domingo, 17 de outubro de 2010

GUSTAVE FLAUBERT: MADAME BOVARY


No tom irónico da sua escrita, na captação do ridículo e do mesquinho em certas personagens, na provocação, quase escandalosa, que é o contínuo regresso aos temas tabu, mas também na infinita compreensão pela motivação oculta dos seus anti-heróis e das suas anti-heroínas que, mais do que seres pérfidos, deveríamos ver como humanos em choque com uma sociedade hipócrita e opressiva, o grande precursor de Eça de Queirós é, certamente, Gustave Flaubert.

Não vejo nada que menorize um autor no facto de ele ter sido literariamente formado pelos melhores. Só menciono a evidente paternidade porque, tendo descoberto (e admirado) Eça de Queirós primeiro do que Flaubert, foi com uma inquietante sensação de reconhecimento que, um dia, há muitos anos, principiei a ler Madame Bovary. E se pensei «Isto é digno de Eça de Queirós» é porque, afinal, Eça de Queirós fora digno do seu mestre.

Madame Bovary é um romance ardentemente emotivo. É, na verdadeira acepção da palavra, um Livro do Desassossego. Sucede sentirmos piedade do marido enganado, cheio de amor, bondoso e entediante, e irritarmo-nos com o descaramento ou com a insensibilidade de Emma. Mas não é possível não sermos, secretamente, seus cúmplices na identificação de um fogo ambicioso, o desejo desmedido de algo, uma sede de romantismo, uma carência de brilho, uma estranha saudade de futuro - um futuro sublime -, uma esperança e uma espera que o quotidiano contrariam e acinzentam.

Como Ana Karenina, ou Luísa, perdida de amor por seu primo Basílio, também a experiência de Emma Bovary é a do tédio perante um mundo irrepreensível, que, dela, só espera a felicidade da integração.

O que estala a superfície destas obras, mais do que a solução ética para que aparentemente nos encaminhariam, sob a forma da morte ou da queda da «criminosa», isto é, a punição social para o desvio, é a perturbadora sensação de que nada poderia, realmente, ter ocorrido diferentemente. De que nenhuma água aplaca a sede de vida. De que não há moral que justifique ficarmos, nem ideal que pague partirmos. Que somos seres irresolúveis. Ou que a nossa condição é a da escolha: e que, de um ou de outro modo, todas as nossas escolhas são erradas.

1 comentário:

Velton Clarindo disse...

"a experiência de Emma Bovary é a do tédio perante um mundo irrepreensível, que, dela, só espera a felicidade da integração."

Digno de Eça de Queirós, concerteza...
Adoro ele...é tão fino e delicadamente escandalizador!Romper com lugares-comuns
me é sempre sedutor.


Adorei
=}