segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

ANTONIO TABUCCHI: O JOGO DO REVERSO




Ponhamos de parte a infindável quantidade de livros que recebi pelo Natal, a que me dedicarei mais vagarosamente e de que aqui irei dando conta, para nos fixarmos num discreto O Jogo do Reverso, emprestado pela Biblioteca vizinha.

Antonio Tabucchi importa-me por variadíssimas razões: em primeiro lugar porque este escritor italiano, porventura através da sua paixão por Fernando pessoa & heterónimos, se tornou um estudioso atento e subtil da poesia portuguesa, um cultor fascinado e fascinante da própria língua portuguesa e, já agora, alguém que penetrou delicada e deliciadamente no espírito português, feito da saudade, é claro, (que «não é uma palavra, é uma categoria do espírito, só os portugueses conseguem senti-la, porque têm esta palavra para dizer que a têm»), mas também de atmosferas, como a proporcionada por um dédalo lisboeta de ruas antigas, com nomes maravilhosos, por exemplo a dos "douradores" ou a dos "correeiros"; pensões, tasquinhas e uma culinária de comidas muitas vezes «delicadas» mas «de aspecto repelente», culinária essa cuja história os próprios portugueses em geral desconhecem (sabia lá eu, por exemplo, que o arroz de cabidela fosse um prato herdado dos judeus sefarditas, que não torciam o pescoço à galinha, antes o cortavam, aproveitando-lhe o sangue...); e, em suma, de grandezas e mesquinhices confusa e surpreendentemente entrelaçadas...

O Jogo do Reverso, um pequeno livro de contos, é invulgar por tudo isto: ser da autoria de um italiano com
uma compreensão de quem somos e do que somos que nos redime e nos faz sentir tristes e orgulhosos por sermos quem somos e o que somos; uma escrita de extrema elegância, subtil no molho, com prazeres quase secretos, que só numa segunda ou terceira provas se deixam gozar; e, mais do que isto, uma boa ideia, tecnicamente muito bem realizada: a de histórias em que o que interessa é o reverso, o que mal se expõe, mas a partir de onde se encontra o verdadeiro centro de leitura - como na pintura Las Meninas, de Velásquez, em que o que interessa não é o que nós vemos, mas sim a perspectiva do pintor, perspectiva de que não temos senão indícios, literalmente: reflexos.


No caso concreto deste livro, ou desta edição da Quetzal, não é um pormenor despiciendo o prefácio, da autoria de José Cardoso Pires, um Cardoso Pires completamente entregue à sua qualidade de leitor de Tabucchi, a sua escrita, a sua busca de um reverso, como no jogo que, de certa forma, afiança-nos, todo o romance é.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

CORTÁZAR DE NOVO: O REENCONTRO


O mundo está repleto de misteriosas coincidências. Misteriosas e maravilhosas.
Não tinha acabado há muito de postar   o texto anterior, sobre Julio Cortázar, quando uma colega me disse, já não sei em que situação, que revira um filme de Antonioni, "Blow-up", baseado, vejam bem, num conto de Cortázar - coisa que eu ignorava.

Ainda essa informação não fora completamente processada quando, numa livraria, deparo com uma lindíssima edição, em português, de A Volta ao Dia em 80 Mundos. Uma capa suculenta, amarela.
Folheei, Compro, não compro, compro, não compro?, completamente rendido aos títulos dos capítulos, aos desenhos que ia descobrindo nas páginas, às fotografias que o ilustram. Em resumo: comprei.

E nessa noite, em casa, comecei a ler, já então meio doido e obsessivo, mas entremeando-o com o conto Blow-up (de As Armas Secretas) e os contos de Todos os Fogos o Fogo, que trouxera, entretanto, da biblioteca vizinha. Estou, portanto, literalmente inundado de Cortázares e, de certa forma, já não sou eu, sou já o próprio Cortázar, aspirando e expirando a sua escrita, cardíaco ao ritmo do seu suspense, dos seus meios sofisticados de construção, ocultos mas eficazes, do seu imaginário ilimitado, dos ardis com que me arrasta para, inesperadamente, me quebrar os rins, me deixar cair desamparado de alturas imensas.

A Volta ao Dia em 80 Mundos está para além de qualquer qualificação. Não nos detenhamos numa. Diria que, datando de 1967, este livro prenuncia genialmente o espírito do blogue - é, no conceito, aquilo de que só os melhores blogues se aproximariam, tantos anos depois: delirando entre a poesia, a reflexão mais ou menos sucinta sobre os objectos literários ou musicais da preferência do autor, procurando uma escrita que seja, para o leitor, o mesmo que o jazz para um ouvinte, sem qualquer regra pré-definida, improvisando-se a si mesma numa espécie de contínua luta consigo mesma; deslizando, quando menos se espera, para a memória, o conto, a homenagem, profusamente ilustrada, esta obra torna-se um impressionante exercício de abertura e experimentação, erudição e loucura.

Compreendo perfeitamente a metáfora do jazz a propósito destes textos: «Tudo o que segue», explica-nos Cortázar, «participa o mais possível (nem sempre se pode abandonar uma carapaça quotidiana de cinquenta anos) dessa respiração da esponja em que continuamente entram e saem peixes da memória, alianças fulminantes de tempos e estado e matérias que a seriedade, essa senhora demasiadamente tida em conta, consideraria inconciliáveis». E é um pouco nessa euforia jazzística da esponja que a linguagem de Cortázar se vai tecendo, e experimentando, sempre à beira de um qualquer precipício, em curvas impossíveis, mas que ansiamos por fruir maximamente, toda feita de «alianças fulminantes» e «tempos e estados e matérias» aparentemente «inconciliáveis».

Há linguagens que nos abrem o espírito, que nos atacam e não nos deixam repousar. A de Cortázar amplia-nos como poucas. Não, "amplia" não, porque não se trata de nos aumentar a informação, mas de nos forçar a ler e a pensar diferentemente, a abrir túneis novos, provocando-nos surpreendentes sinapses. Como poucas, dizia. A este nível e desta forma, pouquíssimas: a de Proust, sem dúvida e, entre nós, a de Fernando Pessoa, a de Herberto Hélder, a de Gonçalo M. Tavares muitas vezes, a de José Luís Peixoto, quando no seu melhor. Percebemos até que ponto, nesse movimento livre e libertador, pensar longe de todos os hábitos e mecânicas simplificadoras, pensar entrando em continentes até então inexplorados, não pode ser feito senão através de uma fala que, em todos os pormenores, se vai renovando, também, e desintegrando, e permanentemente refazendo em fantásticas figuras...

Não estou seguramente no mesmo ponto de mim em que me encontrava antes de haver iniciado a leitura de A Volta ao Dia em 80 Mundos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

JULIO CORTÁZAR: RAYUELA




Se acaso há uma lógica, uma forma normal de agirmos quando se trata do gosto pela leitura - e eu penso que não há -, essa seria, aparentemente, a de procurarmos tudo quanto exista de um autor que nos agradou.

Assim aconteceu comigo em relação a Eça de Queirós. Julgo não exagerar ao dizer que um dia infeliz na minha vida foi, certamente, aquele em que percebi que o tinha lido de fio a pavio: dali em diante, como estava morto e não consta que tivesse alguma arca capaz de ainda nos vir a surpreender, poderia sempre relê-lo, sem dúvida, mas nunca mais teria nas mãos um livro seu, para mim virgem, todo a descobrir...

Com Júlio Cortázar, porém, o que sucedeu foi diferente. E estranho.

Conheço deste escritor um romance, e pronto! O genial Rayuela, traduzido em português por O Jogo do Mundo.
É gigantesco - uma daquelas obras que pretendem abocanhar o mundo inteiro, em todos os seus estados e qualidades. Mas trata-se, sobretudo, de um "jogo" e, enquanto tal, um prodígio de inventividade, logo a partir do pormenor conhecido de que o leitor não tem de iniciar a leitura pelo primeiro capítulo: na verdade, pode começar por onde quiser, constituindo um percurso quase pessoal, ao qual poderá opor, noutra altura, um percurso alternativo.

E este constituir de uma lógica própria no interior de um livro que possibilita, portanto, infinidades de lógicas e de caminhos, faz com que, em rigor, haja, sob a enganadora estabilidade deste romance, uma multiplicidade de romances, de que somos co-autores.

Mas, repito, isto é um pormenor. Em última análise, um capricho de autor. Mas lendo-o, sentimo-nos mergulhar num mundo de personagens inesquecíveis na sua estranheza, na sua energia descontrolada, nos seus comportamentos despudorados. Ergue-se à nossa volta um mundo - vários universos paralelos, portanto - onde a pobreza boémia tem um papel importante, e o amor desesperado, e a observação contundente do ser humano. Há uma vida quase marginal numa mansarda infecta, com vizinhos difíceis; há um concerto inesquecível; há gravidezes desamparadas...

É um livro vagaroso. Vamos desbravando terreno, relendo o que já lêramos, para rir melhor, encantados, e experimentando possibilidades: «E se, de facto, eu saltar agora quatro capítulos, que virei a recuperar a seguir? Que sentido encontrarei?»

