-nos. Nesse livro, os exemplos abundam, e são narrados numa escrita clara, riquíssima, plena de humor e de sentido da eficácia narrativa.

Não é no todo que Freud funciona. Porém, na inteligência dos pormenores, continuará insuperável.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

LARKIN: OS VELHOS IDIOTAS

Penosa e deficiente tradução minha de um poema terrível:

Que pensam eles que aconteceu, os velhos idiotas,
Para os tornar nisto? Será que de algum modo supõem
Que se é mais crescido quando a boca se abre e se baba
E se mijam todos insistentemente, e não se lembram
Quem telefonou esta manhã? Ou então, que, se lhes apetecesse,
Podiam trazer as coisas de volta ao quando dançaram toda a noite,
Ou foram ao próprio casamento, ou marcharam, armados, num certo Setembro?
Ou imaginam que nenhuma mudança houve,
E que sempre se comportaram como aleijados ou bêbedos,
Ou se sentaram dias num leve contínuo sonho
Vendo a luz mover-se? Se não o supõem (e não podem), é estranho:
Por que não estão a gritar?

À morte, quebramo-nos: os pedaços que éramos
começam a fugir uns dos outros para sempre
Com ninguém para ver. É só um olvido, é certo:
Já o tivémos antes, mas então ia acabar tudo,
E estava sempre a combinar-se com um esforço extremo
Para fazer desabrochar a flor de um milhão de pétalas
Que é estar aqui. Da próxima não se poderá fingir
Que haverá algo mais. E são estes os primeiros sinais:
Não saber como, não ouvir quem, o poder
Da escolha desaparecido. O seu olhar revela que estão prontos:
Cabelo de palha, mãos de sapo, rosto de passa em rugas -
Como podem ignorá-lo?

Talvez ser velho seja ter quartos iluminados
Dentro da sua cabeça, e gente dentro, representando.
Gente que se conhece, mas que não se consegue nomear; cada vulto
Como uma perda profunda, assomando a portas conhecidas,
Pousando uma vela, sorrindo das escadas, tirando
Um livro conhecido das estantes; ou às vezes simplesmente
As salas em si mesmas, cadeiras e uma lareira crepitando,
O vento no arbusto, à janela, ou a débil
Amizade do sol na parede, num solitário
Fim de tarde de Verão, depois da chuva. Isso é onde eles vivem:
Não aqui e agora, mas onde uma vez tudo aconteceu.
Por isso é que dão

A impressão de uma ausência surpreendida, tentando estar lá
Mas estando aqui. Porque os quartos se vão afastando, abandonando
O frio incompetente, o constante usa-e-estraga
Do ar respirado, e eles acocorando-se diante
Do morro da Extinção, os velhos idiotas, não se apercebendo
Quão perto está. Deve ser isto que os mantém sossegados:
O pico que se mantém sob visão de onde quer que se vá
Para eles é um campo que se eleva. Será que nunca adivinham
O que os puxa para trás, e como tudo acabará? Nem à noite?
Nem quando os desconhecidos chegam? Nunca, ao longo
Desta horrorosa infância invertida? Bem,
Havemos de o descobrir.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

PHILIP LARKIN: JANELAS ALTAS

Não se trata de uma redução. Mas, para se compreender melhor, em português, qual a atmosfera que impregna a sua obra, poderíamos pensar numa síntese de Bocage e de Fernando Pessoa.

De Bocage, temos a linguagem grosseira e popular, que não recua diante dos termos obscenos, sobretudo quando se trata de escrever sobre os órgãos ou o acto sexuais.
De Pessoa, temos, antes de mais, a vida do próprio: um burocrata com emprego fixo e horários estritos; um manga-de-alpaca que esgota a sua vida no escritório de uma dessas ruas típicas da cidade em que vive, mas que, na poesia, secreta, inspirada e inesperadamente, adquire toda a sua força e sentido. De Pessoa temos, pois, essa semelhança biográfica, mas não só: uma contenção avessa a delírios românticos, a arroubos líricos, que achou a forma mais apurada num dos heterónimos pessoanos, Alberto Caeiro.

E que obtemos? Philip Larkin.

