domingo, 26 de julho de 2009

MICHAEL CUNNINGHAM: SANGUE DO MEU SANGUE

Quando, na rádio, uma desconhecida convicta e convincente dizia que a leitura do romance de Cunningham provocava o efeito de um «orgasmo intelectual» referia-se, evidentemente, ao poder da escrita dele.

Há autores cuja leitura, afirma uma amiga minha, permite adivinhar que devem ter tido, e como devem ter tido, um autêntico prazer ao escrever aquelas linhas, aquelas páginas, aquele romance, a sua obra. A minha amiga falava de José Luís Peixoto: o prazer, esse prazer, é proporcionado pelas palavras que surpreendem por se terem concertado numa beleza que raia a perfeição e apetece reler, uma vez e outra vez, como se as provássemos; o prazer é o que nos é ofertado por todos os textos que, como sucede com a poesia, temos necessidade de ler em voz alta, para ouvirmos essa beleza não só no espírito, mas com os próprios ouvidos, com o rosto pacificado, com o corpo inteiro a reagir-lhe.

Cunningham é um desses autores. Com a diferença óbvia de que, enquanto a escrita é, em José Luís Peixoto, uma das faces de um novelo onírico, como se a própria estranheza do conteúdo encontrasse nessa linguagem poética a única voz possível, em Michael Cunningham se trata, contudo, de uma poesia que descreve e narra uma saga perfeitamente realista. Talvez por isso, por esse «desajustamento», se o é, levarmos algum tempo a encontrar o ponto onde nos conseguimos equilibrar na sua escrita, como o jovem surfista precisa que o corpo aprenda a usar as mesmas forças que o podem submergir. E, num certo sentido, ao princípio, a escrita de Cunningham parece pesada, forçada, numa incessante busca de metáforas ou palavras que nos obriguem a reler, a repensar. Mas, a partir de um certo momento, dir-se-ia que, tendo mergulhado, descobrimos, sob as ondas, a música que possibilita o equilíbrio, o fluxo que nos revela a beleza. E podemos regressar então à superfície - porque o livro se terá tornado (torna-se rapidamente...) um daqueles que não somos capazes de largar, que queremos estar continuamente lendo, sensíveis ao poder da história e dos caracteres sim, mas sempre também ao prazer poético das palavras; e eis-nos idênticos a Constantine, o pai temível, a Mary, a jovem adolescente optimista que se transformará na mulher carente e desamparada, a cleptomaníaca que encontra nos furtos uma forma neurótica de limpeza, a que se sonha americana mas nunca é vista, pela comunidade, senão como uma italo-americana casada com um grego construtor de casas; ou a Susana, a filha aparentemente perfeita (e, contudo, com segredos tão amargos de enfrentar...), ou a Billy, na sua luta titânica com a sua sexualidade (tanto como contra o seu pai), ou a Zoe, a filha incompreensível, como de outro mundo, ou a Cassandra, essa personagem extraordinária, imensa, ambígua, superficial e profunda, homem e mulher, próxima e longínqua, positiva e negativa, triste e cómica, a que se teme ou desdenha mas será, em última instância, a amiga autêntica, o solo que fica, o laço que resta... (E depois, os filhos e netos, a geração seguinte, Ben, Jamal...)

É uma tragédia: mais do que um romance sobre a homossexualidade, é uma tragédia, e é-o, como Édipo ou Antígona, na mais pura e intensa acepção da palavra; é um romance acerca do desconhecimento de si, a incompreensão de si, ou melhor, a incompreensão dos próprios actos ou, melhor ainda, do modo como os actos efectivamente cravam e marcam os que nos rodeiam. E acerca da ironia poética de nunca percebermos - nem, talvez, quando a vida no-lo faz pagar - o sentido da nossa culpa e o facto de os outros não serem capazes de nos perdoar.

Cada capítulo corresponde a um ano: iniciando-se em 1935, quando Constantine tem a idade de oito anos, Sangue do Meu Sangue vai progredindo em sínteses magistrais. Mesmo quando há saltos de cinco ou dez anos, em que abandonamos uma criança com dilemas ou pensamentos que nos indicam certas tendências, para a reencontrarmos, no capítulo seguinte, muito tempo volvido, já outra, com as anteriores tendências ou confirmadas ou renegadas, mesmo nesses casos não sentimos lapsos nem hiatos ou buracos negros: não há elementos naquela evolução que não sejam recuperados, ou adivinhados, ou compreendidos.

Somos, em todos os momentos, todos e cada uma daquelas personagens: os conflitos entre elas são os nossos próprios conflitos interiores, cada um assoma como um dos nossos lados ou possibilidades, ou temores ou monstros intrínsecos. E tudo é humano. Profunda e perversamente humano.

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