É, ao mesmo tempo, uma experiência esgotante, como o são as paixões. Todas elas.
Largamos esta obra tão preenchidos, tão profundamente tocados pela arte de Cortázar, que, depois, tendemos a evitar o reencontro.
Comigo, assim foi. Não tenho procurado Cortázar - e não conheço dele nenhuma outra coisa, nem os seus ensaios, nem as crónicas, nem os contos. Nem tornei a pegar em Rayuela.

Porquê? Porque tenho medo de uma decepção? Porque temo não reencontrar o prazer e o gozo intensos? Porque me senti devorado, esventrado, sem forças, com a leitura impossível e infinita? Porque, simplesmente, este medo não é senão um mito de leitor, que criei? Por tudo isto? Por um pouco de tudo isto? Sabê-lo!

Qualquer dia, atrever-me-ei a procurar um conto de Julio Cortázar...

sábado, 5 de dezembro de 2009

MÉTODO PARA ENCONTRAR, EM CADA CASO, A CHAVE DO POEMA

Muitas vezes, poemas que chegam aos meus olhos já com uma História e uma tradição que os consagraram como sendo obras maiores parecem-me, contudo, opacos: leio-os, e não entro em êxtase; não só não se dá uma revelação, como nem sequer aquilo que, segundo Borges, é a condição de toda a grandeza artística, «uma iminência de revelação que não acontece». A vizinhança de uma epifania. Mas nem isso. Permanecem conjuntos de versos que me soam como insignificantes, que me não despertam, que não encontram caminho directo algum para a alma.

Descontemos a possibilidade de que eu possa não considerar nada de extraordinário o que encantou os outros homens, em alguns casos desde há séculos. Porque isso poderia ser uma explicação num caso ou noutro, mas, comungando todos nós da mesma humanidade, de uma cultura que nos aproxima, de referências comuns, não creio que seja a norma.

E, portanto, o que faço é procurar continuamente as chaves para essa descoberta da revelação ou da «iminência de uma revelação que não chega a acontecer».

Aceito, portanto, que, pelo menos para mim, a revelação poética não seja directa nem imediata. Falta-me, quem sabe, esse tipo de «ouvido musical» para a poesia. O poema principia por se me apresentar como uma porta fechada. Por alguma razão, o sentido sob o sentido, a luz brilhante sob as palavras, a música e a «visão» precisam de ser escavadas - inicialmente, estão-me ocultas.

O meu método consiste no cumprimento de alguns pontos simples.

1. Leio o poema em voz alta. Borges - uma vez mais - já tinha afirmado que um poema que não exige ser pronunciado, que não pede para ser "dito", não é, talvez, um poema que valha a pena. A génese de toda a poesia é a música. Não posso limitar-me a ouvi-lo na minha cabeça, ou num percurso quase imediato dos olhos para o espírito, preciso da mediação da voz. Tenho de estar só e sentir-me à vontade para me ouvir a lê-lo.

2. Não o posso ler uma única vez. Tenho de repetir, detendo-me em particular nas passagens que me chamaram a atenção, que me obrigam a voltar atrás. É uma busca de chave. Essa chave é, por vezes, um verso, um brilho mais intenso que me escapara antes; um fulgor em que tropeço inadvertidamente até que, de súbito, se encha de sentido. Mas, captada essa minúscula luz, captei um ponto de apoio, um ponto de sentido a partir do qual todo o poema se ilumina. E quantos mais pontos de sentido se me descascam, mais claro o todo se me vai tornando.

3. Não sempre, mas, em muitos casos, o conhecimento (a estrita informação) ajuda - não porque a poesia seja prioritariamente da ordem do intelecto (o que implicaria, sem dúvida, aquela dissecação que arruina a apreensão da essência); mas porque, por exemplo no caso de A Terra Devastada (T. S. Eliot), não me foi indiferente compreender que raízes, que referências contém, a que remissões convida, a que ligações obriga, que mundos associa a si, na procura de uma unidade maravilhosa do fragmentário.

4. Quando nada disto me permite entrar, prefiro não insistir. Regressarei ao poema pouco mais tarde, ou muito mais tarde, quando o interesse me tornar a chamar. E sucedeu-me observar que o que não me falou numa certa fase da minha vida, se tornaria, anos depois, um dos poemas da minha vida. Assim, por exemplo, com a Divina Comédia. Assim, mais recentemente, com a redescoberta de Terra Devastada.

JEROME K. JEROME: 3 HOMENS NUM BOTE (SEM MENCIONAR O CÃO)



E quanto a livros de humor que me tenham marcado?

Para além de Eça de Queirós, cuja obra contém humor a jorros - mas possui tão mais para além disso que seria um crime reduzi-la a uma colecção de romances humorísticos - poderia referir Alice, tanto no País das Maravilhas como no Outro Lado do Espelho; poderia referir um clássico português que circula na minha família há várias gerações, o impagável Lisboa em Camisa (tão velhinho, que o emprestei a uma amiga e ela foi imediatamente para o hospital, vítima de um ataque de asma) e, last but not the least, um certo romance, comparativamente muito mais recente: Três Homens num Bote (Sem Falar no Cão), de Jerome K. Jerome.

Três Homens foi-me apresentado pelo meu tio; segundo ele mesmo me disse, lia-o na cama quando adoecia e tinha de faltar à escola; absorvia-o com enormes gargalhadas: em face disso, a tia Joaquina vinha saber por que piorara a tosse.

Aprecio particularmente, no livro, aquela astuciosa ingenuidade que também encontramos no Conde de Abranhos: conta-se com a maior das seriedades, como se se tratasse de elogiar um comportamento corajoso ou definido por algum tipo de virtude, o que o leitor percebe que se trata de idiotice, ou cobardia, ou mesquinhês.

As situações, quase surrealistas, descambando facilmente no nonsense, nunca são senão a radicalização daquilo que é perfeitamente possível e com que nos identificamos: todos nós já tivemos a experiência de montar uma tenda, por exemplo, e sabemos que se trata fatalmente do esforço estóico de nos enrolarmos em cordames, tropeçar em espias e ver cair o que parecia seguro, antes de se recomeçar do zero.

É verdade que Jerome K. Jerome tem a pulsão da filosofia: nem sempre se embrenha em meditações sem se tornar fastidioso. Quando quer parecer sério, cansa. Mas os seus hipocondríacos, os seus tios irascíveis ou patetas, o seu pianista trágico, alemão (que uns jovens estudantes convenceram o público que era um músico de cançonetas cómicas), ou, sobretudo, a forma como, narrando a viagem de férias feitas por três amigos (sem falar no cão), rio acima, aproveita, a propósito, para introduzir os mais diversos episódios familiares - ou pretensamente da História de Inglaterra - fazem de Três Homens um livro hilariante. Um livro que não descansei enquanto não redescobri, na feira do livro, há uns anos, para poder passar o testemunho ao meu filho...

domingo, 29 de novembro de 2009

O PRIMEIRO ROMANCE POLICIAL




Savater afirma, não sei bem onde, que - muito antes de Edgar A. Poe - a génese do romance policial se encontra na Bíblia. Refere «Daniel».

Espicaçado por esta ideia, fui reler o profeta Daniel.
E, se não me equivoco, o episódio que alegadamente fundaria a escrita policial é o seguinte:

Joaquim casou com Susana, uma jovem bonita, virtuosa e temente a Deus.
Dois juízes, frequentemente apresentados, ao longo do texto, como anciãos, vêem-na e enamoram-se dela: são homens habituados a usar o seu poder de uma forma abusiva, que lhes permita aceder a tudo pela chantagem.
Não querem confessar um ao outro que têm a intenção de seduzir a moça. Um dia em que sabem que ela vai estar no seu jardim, despedem-se os dois, «Então adeus, adeus, até logo, até logo», como se se preparassem para regressar cada um aos respectivos afazeres. A seguir, fazem meia volta e dirigem-se ao jardim. Como é evidente, encontram-se a meio caminho, perplexos.

Velhas raposas que são, percebem imediatamente ao que vai o outro, e combinam unir esforços para convencer a rapariga a entregar-se-lhes.
Assistem, já ocultos no interior do jardim, à forma como - nem de propósito! - Susana dispensa as suas aias, porque está muito calor e lhe apetece banhar-se.
Elas fecham então o portão e retiram-se, sem perceber que os dois anciãos permanecem no interior do recinto, ao abrigo de árvores que os escondem aos olhares.

Enquanto Susana se banha, aparecem-lhe. Explicam-lhe as suas intenções e as suas condições: ou ela aceita tornar-se amante de ambos, ou a acusarão de ter sido encontrada em amores ilícitos com um jovem.
Susana recusa. Sabe o que a espera, mas, como de facto não pecou, não admite pecar para se defender de um pecado não cometido.
E grita. Grita por socorro, ajuda, protecção.
Imediatamente, os dois anciãos gritam, também, e ainda mais alto. Abrem o portão, chamam por gente, que acorre de todos os lados.