Vou folheando os poemas de High Windows, e onde outros leram a pose reaccionária e uma espécie de desprezo pelo feminino, eu leio uma candura de adolescente para quem tudo é perigoso e, ao mesmo tempo, invejável. Vejo Holden Caulfield, a personagem (e narrador) de The Catcher in the Rye, com o seu azedume e a sua brutalidade, sob os quais tange uma sensibilidade em ferida e uma intensa carência.

É uma poesia completamente diferente da que conhecemos. (Mau grado tantos imitadores). Mostra-nos o absurdo do quotidiano sob o modo de uma lista de pequenos nadas monótonos e sem brilho. Os gestos mais simples tornam-se objecto de enunciação: espreito namorados, ou olho para uma janela, ou ponho pedras de gelo num copo com "três doses de gin, limão em rodela,/Mais um quarto de tónica [...]".

Mas se, de facto, esta poesia se debruça sobre o dia-a-dia, denunciando-o na sua dimensão mais superficial e vazia, reconstituindo, em exaustivas descrições, o tom de rotinas ou de rituais - como em "Livings", que principia assim: «Lido com lavradores, coisas como desinfectantes e rações» -, a verdade é que a sua linguagem, aparentemente coloquial, procura e encontra algumas das formas mais límpidas e correctas da perfeição.
Por exemplo, em "Friday Night in the Royal Station Hotel":

«Pelas portas abertas, a sala de jantar afirma/Uma solidão mais vasta, de facas e copos/ E silêncio assente como uma alcatifa.»

Ou este conjunto, ao qual nada se acrescentaria ou retiraria, de tal modo nos parece estarmos diante de uma formulação que suspende, durante o tempo da sua leitura, o movimento do mundo:

«Em vez de palavras, vêem-me à ideia janelas altas:
O vidro que acolhe o sol, e mais além
O ar azul e profundo,
Que não revela
Nada e está em lado nenhum e não tem fim.»

A poesia de Larkin tem sido vista como uma reacção ao lirismo exacerbado do neo-romantismo, por um lado (de Dylan Thomas) e, por outro lado, contra o modernismo (de T. S. Eliot e Ezra Pound): há, nela, uma espécie de revolta contra tudo quanto seja excesso, exuberância, revolução; ora penso que a escolha de uma forma «clássica», para a qual métrica e rima são essenciais, constrói, muito mais do que a expressão mais justa dessa revolta, uma expressão de uma musicalidade irresistível. Mais do que no programa, portanto, na sonoridade...

O que descubro em Philip Larkin?

Um cinismo desesperado, sob a vulgaridade do quotidiano trivial, uma sensibilidade fina que, ao invés de se assumir nas lágrimas, prefere a ironia ou o sarcasmo doridos e dolorosos (veja-se o pungente "The Old Fools"), um desequilíbrio emocional triste e neurótico, vazado na perfeição de uma linguagem em que as imagens brilham, limpas, nítidas, tão bonitas, e os versos revelam uma invulgar inteligência poética.

É uma poesia dura, como dizia há tão pouco, citando uma ex-aluna, sobre A Metamorfose, de Kafka. E, sim, tal como também dizia ao mesmo propósito: é algo que nunca esqueceremos.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

KAFKA: A METAMORFOSE

Não me lembro de quando li Kafka pela primeira vez.
Sei, vagamente, que era um tempo estranho da minha vida. Estava em Portugal, recentemente vindo de Moçambique, de onde o curso dos acontecimentos me expulsara de vez: era um jovem de óculos muito grandes e muito graduados e uma cabeleira comprida e avessa a pentes. Usava camisolas de gola alta. Não tinha amigos - e os colegas que descobria, antes os não descobrisse.

Lia muito, muito, muito. Aproveitava, por exemplo, para me abastecer de livros que, na terra de onde vinha, não eram comuns. Li Sartre. (As Palavras). Li Nietzsche. (Humano, Demasiado Humano). Li Kafka. Não recordo por que ordem, mas devorei
O Processo, O Castelo, América e, obviamente, A Metamorfose.

Pelas leituras que fazia, descobrirão alguma coisa sobre o género de jovem que eu era e o adulto em que me viria a metamorfosear. Depressivo, inquieto e inquietante, ligeiramente perturbado, triste, desenvolvendo um cinismo e uma descrença teimosas relativamente à humanidade.

Alguma coisa boa me veio destas descobertas. Uma, foi ter confirmado a inclinação para a filosofia, que me levou ao curso de que nunca me arrependi.
Outra, foi precisamente essa descrença - e essa atenção à estranheza do mundo dos homens.

