quinta-feira, 21 de outubro de 2010

MIKAHÏL CHOLOKHOV: O DON TRANQUILO


É, sem dúvida, mais do que uma fórmula de cortesia, dizer que leio os meus leitores e me deixo guiar por eles. Existe, por exemplo, um livro que não viria talvez a reler se mo não tivessem mencionado recentemente: Jane Eyre; um outro que me passaria totalmente despercebido se mo não apresentassem como a não perder: Diário dos Infiéis, de João Morgado...

Na mesma linha, há um autor clássico que já tinha chamado por mim, mas a que, na altura (dependendo unicamente do meu próprio critério), resisti, e que acabei não convidando para casa: Mikhaïl Cholokhov.

Se, por coincidência, não estivesse agora, justamente, a redespertar para a alma russa, retomando Pushkin, Turgueniev, Tchekhov, Tolstoi, Dostoievski, Bulgakhov,

Se, ao mesmo tempo, Milú não falasse, no seu blogue (Rússia Show) acerca do Don Tranquilo,
Se o modo como ela carinhosamente iluminou Aksínia, personagem desse romance, me não tocasse como tocou

teria eu, alguma vez na vida, vindo a ler o Don Tranquilo (ou «sereno», ou «silencioso»), de Cholokhov? Talvez. Quem sabe? Mas a verdade é que as coincidências se reúnem, como conjugações auspiciosas, para acender um interesse.

Don Tranquilo é uma obra gigantesca. Como, aliás, uma grande parte da literatura russa. Pessoalmente, apraz-me a sensação de ter ainda muito para ler, por voraz e veloz que seja como leitor. Este tem diversos volumes. Ainda estou nas primeiras páginas do primeiro deles. E, ah, sigo escrupulosamente a sugestão de Milú: leio-o na Livros do Brasil, que trouxe, numa edição já muito antiga, do depósito de uma biblioteca.

No início, tudo se move lentamente. Demasiado lentamente. Dir-se-ia que se não move, sequer. Tal qual a própria tranquilidade do rio Don, também este romance parece arrastar-se com uma serenidade pouco audaz. Somos introduzidos nas famílias, insinua-se uma atracção ilícita, vai-se descrevendo uma paisagem humana, impõe-se a omnipresença do rio. Limite, paisagem, sustento, amigo pacífico, inimigo implacável. Um breve sobressalto ocorre quando, a propósito de uma pesca, em grupo, no meio da escuridão fria e chuvosa, uma personagem se perde, outra já não responde aos apelos, amedrontam-se, choram, desesperam.

Mas só com o desenvolvimento de Aksínia se rasga a pacatez do mundo. Só quando esta personagem ganha espaço, ganha sentimentos, ganha vida. Como se, num corpo concentrado na sua própria digestão, se introduzisse, bruscamente, o ritmo e a juventude da cafeína: rebeldia, inconformismo, raiva, amor, tudo se concentra no espírito e no corpo desta jovem - violada, ainda adolescente, pelo pai, sistematicamente espancada e ignorada, mais tarde, pelo marido, abusada pela sogra, invejada pelas outras. Aksínia é, como Antígona, o símbolo da mulher que sempre esteve submetida ao poder e a quem o poder maltratou: e que já só pode sair desse passado submisso através da exigência que não recuará diante de poder algum, invertendo, se necessário, todos os valores e todos os códigos, para reclamar o que, agora, sabe que lhe pertence por direito; e, a quem lhe disser «Espera aí, desavergonhada!», responderá, sem medo:

«Não tenho nada que esperar. Tu não és meu pai. Vai para donde vieste! O teu Grishka, se me apetecer, como-o com os ossos todos, e não tenho contas a dar a ninguém!... Ora aí tens. Engole lá! Gosto do Grishka. E depois? Queres-me bater?... Vais escrever ao meu marido?... Podes até escrever ao atamane. Mas o Grichka é meu! Meu! Meu! É meu e há-de-o continuar a ser!..

E admiramo-la de imediato - «de imediato» significando: antes de medir as consequências do seu gesto, do seu acto, do seu grito; antes de decidir se estamos eticamente de acordo; antes até, talvez, de compreender seja o que for: antes de a compreender inteiramente.

3 comentários:

Jamil S.P. disse...

Você me despertou o interesse em lê-lo também. Já está na minha lista de aquisições e próximas leituras. Obrigado.

Salomão Sousa disse...

Muito mistério envolve este romance de sholokhov. Há suspeitas de que os originais teriam sido subtraído de um soldado durante as lutas revolucionárias. Portanto, de que o verdadeiro autor ficou desconhecido. Independente disso, tata-se de um romance caudaloso, cim personagens marcantes e densos. Pena que não exista uma edição completa no Brasil (4 volumes, mais de duas mil páginas). Li numa edição russa, em espanhol, apesar de ter a portuguesa. Ainda vale a pena uma edição completa no Brasil, sem dúvidas.

Abel Pereira disse...

Fusível é algo que se funde, invisível é algo que não se vê independentemente da nossa vontade. Por maioria de razão imperdível terá de ser algo que não se perde, pelo que não faz sentido dizer que um filme não se perde quando se quer dizer que vale a pena ver. Não é por acaso que existem as expressões " a não perder " e " a não ver "...