A multidão ouve a versão deles, segundo a qual teriam testemunhado como um jovem estivera fazendo sexo com Susana, sob uma certa árvore e, mal os viu, abrira o portão e fugira, sem que o conseguissem deter.

A populaça crê nesta versão. Arrasta Susana para a morte. Condenam-na, pois, sem julgamento.

Daniel, que, alertado por Deus, tem conhecimento da inocência da rapariga, intervém. Declara-se não culpado- surpreendentemente, como se o houvessem culpado, a ele, de ser o desrespeitador da moça, o que espanta os próprios anciãos -, e garante que porá tudo em pratos limpos.

É o progenitor de Poirot. Um pré-Poirot reunindo os suspeitos no salão e preparando-se para conduzir um hábil inquérito. Todos os ingredientes estão, efectivamente, já presentes nesta génese.

Pede que separem os anciãos. E, a cada um por si, faz a pergunta mais simples que se imagina: Debaixo de que árvore se encontravam os dois amantes?
Cada um por sua vez, e cada um por si, sem ter tido tempo nem condições para rever nem conjugar as versões nos seus pormenores, os juízes respondem divergentemente.
Está exposta a sua mentira.

Espantoso, de facto.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PROUST: O MAIOR ESCRITOR DE SEMPRE

Tinha sido convidado para jantar em casa do cunhado de uma amiga minha.

Após a refeição, lauta, sem dúvida, e enquanto alguns dos presentes cercavam uma mesa de snooker, jogando com entusiasmo, fui-me aproximando, com um tímido copo de tinto na mão, da estante que me não saíra da visão periférica desde que ali tinha chegado.

Às tantas, vi uma sombra que, por detrás de mim, se projectava sobre as lombadas de livros que eu estava pesquisando. Era o dono da casa, que, por sua vez, se aproximava. Retirou de uma prateleira um livro, passou-mo para a mão. «Conheces isto?» - Era o primeiro volume, da Europa-América, de Em Busca do Tempo Perdido. (Eu estava maravilhado com o que parecia ser um magnífico e surpreendente encontro de almas gémeas proustianas...)

Antes que tivesse tempo para responder, disse-me:
«Comprei este livro há muitos anos, influenciado por um debate televisivo em que um grupo de intelectuais o elogiava como sendo uma obra incontornável. Nunca li senão quatro, seis páginas, dez, vá. E era só o primeiro volume. São sete volumes! Perfeitamente ilegível. Horroroso!»
Fez uma pausa, e concluiu:
«Tenho a certeza de que nenhum daqueles grandes intelectuais foi capaz de ler esta pessegada...»

Não cheguei a falar, é claro.
Conto-o agora, por graça. Porque a verdade é que, sendo apenas meio intelectual, isto é, um intelectual sem o menor prestígio nem autoridade, li os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido. E considero Proust, com toda a sinceridade, o meu autor maior, o que me enche as medidas, o que me encanta e arrasta pelos níveis variados de um romance de muitos tomos, complexo mas, de facto, completo.

Dizia o meu primo: «Lemos Proust, e tudo parece de uma simplicidade extrema. Não há propriamente, na sua escrita, nenhuma indicação óbvia da grandeza desta. O que sucede é que, depois de o lermos, já nada mais nos satisfaz; o que sucede é que, depois de lermos Proust, por comparação, todos os outros - todos, todos, todos - nos parecem desinteressantes, pobres, frágeis...»
Tenderia a concordar. Talvez com excepções. Mas tenderia a concordar.

O texto de Proust reflecte e exprime um ponto aéreo da sua consciência, onde brotam e por onde perpassam ideias banais, daquelas que habitualmente não levamos a sério, se e quando é em nós próprios que afluem; e de que nos arrependemos, mais pela sua superficialidade do que por outra razão; ideias que, por tudo isto, não estamos habituados a formular e nunca nos lembraríamos de comunicar a outrem: pensamentos inacabados, mal pincelados, considerações flutuantes, voláteis, a que não damos importância cognitiva, entre a mera sensação e o vagamente intelectual, formam, pois, a quase impudica matéria de Proust: a verdade, porém, é que nos reconhecemos imediatamente neste strip-tease da consciência. Afinal, é produzindo pequenas e móveis ideias desse género, que também o nosso espírito constantemente preguiça, no seu impressionismo interior...

Por outro lado, as personagens são vivíssimas, realistas nas suas contradições e debilidades, mas encantadoras nessas mesmas contradições e debilidades - tão humanas. Assistimos a um percurso em que as vemos mudar ao longo do tempo e em que, simultaneamente, as vamos vendo e redescobrindo segundo muitos olhares, de diferentes pessoas.

Assim, Marcel, o narrador, descobre, por exemplo (suponho que o episódio é contado no último voluma de a Busca), num livro de um dos irmãos Goncourt...

Mas interrompamos desde já o que escrevíamos, para introduzir um parêntesis: esse livro, pretensamente da autoria de Goncourt, de que Proust transcreve mesmo um excerto (um excerto obviamente escrito pelo próprio Proust, à maneira de Goncourt, porque «tal» livro não existe, é uma peça de ficção) constitui um extraordinário pastiche, uma falsificação perfeita de um estilo, uma imitação admirável do espírito de um autor real...

... Mas dizia: nesse livro, Goncourt (pseudo-Goncourt) fala-nos - e trata-se de memórias - de um certo sujeito como sendo um génio; e no entanto, nós já conhecemos esse sujeito. Sob outras perspectivas, que nos tinham sido apresentadas antes, e ao longo da obra toda, fomo-lo identificando como um homem medíocre, sem grande rasgo nem imaginação. Temos, pois, de sobrepor estes dois retratos, compreendendo que, porventura, ambos são incompletos e nenhum traduz fielmente a realidade. E é absolutamente notável como Proust nos obriga a ir refazendo o que julgávamos saber, entregando-nos as personagens segundo as suas múltiplas faces e interpretações, e nunca definitivamente catalogadas.

Por outro lado, a forma como descreve minuciosamente o indescritível - um cheiro, um sabor, uma vaga impressão - torna a sua escrita uma imperdível aventura do espírito. Há um degustar das palavras que se harmonizam, sem comodismo, para descrever algo tão efémero como uma sensação.

A profundidade da obra de Proust revela-se numa das minhas personagens preferidas, que é Swann: homem elegante e sofisticado, convidado dos melhores salões (privando, por exemplo, com os Guermantes), mantém sempre uma discrição e contenção que são próprias do seu refinamento: não se exibe, nunca refere quem visitou, nunca faz gala das suas relações. E que delicioso - e dramático, ao mesmo tempo - percebermos como, sob efeito de uma paixão devastadora por Odette, ele será sucessivamente abandonado pelas pessoas de nome, que se recusarão a recebê-lo, agora, na companhia da sua nova esposa; para a enaltecer e satisfazer, fará gala de gritar bem alto as relações com aqueles que os aceitam e os convites que recebe de pessoas muito inferiores a si na escala social, mas incensados entre aqueles que contam para Odette (nomeadamente, os horrorosos Verdurin).


A obra de Marcel Proust merece ser lida e a sua leitura torna-se, a prazo, uma experiência inolvidável do leitor integral, em que nenhuma emoção ou gosto é marginalizado ou esquecido, mas acredito que não fixe imediatamente a si o principiante. Não me esqueço que grandes escritores (e, esperar-se-ia, talentosos leitores), como André Gide, que deveria dar ao editor o parecer sobre Em Busca do Tempo Perdido, o classificou desrespeitosamente como uma «história de duques e duquesas de festa em festa»...

Por mim, reconheço que tive muita sorte. Uma convergência feliz de ses levou a que Em Busca do Tempo Perdido esperasse, desde sempre, pela minha atenção. Se não fosse o meu avô, que se fazia acompanhar sempre de um Proust, se não fosse o meu tio, que tinha a obra, em francês, resumida a três volumes em papel-bíblia, se não fosse um extraordinário artigo de Borges, se não fosse a maravilhosa tradução de Pedro Tamen, se não fossem as discussões infindáveis com o meu primo, se não fosse um livro imperdível de Alain de Bottom sobre Proust, poderia nem ter vindo a conhecer o que, para mim, é o mais genial de todos os autores de toda a literatura.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

ITALO SVEVO: A CONSCIÊNCIA DE ZENO


Aparentemente, Italo Svevo, pseudónimo de Ettore Schmitz, não entrou na literatura pela porta grande.
Os seus primeiros romances, que nunca li, foram duramente desqualificados pela crítica e, sobretudo, ignorados pelo público. Na sequência desta má recepção, aliás, abandonou a escrita literária.

Não preciso de ir muito longe para encontrar tal informação: leio-a no preâmbulo de A Consciência de Zeno, magnífica obra que redigiu e marca, após o tempo de desistência, o seu regresso à escrita, encorajado por James Joyce [que não era, à época, ainda conhecido e, como seu professor de inglês, entretanto tornado amigo e confidente, lhe pediu para ler os seus cadernos].