Kafka, para me fixar num dos autores referidos, é dolorosamente fabuloso. A Metamorfose, mais do que uma novela de horror, toca-nos como um livro de uma delicadeza surpreendente. O que incomoda é que, por uma vez, o monstro não é o outro, vindo de longe para nos assustar: o monstro é o sujeito mais vulnerável e carente que imaginar se possa. Bem sei: em Frankenstein, por exemplo, é também da vulnerabilidade do monstro que se fala; mas não como em A Metamorfose, em que só nos resta a possibilidade de nos identificarmos com a criatura em que Gregor Samsa se transforma.

o protagonista, que acorda, certa manhã, como um insecto de inúmeras patas, não é senão, no interior da sua carapaça, da sua «insectez», do seu aspecto hediondo e repelente, o mesmo homem de sempre - o caixeiro viajante que se preocupou obsessivamente com a família, sustentou a casa, pagou, dedicada e generosamente, os estudos da irmã.

E, por uma vez, os «normais» - o pai, a mãe, a irmã até certo ponto - deixam que neles se revele a única e inesperada monstruosidade: a que pode ser criada por um misto de medo e preconceito. Chamemos-lhe insensibilidade. Essa sim, a mais tenebrosa de todas as disformidades, a esvaziadora dos afectos e dos sentimentos, a que faz esquecer os laços e as relações, a que nos torna malévolos perante o que nos aparece como diferente.

E lembro-me de que, muito mais tarde - já, então, eu professor de liceu- houve uma aluna que, numa reunião em que falávamos acerca de A Metamorfose, disse tratar-se de um livro duro - e que nunca esqueceríamos. Retomo-a: é um livro duro. Ensina que todas as pessoas boas, que nos habituámos a amar, os próximos, a família, virão, em certas terríveis circunstâncias, a tornar-se inimigos nossos e seres maus. Mas, ao mesmo tempo, delicado: porque há uma delicadeza no modo como Kafka trata o desamparo, a desastrosa quebra da rotina, o temor do mundo, a infelicidade.
E, por tudo isto, é, de facto, um livro que não esqueceremos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

KARL PROTZKA (II): SOB O SIGNO DA INVISIBILIDADE

Protzka viveu, realmente, sob o signo da invisibilidade.
Um pouco mais, e chegaríamos a pensar que nunca existiu!

Sabem por que razão o meu post anterior não tem uma única imagem? Porque não encontrei uma única imagem. Uma internet tão grande, tão tentacular, ligada ao passado, ao presente, ao futuro, e não me foi eficaz para aceder a uma fotografia que me mostrasse se Protzka era alto e magro, como sempre o imaginei, ou gordo e baixo. Ou assim assim.

Por outro lado, a wikipédia não o refere. A mesma wikipédia que sabe tudo sobre José Cid ou Fábio Coentrão ignora um dos mais prodigiosos escritores que não escreveram livro algum.

Falava em invisibilidade? Coincidência: o seu próprio livro se chama - mas penso que o título não foi da sua responsabilidade... - O Órgão Invisível. E esta?!

Bem, como diriam as minhas leitoras brasileiras: bota «invisível» nisso.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

QUEM FOI KARL PROTZKA? (I)



Karl Protzka é, com certeza absoluta, o escritor mais obscuro do mundo inteiro. Cidadão do Império Austro-Húngaro e de Viena, de onde nunca saiu senão por poucos meses, viveu o auge e a decadência imperiais: é aquele mesmo a quem Musil se refere, nos «Diários», como o seu «amigo bizarro».
Eu próprio, que aqui dele falo, conheço-o pelo mero acaso de o meu avô ter sido o tradutor para português, penso que nos anos cinquenta, do único livro a que se resume a sua obra.

