sábado, 20 de novembro de 2010

MARGARIDA VALE DE GATO: MULHER AO MAR



Há várias maneiras de um livro ser ou devir invisível. Perdoem-me a insistência, como se me tivesse especializado no tema da «literatura invisível» ou, mais prosaicamente ainda, como se estivesse com uma tecla emperrada, marcando continua e obcecadamente um único carácter.

Mas para além de livros que desaparecem no tempo, e as editoras esqueceram de vez, outros existem que, apesar de recentes, no entanto não vingam. E evaporam-se. Não deixam sequer um rasto, a pegada a que teriam direito, e a que nós, leitores, temos direito.

Falo de um, que foi publicado em Abril de 2010; teve uma segunda edição de 300 exemplares. (Que é isso? Uma insignificância...). A seguir, desapareceu. Haviam-me falado acerca dele (e sou um ouvinte muito atento a esses rumores), não o encontrei, tive de o pedir, esperar, tornar a pedir, esperar ainda mais. Tenho-o por fim nas mãos - é um dos 300 exemplares da 2ª edição de Mulher Ao Mar, de Margarida Vale de Gato, a preciosa tradutora de vários autores ingleses. E não sei se de outros.

Gonçalo M. Tavares é um génio. A sua poesia é mesmo extra-terrestre. Visita-nos, vinda de um planeta desconhecido. Viagem à Índia é um livro maior. Mas o que quer que faça tem circulação imediata, exibição delirante, infindáveis comentários de sumidades que não há forma de se sumirem. E é um ganho que assim seja. Mas, na minha elementar opinião, Margarida Vale de Gato é uma poeta absolutamente extraordinária. (Emprego, para ela, o termo "poeta" deliberadamente, com uma vénia à minha amiga Elisa, que reserva "poetiza" para as poetas pequeninas, que se dedicam ao tricot das palavras). De modo que algo de injusto se insinua neste seu veloz regresso à invisibilidade. Vens do nada e ao nada voltarás!Se não injusto para a autora, que acredito que se não preocupe com tal absorção pelo esquecimento prematuro, sem dúvida para os leitores que a não descobrirão.

Este livro de umas setenta e tal páginas arranca-nos ao sossego e atira connosco para pinturas que principiam por nos enganar: sob a paciência e a virtude femininas, que a sociedade consagra, o que inesperadamente se abre, em cada um dos seus poemas, é a cortina para o sublime espectáculo dos segredos mais ocultos da mulher: a raiva e o desejo - mas isso não é novo, temo-lo vindo a saber, cada vez mais, nas últimas décadas -, a loucura do ciúme ou da culpa, a transgressão assumida, a hipocondria, o mero e tremendo ressabiamento. A sombra de Sylvia Plath, Emily Dickinson, Christina Rossetti ou Ana Karenina (que será, para todo o sempre, a sombra dessa luta contra os homens que as dominaram, ou desprezaram, ou incompreenderam até à morte...) pressente-se em todas as páginas.

Esta segunda edição acrescenta um pósfacio de Hélia Correia: as palavras com que fizera a apresentação do livro, no seu lançamento, em 25 de Abril; pretexto para equacionar a poesia de Margarida Vale de Gato como uma revolução. Relendo o texto de Hélia Correia, detenho-me nos meus sublinhados, «um rompimento assim a si mesmo se espanta. Perde as margens», «é a infiltração de uma desordem, de um descaramento - essa mulher de Rilke que bruscamente afasta as mãos do rosto de maneira que ele vai colado nas suas palmas, deixando, por momentos, o nada em seu lugar»; «A que com elas [com essas mulheres] fala alcançou já o outro lado do poema, aquele em que pode dizer o que quiser, como quiser, com as palavras que quiser». É talvez preciso uma mulher, e uma mulher como Hélia Correia, para compreender esta poesia «do outro lado», já sem proibições, que infiltra uma «desordem» e um «descaramento».

Toca-me particularmente, em Mulher ao Mar, a gramática revolucionária e ululante, como se as quebras de uma desordem interior, vivida por dentro de uma alma fragmentária, carecessem de se exprimir sob a forma de rupturas ou desvios sintácticos. Como se reconhecesse na poesia "rap", ou nos poemas de certos cantos alentejanos, a forma irmã, expressão de uma outra respiração.
Uso literalmente, aqui, o termo "respiração": se o poema, como a canção, exige "ser dito", ser entoado em voz alta, então torna-se evidente que a respiração monocórdica, compassada, com pausas previstas, a que recorremos aquando das leituras de outros textos (nas leituras consideradas "bem feitas"), de nada nos serve aqui. Algo de uma asma plena de energia tem também de se infiltrar para que, ao dizer estes poemas, nos reecontremos com o seu negro sentido, nas asperezas do entrecortado, das pontes destruídas, das frases rompidas. Das vírgulas inexistentes, ou cortanto inesperada e provocadoramente a fluência. Pensando bem, não espanta que o tivessem suprimido. Toda a revolução, lembra Hélia Correia, tende a integrar-se: apomos-lhes, a prazo, «formas sossegadas», «uma assembleia, uma constituição, um modelo europeu». É o caso do 25 de Abril. Ou, então, não há formas sossegadas que se lhes aponham e as solucionem. Não há reconciliação. Como o livro de MVG. Que fazer? Ainda para mais ninguém lhe pega? Delete!

2 comentários:

José disse...

Um pequeno aparte: o nome da senhora é Margarida.

josépacheco disse...

Tem toda a razão, José. Obrigado pelo aparte, que já corrigi devidamente - e logo ali, no título, em maiúsculas. E as minhas desculpas aos leitores a quem induzi em erro.