Não percamos tempo com adjectivos: Svevo é simplesmente extraordinário. Narra uma história quase comezinha, quase irrelevante, principiando por algo tão simples como uma personagem que procura abandonar o vício do tabaco. E depois, a partir deste início incipiente, vai construindo os patamares e os labirintos da consciência deste homem, o qual vai recordando e contando os seus sentimentos - o amor não correspondido, um falso amor em que mergulha sem saber como, seguindo um impulso ilógico, os seus ciúmes, invejas, ressentimentos...

A duplicidade deste anti-herói torna-o um irmão nosso, uma pessoa muito próxima de nós e das nossas contradições. Algo na sua percepção da realidade está ferido de um egoísmo e de uma insensibilidade quase ridículos - e, no entanto, é muitas vezes dessa imoralidade intrínseca, essa incapacidade para nos pormos no lugar do outro, que se fazem os movimentos da nossa consciência.

A sua escrita prende-nos imediatamente. Numa simplicidade que esconde um trabalho eficiente e, como lembra António Lobo Antunes, um apuro técnico incomum, Svevo, diante dos nossos olhos, vai povoando as páginas do seu romance com formulações de um fulgor e de uma profundidade que só o génio conseguiria.

É uma leitura do interior de um homem, em que o que lhe sucede não serve senão como pretexto para esta fenomenologia da sua consciência. Lê-se devagar. Saboreando tudo. Com os pêlos eriçados. A sensação, rara, de se estar num outro mundo literário, de se ter subido a um outro nível; literariamente, Svevo é incomparável: é outra loiça!

sábado, 24 de outubro de 2009

SARAMAGO: A PROPÓSITO DA RECENTE POLÉMICA

Conforme diz Nicolau Tolentino de Mendonça, em diálogo aceso mas cortês com José Saramgo, o problema não está tanto no livro Caim, da autoria do Nobel português. O problema está naquilo a que o
teólogo chama o «hipertexto». E de facto, como diria o Diácono Remédios, Num habia nexexidade.

E nem se compreende o sentido e o alcance das palavras com que Saramago, em discurso directo, agride a Bíblia e os crentes, a não ser por uma espécie de fé cega contra a igreja católica, apostólica, romana, ou por um acto publicitário que vise desta forma chamar a atenção sobre o seu último romance.

Nunca apreciei a personalidade de Saramago: talvez resida nessa depreciação a minha dificuldade em amá-lo como escritor. Qualquer coisa da sua arrogância, da sua presunção mas, ao mesmo tempo, da enorme banalidade de certas afirmações, que nunca se coíbe de fazer quando entrevistado, revestindo-as sempre da gravidade de uma sabedoria maior, unem-se para fundar um preconceito meu: já o leio a partir desse incómodo, dessa lente crítica e distanciadora.

Como não sou tolo, em relação a uma parte substancial da sua obra, contudo, a inegável qualidade impôs-se-me, furando a asfixia da minhe lente anti-saramago, preparada de antemão para o recusar. Assim, reconheço que Memorial do Convento é um grande livro, bem como O Ano da Morte de Ricardo Reis ou o Evangelho Segundo Jesus Cristo. Também Intermitências da Morte me parece, com efeito, um texto irónico extraordinário (tal como A Viagem do Elefante) - ao mesmo tempo que considero, por outro lado, o tão celebrado Ensaio sobre a Cegueira um livro paupérrimo, todo em torno de uma metafórica pouco inovadora, de que se abusou já muito, ou, A Caverna, uma obra menoríssima e, para além de tudo, muito aborrecida... Ah! E já agora: detesto Todos os Nomes!

Com esta tentativa de mostrar que não estou completamente inquinado pelo preconceito contra o homem-Saramago, distinguindo com algum fundamento, no que respeita à obra, o trigo do joio, abalanço-me, pois, a falar acerca de Caim, que ainda não acabei...

... Mas que já posso encarar como uma das melhores coisas que Saramago escreveu. Um pouco como se, de facto, a velhice revelasse, ao mesmo tempo, o progredir da sua senilidade ao nível do contacto humano e das relações (o progredir da sua senilidade quando é chamado a falar), mas, ao mesmo tempo, a maturidade que atinge como romancista.

Caim é um excelente tema? Claro que é, e não de agora. Recordo, para não recuar muito mais, o papel de James Dean em A Leste do Paraíso (a partir de um romance de John Steinbeck), representando um Caim moderno (isto é, dos anos 50), em luta contra um pai tirânico e injusto na maneira como o trata, em comparação com o cuidado que dispensa ao irmão.

Mas em Caim, precisamente, está tudo o que é humanamente mais rico, o ciúme e a inveja que contaminam as relações filiais e fraternas, o amor contraditório e incompleto, a injustiça, a desigualdade, a sem-razão. É por isso que me parece inteligente e literariamente interessante a laicização destas relações - Deus é um pai, e um pai, mesmo sendo Deus, é sempre uma figura injusta e dividida, com medos e dilemas. Deus não seria pai se não fosse este pai profundamente humano e irascível, cansado, em luta com o seu filho. E, claro, por mim falo. Embora não seja Deus.

Esta dessacralização do texto, ou melhor, esta dessacralização das personagens (Azael, que os expulsa do paraíso, é seduzido por Eva, deixando sempre ver uma comovente faceta piedosa...) não as desvirtua, antes as enobrece. É um romance profundo, tocado por uma ironia e por um humor corrosivos, que reduzem todo o mal à imperfeição humana, numa escrita que todos reconhecemos, nem sempre fácil mas muito bela e, de facto, muitíssimo inovadora.

Se ao menos o homem ficasse calado...!

sábado, 17 de outubro de 2009

SÓFOCLES: ANTÍGONA



Na escola, em estreita colaboração com a História e a Filosofia, ando a preparar entusiasticamente, na Biblioteca, uma sessão sobre Antígona.

O meu grupo de amigos tinha decidido, há algum tempo já, animar uma série de comunicações em que cada um de nós iria falar acerca de um qualquer tema por si escolhido: lembro-me de que a minha ideia era levar-lhes Antígona - tratando a magnífica tragédia de Sófocles; analisando a intensíssima personagem principal, de que a peça usa o nome ; falando sobre a incompreensão manifestada por Creonte acerca de tudo quanto Antígona, ao desafiá-lo, realmente simboliza e veicula; sobre a autenticidade e grandeza femininas dela (que, ao longo dos séculos, todas as feministas procuraram fazer suas); ou acerca das palavras sublimes mas obscuras e enigmáticas, maravilhosas (e maravilhadas) mas, por vezes duras, do Coro dos Anciãos Tebanos...

Nunca cheguei a fazer essa comunicação. Contudo, agora que regresso ao texto de Sófocles para o preparar para a escola, redescubro, com o misto de prazer e angústia que a Antígona em mim provoca, as frases lapidares dirigidas por uma mulher corajosa à sua irmã insegura e carregada de medos e dilemas: «Tu escolheste viver, e eu, morrer»; «não queiras partilhar a minha morte nem faças teu aquilo em que não tocaste. Para morrer basto eu», como se a morte fosse um privilégio reservado aos verdadeiros corajosos, aos que trabalharam por ela...
Ou contra Creonte, o irascível tirano que não percebe que há e haverá, acima da sua lei escrita, uma lei não escrita, infinitamente mais poderosa: «por causa das tuas leis, não queria eu ser castigada perante os deuses, por ter temido a decisão de um homem».

Ah, como dirá o coro, «muitos prodígios há, porém, nenhum maior que o homem», esse que doma e domina, ultrapassa e vence, que através da sua tecnologia tudo transforma à sua imagem e semelhança, cura doenças, desenvolve o pensamento, como se nada o detivesse nem ao seu poder - e, porém: «ao Hades somente não pode escapar».

Porque algo é obscuramente mais forte do que o homem, do que a sua razão e a sua imaginação, a sua astúcia política, a sua lei, a sua obra, a sua sede de poder, ou o efectivo exercício desse seu poder, através de uma tecnologia que ele desenvolve e continuamente multiplica.

Estou como Freud: quanto mais evoluídos nos tornamos, mais percebo que a essência radica na Antiga Grécia. Os Gregos já nos aguardavam. Sempre esperaram por nós, ainda nós não tínhamos nascido.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

VALÉRY: OS ELOGIOS VENENOSOS

Em certas bocas, os discursos são milimetricamente estudados para que, sob as frases de aparência elogiosa, nas entrelinhas, se perceba o desprezo que o autor realmente nutre por aquele que as circunstâncias obrigam a elogiar.