Chama-se O Órgão Invisível. Tentei ler várias vezes o exemplar já velho e meio-carcomido que me veio parar às mãos, depois de ter passado orgulhosamente por várias estantes de familiares. Devo ter querido lê-lo com quinze ou dezasseis anos - que loucura! - e desistido ao fim da terceira ou quarta páginas; retomei-o aos vinte, e não avancei muito mais; a seguir talvez aos vinte e tal, por fim aos trinta. Não sei com que idade mergulhei efectivamente naquele estranhíssimo romance que é o contrário de um romance (o meu avô fascinava-me repetindo amiúde estes pormenores, razão principal de todas as minhas tentativas de leitura), ou que é um não-romance, se não um anti-romance: Protzka sonhava escrevê-lo mas, aparentemente, buscava, para o iniciar, uma série de condições ideais, desde a cadeira e a secretária ao papel, passando pela luz, pela caneta ou pelo estado de espírito perfeitos; em vez disso, nunca os reunindo, protelava, protelava sempre, mas ia enchendo caixas com apontamentos acerca do mundo que borbulhava em torno de si e do adiado romance: acerca do que os outros pensavam dele próprio e ele dos outros, acerca do que lhe perguntavam sobre o seu romance e de tudo quanto inventava: que estava a escrevê-lo (o que era falso), que o ia publicar, que concluíra o décimo quarto capítulo...!

Já depois de morto, os seus filhos reuniram esta gigantesca massa de apontamentos, organizando-a numa espécie de pararomance sobre o que seria o seu romance e, sobretudo, sobre a estranheza das relações humanas que se moviam à volta de um romance prometido, desejado, idealizado mas incapaz de vir à tona.

Das duas primeiras páginas, cito estas palavras:

«Uma relação - falo de toda e qualquer relação entre duas pessoas, filial ou fraterna, de amizade ou inimizade, erótica ou irónica - é um corpo que mergulha as suas pernas, por vezes até à cintura, por vezes até ao pescoço, no silêncio e no invisível: pois que o corpo de uma relação entre dois sujeitos é composto não principalmente pelo que os dois dizem um ao outro, e sim pelo que, sobretudo, não dizem um ao outro.[...] desse não-dizer transparecem sempre sintomas: mas transparecem mal, incompreendidos, falseados, deturpados. [...] Como essas indicações, que talvez nem o sejam, nunca se dizem, como nunca se esclarecem por palavras, como, na maioria dos casos, são meras ausências, adensam-se, a pouco e pouco, numa atmosfera de equívocos em que respiram todas as relações. Já imaginaram alguém que compreenda os desejos, ou as intenções de outrem, a partir, quase só, desse espelho invisível e deformante? O ter-lhe certa pessoa falado em último lugar numa reunião de amigos, ou o ter passado na rua como se o não visse, ou, pelo contrário, ter-lhe vindo imediatamente ao encontro, ou, durante a conversa, nunca o ter olhado nos olhos? [...] Ou um certo tom de voz (conhecem algo mais indefinível do que um «tom»?)! [...] O meu romance versará, no fundo (e a expressão «no fundo» é bem escolhida) essa trágica impotência: o paradoxo de um incomunicável resíduo de toda a comunicação ser, talvez, a parte mais importante de toda a comunicação.»

Nunca encontrei qualquer exemplar à venda. Em lado nenhum. Que eu saiba, não voltou a ser traduzido. O que releio frequentemente está muito gasto, muito velho. Gostaria de o mandar encadernar. Não tenho ideia de um outro autor tão profundo e tão extraordinário que seja tão profunda e tão extraordinariamente invisível.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

MEMÓRIAS COLONIAIS





Nem de propósito.

Tendo escrito, no post anterior, a propósito de O Leopardo, acerca da ambivalência própria de toda a revolução - em que é demasiado fácil ver-se unicamente o que se perdeu, ou, pelo contrário, o que se ganhará, em recortes ideológicos estreitos, que impedem a compreensão simultânea do que se perde e do que se ganha -, venho agora falar sobre um outro livro, que me remete para o mesmo problema. É o exemplo de uma abordagem contrária àquela que O Leopardo consegue. Diria, o exemplo da forma "errada" (porque parcial) de entender o que se passou. Chama-se Cadernos de Memórias Coloniais. Escreveu-o Isabela Figueiredo.

Hesitei muito. Por um lado, porque este é um blogue onde, sobre os livros, se tem uma preocupação eminentemente literária; ora pergunto-me se a crítica que me apeteceria fazer não será mais política e ideológica do que outra coisa; por outro lado, porque sendo eu mesmo moçambicano de nascimento, tendo vivido em Lourenço Marques, nos mesmos sítios, durante o mesmo tempo que o texto vai fragmentariamente rememorando - ter-nos-emos cruzado alguma vez, Isabela e eu? -, mas não coincidindo com ela no teor da memória nem na interpretação dos factos, não correrei o risco de ser injusto? De me faltar distanciamento crítico? De responder às memórias da autora, com tudo o que nelas é pessoal e legítimo, com a divergência das minhas memórias, igualmente legítimas, igualmente pessoais?

