terça-feira, 4 de agosto de 2009

DONNA TARTT: A HISTÓRIA SECRETA


Podem perguntar: Mas este possidónio só aprecia autores vergados ao peso de um prestígio clássico? Só lê dos Dostoievski para cima? Não relaxa, não alivia? Não conhece o inconfessável prazer de um mau romance, não se diverte com um policial? Não faz férias do snobismo?

Curiosamente, o livro a propósito do qual, e por antítese, escrevi esta introdução é ainda, de algum modo, um clássico. Um clássico muito mais recente mas, apesar de tudo, não de última hora: publicado em 1992, A História Secreta conheceu rapidamente o destino dos livros bem vendidos. Mais: numa pesquisa que fiz brevemente pela internet, em busca, sobretudo, de uma ou duas fotografias com que pudesse ilustrar o meu texto, tropecei em fanáticos deste romance que, aprisionando-o, como abutres, insistem em lhe dissecar «as influências evidentes» de Dostoievski ou Tolstoi.

Mas - e principia neste pormenor a diferença em relação às outras obras sobre que tenho aqui escrito - A História Secreta é um romance policial. Aproveito para deixar registado que, a meu ver e ao contrário da opinião generalizada , os «policiais» e a «ficção científica» não constituem uma leitura menor. Pelo contrário: encontram-se, entre os seus autores, alguns dos escritores mais inteligentes e cultos que poderemos conhecer... (Esta autora é, aliás, um bom exemplo!)

O romance de que vos falo, da autoria da notável Donna Tartt (a quem o meu primo e eu gostávamos de chamar senhora «dona Tarte»; que, durante muitos e ingénuos anos, julguei que tinha de ser uma eterna velhinha, dada aos gatos, ao crime e ao mistério, para descobrir agora que se trata de uma mulher mais jovem do que eu próprio e, como podem confirmar pelas respectivas fotografias, bem mais bonita do que eu), esse romance, dizia, tem desde logo de extraordinário o facto de se desenvolver ao longo de 699 páginas - na tradução portuguesa, pelo menos -, principiando por expor quem morreu, como morreu e quem o assassinou. E interrogamo-nos: Se começamos pela revelação do desfecho, ou do que deveria ser o desfecho, que raio haverá ainda por descobrir nas restantes 698 páginas?

Ora vejam esse, dir-se-ia, precipitado abrir do pano:

«A neve na montanha estava a derreter e Bunny já tinha morrido há várias semanas quando tomámos consciência da gravidade da nossa situação. Já estava morto há vários dias quando foi encontrado, estão a ver. [...] Custa a crer que um plano tão modesto como o de Henry tenha sido tão bem sucedido apesar destes acontecimentos imprevistos. Não era nossa intenção esconder o corpo de maneira a não ser descoberto. A verdade é que nem o tínhamos tentado esconder, limitáramo-nos a abandoná-lo na esperança de que algum transeunte desafortunado viesse a tropeçar nele antes que alguém desse pela sua falta

Porém, agradava-vos que eu prolongasse a citação por mais umas quantas linhas, não é verdade? Ora aí está o segredo de Donna Tartt: mais do que nos questionarmos sobre o que falha, ou sobre o espanto de estarmos em face de um excesso de informação, damos por nós a ler ávida e desenfreadamente, presos como a uma droga implacável, voltando nervosamente páginas atrás de páginas.

Vou, aliás, fazer-vos (e a mim) o gosto ao dedo, e transcrever um episódio que considero magnífico no seu suspense, que é o do momento em que Bunny (que já sabemos que virá a ser a vítima) encontra, na floresta, os amigos que o iriam assassinar:

«Relanceei os olhos para cima e vi Charles. Estava mesmo à minha frente com uns olhos esgazeados e uma expressão medonha. Ia eu perguntar o que é que se passava com ele quando, num assomo agoniado de incredulidade e espanto, ouvi a voz de Bunny mesmo atrás de mim.
«Ora vejam só», disse ele. «Mas que diabo vem a ser isto? Alguma reunião dos amigos da Natureza?»
«Eu virei-me. Era mesmo o Bunny, em todo o seu metro e noventa, erguendo-se atrás de mim num impermeável amarelo tremendo que lhe vinha quase até aos pés.
«Seguiu-se um silêncio insuportável».

A História Secreta é um romance que se entranha nos nervos e não sei por que não terá sido transposto para o cinema, apesar do seu desenrolar neurótico; apesar das cenas povoadas de sinais trágicos; de avisos surdos e profecias tenebrosas, apesar do clima que se vai adensando num singularíssimo cruzamento entre as vozes secretas de Sófocles, Nietzsche e Hitchcock.

A História Secreta reúne muitos dos ingredientes que, do meu ponto de vista, fazem de um texto romanesco, simultaneamente, uma obra de arte no sentido mais nobre da palavra e um romance interessante, imperdível e magnetizante para o leitor: uma escrita cuidada e bela, mas nunca obscura, o ambiente académico, que me fascina, a presença de um professor, em grande medida marginal ao sistema, que cativa um grupo de alunos que se consideram discípulos eleitos, o companheirismo forte e aparentemente indestrutível que os une, o gosto deste grupo restrito e esotérico por um saber secreto, que remete para as antigas seitas órficas, o respirar permanente e quase audível, portanto, do amor pelo helenismo grego, a terrível perfídia da chantagem e personagens densas e contraditórias - inesquecíveis...