Paul Valéry era um magnífico especialista nesse tipo insidioso de oração.
Veja-se a seguinte situação: acolhido pela Academia Francesa, em 1927, para o lugar vagado pela morte de Anatole France (na 1ª foto), Valéry (2ª foto) dedica-lhe um discurso, que considero uma obra-prima de perfídia e segundas intenções:

«Os mortos só têm os vivos como recurso, os nossos pensamentos são para eles o único caminho. A eles, que tanto nos ensinaram, parecem ter-se apagado por nós e ter-nos legado todas as oportunidades, é justo e digno que sejamos nós a acolhê-los nas nossas memórias a fim de beberem um pouco de vida nas nossas palavras.
«O público está infinitamente reconhecido ao meu antecessor e deve-lhe as sensações de um oásis. A sua obra surpreende-nos doce e suavemente pelo contraste refrescante com os estilos brilhantes ou bastante complexos existentes. Parecia que a leveza, a clareza, a simplicidade regressavam de novo à terra. São deusas que agradam à maioria. Gosta-se imediatamente de uma linguagem que se pode saborear sem ter de pensar muito, que seduz por ser tão natural e cuja limpidez, sem dúvida, deixa transparecer por vezes que existe um pensamento por detrás, não misterioso mas, pelo contrário, perfeitamente legível ou até bastante convincente. Havia nos seus livros uma arte consumada de abordagem das ideias e dos problemas mais graves. Nada nos faz deter a não ser a maravilhosa sensação de não encontrarmos neles qualquer resistência.
«O que há de mais precioso que a ilusão deliciosa da clareza que nos dá o sentimento de nos enriquecer sem esforço, de saborear o prazer sem pensar, de compreender sem ter de prestar atenção, de desfrutar do espectáculo sem pagar?
«Felizes os escritores que nos evitam o peso do pensamento e que tecem com um simples levantar de dedo um luminoso disfarce na complexidade das coisas.»

E poderia continuar na citação. Mas, para o que queria mostrar, parece-me suficiente.
Não vale a pena prosseguir, de resto: chego a ter pena de Anatole France.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

AINDA CÉLINE: UM EXCERTO

«Sob aquele olhar de opróbio, o mensageiro claudicante pôs-se em sentido com os mindinhos na costura das calças, como deve ser feito nestes casos. Oscilava assim, hirto em cima do talude, com a transpiração a correr-lhe ao longo da jugular e os maxilares a tremerem tanto que emitia pequenos gritos sufocados, como um cãozinho que sonha. Não era possível descobrir se queria falar-nos ou se realmente chorava.
«Os nossos alemães, acocorados mesmo no fim da estrada, acabavam de mudar de instrumento. Era à metralhadora que prosseguiam com aquelas tolices; faziam-nas estalar como grandes caixas de fósforos, e à nossa volta vinham voar enxames de balas raivosas, irascíveis como vespas.
«Ainda assim, o homem acabou por fazer sair da boca qualquer coisa articulada:
«- O sargento-ajudante Barousse acaba de ser morto, meu coronel - disse de uma assentada.
«- E então?
«- Foi morto quando ia procurar o pão na estrada Des Etrapes, meu coronel!
«- E então?
«- Foi despedaçado por uma granada!
«- E então, com mil raios!
«- Só isso! Meu coronel...
«- É tudo?
«- Sim, é tudo, meu coronel.
« - E o pão? - perguntou o coronel.
«Foi este o fim do diálogo porque me recordo bem de ele ter tido tempo de dizer exactamente isto: «E o pão?» E pronto. Depois só fogo e também ruído a acompanhar. Mas um destes ruídos como nem se acreditava que existissem. Que nos encheu por completo os olhos, os ouvidos, o nariz e a boca, imediatamente, ruído ao ponto de eu julgar que estava tudo acabado, que eu próprio me tinha transformado em fogo e ruído.»

LOUIS FERDINAND CÉLINE: VIAGEM AO FIM DA NOITE


Que poderei dizer?

Este é, porventura, um dos textos mais desconfortáveis que já escrevi. Porque não se trata somente de admirar, mais ou menos, um escritor do PSD ou do CDS - e dizê-lo. Se fosse isso...!
Trata-se de uma outra coisa: falo da experiência profundamente perturbadora que é, de algum modo, a do amor pelo abismo.

Houve pensadores e criadores que pactuaram, politicamente, com aquilo que a humanidade produziu de mais medonho. Seria tão fácil, tão linear, tão sem sombras tortuosas para nós se, ao menos, eles tivessem sido, nas suas obras, os meros arautos e apologistas do regime odioso que serviram; nada mais do que os instrumentos medíocres da propaganda, que pudéssemos execrar...

Mas porque será que, pelo contrário, alguns deles são os artistas mais sublimes que já conhecemos? Por que razão haveriam de ser, estas pessoas que escolheram erradamente, pavorosamente, os autores de uma obra que poderemos até ignorar - mas, se por acaso a descobrimos, não conseguiremos senão amar?

Heidegger, por exemplo, que foi reitor de uma fulcral universidade alemã, no auge do nazismo; marginalizou professores judeus, chegando a retirar do seu livro a dedicatória, que constava na primeira edição, ao judeu Husserl, seu mestre; redigiu alguns dos discursos mais miseráveis acerca da grandeza da Alemanha ariana e do Führer; e morreu sem nunca ter mostrado qualquer arrependimento, será, de facto, e por outro lado, o escritor da obra de filosofia em que é inaugurado um autêntico pensar contemporâneo, projectando uma nova luz sobre o passado Grego e iniciando um modo tão original de reflectir, não segundo a lupa de ideias eternas e absolutas, mas a partir do tempo e do finito?

E Ezra Pound, que enalteceu o fascismo e o nacional-socialismo, pode ser de facto o poeta de uma obra poética culta, sensível, profunda - Cantos que, à imagem da Divina Comédia, transforma em poesia uma experiência aterradora, múltipla e multímoda, falando diferentes línguas, misturando e sobrepondo os fios do vasto arsenal da cultura humana?

Elia Kazan, denunciante, vendido de todas as formas, traidor, é realmente o realizador dos filmes incomparáveis que nenhum outro realizador - à parte, talvez, Orson Welles, que redescubro recentemente no Clube de Cinema - conseguiu igualar em inteligência e força? Lodo no Cais? Ou Esplendor na Relva? Nada que não seja, de facto, de uma qualidade suprema?

Chego ao pior de todos. Ou ao melhor de todos. Apresento-o em três ou quatro tópicos: Louis-Ferdinand Céline. Colaboracionista, apoiante do regime traidor de Vichy na França ocupada, escritor cujos artigos eram pagos por jornais simpatizantes de Hitler, autor confesso de um dos panfletos anti-semitas mais degradantes que conheço. Posto isto, como hei-de lidar com o facto inequívoco de que Céline é o autor de Voyage au Bout de la Nuit, e que esta sua viagem ao fim da noite se mantém, sem dúvida, um dos poucos livros que releio frequentemente, que nunca me cansam, que vejo, nas páginas que vou passando diante dos meus olhos, respirando génio em estado puro? Todas as páginas deste livro são revolucionárias. Todas as páginas? Caramba! Cada uma das frases merece atenção, atinge e fere, cada formulação é de uma ousadia e de uma novidade perfeitas. Nada nos deixa indiferentes na sua escrita em que ouvimos, linha a linha, soar a sua «petite musique», esse sentido íntimo do seu texto, em que coisa alguma se confunde com outra coisa já antes lida, em que não há lugares comuns nem imagens gastas...

E, é verdade, há uma estética do repugnante neste livro, que afasta certas pessoas. Eduardo Prado Coelho confessava o seu repúdio: «Em Céline, o segredo íntimo de cada ser está nessa humidade viscosa e agoniada, nessa baba intestina, nessa espuma aviltante das tripas e mucosas - o nuclear é o excremencial: "ce qui guide encore le mieux c'est l'odeur de la merde". [...] O universo de Céline é um inferno visceral. - É aqui que eu entendo melhor a repugnância liminar que me suscita uma escrita que é feita de roncos, perdigotos e metáforas viscosas

Tudo bem. Eu é que padeço, talvez, de alguma perversão oculta.

domingo, 6 de setembro de 2009

SIMENON: OS AMANTES DESENFREADOS


Existe, na Europa, um preconceito histórico contra a inteligência dos belgas.
Por mim, o povo que gerou, no seu seio, nada mais do que um Hergé e um Franquín, na banda desenhada; um Jacques Brel, na música; ou um Georges Simenon na literatura policial, só pode suscitar a maior admiração.

Passando por uma biblioteca em busca de «Simenon», deparo certamente com dezenas se não centenas de livros - a maioria, é claro, tendo como protagonista o celebérrimo Inspector Maigret, o seu chapéu, a gabardina, o cachimbo. O que não deixa de ser lamentável - não porque Maigret não seja de facto, como detective, uma personagem muito bem engendrada, com uma densidade psicológica notável, que não possuem outros, porventura muito mais conhecidos (de Holmes a Poirot); não porque não sejam romances intelectualmente muito bem urdidos, mas porque a obra de Simenon transborda por todos os lados desse mero registo: é mais extensa e mais variada, toca diversos estilos (as suas memórias, por exemplo, são fascinantes) e é fora do que dele foi mais divulgado que, porventura, lhe encontramos a veia mais original.


Tome-se, digamos, um livrinho praticamente desconhecido, que se chama O Quarto Azul ou Os Amantes Desenfreados. É uma primorosa lição de bem escrever. Nem se trata de um policial, no sentido mais vulgar do género. Sobretudo, falta-lhe a presença de qualquer investigador. Ao invés, estamos perante um par de amantes que se encontram, regularmente, no quarto azul de um hotel de província.