Corro o risco.

Numa crítica do Expresso, alguém escrevia, há umas semanas, que estes «cadernos» seriam decisivos. Porque poriam os pontos nos ii: revelariam o colonialismo moçambicano na sua dureza, na sua crueldade - contra uma visão nostálgica, muito propagada, segundo a qual a opressão teria sido, aí, mais meiga e gentil, mais evoluída e bondosa. Um colonialismo completamente diferente do inglês? Pelos vistos, não foi. Ou, como a própria afirma, talvez diferente, dificilmente melhor.

Claro que opressão é opressão. Não existem opressões mais ou menos meigas, mais ou menos gentis. Não existe opressão boa. A contradição nos termos soa ridícula. Mas a minha primeira objecção é a de que, redutoramente, Isabela faz, de um ajuste de contas com o seu pai, um ajuste de contas com todo o passado moçambicano. Traiu o pai, como continuamente repete? Assunto seu. Não me cabe julgá-la. Mas que o seu olhar crítico sobre o pai e sobre a relação entre ambos (que terá ficado totalmente por resolver), seja a única medida do que foi o Moçambique dos anos sessenta e setenta, parece-me, naturalmente, a assunção de uma lente redutora.

Há erros factuais. Pormenores desacertados que servem para nos mostrar como a memória é elástica, deturpadora, subjectiva.

Mas, em primeiro lugar, por que descontextualizar? Vivia-se, então, em Portugal, o tempo do singular fascismo português. E, mesmo já sob o marcelismo, a «metrópole» permanecia um espaço canhestro e fechado, generalizadamente inculto e pobre. O colonialismo não podia deixar de ser, com todas as suas desigualdades e injustiças, senão uma expressão de um regime feito de censura e medo da evolução.

Contudo, em mais do que um aspecto, Moçambique tornar-se-ia a ponta mais evoluída do icebergue que era Portugal; o meio da formação de uma autêntica vanguarda - política, artística, cultural no sentido mais lato. De algum modo, por exemplo - e à semelhança do que ocorrera, ou ocorria, nos EUA, por causa do Vietname -, também ali se criava, entre os jovens estudantes em idade de ser chamados para a o serviço militar, um espírito de rebeldia e contestação.

E surgiam, é claro, jornais e revistas modernos, de reflexão e crítica. (Chegou a haver projectos, desenvolvidos por colonos, em que se propunha o fim da censura, o que, na «metrópole», estava longe de se idealizar); e jornalistas, escritores, poetas, pintores, fotógrafos, de várias raças - José Craveirinha, Albino Magaia, Kok Nam, o próprio Mia Couto, que tão popular viria a ser mais tarde, Rui Knopfli, Malangatana Valente, os extraordinários irmãos Honwana -, que expressavam uma nova visão, um novo ideal, em linguagens que eram já outras, por onde perpassavam a voz do povo e a luta contra a opressão.

Isabela não via, não ouvia, não sentia, não pressentia? Por criança que fosse, deste mundo complexo e em ebulição, contraditório e estranho, evoluindo e abrindo-se (embora contendo ainda, em si, a infecção, a injustiça, a desigualdade e a exploração), Isabela nada captou? Não tinha olhos senão para os «brancos que iam às pretas», como se a isso pudesse, hoje, reduzir o painel do pior e do melhor que eram aquela vida e aquela realidade culturais? Não estava senão com o pai diante dos seus olhos, esse pai enorme, que agredia os seus empregados, na hora do pagamento? Ou que os ia buscar às casas pobres, em caniço, para que não faltassem ao trabalho, aos murros e aos gritos?

Como esquecer, por exemplo, que os mais consistentes militantes da Frelimo, Samora Machel, Graça Simbine, Aquino de Bragança, Joaquim Chissano - tinham sido formados por professores portugueses, ou nas escolas dos missionários católicos e protestantes? Não o refiro como justificação do colonialismo, evidentemente, mas como observação de que, no seu melhor, este ensinou, formou, construiu, pensou, criticou, criou.

