segunda-feira, 30 de agosto de 2010

CHARLES DICKENS: OS CADERNOS DE PICKWICK


Ouvimos falar de Charles Dickens, e em que pensamos? Sobretudo, julgo, num autor do século XIX, consciente e condoído da miséria e da marginalidade que corroíam os bairros londrinos, ou da má sorte reservada aos mal nascidos: garotos esfomeados, sujos, rotos e sem futuro, entre orfanatos cruéis e cárceres onde cedo acabariam.

Alguns dos seus livros, densos, dolorosos, como Oliver Twist e David Copperfield, que todos nós lemos na juventude, ou, alternativamente, vimos em infindáveis tragédias com as quais o cinema nos fez chorar, constituíam, segundo Marx, um bom exemplo do que o romance deveria oferecer: uma história realista, capaz de mostrar e denunciar o mundo cru que a sociedade de classes engendra.

Mesmo nas tragédias dickenianas, é verdade, encontramos personagens divertidas. E inegáveis momentos cómicos. Todavia, insuficientes para que, no retrato que imaginássemos de Charles Dickens, nos passasse pela cabeça traçar um humorista.

Ora o livro com que Ricardo Araújo Pereira abre a sua série de clássicos do humor é precisamente uma obra de Charles Dickens, os cadernos de Mr. Pickwick, de seu nome completo Os Cadernos Póstumos do Clube Pickwick.

Trata-se de um conjunto de fascículos que Dickens foi publicando, entre 1836 e 1837: e o espantoso Ricardo Araújo Pereira, num muitíssimo bem documentado prefácio, que é um motivo acrescido para que se leia a obra em causa, dá conta de como esta foi sendo recebida, amada, e se tornaria inspiradora - por exemplo para Tolstoi, Dostoievski ou Joyce, ou, em Portugal, sem dúvida para Garrett, Queirós, Pessoa.

Os diálogos, principalmente, funcionam como extraordinários dispositivos de riso. Os equívocos para que as personagens inocentemente se deixam arrastar nas suas conversas, a malícia de umas, a esperteza de outras, a candura de várias, proporcionam momentos de puro nonsense. Por outro lado, Dickens sempre foi um autor atento a diferentes estilos e modos de pronúncia: e se é verdade que se torna difícil captá-los na escrita - e mais difícil, ainda, certamente, traduzi-los - o resultado, para além do efeito cómico conseguido, pode ser verdadeiramente revolucionário do ponto de vista formal. Preste-se atenção a Sam Weller com o seu inglês local, cheio de consoantes suprimidas ou ligações impossíveis. Ricardo Araújo Pereira encontra, citando Wyndham Lewis, em algumas dessas falas (particularmente nas de Alfred Jingle, entrecortadas, telegráficas, perfeitas), uma possível paternidade do "monólogo interior de Leopold Bloom", no Ulisses, de Joyce.

Pergunto-me, muitas vezes, o que é um livro de humor. Ou como diabo recomendá-lo, se é verdade que nem todos nos rimos das mesmas coisas. Considero 3 Homens num Bote divertidíssimo, mas sei de quem o abandonasse a meio, com grande tédio. Lisboa em Camisa faz-me sempre rir, mas o volume velho e poeirento, que emprestei a uma amiga, trouxe-lhe poucas gargalhadas e muita asma. Do meu ponto de vista, Pickwick vale a pena. Sei que fez rir muita gente, ao longo do tempo; sei que aconteceu a alguém rebentar uma veia, de tanto rir com ele; sei que foi apreciado pelos melhores escritores, qualquer que fosse o género a que se viriam a dedicar. É um conjunto de garantias? Faltam sempre garantias, no que toca ao humor. No vosso lugar, arriscaria.

3 comentários:

Florinha Afável disse...

Bem, e o que você recomenda com relação aos blogs? Estou a procura...

josépacheco disse...

descobri um blogue lindíssimo de uma recente leitora minha, que se chama Tenho Andado a Ler Whitman (suponho que é esse o nome, mas enfim, é fácil descobrir); nesse blogue, por sua vez, vem referido outro: O Leitor Sem Qualidades. Vale a pena. Irei mencionando mais, à medida que descubra outros.

Vespinha disse...

Terminei de ler ontem, e o que posso dizer é que me marcou para sempre.

PS: Também sou fã de «Três homens num barco».