É em volta da morte do marido dela - primeiro - e da mulher dele - a seguir - que se vai desenvolvendo uma história de dúvidas e suspeitas.
O ângulo é o do homem: submetido a uma sucessão de interrogatórios, agora que tudo se consumou - mas o que se consumou, de facto: um duplo homicídio ou a estranha (e conveniente) coincidência de duas mortes naturais? - , ele vai-se questionando a si próprio, apresentando, ao juiz, a si, ao leitor, não os factos, mas as suas interpretações, as suas recordações, o que sabia, o que não sabia, o que vai entretanto descobrindo...

E com que mestria perfeita Simenon se repete, ou seja, retoma constantemente diálogos que já nos mostrara, de maneira que, perante uma nova luz, o sentido do que fora dito se renova, e se percebem, nas mesmas frases que já lêramos três ou quatro páginas atrás, outros cambiantes, uma significação nova, completamente diferente.

Georges Simenon é um desses autores que, sob a capa do que dele se vulgarizou, no limiar da iconografia, mantém secreto o que tem de melhor, guarda, quase oculto, o que mais vale a pena.

domingo, 9 de agosto de 2009

LAURENCE STERNE E ROBERT MUSIL: A RECOMPENSA DA LEITURA «DIFÍCIL»

Na minha qualidade de leitor, faço uma demarcação entre livros «fáceis», que se lêem de uma assentada (e, contudo, não são necessariamente maus) e livros «difíceis», nos quais demoramos a entrar, quanto mais a conseguir habitar.

Não excluo à partida um livro por uma ou por outra destas razões. Há momentos em que não tolero os que exigem demasiado de mim: socorro-me então dos outros; não os enjeito; divertem-me, refrescam-me, estimulam-me.

Mas é verdade - e digo-o com toda a convicção - que nenhum livro fácil poderá alguma vez oferecer a intensidade e a variedade das experiências de um romance que tenhamos de rasgar e desvendar; que precisemos de muito tempo para com ele ficarmos em sintonia; em que não possamos, por exemplo, saltar descrições porque, aí, as descrições são parte da fruição; em que não seja possível conformarmo-nos sem sobressalto com a linguagem, ou, pelo contrário, fazer de conta que esta não está lá, porque a própria linguagem é, neles, uma música sinalizada por promessas que se vão cumprindo em espanto e prazer.

Deste ponto de vista, encaro A la Recherche du Temps Perdu, de Marcel Proust (que é um texto longo e dificílimo), como o maior e o mais belo de todos os romances que conheço, sejam eles fáceis ou difíceis. Alguma vez terei coragem para partilhar, com os leitores deste blogue, a euforia de mergulhar na memória de Marcel, narrador e personagem de Marcel Proust.

Hoje, venho falar de duas obras - e de dois autores - que julgo «difíceis»: não os recomendaria a quem não goste muito de ler, nem as recomendaria a quem aprecie ler unicamente por uma «certa» razão e não por todas as razões que fazem da leitura em si mesma um enorme e renovado encanto.

Um dos livros é Vida e Opiniões de Tristram Shandy, da autoria de Laurence Sterne.

O outro é O Homem sem Qualidades, de Robert Musil.















Em Sterne, começa por me maravilhar que um homem do século XVIII possuísse já, tão antecipadamente, tão avant-la-lettre, essa capacidade de inovar na escrita, de reinventar a linguagem e a criação em moldes que, aos menos advertidos, pode parecer que só viriam a ser ousados no século XX. Impressionam-me a sua ausência de respeito pelos paradigmas canónicos da literatura da época, que revira do avesso - logo desde a dedicatória, a bem dizer -, a sua criação de um anti-herói, numa saga em que tudo é frustração e ridículo e, sobretudo, o seu divertido e singularíssimo exercício da digressão na narrativa, com consequências tão extraordinárias para o todo da obra em causa, a que, aliás, tornaremos.

Por outro lado, em Musil, tudo é precioso: a escrita rigorosa e cruel, em que Gonçalo M. Tavares tanto - obviamente - bebeu, de uma precisão matemática mas, simultaneamente, tocado de uma imaginativa vivacidade no seu tom quase aforístico; o vago sabor a pecado que emana daquelas páginas percorridas por um erotismo e uma sensualidade dramáticos (a que, já agora, também me não parece que Gonçalo M. Tavares tenha permanecido indiferente); mas, principalmente, as personagens e, entre elas, o próprio homem sem qualidades, esse Ulrich com o qual tantas vezes me identifiquei - e identifico - no seu grau zero de qualidades, que significa, ao mesmo tempo, uma falta de traços de personalidade demasiado fortes, vincados, vinculativos, que o caracterizem, uma abertura e uma disponibilidade para usar de todos os traços, para assumir os mais incompatíveis aspectos, para ir escolhendo ser, ao sabor da vida e do desejo, livre e gratuitamente, alto e baixo, bom e mau e assim-assim, cientista e anti-científico, indiferente e ciumento, revolucionário e conservador, tímido, exibicionista, numa perpétua aventura em que «nada do que é humano» lhe seja vedado.

Se hoje aqui junto estes dois livros «difíceis» é porque, em ambos, a dificuldade resulta de uma ideia genial dos seus autores. E esse par de ideias torna-se, em cada um dos casos, o centro do texto - ou, se preferirmos ser mais exactos, a impossibilidade de um qualquer centro a que nos atenhamos. Seja, em Sterne, a magnífica digressão onde, a propósito do que quer que nos conte, se sente compelido a contar qualquer outra coisa, ou onde, a propósito de um episódio, terá de nos apresentar os seus antecedentes, e os antecedentes dos antecedentes, e assim ad infinitum, de tal modo que em vez de progredir, a narrativa vai regredindo sempre, impedida de avançar e onde, portanto, nunca chegamos ao termo...(a simples descrição do seu nascimento vai sendo sucessivamente suspensa, à medida que novos episódios anteriores se vão multiplicando e ligando entre si; e lembro-me que a lenta descida de uma escadaria, feita pelo seu pai e pelo seu tio, enquanto conversam, leva talvez um capítulo inteiro a ser narrada ); seja, no romance de Musil, a concepção da fantástica «Acção Paralela»: organização com uma função tão simples como a de planear uma certa comemoração patriótica - a qual reúne a nata das Artes e da Religião, da Ciência e das Finanças; mas, ao longo do tempo, de reunião em reunião, na divagação e na conversa, disparando novas e infinitas possibilidades, nada consegue decidir ou escolher, num exemplo extraordinário de uma «dialéctica do retardamento» e do adiamento, que nunca poderá realizar nem passar à prática coisa alguma! Uma organização de acção, que nunca age, que nunca pratica, que não dá passos, eis o que está no fundo e no fundamento de todo um gigantesco romance...

São obras que, frequentemente, cansam? Sem dúvida. E têm de ser intercaladas? É claro. Que podemos passar semanas sem provar? Eu sei. Mas o bem que nos sabem, o riso que nos sacode no seu convívio, a delícia com que as mastigamos e remoemos demoradamente, o interesse e a reflexão que, ao abri-las, sentimos que aquelas páginas estimulam, elevando-nos a um patamar superior do espírito, são razões que compensam o trabalho que requerem.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

DONNA TARTT: A HISTÓRIA SECRETA


Podem perguntar: Mas este possidónio só aprecia autores vergados ao peso de um prestígio clássico? Só lê dos Dostoievski para cima? Não relaxa, não alivia? Não conhece o inconfessável prazer de um mau romance, não se diverte com um policial? Não faz férias do snobismo?

Curiosamente, o livro a propósito do qual, e por antítese, escrevi esta introdução é ainda, de algum modo, um clássico. Um clássico muito mais recente mas, apesar de tudo, não de última hora: publicado em 1992, A História Secreta conheceu rapidamente o destino dos livros bem vendidos. Mais: numa pesquisa que fiz brevemente pela internet, em busca, sobretudo, de uma ou duas fotografias com que pudesse ilustrar o meu texto, tropecei em fanáticos deste romance que, aprisionando-o, como abutres, insistem em lhe dissecar «as influências evidentes» de Dostoievski ou Tolstoi.

Mas - e principia neste pormenor a diferença em relação às outras obras sobre que tenho aqui escrito - A História Secreta é um romance policial. Aproveito para deixar registado que, a meu ver e ao contrário da opinião generalizada , os «policiais» e a «ficção científica» não constituem uma leitura menor. Pelo contrário: encontram-se, entre os seus autores, alguns dos escritores mais inteligentes e cultos que poderemos conhecer... (Esta autora é, aliás, um bom exemplo!)