«Ainda hoje os vejo envolvidos na mesma nostalgia. "A independência foi mal feita, e os culpados foram o Mário Soares e o Almeida Santos, que nos venderam e entregaram aos pretos". Eu traduzo, "aquilo que entregaram aos pretos deviam tê-lo entregue a nós, que logo tratávamos da negralhada". Quando revelam, com lágrimas sinceras, "deixei o meu coração em África", eu traduzo, "deixei lá tudo, e tinha uma vida tão boa".».

Percebemos o problema de má tradução: Isabel Figueira faz, de um sector, a voz de um todo - um todo mais difícil e variegado do que alguma vez a sua memória poderá entender.

Dirá, numa entrevista incluída no livro: «O colonialismo era o meu pai».
Aí radica, porventura, o seu erro crasso de perspectiva. Lamento contrariá-la, Isabela. Não era.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

GIUSEPPE DI LAMPEDUSA: O LEOPARDO

Salinger é o autor de um único livro. Não porque não tenha escrito e publicado outros, mas porque, na minha perspectiva, depois de se ter feito a obra perfeita - que é aquilo que Catcher in the Rye precisamente é -, se torna difícil escrever alguma coisa que lhe não seja inferior.

Admiro os escritores de obras únicas que são obras-primas. Emily Brönte, de que já aqui falei, é outro caso. Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor de Il Gattopardo, é claro, também.

O Leopardo, que permaneceu impublicado durante muito tempo, recusado por inúmeras editoras (o que não deixa de ser um extraordinário exemplo de ignorância e cegueira), só viria a público após a morte do autor. Nada menos do que um ano e meio após a sua morte. Mas, então, para ganhar o merecido reconhecimento a que, mais tarde, o filme de Luchino Visconti (com Burt Lancaster e Alain Delon) emprestaria a imagem definitva.

Romance construído numa escrita delicada, complexa, belíssima, O Leopardo descreve as perturbações sofridas, numa Sicília há muito imutável, por uma família aristocrata, abastada, submetida à revolução: as personagens não são lineares, as ideologias não são lineares. Perante a implantação de uma nova ordem, percebemos tanto as insuficiências humanas da anterior, como o oportunismo corroendo, desde o início, os ideais da que chega: o arrivismo, a inveja, a incompetência ou o ressentimento, os quais seriam, por dentro da justiça e da justeza da Causa do progresso, parte do seu motor prático; percebemos como o velho regime, decadente e injusto (ou não haveria revolução), desaparecerá levando consigo, porém, um refinamento de maneiras e cultura que não poderão regressar tão cedo. Porque de tudo, do bom e do mau, se faz uma revolução.

Não podemos amar Don Fabrízio, Príncipe de Salina, que não é amável, isto é, não se deixa amar, nem tão-pouco odiá-lo na sua grandeza um pouco assustadora, aparentemente inflexível, embora, de algum modo, tentando ceder e negociar - segundo o maquiavélico princípio que hoje tão bem conhecemos, e constantemente confirmamos: «É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma.»;

É com uma profundidade sem preconceitos que travamos conhecimento com uma figura psicológica plena de contrastes e de contradições, sua esposa, a Princesa, que, sob a fragilidade esperada, esperável, ou sob o medo e o desprezo pelo sexo brutal do Príncipe, oculta uma força própria e uma sabedoria fulgurantes; ou com Tancredi, o sobrinho gastador, corajoso e insensato; ou o Padre Pirrone, filósofo e conselheiro mas, paradoxalmente, amante da boa vida que aquela família lhe proporciona; bem!, e que dizer de uma personagem secundária mas, todavia, essencial enquanto símbolo do novo Poder - o Presidente da Câmara, pai, se bem me lembro de uma rapariga lindíssima, que irá ser o centro de uma paixão devastadora?

É o ajustamento, ao novo tempo histórico, da austera família de Don Fabrízio e da rede que ela teceu e manteve ao longo de séculos, o que acompanhamos por estas páginas dolorosas, irónicas e melancólicas.

Teria de ser o único livro do autor. Aliás, é um livro historicamente único, também: e na sua visão imparcial e completa de uma revolução, entre a consciência de como o progresso é um ganho inevitável, e a intuição trágica de que algo fundamental terá de se perder, continuará sendo um livro único.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

valter hugo mãe: a máquina de fazer espanhóis


Estou a ler um livro de que se tem falado muito, ultimamente. E há tanto a dizer acerca dele, e dos aspectos em que me parece conseguido, ou dos menos conseguidos, ou dos totalmente desconseguidos, que terei de desdobrar esta crítica em diferentes tópicos.