É o caso de Julian Morrow, o professor. Ou de Henry, de personalidade forte e apaixonada mas austera. Mas é, também, o de Bunny, «em todo o seu metro e noventa», carente e ansioso, trapaceiro e chantagista, folgazão e cansativo, exasperante, ridículo e ameaçador. Considero absolutamente impagável a cena em que Bunny convida para almoçar Richard Papen, o narrador, numa altura em que este se sente particularmente fragilizado porque acabou de chegar à universidade e é ainda, aos olhos de todos, um intruso sem interesse, e, após a lauta refeição, descobre, entre frenéticos apalpanços do bolso que, «oh diabo, meu velho!», parece que não trouxera a carteira.
Apetecia-me citar.
Se calhar, aos meus leitores apetecia que eu citasse.
Nááá! Deixo-vos incólume o prazer de encontrar e gozar o episódio!

6 comentários:

Sara T. disse...

Afinal andas por aqui...
Fiquei de facto com imensa vontade de ler este livro. Eu que ando sempre à procura de coisas novas para ler e não passo um dia sem pegar num livro, nem que os re-leia (como se escreve isto, céus) vezes sem conta.
Queres saber uma novidade?
Estou a ilustrar um livro infantil, que vai ser lançado em Outubro(imagina a minha felicidade) e que se passa em...moçambique. Quem escreveu foi uma também ex-aluna tua, minha amiga do liceu que reencontrei passados uns bons anos.É lindo não é?

Anónimo disse...

Falo contigo, tu que me pressentes como uma bruma misteriosa. Mas é pátria a terra que piso, as minhas mãos são ventosas criadas pelo miolo da saudade inarrável, os meus olhos regateiam a tristeza e a solidão, e aquando da aurora boreal concebo a fantasia - a escrita. Tudo porque há muitos anos o meu avô me prendou com "A paixão de Jane Eyre" de Carlotte Brontë, tanto lhe enternecia a menina que passava os dedos frágeis nas lombadas fortes dos seus livros.

Cheguei aqui neste dia, José, por isso hoje fez mais sentido regressar ao princípio. Foi preciso dobar coragem das malhas das minhas palavras. Agradeço-te, profundamente, o momento dedicado. Agora já sabes onde estou. Penso que seria interessante não recuarmos. A literatura é um fascinante deserto com oásis. Coloco o dedo nas tuas lombadas e retiro "O Fio da Navalha", do Maugham.

Eu, Isabel

josépacheco disse...

Reli o post atentamente. Fico um pouco espantado pela descrição que dele faz naquele cometário.
Gostei muito do texto que escreveu recentemente no seu blogue. (Até o modo como escreve o endereço do seu blogue, com os pontos por extenso, é original, é seu - embora a não conheça!).
Lembro-me de Jane Eyre na voz de minha mãe. Tal como gostava de me contar as histórias de Maugham, também o fazia com os romances das irmãs Brönte; conhece o Monte dos Vendavais, ou o Monte dos Ventos Uivantes [há as duas traduções, suponho]? É um livro que a não deixará indiferente! Li Jane Eyre, ou só o ouvi à minha mãe? Não sei. Não é estranho? Mas a Isabel espicaçou-me, já hoje procurei por ele nas livrarias...

Anónimo disse...

Aprendi a ler com os livros do Emilio Salgari. Quando pensavam que a menina dormia, ela ficava debaixo da clarabóia até ao coalhar da luz.
José, consegues ouvir o burburinho entre as tuas estantes? Os olhos arregalados na intempérie das palavras? Os dedos buliçosos na dobra do parágrafo? Pois, sentes, não é? Então aqui não, José. Aqui só posso ser sombra. Se um dia acreditares, fala-me.
Sim, li o "Monte dos Vendavais". Quando os livros perduram na memória, é porque contêm uma vida sublime.
Escreves como um navegador, no desvelo de um portulano.
Obrigada!

Eu, Isabel

Rodapé risonho: que delicioso detalhe ambos termos esquecido uma letra.

josépacheco disse...

Retomo a comunicação «aqui», neste «aqui» brumoso que lhe desagrada, para dizer que tentei comentar o último post que escreveu, e não pude, ou não soube. O seu blogue não aceita comentários? Então, como a não conheço, não sei como posso comunicar diferentemente...

Anónimo disse...

José, sou uma simples camponesa, habituada ao transpirar da terra. Quando descobri este lugar, chamei-lhe o meu jardim, com sombras mornas onde apetece ficar.
Atrevi-me ao tutear, pelo tempo aqui passado, num singular monólogo.
Mas, José, as minhas letras são pequeninas para tão grandes áleas.
Tenho uma caixa de correio.
Obrigada por tudo.
Deixo-lhe um beijo.

Eu, Isabel