O romance de que vos falo, da autoria da notável Donna Tartt (a quem o meu primo e eu gostávamos de chamar senhora «dona Tarte»; que, durante muitos e ingénuos anos, julguei que tinha de ser uma eterna velhinha, dada aos gatos, ao crime e ao mistério, para descobrir agora que se trata de uma mulher mais jovem do que eu próprio e, como podem confirmar pelas respectivas fotografias, bem mais bonita do que eu), esse romance, dizia, tem desde logo de extraordinário o facto de se desenvolver ao longo de 699 páginas - na tradução portuguesa, pelo menos -, principiando por expor quem morreu, como morreu e quem o assassinou. E interrogamo-nos: Se começamos pela revelação do desfecho, ou do que deveria ser o desfecho, que raio haverá ainda por descobrir nas restantes 698 páginas?

Ora vejam esse, dir-se-ia, precipitado abrir do pano:

«A neve na montanha estava a derreter e Bunny já tinha morrido há várias semanas quando tomámos consciência da gravidade da nossa situação. Já estava morto há vários dias quando foi encontrado, estão a ver. [...] Custa a crer que um plano tão modesto como o de Henry tenha sido tão bem sucedido apesar destes acontecimentos imprevistos. Não era nossa intenção esconder o corpo de maneira a não ser descoberto. A verdade é que nem o tínhamos tentado esconder, limitáramo-nos a abandoná-lo na esperança de que algum transeunte desafortunado viesse a tropeçar nele antes que alguém desse pela sua falta

Porém, agradava-vos que eu prolongasse a citação por mais umas quantas linhas, não é verdade? Ora aí está o segredo de Donna Tartt: mais do que nos questionarmos sobre o que falha, ou sobre o espanto de estarmos em face de um excesso de informação, damos por nós a ler ávida e desenfreadamente, presos como a uma droga implacável, voltando nervosamente páginas atrás de páginas.

Vou, aliás, fazer-vos (e a mim) o gosto ao dedo, e transcrever um episódio que considero magnífico no seu suspense, que é o do momento em que Bunny (que já sabemos que virá a ser a vítima) encontra, na floresta, os amigos que o iriam assassinar:

«Relanceei os olhos para cima e vi Charles. Estava mesmo à minha frente com uns olhos esgazeados e uma expressão medonha. Ia eu perguntar o que é que se passava com ele quando, num assomo agoniado de incredulidade e espanto, ouvi a voz de Bunny mesmo atrás de mim.
«Ora vejam só», disse ele. «Mas que diabo vem a ser isto? Alguma reunião dos amigos da Natureza?»
«Eu virei-me. Era mesmo o Bunny, em todo o seu metro e noventa, erguendo-se atrás de mim num impermeável amarelo tremendo que lhe vinha quase até aos pés.
«Seguiu-se um silêncio insuportável».

A História Secreta é um romance que se entranha nos nervos e não sei por que não terá sido transposto para o cinema, apesar do seu desenrolar neurótico; apesar das cenas povoadas de sinais trágicos; de avisos surdos e profecias tenebrosas, apesar do clima que se vai adensando num singularíssimo cruzamento entre as vozes secretas de Sófocles, Nietzsche e Hitchcock.

A História Secreta reúne muitos dos ingredientes que, do meu ponto de vista, fazem de um texto romanesco, simultaneamente, uma obra de arte no sentido mais nobre da palavra e um romance interessante, imperdível e magnetizante para o leitor: uma escrita cuidada e bela, mas nunca obscura, o ambiente académico, que me fascina, a presença de um professor, em grande medida marginal ao sistema, que cativa um grupo de alunos que se consideram discípulos eleitos, o companheirismo forte e aparentemente indestrutível que os une, o gosto deste grupo restrito e esotérico por um saber secreto, que remete para as antigas seitas órficas, o respirar permanente e quase audível, portanto, do amor pelo helenismo grego, a terrível perfídia da chantagem e personagens densas e contraditórias - inesquecíveis...


É o caso de Julian Morrow, o professor. Ou de Henry, de personalidade forte e apaixonada mas austera. Mas é, também, o de Bunny, «em todo o seu metro e noventa», carente e ansioso, trapaceiro e chantagista, folgazão e cansativo, exasperante, ridículo e ameaçador. Considero absolutamente impagável a cena em que Bunny convida para almoçar Richard Papen, o narrador, numa altura em que este se sente particularmente fragilizado porque acabou de chegar à universidade e é ainda, aos olhos de todos, um intruso sem interesse, e, após a lauta refeição, descobre, entre frenéticos apalpanços do bolso que, «oh diabo, meu velho!», parece que não trouxera a carteira.
Apetecia-me citar.
Se calhar, aos meus leitores apetecia que eu citasse.
Nááá! Deixo-vos incólume o prazer de encontrar e gozar o episódio!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

M.S. LOURENÇO: OS DEGRAUS DO PARNASO


Abro o jornal do dia e, numa discretíssima página onze - como tão discreta foi a sua vida pública ou o público reconhecimento do seu trabalho filosófico ou poético -, leio e tomo consciência de que morreu M. S. Lourenço, que teria sido, segundo o título feliz, «o filósofo e poeta "notável" que Portugal não chegou a conhecer».

M. S. Lourenço foi meu bizarro professor, na Universidade de Lisboa, da cadeira de Lógica, uma disciplina com a qual nunca me dei muito bem academicamente. «Nem na vida», costuma acrescentar um amigo que não valoriza especialmente a lógica dos actos ou decisões que tomo.

Enquanto professor de filosofia, M. S. Lourenço tinha dificuldade em criar empatia com aquela numerosa assembleia de alunos reunidos num anfiteatro: usava um tom inaudível, colocava-se muitas vezes de costas para nós, murmurando mais do que falando, escrevendo continuamente, no quadro, já me não lembro que vertiginosas demonstrações segundo as leis de Leibniz. Mais do que a lógica que vinha explicar-nos, fixava-lhe a indumentária entre o discreto e o exuberante, se é que isto faz algum sentido: fato negro, de corte simples, mas sobre camisas de punhos e golas com folhos, por exemplo, que o próprio Rei Sol não desdenharia.

Descobri-o com gosto e interesse mais tarde, muito mais tarde. O culpado da redescoberta foi um objecto único, incomparável, quase secreto, resguardado da profanação de mãos ávidas, esperando por uns quantos eleitos que o respeitassem devidamente. Ou seja, aquilo a que, com propriedade, poderíamos chamar um «objecto de culto». Esse objecto de culto é um livro. O seu nome é Os Degraus do Parnaso.

Reunindo, em 1991, a sua colaboração para o Colóquio/letras e, principalmente, para o jornal Independente, este livro, que trato como um invulgar objecto de Arte, síntese perfeita de erudição e elegância de estilo, misto de ensaio, crítica e crónica, tem o dom de (e)levar o leitor numa viagem ou numa sucessão de viagens em que o saber e a reflexão não pesam, em que nunca são excessivas nem inoportunas as visitas aos mais diversos autores e obras da humanidade, da filosofia, da poesia ou do romance à pintura e à música; convivendo com Kant, Eça, Baudelaire, Verlaine, Cesário, Proust, Rilke, Nietzsche, Pessanha, Pound, Pessoa, Coleridge, Wilde, Wittgenstein, Mann, Duras, Hals, Moreau, Beardsley, Klimt, Beethoven, Wagner, Berlioz, Paganini, Brahms, Schönberg, Stockhausen, entre muitos; ou visitando as personagens daqueles que, entre estes, eram escritores e as criaram, personagens a que M. S. Lourenço se refere como se fossem de carne e osso (consciente de que de algum modo o são): Salomé e Flávia, Harold, Fradique, a viúva de Pacheco, Swann, a duquesa de Guermantes, Bergotte, Adrian Leverkühn, a sra. Von Tümmler; ou, por fim, evocando pessoas efectivamente de carne e osso que se lhe foram cruzando na vida, intrigantes e nem sempre congruentes: as prostitutas do Cacém (porque as via de caminho, não porque as frequentasse...), o escultor Paulo Espada, o major Capelo, o capitão Jorge Pais...

Foi-me grato descobrir este insuspeitado (na altura, para mim) interesse pela estética por parte de um professor de lógica, aparentemente fechado e desprovido de emoções. O seu exaustivo conhecimento da música leva a um convite, a ela ligado e que perpassa por todas as páginas: um retorno à grandeza e ao poder do ouvido e da escuta como formas privilegiadas de compreensão do universo. Porque o ouvido teria vindo a ser praticamente recalcado por esta civilização, que lhe preferiu desde cedo o «olhar»: é uma teoria muito forte, que reconduz aos pitagóricos, os quais sabiam muito bem que a música é, mais do que diversão, um caminho para a verdade: a «escuta» pode ser tão ou mais importante do que o «ver» no desvendar do segredo do mundo.

domingo, 2 de agosto de 2009

PIERRE BAYARD: COMO FALAR DOS LIVROS QUE NÃO LEMOS?



Tenho um amigo de há muitos anos, rapaz culto e inteligentíssimo, o qual, porém, não é e nunca foi dado a extensas leituras.

Acho, por isso mesmo, particularmente curiosa a convicção com que ele fala sempre, em grupo, acerca de livros; insisto: de livros que nunca leu!