Principiemos por um ponto que, intransigentemente, tardo em compreender na obra do autor, valter hugo mãe. E que é, precisamente - como se vê, desde logo, pela forma como redige o nome - a recusa das letras maiúsculas.

Ao que me parece, e antes de mais, acede-se à língua - a qualquer língua - como se entrássemos numa casa cujos fundamentos existem já. Há uma gramática que, mais do que um uniforme apertado, é um modo de nos familiarizarmos e acordarmos no uso das palavras, e de as articular entre si, modo esse que veio evoluindo até fazer da fala e da escrita instrumentos eficazes, partilhados, claros. Comuns - de «comunicar».

Será que penso, portanto, que a adulteração dessas regras, ou o recurso a excepções, quando tornem o texto mais expressivo ou mais belo, são inaceitáveis? Obviamente que não. Todos os poetas se revelam, de algum modo, autênticos experimentalistas da língua. Fernando Pessoa foi-o, entre nós, de um modo extremo. E que dizer do português-moçambicano de Mia Couto, que bebe no modo de o seu povo se apropriar quotidianamente do português? Já para não falar de Saramago, que revolucionou a escrita, procurando que cada período fosse a expressão de uma multiplicidade de vozes em diálogo?

E no entanto, a eliminação das maiúsculas em nome de uma pretensa «dignidade democrática» de todas as palavras, que as igualasse entre si, soa como uma espécie de cedência à pura sede da originalidade pela originalidade. O que irrita. (Tanto mais, aliás, que nem se trata verdadeiramente de uma prática original). A prosa torna-se gratuitamente menos clara por causa dessa opção. E se a esta modernidade não falta coerência - porque, convenhamos, há coerência de sobra em que um autor submeta toda a sua obra a um tal espartilho - , falta-lhe um sentido relevante, pelo qual valesse a pena pôr em causa a tradição, e lutar!

Contudo, quando se trata do seu último livro, a máquina de fazer espanhóis, é fundamental não deixarmos que essa opção do autor (afinal, bem vistas as coisa, um mero pormenor), se transforme num bloqueio a priori. Porque perderíamos a oportunidade de aceder a uma sensibilidade fascinante: o narrador é um homem de oitenta e quatro anos, que enviuva de Laura, a mulher que amava ainda e sempre e, vítima de um ataque, na sequência desse falecimento, acaba num Lar de Terceira Idade. Ora é nesta apreensão do mundo a partir de uma situação particular (porventura comum na vida mas, na verdade, invulgaríssima na literatura), que radica o carácter revolucionário do romance de valter hugo mãe: muito mais do que a questão das minúsculas.

«um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem visto que a cabeça dos velhos se destitua de razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico.». Se imaginarmos a voz e a reflexão próprias de um homem idoso, que não se limite à pieguice politicamente correcta que nos dá jeito atribuir-lhe, mas , pelo contrário, conserve o cinismo e a crueldade capazes de pôr em causa o mundo que vai perdendo - e a injustiça da maneira como esse mundo se volta contra ele -, percebemos a grandeza deste texto. A reflexão é genuína, autêntica, credível: sendo escrito por um autor que nasceu em 1971, não pode deixar de ser a de um jovem capaz de se colocar no lugar do outro, e de o compreender por dentro, emprestando-lhe os seus meios.

É um livro que se lê tensamente, mas, todavia, na proximidade de uma alegria, como reza a contracapa, «complexa, até difícil de aceitar».
valter hugo mãe não me convenceu com o seu livro premiado, o remorso de baltazar serapião (Prémio José Saramago, 2006) - que me cansou e de que desisti a meio. Convence-me, porém, com esta sua máquina. Lindíssimo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

ÀS MINHAS SEGUIDORAS

Às minhas 3 seguidoras, curiosamente brasileiras todas elas, e que não conheço - mas cujos blogues tenho espreitado -, Florzinha Afável, Stella e Fernanda Lym, um obrigado muito sentido.

Se um dia quiserem comentar, por favor, não hesitem.

Mas, ainda que o não façam, todo tremo de euforia contida só de pensar que, no longínquo Brasil, três florzinhas afáveis se interessam pelo que quer que eu escreva acerca dos livros que amo.