Não necessariamente entre nós, claro, velhos amigos que o conhecem bem e, a meio de um argumento seu sobre certa obra em discussão, acabamos sempre por lhe perguntar: «Ouve, mas por acaso já leste isto?»; interessam-me e divertem-me, sobretudo, os relatos que o próprio faz acerca do respeito com que a sua crítica é acolhida; a facilidade com que, entre colegas, parece mudar a opinião que se generalizara a propósito de um qualquer romance; a forma como até já o procuram para se aconselharem sobre leituras...

Este meu amigo poderia tirar partido (se, precisamente, lesse alguma coisa) de um livro mais interessante do que o título levaria a crer: Como Falar dos Livros que Não Lemos.

Tudo indica que o livro em causa tenha sido interpretado literalmente. Noto, por exemplo, que na tradução que comprei, cheio de curiosidade [e, confesso, com alguma vergonha por ter de pagar e pedir que me embrulhassem um livro com um nome tão suspeito], um pequeno autocolante vermelho informa: Nº 1 Top Vendas França. Não tenho dúvidas de que entre esses compradores franceses que o tornaram num best-seller, estariam muitos pretensiosos prontos a aprender truques para falar do que não conhecem. É também o que me faz pensar a crítica veementemente indignada de um brasileiro chamado Evandro Venâncio, que se refere ao autor como imbecil.

Ora trata-se, pelo contrário, de um dos mais inteligentes livros sobre livros, que pude ler nos últimos anos. Pierre Bayard, psicanalista e professor de literatura na faculdade, dificilmente poderia, a não ser num exercício irónico, recusar o interesse e a importância - e o prazer - do acto de ler. Por outro lado, bastaria que se folheassem as primeiras páginas para que, entre referências e citações, se percebesse não só que Pierre Bayard é um leitor compulsivo, atento e conhecedor, como, mais do que isso, esconde, sob o título enganador, uma das obras mais ricas e bem-sucedidas no ingrato trabalho de convidar à leitura. O modo como fala de Musil, Valéry, Oscar Wilde ou Umberto Eco, por exemplo, ou o modo apaixonado e apaixonante como nos expõe os traços principais de, entre outros, um livro chamado Ferdinaud Céline, de Pierre Siniac [livro e autor que me eram, até então, perfeitamente desconhecidos, mas não relaxarei enquanto não estiverem absorvidos no meu horizonte] mostram bem que se trata de uma outra coisa, que não auxiliar idiotas a parecer mais inteligentes do que são.

Por fim, a teoria de Bayard pode ser entendida, se lhe quisermos detectar um alcance maior do que o da mera ironia, como uma crítica pertinente a uma certa imagem do «leitor por obrigação» em que muitos intelectuais se revêm; uma crítica aos sistemas de ensino que, do secundário ao universitário, fazem da «leitura» o contrário de um prazer - um metódico e obstinado coleccionar de dados, nomes, histórias, o burocrático montar de uma máquina de obras a «consumir»: contra essa ideologia inerente ao leitor académico, Bayard lembra - e com razão - que, do conjunto do que consideramos as «nossas leituras», fazem parte os LP (livros somente percorridos), os LE (livros esquecidos), os livros de que ouvimos falar, ou aqueles sobre os quais averiguámos já tanto que é como se os tivéssemos lido. E ensina que, ao invés de um modelo único da leitura como sacrifício e obrigação, todos estes recursos constroem, na sua liberdade um pouco delirante, outras tantas formas do prazer, mais que de simplesmente «ler», nos interessarmos, e aproximarmos, e cultivarmos, e gozarmos os livros.

Pessoalmente, para que essa ideia faça todo o sentido, basta-me pensar que é um pouco num cruzamento de todas estas possibilidades, precisamente, que considero, digamos a Bíblia como sendo um dos livros que li, ou que desfrutei: mas a Bíblia que conheço, porventura com profundidade, é a das parábolas que escutei na catequese ao Padre Baptista; é a das infinitas histórias e lições que a minha mãe constantemente reproduzia; é a Bíblia épica que reencontro em filmes; a Bíblia que, por vezes, percorro, detendo-me numa passagem ou outra, mas nunca terei lido nem creio que venha a ler, num acto contínuo e devoto, da primeira à última linha...

Nada melhor do que deixar-vos com os títulos desconcertantes dos dois primeiros capítulos do livro de Bayard:

I: Os Livros que Não se Conhecem: Onde o Leitor Verá que É Menos Importante Ler Este ou Aquele Livro (O que É Uma Perda de Tempo), do que Ter Sobre a Totalidade dos Livros o que Uma Personagem de Musil Chama Uma «Visão de Conjunto».

II: Os Livros que Percorremos: Onde Vemos, com Valéry, que Basta Dar Uma Vista de Olhos a Um Livro para lhe Consagrar um Artigo Inteiro e que Até É Inconveniente Proceder de Outro Modo no que Respeita a Certos Livros.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

EMILY BRONTË: O MONTE DOS VENTOS UIVANTES



Diacho! Procurei em vão nas estantes da sala.
Confiro, mais tarde, entre os livros que tenho vindo a arrumar no sótão. Nada! Mas lembro-me perfeitamente de que possuía um exemplar primorosamente encadernado, que comprara há muitos anos, ao preço da chuva, na feira do livro.
Tê-lo-ei emprestado? Será mais um desses casos em que, ansioso por partilhar uma certa obra de um certo autor com um amigo (e, agora, já me tem acontecido com os jovens filhos de amigos), a entrego generosamente, cheirando-lhe uma última vez as páginas, para que o levem, para que o desfrutem, e que, depois, nunca mais me será devolvida? Mas, em geral, sei a quem emprestei cada um dos meus livros não devolvidos. Posso não ter coragem para os pedir de volta, mas sei a quem passaram a pertencer. Deste, nada sei. Perdeu-se. Desapareceu.

Por que quero tão bem a este romance? Principiemos pelas razões mais periféricas à obra em si, as quais, no entanto, constituem parte do meu amor por ela: não me é indiferente a aura de génio romântico que envolve estas irmãs que, tendo-se dedicado à escrita, se tornarão, todas elas, autoras maiores - Charlotte Brontë, a mais velha, que associamos imediatamente a Jane Eyre ou a O Professor; ou Anne Brontë, a mais nova (e menos conhecida), que publicou Agnes Grey e O Inquilino de Wildfell Hall. Resta a irmã do meio: Emily Brontë.

Emily, a minha Irmã Brontë predilecta, toca-me ainda pelo pormenor de ter escrito um único livro; e, tendo escrito um livro único - ou seja, sem ensaio e erro, sem tentativa e preparação, sem um percurso em que se viesse aperfeiçoando -, logo este haveria de ser tão grandioso e perfeito como Wuthering Heights: O Monte dos Ventos Uivantes.

No romance propriamente dito, começa por me parecer impressionante a maneira como a autora veste a pele de um narrador do sexo masculino (mesmo, bem sei, não sendo esse recurso propriamente uma novidade entre as escritoras do séc. XIX), que não tem parte directa na história, da qual é, de alguma forma, uma testemunha tardia, o observador interessado mas distante, que descreve ou reflecte sobre tudo aquilo a que assiste (ou que reconstituiu a partir do que lhe narraram de um passado em que não esteve) sem interferir demasiado, sem se substituir ao leitor, seu cúmplice desde as primeiras linhas. É o narrador indicado para nos expor e contar o que une e separa Catarina Earnshaw e Heathcliff: símbolos, na sua relação obsessiva e inconsumada, da paixão violenta e destrutiva; e personificação, ele, de um amor que, espezinhado e amesquinhado, se tornará no mais profundo ódio; de um amor sinistro, revoltado, destrutivo e auto-destrutivo, que tudo sacrifica à mais abissal sede de vingança.

Heathcliff, filho adoptado, escuro como um cigano, de cabelo revolto e negro, demoníaco e terrível no seu ódio que tudo devora e destrói em torno de si, é uma das personagens mais densas e torturadas de toda a literatura: percebemos que nunca poderá fazer feliz quem quer que dele se aproxime, ou dele dependa. Sabemos (é-nos dado a ver, directa ou indirectamente), através de que actos se cumpre como um homem destrutivo; apiedamo-nos, sem dúvida, de todos os seres frágeis que caem na sua alçada maligna, no seu plano para fazer pagar, que atinge, indiferentemente, culpados e inocentes; mas, por outro lado, também não ignoramos de que infelicidade radical é feito o mal que o consome, de que tristeza imensa é feita a sua incapacidade para se relacionar, a sua misantropia, que dor o move na perseguição dos demais.

Heathcliff merece, talvez, o inferno. Mas Heathcliff vive o inferno. Porque, ao contrário da afirmação de Sartre, o inferno não são os outros. O inferno é, em última análise, ter perdido os outros, não poder aproximar-se deles sem os queimar - viver em si: ser, perpetuamente, a dor de ser quem se é. E, mais do que não ser perdoado, o inferno é não ser capaz de perdoar.

Tenho de reencontrar o Monte dos Ventos Uivantes.